Ainda na décima sequência de Que país é este?, logo após ser lançada a pergunta sobre como superar o regime militar, Fernando Henrique Cardoso retoma o seu depoimento para esboçar algumas ideias acerca do futuro processo de redemocratização. A fala do sociólogo inicia-se a partir da reflexão em torno do apagamento das classes populares durante os anos da ditadura. Em decorrência do Estado autoritário, a provocar um atraso da sociedade em relação “às suas forças mais dinâmicas”, deflagra-se um quadro político alarmante. Enquanto o sindicalismo, com um regimento ultrapassado, deixara há tempos de representar os interesses dos milhares de operários brasileiros, novos fenômenos sociais, como a situação precária dos boias-frias, eram completamente ignorados por um regime que se omitia diante das necessidades do povo. Para o intelectual, no entanto, os governantes deveriam tomar o cuidado de não “tratar essa massa como inerte, [já que] ela possui cultura e tem aspirações”: quando observada do alto, do viés de um Estado afastado de seu dia- a-dia, ela podia até parecer “apática”, mas quando vista de baixo, no cotidiano das classes desfavorecidas, ela adquiria uma dinamicidade capaz de se transformar em potência política a mobilizar reivindicações. Das expressões e sociabilizações do
popular, a exemplo do esporte, das culturas migratórias e da religiosidade, provêm para Fernando Henrique Cardoso uma nova “leadership” das massas a manifestar formas alternativas de protesto e de visão de mundo. Distante dos centros de poder e analisada pelo sociólogo como fundamental para explicar a derrota da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) nas eleições de 197491, essa outra configuração do político deveria ser levada em conta no desenvolvimento de um projeto para a redemocratização do Brasil. Anuncia-se, em Que país é este?, uma proposta de programa para suplantar os tempos ditatoriais. Da voz de um intelectual específico, politicamente comprometido com o MDB, surge o rascunho de um frentismo democrático que, da soma de esforços entre a esquerda institucional e o popular, desejava o nascimento de um partido moderno e contra-hegemônico:
Se nossa perspectiva é negar um Estado que manipula instrumentos para alcançar o crescimento econômico desejado, cujas finalidades são realizações meramente materiais, precisamos de uma democracia baseada na recuperação do impulso existente nas massas, na capacidades dela definir seus próprios objetivos. (...) Um novo sistema de hegemonia, uma articulação mais profunda entre os grupos A, B e C, a partir da qual seja possível não apenas tornar factível o desenvolvimento [econômico], mas responder às demandas sociais e políticas dos vários grupos.
Reverberando uma afirmação lançada por Alfredo Bosi na nona sequência do documentário, a de que “as atividades imaginárias, poéticas e realmente criativas [do popular] (...) [são] formas sempre dirigidas contra o sistema dominante”, o depoimento de Fernando Henrique Cardoso instala em Que país é este? a perspectiva de que a resistência à ditadura, assim como o próprio projeto de redemocratização, deveriam acontecer a partir de um frentismo a incluir os diversos grupos sociais que foram marginalizados e perseguidos durante os anos do regime militar, fossem esses pertencentes ao quadro institucional (a exemplo do MDB) ou distantes dele (o popular em suas novas manifestações políticas). Presente no filme como esboço de um ponto de partida para a transformação do Brasil, como ideia lançada no ar e ainda carecendo de maior desenvolvimento, a proposta de um frentismo surge nos momentos finais do documentário de Hirszman, nele provocando uma evidente alteração de humor: diferente do restante da obra, em que predomina um discurso científico de análise do
91 Vale lembrar que a eleição de 1974 surpreendeu o campo político brasileiro, pois na disputa para
substituir 1/3 do Senado Federal, o MDB conquistou 16 cadeiras contra as 6 do Arena. A vitória foi significativa, já que a esquerda consentida pelo governo autoritário ganhava pela primeira vez um pleito eleitoral, mas relativiza-se quando lembramos que a Câmara dos Deputados continuava nas mãos do Arena (203 políticos contra 161 do MDB) e que todos os governadores de Estado eram nomeados indiretamente pelo regime militar.
