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A review of the ECL-model – the ‘defences’ of the ECL

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5 Step two: Not confl ict with a normal exploitation of the work

5.2 The system of ECL

5.2.3 A review of the ECL-model – the ‘defences’ of the ECL

On ne naît pas homme, on le devient. Erasmo (89)

Dois séculos antes do espírito das luzes, Erasmo (1469-1536), com o seu tratado

De pueris statim liberaliter instituendis (“Sobre a necessidade de instruir as crianças tão

cedo quanto possível e de maneira liberal”), proclamará que só por meio do processo educativo, e diferenciadamente dos outros seres, o homem é encaminhado para a humanidade, afirmando, numa das fórmulas do seu tratado, que a razão que deve conduzir o educador é lembrar-se que, mal nasce, o homem é fruto de um trabalho de formação (homines non nascuntur sed figuntur).

A concepção de liberdade defendida por Erasmo, embora dentro da ideologia cristã, distancia-se dela por considerar que, apesar da graça de Deus, o homem, pelo seu livre arbítrio, pode ou não, perder-se no decorrer da sua vida e, quanto a isto, “Dieu ne le sauve pas contre lui-même et malgré lui” (90).

A todas as práticas que promovessem uma inquietante desorientação da infância, como os maus exemplos, desde os maus pais aos maus mestres, Erasmo propõe um

(88) Ibidem, p. 146

(89) Erasmo (1529). De Pueris. Citado por Bierlaire, Franz. “Colloques Scolaires et Civilités Puériles (XVIe siècle)”. In Becchi Egle e Dominique, Julia. Histoire de l’Enfance en Occident: de l’antiquité au XVIIIe siècle, op.cit. p. 273

projecto pedagógico adequado, baseado na motivação, bem como no «treino sistemático de professores. Como poderia progredir a civilização sem mestres-escola adequados?»(91).Concomitantemente, lança uma forte crítica aos castigos, defendendo uma humanização da educação, nomeadamente a moderação do papel do pai e do mestre. A este propósito, Mayer acrescenta que «Se um professor usasse da força e da coação, motivaria os seus alunos de uma maneira negativa. Esse professor tornar-se-ia uma influência positiva se desse um exemplo de saber. É fácil usar a vara como instrumento de disciplina: contudo, é muito mais importante usar a inspiração moral de modo que o estudante possa querer aprender» (92). Assim, compreende-se que Erasmo admitisse que «les relations entre le maître et l’élève reposent sur la raison et l’amour. L’intérêt pour l’étude découle de l’affection pour le maître et de la mise en oeuvre d’une pédagogie attrayante, fondée sur les jeux et les récompenses» (93).

Do mesmo modo, e defendendo que a tarefa do professor deve ser centrada no desenvolvimento de uma educação cristã, escreve Erasmo que «outras filosofias podem ser alcançadas pela maioria. (Mas) nenhuma idade, nenhum sexo, nenhuma condição de vida, está excluída da compreensão da filosofia cristã de vida» (94). Nas entre linhas destas palavras apela para a igualdade de tratamento para todas as crianças, aspecto importantíssimo para a história da infância, a partir do qual espreita um primeiro direito proclamado por Erasmo que atende a uma exigência de igualdade, independentemente da sua condição social. Dentro desta lógica, acrescenta ainda:

Ceux qui ne savent autre chose que fesser, que feraient-ils avaient pris la charge d’instruire les enfants d’un empereur ou d’un roi, lesquels n’est licite de fesser ? Ils diront qu’il faut excepter les enfants des princes de cette règle ? Ou’ ois je ? Les enfants des bourgeois sont-ils moins enfants que les enfants des rois ? L’enfant ne doit-il point être aussi cher à chacun comme s’il était né d’un roi ? (95)

Ao apelar ao bom senso do adulto, como criança que também já foi e como exemplo que deve ser, advoga também, como sublinha Léon, «l’importance des besoins affectives précoces et des émotions dans la communication» (96).

(91) Mayer Frederick. História do Pensamento Educacional,op.cit. p. 232 (92) Ibidem, p.p. 232-233

(93) Léon, Antoine. “Les Précurseurs de la Pédagogie Nouvelle”. In De Singly, François (2004). Enfants-Adultes. Vers une Égalité de

Statuts? Paris: Universalis, p.156

(94) Erasmo (1509). “Elogio da Loucura”. Citado por Mayer, Frederick. História do Pensamento Educacional op.cit. p. 235 (95) Erasmo (1529). De Pueris. Citado por Renaut, Alain. La Libération des Enfants, op.cit. p. 172

(96) Léon, Antoine. “Les Précurseurs de la Pédagogie Nouvelle”. In de Singly, François. Enfants-Adultes. Vers une Égalité de

Tanto na esfera familiar como na escolar, aconselha à prática de uma pedagogia baseada no jogo, através do qual cada momento da vida é concebido como uma oportunidade para aprender algo novo, mediante um processo de aculturação revigorante, motivante, onde seja cultivada a virtude, o saber e o gosto de aprender. Em virtude de Erasmo considerar que a educação se trata de um elemento fundamental à promoção de uma favorável acção do homem sobre si mesmo - perante um futuro que é aberto e afastado das predestinações de outrora - concebe o processo educativo como factor determinante para alcançar a humanidade. Ao abrigo destas considerações, a acção do Homem deve, por isso, centrar-se ao nível do corpo, ao nível do sentimento e ao nível da inteligência (libertando-se do dogma e de crenças cegas, pela instrução e educação do saber). A este propósito, Mayer, recorrendo à obra Sobre o Método da

Instrução Correcta, comenta que «Erasmo defendia energicamente o treino sistemático

de professores. Como poderia progredir a civilização sem mestres-escola adequados? Como poderiam os estudantes progredir? (...) as suas capacidades inatas tinham de ser estimuladas (...), isso podia ser melhor determinado pelo amor do professor ao aluno»(97).

O tratado de Erasmo sobre a educação das crianças, ao ter subjacente a ideia de humanismo educativo, defende que a criança, ao ser uma espécie de “cera moldável”, deve ser “trabalhada” tão cedo quanto possível, com vista à despistagem de eventuais “maus vícios” que poderão comprometer a sua formação futura. Não obstante, alerta que, sob este ponto de vista, uma excessiva liberdade poderá originar situações que a tornem “intratável” ao invés de “maleável”. Porque defende a tolerância em detrimento do autoritarismo e o afecto por oposição ao castigo físico, a criança é imbuída por uma pedagogia atraente e um clima afectuoso. Desta forma, facilmente se penetrararia num ideal que, não ceifando a liberdade da criança, suscitaria um clima favorável nas relações, quer dentro da esfera familiar, quer na social e escolar, cujo âmago terá como base a motivação, a racionalidade e a adequada satisfação dos seus interesses, elementos cruciais ao total desvanecimento de sentimentos que causem revolta ou libertinagem.

Entende, por isso, que o empenho do adulto deve direccionar-se no sentido de fazer a criança compreender que ele age em benefício da razão. Dentro deste registo, e num clima que negue a disputa do adulto face à criança, mas que seja capaz de valorizar a cumplicidade de raciocínio, Erasmo advoga uma ideia de educação como forma

possível de reintegrar na liberdade da criança a lei da razão, defendendo, assim, uma educação para a liberdade da razão. Será mediante esta problemática, implicitamente conectada à regulação e preservação da liberdade da criança, que nos deparamos com uma apreensão da infância muito próxima daquela que temos actualmente. Na mesma linha, já Coménio (1592-1670), antecipando Hobbes, entendia que a liberdade «es el bien más preciado creado al mismo tiempo que el hombre e inseparable del hombre»(98). Também ele, quase um século depois do tratado de Erasmo, entendia que, em concordância com o que escreve Le Gal «instruir a la juventud no consistía en inculcar una acumulación de palabras, de sentencias, de opiniones recogidas en los autores, sino que debía abrir el entendimiento a través de las cosas. Afirmaba que “el niño es una joya más valiosa que el oro y más frágil que el cristal”» (99).

O humanismo difundido a partir do século XV e, mais particularmente, o contributo de Erasmo nele inspirado, em pleno século XVI, antecipou certas concepções ideológicas do século XVIII e mesmo do século XIX, impulsionando de forma inegável o surgimento dos primeiros indícios da infância como uma responsabilidade face ao futuro e da criança como pessoa, logo como sujeito de direitos.

5. TRANSFORMAÇÕES DA IMAGEM DA INFÂNCIA A PARTIR DO

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