Façamos uma reflexão sobre os argumentos e pesos de sistemas de crenças com o estudo de sistemas com estratégias claras de design. Destacamos que, porque os sistemas de crenças estão diretamente relacionados com a interação entre um agente, um grupo de agentes ou sistemas complexos, e os dados envolventes, transformados durante a interação em informa- ção, é incorreto sedimentar esse conjunto de relações em pensamento de design estático ou metodologias lineares, mas sim identificar com precisão os processos que fomentam essas in- terações e os mecanismos de combinação dos argumentos que resultam da aplicação de perce- ções aos dados disponíveis na construção de sistemas. Encontramos nos diversos estudos de caso uma constante que consiste na aplicação de sistemas de crenças aos produtos da aplicação referida e que é esse o fator determinante de todos os sistemas de design, independentemente da complexidade envolvida. À luz deste conhecimento é possível identificar os mecanismos que definiram as estratégias orientadas por design e as diferenças de dados observáveis resultantes da aplicação de diferentes sistemas de crenças.
Porque em design é fundamental “ousar dar destino” [5] acreditamos que uma observação cui- dada ao trabalho do design realça o poder da visão para lá do existente e a importância da dedicação da atenção aos dados que se abrem à descoberta de novos futuros, imaginados, me- lhores, que refletem, com honestidade, os desejos que lhes dão forma. Lembramos que todas as situações da vida real, vivida, envolvem a aplicação de sistemas de crenças e que os dados em interação, mesmo que com uma essência imutável, são necessariamente percecionados de forma diferente, ou seja, há dados que não são considerados porque alguns sistemas de crenças os ignoram ou não sabem interpretá-los, e, portanto, é como se não existissem, não constituem informação. Um condutor, com o sistema de crenças preparado para interpretar os sinais e as regras de trânsito, lê os dados específicos que interferem com a sua condução e converte-os
em informação útil à sua ação. Quando se depara com um semáforo e este indica que a passa- gem está impedida o condutor para: este é o comportamento normal imposto pelo sistema de crenças desse condutor. Outro, por uma razão qualquer, poderá ignorar a indicação e passar. Isso quer dizer que o seu sistema de crenças não atribuiu o peso 1 ao sinal vermelho, ao con- trário do primeiro, que por assim ter feito, parou. Este pensamento abre um conjunto de pos- sibilidades para a discussão e medição do design; vejamos que por exemplo um designer gráfico, treinado nos sinais da cultura visual, pode detetar com facilidade erros nas relações entre ele- mentos e, desta forma, corrigir atempadamente o projeto, enquanto outro, menos treinado em interpretar os dados, poderá ignorar imperfeições ao nível das proporções, espaçamentos ou desalinhamentos. Esta questão torna evidente o quão fundamental é o desenvolvimento de modelos e linguagens que permitam trabalhar estes sistemas de crenças, individuais ou coleti- vos, e, principalmente, os que permitem a construção de sistemas especialistas de design, tendo em conta a complexidade que os sistemas de design podem alcançar.
Os exemplos apresentados sugerem que não só os sistemas são necessariamente subjetivos e dependem da perceção e vontade dos agentes, como permitem, com o nível de especialização adequados, a geração de informação mais fiável para a construção de sistemas mais coerentes e universais. Um sistema de crenças especialista comporta os elementos e as relações funda- mentais como argumentos de maior peso, ou seja, sabe ler os dados e transformá-los em infor- mação útil a todas as interações previstas no design. Essa é a informação que lhe permite criar o melhor interface de design, de acordo com os graus de evidência e certeza disponibilizados no seu sistema de crenças. Quanto melhores forem os seus argumentos, melhor será o design, melhor é o sistema de crenças. Retomando o exemplo do condutor, se este estiver apenas habituado ao código da estrada de Portugal, poderá confrontar-se, noutros países da Europa, com dados que desconhece e agir erraticamente. Isto significa que não é um condutor prepa- rado para a condução fora de Portugal, não incorpora no seu sistema de crenças a capacidade de interpretar dados importantes para sobrevivência dos seus sistemas relacionados com con- dução num outro ambiente. Se o ambiente for desconhecido mas o agente detiver as ferramen- tas necessárias para sua aprendizagem, o sistema de crenças poderá especializar-se nesse con- junto de situações possíveis e adequar os argumentos e respetivos pesos às diferentes intera- ções. Exige-se a um condutor profissional que viaje pelo mundo, a incorporação de todos os dados e relações existentes nos sistemas que tem de confrontar para que consiga gerar a infor- mação útil e prever em antecipação a sua ação nesses “mundos”. Se o primeiro condutor era incapaz de compreender um semáforo na Alemanha, por exemplo, por conter dados desconhe- cidos, este último agiria (ou não) de acordo com um sistema de crenças mais evoluído relativa- mente aos sinais e códigos da estrada. Referimo-nos que este poderia agir ou não porque exis- tem muitos fatores que interferem, em termos práticos, com a aplicação dos sistemas de cren- ças aos sistemas que, como vimos, resultam da aplicação de perceções ao universo de intera- ções, como por exemplo uma distração, uma urgência ou até uma vontade de infringir as regras estabelecidas. Como dissemos anteriormente, os fatores que interferem com os sistemas de
crenças e alteram os dados observáveis são inúmeros, podem ser conscientes ou inconscientes, e podem ter, naturalmente, um caráter subjetivo.