Brasil e de sua História, as duas sequências que encerram Que país é este? - as de número onze e doze -, procuram projetar sobre o contemporâneo um desejo mais militante de superação da ditadura e das crises provocadas pelo autoritarismo. Colocando-se claramente a favor dessa teoria de ação, saudando-a como pressuposto para a emergência de uma futura democracia, o cineasta constrói nos planos derradeiros do filme uma montagem otimista a sinalizar, em dois tempos, o seu compromisso afetivo e social com uma prática específica do fazer político dos anos 1970.
Logo após a reprodução do samba Heróis da liberdade (1969)92, canção que imprime otimismo a partir dos versos “Alunos e professores / Acompanhados de clarim / Cantavam assim: / Já raiou a liberdade”, Que país é este? alcança finalmente a décima primeira sequência, momento em que vários representantes da “sociedade civil” e do Estado concedem entrevistas curtas sobre a situação brasileira. Em uma colagem a articular onze depoimentos, falam vozes as mais distintas: o líder católico e crítico literário Alceu Amoroso Lima, opositor da ditadura, defende o fim da censura e o retorno à liberdade de expressão. Heleno Cláudio Fragoso, advogado que atuou na defesa de presos políticos, fala em nome da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para criticar a suspensão do habeas corpus pelo regime militar; enquanto Dom Paulo Evaristo Arns, defensor dos direitos humanos, coloca-se a favor de uma democracia que efetivamente acolha a participação da classe popular no jogo político. Célio de Oliveira Borja, presidente da Câmara dos Deputados pela ARENA, entre 1976 e 1977, sugere que “o povo não concebe a organização política do país sem a figura de um Parlamento”; enquanto Petrônio Portela, ex-senador pela ARENA e um dos principais mediadores do governo durante a distensão política, procura assegurar que o objetivo do presidente Geisel é de fato o de consolidar um processo de abertura. Já Ulysses Guimarães, naquele momento líder do MDB, ao comentar as dificuldades de se manter um partido de oposição no quadro autoritário do Brasil, reafirma a luta de sua legenda pela redemocratização do país.
92 Heróis da liberdade, composta por Mano Décio, Silas de Oliveira e Manoel Ferreira, foi samba-
Embora um confronto histórico perpasse esses e os demais depoimentos da sequência 1193, pois ali se encontram opositores e representantes da ditadura, a intenção de Hirszman ao articular as suas vozes não parece ser a de salientar um conflito entre ideologias distintas. Em Que país é este?, o bloco contendo as falas provenientes da esquerda civil e de setores moderados do governo tinha como ambientação sonora, em arranjo lento e instrumental, a marcha-rancho Bandeira
branca. Canção carnavalesca escrita por Max Nunes e Laércio Alves, mas cuja
popularidade foi alcançada a partir da gravação feita por Dalva de Oliveira, a música é uma composição romântica, com melodia e versos melancólicos, na qual um eu- lírico, saudoso de sua amada, estira uma bandeira com a esperança de encontrar paz na relação amorosa (MELLO; SEVERIANO, 1999: 152). Descontextualizando o sentido original dessa música que esteve nas paradas de sucesso em 1970, Hirszman se apropria de uma sonoridade bastante conhecida para lhe agregar um valor político em diálogo com o frentismo democrático: se antes o pedido de paz era dirigido ao par amoroso, na tradição de um cancioneiro que se volta para a dor da paixão, agora ele adquiria um outro viés, relacionado às expectativas do cineasta em ver a formação de uma unidade que lute pelo fim da ditadura militar. A presença de Bandeira branca em
Que país é este? parece propor que as forças políticas da sociedade brasileira, mesmo
que em campos ideológicos divergentes, deveriam estabelecer uma trégua para enfrentar um inimigo maior, o regime autoritário, que àquela altura encontrava-se em processo de enfraquecimento diante da crescente crise econômica. A décima primeira parte do documentário funciona como um aceno à negociação: é preciso somar esforços, aproximar-se inclusive daqueles que de dentro do governo mobilizam-se pela abertura democrática, gerando assim um frentismo que consolide pressões sociais a favor da implantação de uma nova democracia. Na visão do cineasta, a ocasião exigia esse apelo à ampla união das consciências.
