7. ITALESETTELSE AV SOSIAL LÆRING
7.4 V ARMT OG KALDT : ENERGIARENAENS TERMODYNAMIKK
7.4.3 Forskjellene mellom vindteknologi og gasskraftverk med CO 2 -deponering med
102 Ver tabela 24, à página 88.
Neste capítulo, buscamos descrever e analisar o perfil socioeconômico dos noviços, suas expectativas e motivações diante do ingresso na polícia militar do Distrito Federal, além de suas percepções acerca do reconhecimento social do trabalho policial militar. Dentre os principais pontos encontrados, destacamos os seguintes. Em primeiro lugar, a análise dos dados sobre os noviços reitera estudos que indicam a prevalência de homens nos quadros da polícia militar. Dentre os novos policiais, a presença feminina é de 10,6%, sendo que na PMDF representam 6,9%. Se, por um lado, os homens são mais numerosos, por outro lado, também é marcante sua representação simbólica, em que o ethos masculino na Corporação promove desde a reserva de vagas nos concursos à criação de nichos específicos para mulheres na atividade policial, garantido para si o acesso às funções mais valorizadas. Nesse sentido, a designação de 10% de vagas para mulheres no processo seletivo da PMDF representou um incentivo à inserção feminina há algumas décadas, entretanto tem servido, pelo contrário, a limitar seu ingresso nos concursos atuais. De forma semelhante, o deslocamento das mulheres para funções de atendimento ao público e de cunho administrativo representa a segregação tanto espacial quanto simbólica, em que determinadas funções lhes são interditadas, contexto que acaba por fundar realidades distintas de interação que informam a inserção de homens e mulheres na cultura policial militar. Em outras palavras, a divisão do trabalho na polícia militar obedece, desde o recrutamento, a critérios de orientação relacionados ao gênero.
Em segundo lugar, a polícia militar representa um contexto de socialização secundária para os noviços. Além de não serem casados e possuírem perfil etário concentrado na faixa etária entre 25 e 30 anos, a maioria dos noviços já exerceu outra atividade profissional, com pelo menos 4 anos de experiência. Em grande medida, as tais características são uma novidade para a polícia militar, cujos noviços eram no mais das vezes recém-egressos da adolescência e inexperientes. O condicionamento anterior com as regras, as rotinas e os processos que marcam o mundo do trabalho pode representar tanto severos desafios organizacionais quanto importantes horizontes de aperfeiçoamento para a PMDF. Ainda mais, o processo de construção identitária dos noviços certamente será influenciado pela perspectiva de comparação com suas outras experiências profissionais.
Em terceiro lugar, o perfil de renda dos noviços da PMDF diverge do estigma da baixa remuneração atribuída ao trabalho policial. Em detalhe, a maioria dos noviços possui renda familiar superior a dez salários mínimos (60,2%), mora em residências quitadas (61,6%) e, por vezes, na região central de Brasília (39,3%). Dessa forma, a associação da atividade policial como trabalho sujo, em referência a ocupações marginalizadas pela remuneração e por precárias condições de vida, encontra resistência diante dos resultados que inserem a polícia no horizonte
de opções de integrantes de classes abastadas da capital federal. Em outras palavras, o perfil dos noviços evidencia um distanciamento da imagem que historicamente alinhava a polícia ao subemprego, ou seja, a atividades tipicamente marginalizadas a serem ocupadas por falta de opção.
Em quarto lugar, a construção identitária dos noviços atribui especial relevância à escolarização como critério de valorização e de reconhecimento social. A mácula que alinhava o trabalho policial a ocupações de baixa complexidade e, consequentemente, cujos integrantes são pouco escolarizados, ajuda a compor o aspecto sujo de sua estigmatização. Nesse sentido, a exigência de nível superior para o ingresso é especialmente relevante, sobretudo no tocante à autovalorização dos noviços. Mais do que um fator de identificação, a escolarização constitui, nesse contexto, um critério de diferenciação entre os policiais, em que a clivagem entre eles e nós está fundada no diploma. Com efeito, os noviços se consideram imunes às mazelas da polícia militar, simbolicamente atribuídas aos seus antecessores, segundo a mesma lógica que conjuga a escolarização e a profissionalização num mesmo argumento. Equivale a dizer, por exemplo, que os erros presentes numa abordagem truculenta ou em imperícias administrativas são consequências da baixa escolarização, marca dos antigos, categoria que se opõe aos noviços.
Nesse sentido, a análise do período reivindicatório revela que a construção identitária dos noviços foi permeada pela mobilização que antecedeu a autorização para o concurso e o consequente espírito de corpo que se desenvolveu. Mais do que isso, os noviços passaram a compartilhar categorias próprias dos policiais militares, a partir da socialização com eles nas reivindicações. Além disso, destacamos o recurso à manifestação como forma de expressão, fio condutor que orienta a distinção entre os ponderadores e os enquadrados na cultura policial e a aproximação com os oficiais, que propiciou um menor estranhamento com as relações hierárquicas, como relevantes.
Em quinto lugar, os valores militares causaram divergência na análise das opiniões dos noviços. Por um lado, os entrevistados passaram a defender mais fortemente a hierarquia e a disciplina depois do ingresso na polícia militar, justamente os valores centrais à cultura militar. De outra forma, a socialização na Corporação implicou na valorização da hierarquia e da disciplina nas organizações. Por outro lado, os noviços associam o militarismo ao autoritarismo, associando-o ao aspecto sujo de seu ambiente laboral. Em outras palavras, os noviços ratificaram e ampliaram a imagem pejorativa que nutriam a respeito do militarismo, que, para eles, está diretamente relacionada ao autoritarismo, ambas incluídas em um campo semântico de carga negativa. Nesse sentido, os noviços demonstraram apoio à desmilitarização das polícias militares. Dessa forma, os noviços diferenciam a hierarquia e a disciplina enquanto valores, e as consideram
importantes, entretanto não se identificam com o militarismo como forma de organização, na medida em que o associam ao autoritarismo.
