Conforme já mencionado, a empresa em que todos estavam trabalhando não enfrentava situações típicas de uma organização econômica em situação de falência. Como a empresa estava com suas obrigações patronais em dia, os trabalhadores receberam os seus recursos advindos das rescisões dos contratos de trabalho e não dependiam destes recursos para garantir a reprodução de sua força de trabalho; estavam com a sua situação salarial estável e, portanto, sem dívidas contraídas.
No desligamento da condição de assalariados, os trabalhadores receberam seus créditos trabalhistas advindos da rescisão de contrato, e adquiriram, de forma financiada pelo ex-patrão, todo o maquinário da retífica onde trabalhavam: automóveis, carro guincho e lhe foi repassada a
carteira de clientes, bem como a permissão do uso da marca para identificação da origem da cooperativa.
Na primeira assembléia, realizada no primeiro dia do mês de março de 1997, ficou registrado que todos os sócios fundadores se associaram com dez cotas de participação do patrimônio da cooperativa no valor de R$ 100,00, ou seja, um valor total de R$ 1.000,00 para cada associado. O dinheiro, advindo das indenizações, inicialmente integralizado por cada um dos associados, num total de R$ 21.000,00, foi utilizado nos gastos com a transferência da retífica do centro da cidade de Blumenau para o local junto à BR 470, e nos custos de assessoria contábil, advocatícia e de registro da Reticooper. Além desse recurso inicial, o valor monetário decorrente
das indenizações76 foi incorporado para o pagamento da primeira parcela do empréstimo feito,
junto ao ex-patrão, para compra do maquinário, veículos e ferramentas de trabalho da retífica Arno Gärtner. Os trabalhadores iniciaram a cooperativa com recursos advindos da rescisão de
contrato de trabalho e assumindo uma dívida pela compra do maquinário77 da retífica que
pertencia aos ex-patrões. Deste modo, os recursos financeiros que possibilitaram o pagamento pelo maquinário adquirido da Indústria e Comércio Arno Gärtner (ICAG) advieram das
indenizações78 recebidas por anos de trabalho e outra parte do resultado do trabalho coletivo,
através da Reticooper. O pagamento do maquinário foi feito num período de seis anos. Todos os meses era realizado o desembolso do valor da parcela, próximo a R$ 10.000,00, dinheiro esse conquistado com o trabalho cooperado dos associados da Reticooper. Assim, todos os cooperados contam com o mesmo percentual de participação no patrimônio da Reticooper construído com o resultado do trabalho de todos.
O sucesso da Reticooper, além da união, está na igualdade de cotas-partes de capital. O presidente tem cota igual à de um simples lavador de motor, por isso, nossa cooperativa vai muito bem (GAULKE, 2006).
76 Segundo o diretor da ICAG (KOERICH, 2006) que acompanhou todo o processo de fechamento da empresa e da
organização de Reticooper, nem todos os recursos das indenizações foram utilizados no pagamento inicial do maquinário adquirido pela cooperativa. Segundo ele, entre os empregados, havia diferenças nos valores indenizatórios; isso poderia ter causado discórdias entre os associados por possuírem integralização de cotas-partes diversas na aquisição do patrimônio, fato ocorrido na Coopermec. Assim, o valor das indenizações descontadas do total a ser pago pelo maquinário foi igual para todos, ou seja, foi descontado um valor X igual para todos os que iam se associar à cooperativa. E aquele empregado que possuía um valor de indenização maior que o valor X recebeu a sua diferença.
77 Segundo Koerick (2006), a dívida assumida era de, aproximadamente, R$ 600.000,00. O maquinário foi vendido
pelo preço de mercado. Não houve nenhum benefício pelo fato de os compradores serem ex-empregados da empresa. Entre as máquinas, havia aquelas melhores e outras já necessitando de alguns consertos, mas nenhuma fora de uso.
78 No processo de rescisão dos contratos de trabalho e a formação da Reticooper, o Sindicato dos Trabalhadores
Durante o período de pagamento da dívida pela compra do maquinário, havia poucos recursos financeiros a serem distribuídas entre os sócios, retirando, neste período, o mínimo necessário para a reprodução da força de trabalho. Diante das dificuldades financeiras, os associados lançaram mão do recurso de empréstimos. Os cinco trabalhadores mais antigos da ICAG, naquele momento, associados da Reticooper, não tinham o total do valor de suas indenizações absorvidas pelo pagamento da primeira parcela do montante do maquinário adquirido, e, portanto, permaneceram com uma poupança; esses associados, dada a crise de disponibilidade financeira da cooperativa, emprestaram dinheiro, num valor próximo de R$ 40.000,00, sem cobrança de juros, à Reticooper, conforme consta nos registros de atas de assembléias. Assim, foram solidários ao emprestarem seus recursos à cooperativa. Mas, o período de escassez financeira não foi além do primeiro ano de existência da Reticooper, conforme ata da assembléia do dia 21/05/98. Passado um ano de sua fundação, a cooperativa dava início ao pagamento do empréstimo. “Com apenas um ano de trabalho, já possuía a cooperativa condições de saldar parte de suas dívidas” (VIGUERANI, 2006).
A Reticooper possui um considerável patrimônio. Esse patrimônio é dos associados e foi adquirido com o trabalho de todos, através da cooperativa e dos valores indenizatórios aplicados no pagamento do maquinário. Nos primeiros cinco anos de existência da Reticooper, o seu faturamento dava para garantir a reprodução da força de trabalho dos associados e pagar a parcela da dívida referente à compra do maquinário, o que significou um período de grande austeridade para os associados; contudo, em nenhuma ocasião, atrasaram o pagamento da parcela da dívida pelo maquinário e também não contraíram novas dívidas para manter a retífica em condições de funcionamento. Entrementes, o valor da dívida sofreu acréscimo de juros próximo a 0,3% ao mês, o qual foi pago como uma última parcela. Assim, continuou o capitalista, naqueles primeiros cinco anos, a receber um mais-valor sobre o trabalho de seus ex-empregados.
Pagamos o valor cobrado pelo maquinário _ caminhões automóveis (saveiros) e
máquinas da retífica em 60 parcelas, durante cinco anos; depois, pagamos mais um percentual de 20% sobre o valor total de reajuste. Graças a Deus, pagamos todas as prestações sem um atraso sequer. O seu Arno não precisou vir atrás de nós para nos cobrar, pagamos tudo em dia. O dinheiro para o pagamento das prestações veio da nossa prestação de serviço pela própria Reticooper e não de indenizações. Os momentos mais difíceis foram no início, na hora de pagar as prestações. Houve meses de nós “contarmos as moedas” para conseguir pagar as prestações. As sobras eram muito poucas para repartir, o rendimento disponível para retiradas necessárias a nossa manutenção pessoal era pequeníssimo; era difícil para a gente sustentar a família. Mas, apesar de toda a dificuldade, tivemos sorte que a inflação não disparou, pois, o contrato com a Arno Gärtner rezava que, se a inflação superasse os 10% ao ano, aumentaria o valor da dívida no mesmo percentual. Mas graças a Deus, no período, a inflação não superou os 5%79 (GAULKE, 2006).
79 O fato é que, após o término do pagamento das 60 parcelas, foi preciso pagar mais uma diferença de 20%, e essa
diferença era dos juros cobrados no período. É claro que essa diferença aparece como um residual, mas é evidente a cobrança de juros que, numa economia inflacionada, teria sido bem maior.
No início, tínhamos muita falta de dinheiro, contávamos moeda por moeda para pagar as prestações das máquinas e os demais gastos da cooperativa, fora todos os encargos. Hoje em dia, é difícil abrir um negócio no Brasil e fechar também (VIGUERANI, 2006).
Tal austeridade resultou em “lucro”, possibilitando tanto o pagamento total do maquinário como a aquisição, futura, de outros maquinários faltantes. Então, a aquisição dos meios de produção foi possível com a aplicação igualitária de recursos individuais advindas das indenizações, ajuda – mútua e cotas de trabalho dos associados, portanto, no patrimônio construído todas têm a igual cota de participação e todos são co-proprietários sem diferenças de cotas-partes.
Superada a fase inicial, período que havia o compromisso com o pagamento das parcelas da dívida pelo maquinário, quando chegaram a “contar as moedas” para conseguir efetuar tais pagamentos, a cooperativa conquistou estabilidade. Hoje, além do maquinário inicial, o patrimônio em maquinário foi ampliado com a compra de três novas máquinas de retífica, um caminhão guincho zero km e um veículo pequeno. Com esta a ampliação do maquinário, podemos inferir a existência de um patrimônio com valor próximo a um milhão de reais.
Não continuamos com o mesmo maquinário adquirido da empresa Arno Gärtner, compramos mais máquinas. Depois da Arno Gärtner, compramos três novas máquinas, que faltava na retífica da Arno Gärtner e para ter uma boa retífica fomos obrigados a comprar essas máquinas (GAULKE, 2006).
Contudo, todo maquinário perde o valor. Com o rápido avanço tecnológico, as máquinas estão cada vez mais modernizadas, provocando rápida queda no valor-de-troca das antigas, ou seja, há uma depreciação no valor-de-troca e de uso do maquinário. Além da necessidade de inovação do maquinário, sendo necessária a previsão de recursos para tais investimentos, há dispêndio com o pagamento do aluguel do galpão onde está instalada a retífica; há inadimplência de clientes, despesas com luz __ que são bem altas pelo próprio tipo de serviço prestado __, com água e tratamento de efluentes em decorrência do óleo diesel utilizado para o desenvolvimento do trabalho. Evidentemente, o faturamento tem sido suficiente para manter a cooperativa em condições objetivas de trabalho, inclusive, com novos investimentos, tanto no custo dos meios de produção quanto da reprodução da própria força de trabalho do associado e atendimento de necessidades de suas famílias. Não obstante, para os associados, individualmente, não houve possibilidade de acúmulo de riqueza além daquela adquirida para uso coletivo no processo de trabalho da Reticooper. Com certeza, individualmente não há acúmulo de riqueza, mas há estabilidade econômica e financeira da cooperativa, o que, em si, é uma riqueza, e os trabalhadores conquistaram autonomia econômica e financeira sem mais necessitarem vender a sua força de trabalho para obter uma renda.
Graças a Deus, a cooperativa tem um bom desempenho financeiro, se não tivéssemos, nós sequer teríamos tido condições de pagar pelo maquinário, pelo valor exagerado que era. No começo, era muito dinheiro; se fosse hoje, eu não assinava mais nenhum papel para comprar um maquinário naquele valor. Nós queríamos ganhar mais, mas não sobra mais nada. Hoje, o custo da manutenção e reposição de equipamentos para a retífica é muito caro; tem a luz, tem a água e o aluguel do galpão. Tudo tem aumentado, tem sobrado sempre menos, o que complica ainda mais com a inadimplência (GAULKE, 2006).
A Reticooper, hoje, está com situação econômica estável, mas não conta com disponibilidade financeira para investimentos de alto vulto. Prova disso, é ainda não possuírem local próprio para instalação da sede. São R$ 5.000,00/mês gastos com aluguel. Isso representa R$ 238,09/mês a menos nas repartições individuais mensais e menos possibilidades de investimento para o crescimento da retífica. Outro limitador da falta de disponibilidade financeira e de ampliação da retífica é a rejeição à prática investidora com uso de recursos advindos de empréstimos com pagamento de juros. Esta prática demonstra cautela administrativa e, ao mesmo tempo, vontade de manter a autonomia conquistada com a austeridade nos gastos, e, assim, evitando serem explorados pelo capital financeiro.
Sobras reservadas para investimentos realmente não se tem e seria necessário. Mas, não sobra mais esse dinheiro, hoje, o que sobra não é suficiente para fazer reservas. Quando é preciso comprar um maquinário a gente faz uma reunião e vê o que tem em caixa... Eu sou contra pagar juros, como eu digo, a cooperativa tem 10 anos e eu paguei juros apenas durante dois meses e ainda sem estar consciente. [...] Não aceito pagar juros, nem o cheque especial um dia foi usado. Vejo muita gente se acabar por conta dos juros. Enquanto eu for presidente, a Reticooper não vai pagar juros (GAULKE, 2006).
No presente80, a Reticooper obtém recursos suficientes para a manutenção da cooperativa
e de seus associados, apesar de sequer conseguir fazer um planejamento para seu crescimento. Neste sentido, estão fazendo uma gestão de acordo com o fluxo de mercado.
4.1.4. RETIRADAS INDIVIDUAIS E DIVISÃO DO EXCEDENTE DO TRABALHO