Não é à toa que o filme, como peça de militância, termine justamente com um desfecho simbólico a reforçar o compromisso de Hirszman com essa agenda política
93 Como é possível consultar no anexo I desse doutorado, a sequência 11 de Que país é este? também
contava com depoimentos de Prudente de Moraes Neto, presidente da Associação Brasileira de Imprensa em 1976; Joaquim Coutinho, deputado federal pelo Arena; André Franco Montoro, futuro governador de São Paulo pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), entre 1983 e 1987; e Magalhães Pinto, à época presidente do Senado pelo Arena. Nos documentos, além dessas falas, encontra-se a presença de um “Popular”, sem identificação de nome, que cobrava uma ação das autoridades contra a miséria. Há também a indicação de que Hirszman pretendia inserir uma entrevista com José Bonifácio Lafayette de Andrade, político que se alinhava aos setores mais conservadores do regime militar.
em prol de uma frente antiditatorial de ação. A sequência número 12 de Que país é
este?, a derradeira do documentário, abria com uma pessoa sozinha em cena, voz
solitária, que em ritmo lento cantava os primeiros versos da música Cordão (1971), composta por Chico Buarque. Em seu isolamento, quase como um rumor impregnado de historicidade, essa voz entoava as palavras iniciais de uma canção em que o eu- lírico, em desafio a quem deseja lhe sufocar, anuncia que ninguém conseguirá acorrentá-lo enquanto ele puder se expressar por meio do canto e do sorriso: “Ninguém / Ninguém vai me segurar / Ninguém há de me fechar / As portas do coração”. Remetendo-se tanto à censura que perseguia os artistas, quanto a um estado geral de opressão vivido durante a ditadura, a música continuava a ser cantada até o seu final, só que aos poucos a interpretação tornava-se acelerada e coletiva. Conforme avançavam os versos - “Ninguém vai me ver sofrer / Ninguém vai me surpreender / Na noite da solidão” -, outras vozes, provenientes “de vários momentos históricos”94, formavam com a primeira um coro dos descontentes em alusão à resistência que se colocava em confronto com o governo autoritário. No ápice dessa alegoria frentista, na qual o “acúmulo das forças” políticas ganhava o reforço da História, daquele popular que fora oprimido no passado, Que país é este? formava um cordão catártico, com ritmo e volume em crescendo, a afirmar os valores universais da solidariedade, da luta e da transformação: “Pois quem / Tiver nada pra perder / Vai formar comigo o imenso cordão / E então / Quero ver o vendaval / Quero ver o carnaval / Sair”95.
Pelo que se pode ler nos arquivos remanescentes de Que país é este?, Hirszman acabou realizando para a RAI um documentário que estabelecia diálogos com obras engajadas como La hora de los hornos (1968), de Fernando Solanas e Octavio Getino, em que o cinema, sem abdicar da experimentação formal, inscreve no tecido fílmico um desejo político de intervir no presente e de transformar uma
94 Essas aspas não se referem à transcrição da banda sonora de Que país é este?, mas às anotações que
Hirszman fez para o esquema geral de montagem do seu filme. Consultar o anexo I. O documento original encontra-se localizado no Arquivo Edgard Leuenroth/IFCH/Unicamp, fundo Leon Hirszman, grupo 2, subgrupo 14, série 10.