Em sexto lugar, a principal motivação dos noviços para o ingresso na polícia militar é a estabilidade financeira, sendo que foram evidenciados dois padrões distintos. O primeiro indica que a busca pela estabilidade financeira é mais acentuada dentre mulheres, dentre os entrevistados de cor negra, dentre aqueles que já trabalharam e na maioria das faixas de renda. Já o segundo responde àqueles para os quais a vocação para a atividade policial foi mais acentuada, caso dos homens, de cor branca, que nunca trabalharam e também aqueles de maior renda familiar. Dessa forma, os dados demonstraram a busca pela estabilidade financeira como principal motivação para o ingresso na polícia militar, sendo que a vocação foi representativa apenas em casos específicos.
Em sétimo lugar, as expectativas dos noviços quanto aos policiais militares do Distrito Federal antecipam características com as quais demonstraram identificação, apesar de se eximirem no compartilhamento dos aspectos sujos do trabalho policial. Dessa forma, os noviços não consideram os policiais militares violentos. Em contraste, atribuem os casos de violência à índole dos policiais antes mesmo de ingressarem na carreira, ou seja, um movimento que desloca da ação coletiva para desvios psicológicos a explicação para os comportamentos truculentos. Mais do que isso, ao analisarmos a opinião dos noviços quanto ao nível de escolaridade dos policiais militares, reputado como elevado, evidencia-se o processo de distinção interna entre o antigo e o noviço, em que este último se autopercebe como vetor de mudanças, uma espécie de vanguarda assentada no diploma. Em contrapartida, ao antigo são atribuídas as marcas do estigma do policial ignorante, os sujeitos do trabalho sujo aos olhos dos noviços.
Ainda nesse sentido, outra característica avaliada foi a imagem do policial militar como preconceituoso. Os noviços não os consideram preconceituosos, contudo concordam com a suposição de que o trabalho policial é atender aos mais necessitados. A divergência surge quando ressaltamos que tais atendimentos por vezes redundam na criminalização desses estratos da sociedade, o que ajuda a iluminar o caminho discriminatório que pode ser percorrido. De outra forma, os noviços ilustram seu lugar de fala ao excluir o preconceito do trabalho policial, embora concordem com o direcionamento da atividade policial de forma seletiva, por assim dizer discriminatória nos moldes atuais de justiça criminal.
Em oitavo lugar, a análise dos aspectos relacionados ao reconhecimento social da polícia militar indica que os noviços se autorreconhecem positivamente em relação ao trabalho policial, ou seja, se autopercebem satisfeitos com a PMDF. Em especial, os noviços apresentaram forte adesão quanto ao sentimento de orgulho e utilidade que percebem no trabalho policial,
notadamente quanto ao uso da farda. Entretanto, foi evidenciado um movimento de descontentamento em relação à remuneração, aspecto assinalado também nos resultados dos itens que avaliaram a identificação com a instituição. Nesse caso, destaca-se que os noviços estão familiarizados com as expressões usadas e com a história da organização; conhecem as datas importantes e possuem muitos colegas de farda em seu círculo de amizades; possuem objetivos que coincidem com os da polícia, em suma, sentem-se identificados. Entretanto, a maioria dos noviços inicia a carreira com a pretensão de mudar de profissão, fenômeno mais frequente dentre as mulheres, os entrevistados mais jovens e de cor branca. Especialmente importante, é a relação entre a pretensão de sair e a motivação para o ingresso: a busca pela estabilidade financeira responde pela principal motivação para o ingresso daqueles que pretendem mudar de profissão.
Assim, a polícia militar representa um período de transição para a maioria dos noviços, em que a temporalidade varia de acordo com a característica analisada. Entretanto, diante da forte adesão aos sentimentos que expressam pertencimento e familiaridade com a polícia, a pretensão de mudar de profissão não parece estar relacionada com a identificação ou com o autorreconhecimento em relação à Corporação ou ao trabalho em si. Pelo contrário, a firmeza da busca por melhores condições materiais de vida não foi contestada durante toda a pesquisa.
Ademais, a análise do reconhecimento social do trabalho policial a partir da ótica dos noviços apresentou duas principais conclusões. Por um lado, os noviços reiteram percepções anteriores segundo as quais se julgam diferentes dos demais policiais militares. Os noviços não consideram o policial militar do Distrito Federal reconhecido socialmente, ao passo que eles, por sua vez, se sentem mais reconhecidos pelas pessoas. Simbolicamente, tais resultados reiteram a cisão entre nós e eles e que parece permear o percurso de construção identitárias desses sujeitos.
Por fim, evidenciou-se um movimento segundo o qual os noviços se sentiram frustrados em todos os itens analisados acerca do reconhecimento social, numa trajetória em que lhes é negada a estima social e pessoal, além da importância social do trabalho e da discriminação que percebem. Nas relações internas, os noviços sentiram-se desrespeitados em relação à subestimação e ao respeito com que são tratados, tendo em ambos os casos indicado frustração e insatisfação com tais circunstâncias.
CAPÍTULO 4 - IDENTIFICAÇÃO E DESRESPEITO NO TRABALHO POLICIAL: