Os trabalhadores da oficina de retífica da ICAG passavam da condição de assalariados à condição de sócios de cooperativa com a atividade de prestação de serviços de retífica de motores a diesel. No início, todos desconheciam como era o funcionamento de uma cooperativa; por isso,
foram buscar assessoria junto à OCESC73, e esta instituição os orientou de acordo com o previsto
na legislação brasileira sobre a constituição de cooperativas. Esta cooperativa foi fundada
desarticulada do movimento do novo cooperativismo74 e assim não se fez presente à entidade que
na época representava as empresas geridas por trabalhadores, também não se fez presente o sindicato da categoria: Sindicato dos Metalúrgicos de Blumenau. A ausência do sindicato pode ser compreendida pelo não engajamento dos trabalhadores associados à Reticooper na entidade de classe.
4.1.2. O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO GRUPO QUE VIRIA CONSTITUIR A RETICOOPER
Na retífica Arno Gärtner, havia, aproximadamente, 29 trabalhadores, mas nem todos puderam ou quiseram aderir à proposta de constituição de uma cooperativa.
Segundo Koglin (2006), Gaulke, (2006), atual presidente da Reticooper, e Koerich (2006), a proposta de venda da oficina a uma cooperativa formada pelos empregados da retífica AG foi
73 Segundo o assessor jurídico (GN, 08/08/2006), foi solicitada orientação à OCESC quanto à legislação das
cooperativas, e à elaboração do Estatuto. A formação sobre gestão cooperada, autônoma e solidária não aconteceu. A OCESC somente subsidiou nas questões formais e jurídicas, mas não sobre a gestão democrática, princípios da autogestão. A assessoria prestada pela OCESC só ocorreu no começo para explicar como devia ser formada uma cooperativa; depois, seus assessores não mais compareceram para qualquer outro tipo de orientação. Atualmente, os cooperados entendem a OCESC como instituição fiscalizadora e intervencionista e não como uma entidade de organização. Essa concepção é decorrente de denúncia feita junto ao Ministério Público questionando os atos cooperados da Reticooper diante do fato da regularidade nas retiradas individuais mensais, sob a alegação de caracterização de uma relação salarial.
74 Sustentado nos escritos de Cláudio Nascimento (1986) e de Singer (2002), Maurício Sardá (2005, p. 270-272),
ratifica não ter sido um traço marcante do movimento operário brasileiro e do sindicalismo brasileiro a preocupação com a gestão das unidades de produção ou com a construção de um contra-poder mediante o controle do processo de trabalho, muito menos através do cooperativismo. No máximo, procuravam constituir comissões ou grupos de fábricas. Com a crise de emprego da década de 90, o “[...] cooperativismo e o tema da autogestão são incorporados pelo movimento sindical como forma de resistência ao processo de exclusão social e desemprego provocado pela crise econômica mundial, a reestruturação produtiva e as políticas neoliberais [...]”. Um “[...] novo tipo de cooperativismo vai se impor através das múltiplas experiências gestadas pelos trabalhadores ao longo dos anos 90 [...]”. O que Sardá (2005) chama de “novo cooperativismo” no Brasil vem sendo construído desde o final dos anos 80, com a reabertura de empresas falidas mediante a transferência da propriedade dos meios de produção para os trabalhadores. Antes dos anos 80, tinha-se um número muito reduzido de experiências brasileiras de cooperativas de produção formadas a partir da reabertura de empresas que se encontravam em processo falimentar. Desde então, os sindicatos do campo combativo (identificado como adeptos de políticas de esquerda) começaram a acompanhar e assessorar os trabalhadores no sentido de assumirem a gestão de empresas falidas.
feita, inicialmente, ao ex-empregado (o mesmo ex-empregado que tinha organizado, anteriormente, a Coopermec) de confiança, o trabalhador KM, que decidiu aceitar o desafio e organizar mais uma cooperativa. A venda do maquinário a cooperativa estava condicionada ao aceite de KM e, ainda, na ocupação do cargo de presidente por este mesmo trabalhador. Por sua vez, KM condicionou a sua decisão ao aceite do trabalhador GB para continuar com a mesma função já em exercício: o de administrador da retífica. Desse modo, o primeiro empregado convidado, por KM, a integrar e organizar uma Cooperativa de Retífica foi o administrador da oficina de retífica Arno Gärtner.
Então, seu KM me fez o convite e, além dele, outros trabalhadores me convidaram. Considerando esses convites eu disse: “eu vou junto com vocês”. Não tinha muita alternativa, ou eu acompanhava o pessoal ou todos os colegas ficariam sem emprego, eu principalmente. Mas, o cabeça para o seu Arno era o seu KM; eu fui simplesmente um convidado do seu KM e colaborei com ele e com os colegas de trabalho; tudo que pude fazer por eles eu fiz e continuo fazendo até hoje (GAULKE, 2006).
E a escolha das pessoas que iriam compor a cooperativa foi realizada por aqueles que, posteriormente, ocupariam os cargos de presidente e vice-presidente da cooperativa em formação. Os demais futuros cooperados tiveram baixa participação nos convites e na definição de critérios de quais empregados iriam se associar e compor a cooperativa; portanto, a autonomia na formação do grupo estava mais limitada aos coordenadores do processo.
Na constituição do grupo, os coordenadores Koglin e Gaulke adotaram alguns critérios de escolha das pessoas que fariam parte da cooperativa como associados. Evidentemente, estes critérios estavam sustentados na experiência vivida como empregados na ICAG. A trajetória ocupacional dos envolvidos no processo de organização da Reticooper não é limitada à retífica Arno Gärtner da ICAG, mas a referência para a escolha daqueles que iriam compor a cooperativa foram as funções e atividades desenvolvidas no último emprego, comum a todos. Neste sentido, eles procuraram unir pessoas com especificidades diferenciadas, competência técnica, atitudes de respeito ao trabalho em equipe e, reproduzindo o pensamento patronal, aqueles que não incomodaram na ICAG, ou seja, não reclamavam do salário pago e nunca entraram com qualquer ação trabalhista contra a empresa AG e não participavam de movimentos sindicais.
Nem todos os empregados da retífica Arno Gärtner vieram a se associar da Reticooper, mas as pessoas chaves foram trazidas. E em todos os setores há um profissional liderando, em conseqüência da experiência e conhecimento técnico é respeitado pelos outros associados e naquele setor. Entre os critérios para integrar ao grupo eram: tipo de atividade desenvolvida na ICAG e afinidades possibilitadora de relacionamento de qualidade com os parceiros de associação. [...] O atual presidente e administrador, na época apenas gerenciava a parte técnica dos procedimentos de trabalho, mas, ele conseguiu saber qual o setor mais adequado para cada associado; onde cada pessoa chave deveria atuar, é verdade que as funções e repartição de serviço para cada associado não se diferenciou em muito da distribuição já existente na ICAG, mas ele conseguiu trazer um mecânico profissional para cada setor (NGJ75, 2006).
O critério de escolha daquele que viria a fazer parte da Reticooper era a competência e não convidamos todos os empregados da retífica da empresa, o pessoal que não convidamos ainda era meio novo de retífica e também incomodavam a empresa Arno Gärtner e aí nós os deixamos de fora da cooperativa (GAULKE, 2006).
Então, nem todos os empregados da oficina de retífica foram convidados a fazer parte da cooperativa. Foram excluídos, pelos sócios coordenadores do processo de constituição da cooperativa, pelo menos oito empregados, os quais foram então indenizados e demitidos pela ICAG. Começou-se a Cooperativa de Retífica de Motores a Diesel (Reticooper) com a participação de vinte e um sócios e três empregados, ou seja, com vinte e quatro pessoas, todos ex-funcionários da ICAG e nenhum com formação de engenheiro mecânico. Os três empregados foram convidados a integrarem a cooperativa, mas, inicialmente, não confiaram no projeto e apenas aceitavam nele trabalhar com contrato de assalariamento. Depois de três anos de funcionamento da Reticooper eles se associaram a cooperativa. Na condição de empregados da Reticooper constaram que mesmo onde todos são proprietários dos meios de produção há uma organização e disciplina no trabalho garantidora de obtenção de renda, dispensando a presença de chefes e patrões.
Até 2004, a Reticooper contava com apenas um trabalhador não associado, o qual ainda permanece nesta condição. Contudo, foi por opção do próprio trabalhador, pois também ele foi convidado a se associar à cooperativa já na sua constituição. Atualmente, a cooperativa conta com dois trabalhadores assalariados e, por decisão do coletivo, não há pretensão de ampliar o quadro de associados da Reticooper.
Não há conflito por eles serem empregados; quando começamos a cooperativa, eles não estavam junto com a gente, foram contratados depois e nós não queremos ampliar o número de associados (VIGUERANI, 2006).