95 Não parece aleatória a decisão de encerrar Que país é este? com a música Cordão, de Chico
Buarque. Durante os anos 1970, em decorrência de inúmeros problemas com a censura governamental, esse compositor se tornou um dos principais símbolos da resistência cultural contra a ditadura. Fortemente vinculado a uma arte nacional-popular, com diversas canções a tematizarem o cotidiano e o lirismo de um povo miserável, Chico Buarque foi adquirindo representação social como artista engajado após a censura proibir a encenação de sua peça Calabar (1973). Como reação a esse veto, e para se defender das perseguições que sofria, ele criaria o pseudônimo Julinho de Adelaide para poder lançar em disco canções políticas que confrontavam diretamente o regime autoritário. No LP Sinal
Fechado, de 1974, Julinho estrearia com a música Acorda amor, a denunciar a violência da ditadura.
realidade social imersa em contradições. Como um filme manifesto, Que país é este? mobilizava repertórios artísticos e intelectuais para construir uma crítica ao contemporâneo: iniciando-se pela recusa às promessas ditatoriais de redenção, o seu percurso narrativo reelaborava a leitura da História, nela localizando traumas que serviam para refletir, no tempo presente, sobre uma sociedade em que o campo político continuava tomado por formas autoritárias de poder. Do passado, no entanto, também provinham exemplos de resistência. Mesmo vencidos e assassinados pelas forças de opressão, os derrotados da História, por sua obstinação e rebeldia, adquiriam no documentário o valor simbólico de um povo que não desiste de lutar por ideais como a justiça e a igualdade. Lançada para os anos 1970, essa resistência trans- histórica, romantizada no filme de Hirszman, era o arquétipo que mobilizava no contemporâneo a certeza de que a classe popular deveria ter um papel central no confronto contra a ditadura militar.
Em Que país é este?, portanto, a relação com o presente não se resumia ao panorama das contradições existentes na década de 1970. Após anos de uma censura a obstruir as imagens que denunciavam a miséria do popular, e basta lembrar que o governo mantinha proibida a circulação de um filme como Iracema, uma transa
amazônica (1974)96, Hirszman confiava que a reposição da visualidade realista permitiria, ao espectador de seu documentário, o acesso a esse outro Brasil distante das propagandas ditatoriais. Por meio da colagem de obras na herança do nacional- popular, a exemplo de trechos de Vidas Secas (1963) ou de reportagens a expor a condição adversa dos negros e dos boias-frias, Que país é este? relembrava a existência de um esgotamento social que não fora resolvido, mas ganhara dimensões bem mais agudas e massivas com o passar do tempo. No entanto, mesmo que essa visualidade contivesse uma potência crítica, pois ainda não sofrera o desgaste de sua exposição excessiva pela televisão brasileira, o cineasta resolveu transcender o simples diagnóstico do contemporâneo para incluir em seu documentário um esboço do programa político que para ele poderia, em um breve futuro, superar a ditadura e restabelecer um governo democrático.
96
Dirigido por Jorge Bodanzky em 1974, Iracema, uma transa amazônica é um filme ultrarrealista, a mesclar improvisação ficcional com técnicas documentais, em que a narrativa denuncia a miséria, a violência, a prostituição, as más condições de saúde e o desmatamento existentes na região de Belém do Pará. Realizado dois anos após a inauguração da rodovia Transamazônica, obra faraônica que a ditadura utilizava como propaganda de seu governo, o longa-metragem foi enquadrado na “Lei de Segurança Nacional”, sendo impedido de circular em solo brasileiro. O filme seria liberado pela censura apenas em 1980, logo após a sua exibição e premiação no Festival de Brasília.
