6. PENGER ER IKKE ALT
6.5 E N FLERSPRÅKLIG ENERGIARENA
Inicialmente, a análise da opinião dos noviços acerca do reconhecimento social dos policiais militares do Distrito Federal compreende suas relações sob uma perspectiva intrasubjetiva. Em outras palavras, por autorreconhecimento tratamos das relações do sujeito consigo mesmo (o self), as quais ensinam o sujeito a se autorreferir positivamente em relação a suas capacidades e propriedades. Ou seja, o autorreconhecimento interfere sobre a identidade na medida em que se relaciona com o outro generalizado em relação àquilo que o caracteriza e distingue. No caso dos noviços, trabalharemos com os sentimentos em relação ao trabalho policial relacionados ao orgulho94, à utilidade95 e à satisfação/realização pessoal96. Estabelecemos,
92 Fala retirada de comentário no blog <http://www.blog-br.com/pmdfnivelsuperior/page1/&thisy=&thism= &thisd=>. Acesso em: 21 jul 2011.
93 Tais estórias ou anedotas funcionam de maneira representativa ou mesmo informativa, como exemplos orientadores, identificando critérios específicos de competência. Em busca do ordenamento que a etnometodologia destacou como tópico fundamental da sociologia, tais estórias são aprendizados de cunho positivo ou negativo, mas que “(police stories) function as a search-light rather than a spot-light, ensuring that they (police officers) experience reality as a fluid not a solid” (SHEARING; ERICSON 2005).
94 As assertivas relativas ao sentimento de orgulho foram: sinto-me bem quando estou fardado e sinto-me orgulhoso com meu trabalho.
ainda, a comparação97 entre: o trabalho esperado, referente àquilo que os noviços esperavam do trabalho policial militar antes de ingressarem na PMDF; e o trabalho real, referente às percepções dos noviços sobre o trabalho policial militar depois do ingresso na PMDF.
Conforme os dados da Tabela abaixo sugerem, a opinião dos noviços quanto à categoria do autorreconhecimento é, em grande medida, positiva, o que implica dizer que os noviços se reconhecem positivamente em relação ao trabalho policial militar. Os dados mostram, contudo, que houve uma redução da adesão positiva em relação ao sentimento de orgulho e à satisfação/realização pessoal, o que sugere que tais expectativas98 não foram atendidas. Em outras palavras, os noviços demonstraram identificação positiva quanto ao autorreconhecimento, apesar de terem sido observadas tendências de redução da satisfação com a socialização na polícia militar.
95 Em relação ao sentimento de utilidade, os itens foram: meu trabalho é duro, porque exige muito esforço, luta e dedicação, meu trabalho exige muito da cabeça, do pensamento, o trabalho me faz sentir importante e meu trabalho me faz sentir útil.
96 Já em relação ao sentimento de satisfação/realização pessoal, os itens foram: a minha remuneração é suficiente e de acordo com o que faço, meu trabalho é um meio de realização pessoal e meu trabalho permite fazer o que gosto. 97 A categoria do trabalho prescrito, referente ao dever ser das atividades policiais, não foi contemplada nesta pesquisa em virtude de limitações metodológicas e de acesso aos dados. Entretanto, julgamo-la como importante aspecto a ser discutido em novas oportunidades de pesquisa, sobretudo sob o ponto de vista comparativo estipulado com as categorias do trabalho real e o trabalho esperado.
98 Tais assertivas se referem aos itens que, tendo o ingresso na polícia militar como referencial, apresentaram variação negativa, ou seja, demonstraram a frustração das expectativas dos noviços.
Tabela 25 – Resumo da opinião dos noviços da PMDF quanto ao autorreconhecimento
Sinto-me bem quando estou fardado 0,27 0,560 14,9% -10,0% -4,9%
Meu trabalho exige muito da cabeça, do pensamento 0,64 0,000 14,7% -7,8% -6,9% Meu trabalho é duro, porque exige muito esforço,
luta e dedicação 0,29 0,289 12,4% -7,5% -4,9%
Meu trabalho me faz sentir útil 0,34 0,248 2,5% -3,7% 1,2%
Meu trabalho é um meio de realização pessoal3 -0,51 0,191 0,0% 0,0% 0,0%
O trabalho me faz sentir importante 0,82 0,088 -0,9% -2,3% 3,2%
Meu trabalho me permite fazer o que gosto -0,26 0,634 -5,3% -1,2% 6,5%
Sinto-me orgulhoso com meu trabalho -0,15 0,754 -8,3% 9,4% -1,1%
A minha remuneração é suficiente e de acordo com
o que faço -0,84 0,089 -10,3% -2,0% 12,3%
N=350
Diferenças entre os percentuais1
Tabela 28 - Resumo da opinião dos noviços da PMDF quanto ao autorreconhecimento
Discordo
Fonte: Reconhecimento, identidade e trabalho sujo na PMDF. MATTOS, 2012.
2
A escala utilizada contava com 7 itens, a saber discordo totalmente (1), discordo muito (2), discordo levemente (3), não concordo, nem discordo (4), concordo levemente (5), concordo muito (6) e concordo totalmente (7). Nesta tabela, contudo, os dados foram agregados em três categorias.
3
As variações apresentadas neste item não alteraram os valores percentuais agregados. Média
Qui- Quadrado
(p valor )
Concordo2 Não concordo, nem discordo
1
Os percentuais apresentados representam a diferença entre os percentuais identificados diante do trabalho esperado e do trabalho real .
Em primeiro lugar, os itens relacionados ao sentimento de orgulho dos noviços em relação ao trabalho policial apresentaram resultados divergentes. No caso da assertiva sinto-me bem quando estou fardado, evidenciou-se uma tendência em valorizar o trabalho real, demonstrando superação de suas expectativas. Em detalhe, a adesão positiva passou de 66,9% para 81,8%, uma variação de 14,9%, a maior registrada na pesquisa, a qual foi acompanhada pela redução da discordância em 10%, passando a representar apenas 7,1% dos entrevistados. Percebe-se, assim, que a farda favorece à identificação com o trabalho policial, incentivando o sentimento de pertencimento com a instituição. Já no caso do item sinto-me orgulhoso com meu trabalho, observamos uma variação negativa na concordância dos noviços nos dois momentos: de 73,4% no trabalho esperado para 65,1% no trabalho real. Entretanto, a discordância também apresentou ma sutil redução, passando de 13,7% para 12,6%. Marcadamente, a indiferença atingiu 22,3% dos entrevistados, num acréscimo de 9,4%. Dessa forma, a tendência parece ser de frustração das expectativas dos noviços, em que o momento atual é tratado com descrença. Tal fenômeno diz respeito à normalização das categorias analisadas, em que a socialização na polícia militar cumpre o papel de substituir as expectativas pelas experiências concretas. No caso do orgulho motivado pelo trabalho policial, os resultados ainda demonstram satisfação com a polícia militar, sinalizando, no caso, uma especial adesão ao uso da farda.
Em segundo lugar, a análise da opinião dos noviços em relação ao sentimento de utilidade do trabalho policial indica que houve, de forma geral, superação de suas expectativas, além de ter sido observada forte adesão positiva às características avaliadas. Mais do que isso, destacamos que os dados relacionados à utilidade do trabalho policial apresentaram os índices mais elevados de concordância e as maiores diferenças entre os momentos analisados, ou seja, os dados são consistentes em demonstrar a satisfação e a superação das expectativas dos noviços quanto aos itens que avaliaram o sentimento de utilidade do trabalho policial. Em detalhe, o item meu trabalho me faz sentir útil apresentou adesão positiva de 82,3% dos noviços no trabalho real, com uma variação de 2,3% em relação ao trabalho esperado. Por outro lado, o item o trabalho me faz sentir importante foi o único referente à utilidade a apresentar variação negativa do índice de concordância, -0,9%, atingindo o percentual de 76,8% dos noviços. De toda forma, tanto o aumento da média e os elevados índices de adesão positiva evidenciam que as relações de identificação são bem avaliadas.
Nesse sentido, os itens meu trabalho é duro, porque exige muito esforço, luta e dedicação e meu trabalho exige muito da cabeça, do pensamento apresentaram variações positivas, respectivamente de 12,4% e 14,7%. Esse último, inclusive, foi o único a apresentar uma diferença estatisticamente significativa (p<0,05) na comparação com a opinião dos noviços nos dois momentos analisados. Em termos percentuais, antes do ingresso, 70,8% dos noviços concordavam com a assertiva, ao passo que no trabalho real representou 85,5% dos entrevistados. Com isso, infere-se que as exigências do trabalho policial militar mostraram-se superiores do que os noviços esperavam, num movimento de valorização do seu lugar de fala. Em especial, pode ser o caso de os dados refletirem o período de formação, o qual caracteriza o contexto dos noviços à época da pesquisa, em que as atividades são notadamente exigentes e intensas.
Dessa forma, os noviços demonstraram concordância em relação às assertivas que avaliavam a utilidade associada ao trabalho policial, tendo ocorrido superação das expectativas em todos os itens, ou seja, os noviços além de se identificarem com o trabalho, valorizam os aspectos analisados.
Por fim, os itens relacionados à satisfação/realização pessoal apresentaram, em todos os casos, variação negativa na comparação entre o trabalho esperado e o trabalho real. A assertiva meu trabalho é um meio de realização pessoal não sofreu alterações quanto à concordância, entretanto a média das respostas caiu 0,51. Preliminarmente, tal resultado pode indicar no sentido de um comedimento na percepção da realização pessoal, ainda mais quando reiteramos a elevada adesão positiva de 70,9% dos noviços. Em contrapartida, o item meu trabalho me permite fazer o que gosto demonstrou variação negativa de 0,26 na média e de 5,3% na concordância, passando para 70,6%
dos entrevistados. Ainda mais, a discordância subiu 6,5%, chegando a 19,7% dos noviços. Percebe-se, dessa feita, um movimento de insatisfação dos noviços desde a socialização na polícia militar, em que a tendência parece ser de desvalorização do seu lugar de fala, qual seja o período de formação.
Nesse sentido, a opinião dos noviços quanto à remuneração apresentou a maior variação negativa, indicando que os rendimentos proporcionaram o maior percentual de insatisfação entre os entrevistados diante do trabalho real. Em termos percentuais, 45,7% dos noviços não consideravam a remuneração suficiente antes do ingresso; ao passo que depois do ingresso essa passou a ser a opinião de 58,0% dos entrevistados. Os dados encontrados são coerentes com os resultados apresentados anteriormente neste capítulo quanto à opinião dos noviços sobre a remuneração na PMDF, em que 54,2% dos noviços se disseram insatisfeitos com seus rendimentos. Dessa forma, reformulamos a proposição anterior, acrescentando ao quadro de desvalorização do momento atual, a percepção de um especial descontentamento dos noviços com a remuneração, justamente a sua principal motivação para o ingresso.
Em suma, os noviços demonstraram que se reconhecem positivamente em relação ao trabalho policial, ou seja, se autopercebem satisfeitos com a PMDF, em que pese a adesão positiva diante das características analisadas, sobretudo quanto à utilidade da polícia militar. Entretanto, demonstraram uma tendência em desvalorizar os aspectos relacionados ao sentimento de orgulho e à satisfação/realização pessoal associados pelo trabalho policial. Cabe ressaltar que o descontentamento com a remuneração possui especial relevância, apesar de a busca por estabilidade financeira representar a principal motivação em torno do seu ingresso na polícia militar.