Embora o frentismo apareça no filme apenas como um rascunho de futuro, e vale notar que esse desejo de unidade surge mais como alegoria do que como um projeto racionalizado pelas falas intelectuais, Hirszman parecia disposto a fazer do cinema um manifesto das negociações que considerava necessárias para a intervenção no tempo presente. Em Que país é este?, sem cair em uma teleologia histórica que entrara em crise após o golpe de 1964, mas também sem abdicar do otimismo, o cineasta lançou as suas apostas para um campo político indefinido e em intensa disputa. Assim sendo, a obra assumia uma forma específica de resistência, sobrevalorizava a capacidade do frentismo em unir inimigos históricos em uma solidariedade de valor universal, tornando-se produto engajado a defender um entre vários modos de conceber o processo de abertura democrática. Se o filme não cumpriu o seu papel, pois desapareceu nos arquivos da RAI e não foi exibido à época, as suas “cascas” permitem, ao menos, localizar o lugar político ocupado por Hirszman. De fato, o documentário reverberava uma posição que o cineasta vinha assumindo publicamente desde 1975, quando participou do I Ciclo de Debates da
Cultura Contemporânea, no Teatro Casa Grande do Rio de Janeiro:
No que se refere ao cinema, em particular, é fazer com que o cinema possa contribuir para uma política cultural que tenha relações com o nacional e o popular, isto é, que seja relativo a uma cultura popular, que sua resposta seja o povo e que ele esteja como raiz, como água, nascendo de uma contradição interna existente (...). Minha posição (...) é a de que não se deve juntar todos os inimigos para enfrentá-los juntos de uma vez (...). Parece-me que, se no momento se se somar, para ampliar a frente que luta pela independência nacional e pela democratização, isso que é importante. São etapas da luta (HIRSZMAN in. CICLO DE DEBATES DO TEATRO CASA GRANDE, 1976: 21 e 31).
Que país é este? era um documentário no qual o discurso crítico, fosse para
analisar o presente ou para esboçar o futuro, tinha por base um conceito político do popular como sujeito histórico central no processo que levaria à implantação de um governo democrático. No entanto, diferente de ABC da greve (1979-90), obra em que os operários são os protagonistas de um ato a ocupar as ruas e a paralisar as fábricas, o filme realizado para a RAI não continha registros do povo em manifestações de rebeldia política, antes concentrando-se em suas falas e imagens como diagnóstico das crises decorrentes do Brasil autoritário. Embora o depoimento concedido por Fernando Henrique Cardoso, na décima sequência de Que país é este?, anunciasse a formação de novas lideranças provenientes das classes desfavorecidas, indicando o seu lugar de atuação como distante dos centros de poder, o documentário de Hirszman
em nenhum momento lhes oferece as câmeras como possibilidade de expressão. Ali, a “voz” que de fato comanda a narrativa, tornando-se mediadora de um olhar sobre o Brasil, é aquela proveniente de uma síntese a articular o esquerdismo institucional dos intelectuais acadêmicos com a crítica nacional-popular dos filmes na tradição do Cinema Novo. É como se o povo, após anos de uma ditadura a marginalizá-lo e a isolá-lo, fosse finalmente devolvido ao centro do debate público, mas ainda carecesse de uma esquerda artístico-intelectual que, utilizando-o como premissa para afirmar valores democráticos, se tornasse a sua representante nas questões envolvendo o campo político. No decorrer dos anos 1970, a necessidade de resistir à ditadura impôs a muitos artistas que se tornassem “verdadeiros arautos da sociedade civil oposicionista ao regime militar”, algo que deu novo alento à arte engajada (NAPOLITANO, 2010: 136) e parece estar presente na unidade narrativa e formal elaborada por Hirszman em Que país é este?.
Poucos registros restaram das intenções do cineasta durante a elaboração do programa televisivo para a RAI. Como ele se mostraria muito surpreso com a greve metalúrgica de 1979, na região do ABC, chegando a declarar uma falta de conhecimento sobre o novo sindicalismo (HIRSZMAN, 1979), não é improvável supor que a sua distância social em relação ao popular o tenha levado, em Que país é
este?, a ignorar ou a simplesmente não localizar quem seriam os nomes
representativos do povo. Sendo Hirszman um sujeito formado na esquerda nacionalista dos anos 1950 e que sempre considerou a política uma expressão do sistema partidário, é também possível que as suas preferências tenham recaído sobre as manifestações institucionalizadas de saber e de poder, fazendo-o direcionar o microfone para aqueles personagens sociais que, em 1976, formavam o núcleo para a criação de um multipartidarismo democrático: intelectuais universitários de destaque, lideranças oposicionistas da “sociedade civil” e integrantes do Estado contrários à permanência da ditadura militar. Lançar essas hipóteses em torno de Que país é este?, pensando-as à luz da cinematografia ou das declarações de Hirszman, permite