Há uma interpretação corrente que considera a relação entre Jean Manzon e o Ipês como uma parceria, das mais sadias e amistosas, em torno de um projeto político liberal e anticomunista. Nas principais pesquisas sobre o assunto, o cineasta é
apresentado não apenas como produtor de onze documentários, principal representante cinematográfico do instituto, mas principalmente como um entusiasta de seu ideário, a unir esforços com a classe empresarial para montar uma estrutura de propaganda contra o governo de João Goulart e promover a derrubada do presidente.
Na dissertação de mestrado Um olhar sobre o Brasil pelas lentes de Jean
Manzon, redigida por Edson Luiz Nars, a parte dedicada ao Ipês praticamente apresenta
o cineasta como um integrante do grupo. Para o pesquisador, a troca de
correspondências entre Manzon e Luiz Werneck é indício da doação do primeiro ao projeto ipesiano. O cineasta não estaria apenas se adaptando ao discurso do grupo para consolidar um contrato comercial, como defendi no início deste capítulo, mas
colocando-se à disposição de seus dirigentes: “o IPES e a Jean Manzon [Films] montam uma verdadeira máquina de guerra psicológica de contra-informação para combater ideologicamente o governo ‘nacional-reformista’, representado pela figura de João Goulart (...) [estavam] sintonizados para iniciar uma guerra psicológica”43.
No livro Propaganda e cinema a serviço do Golpe, organizado pela jornalista Denise Assis, esta opinião é reafirmada e renovada. O parceiro Manzon, aliado do instituto, torna-se “seu fiel seguidor”44, um discípulo que coloca os interesses do Ipês acima dos seus para consolidar o projeto ideológico. Por decisão própria, ao montar os documentários,
elaborou, com brilhantismo, uma realidade calcada na mensagem a ser passada ao espectador, pouco se importando de que colocar lado a lado Fidel Castro, Stálin e Hitler pudesse não ser uma leitura correta da política internacional. Naquele momento, o que valia era mostrar os três líderes como figuras ameaçadoras e que queriam estender suas práticas comunistas ao Brasil45.
qu’il a réalisés avec vous sont tout autre chose, une merveilleuse symphonie. Resposta: Il voulait des splendides Indiennes sourtant de l’eau après le passage d’une nuage de papillons multicollores. Une orchidée qui s’épanouit, un lac aux eaux tranquilles, couvert de vittoria régias aux larges feuilles déployées là-dessus, la proue de la pirogue s’avançant, brisant ce calme”. REBATEL, Henry, op. cit., p. 241.
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NARS, Edson Luis. op. cit., p. 152 e 174.
44
LOUZEIRO, José. “O Ipês faz cinema e cabeças” in. ASSIS, Denise (org). op. cit., p. 31.
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A autora, ao dotar Manzon de uma autonomia a qual não possuía na relação com o Ipês, afirma que a decisão de inserir imagens do totalitarismo de direita ao lado do totalitarismo de esquerda foi decisão sua, quando arquivos da Jean Manzon Films, já citados no início desse capítulo, indicam essa aproximação como orientação dos dirigentes do instituto. O livro de Denise Assis, ao dar pouca importância para o contrato comercial como documento para compreender a disposição do cineasta em trabalhar com o Ipês, mistifica sua posição como essencialmente política.
Mas, talvez, a pesquisa mais mitificadora do papel do cineasta seja a tese de mestrado de Marcos Corrêa, cujo título O discurso golpista nos documentários de Jean
Manzon para o Ipês é indicativo da forma como o autor pretendeu tratar do assunto.
Para ele,
Manzon não atendeu simplesmente os intentos de uma instituição. Ele deu visibilidade às suas demandas atuando mesmo como uma agência de propaganda. A encomenda não se limitou à execução de suas atividades como cineasta. (...) Nesse sentido não é possível enxergá- lo como um mero executor de encomendas, mas como um co-autor das teses e propostas apresentadas nos filmes realizados para o Ipês. Desse modo, a sintaxe narrativa do produtor se preenche das informações e dos desejos dos financiadores46.
No dia dois de abril de 1963, durante uma reunião da Comissão Executiva do Ipês, uma conversa registrada em ata levanta dúvidas sobre a imagem de Manzon como agente cinematográfico ipesiano. João Baptista Leopoldo Figueiredo, presidente da filial paulista do grupo, ao pedir informações sobre o próximo documentário do instituto, em torno da “modificação do conceito do homem de empresa”, e exigir agilidade em sua realização, caso o preço continuasse nos habituais dois milhões de cruzeiros, recebeu de Luiz Cássio dos Santos Werneck uma notícia não muito agradável. Jean Manzon, após onze documentários e um ano de trabalho, praticamente dobrara os custos de produção e, no último filme encomendado pelo Ipês, Conceito de empresa, boa parte das cenas eram recicladas de outros curtas realizados pelo cineasta para o próprio grupo.
Apesar da sugestão de João Baptista, datilografada na ata da reunião, em continuar com Manzon, “que já fez o roteiro”, podemos deduzir que o aumento dos preços não foi bem recebido pela filial carioca, centro das decisões financeiras. A produção de A boa empresa, na defesa do empresário moderno capaz de evitar o
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surgimento de novos integrantes da esquerda ao garantir benefícios para o trabalhador, ficou a cargo da produtora de Carlos Niemeyer, localizada no Rio de Janeiro. Não fosse a duplicação dos custos, talvez Manzon continuasse o cineasta do Ipês.
Por que um sujeito engajado, suposto seguidor do ideário ipesiano, cobraria um preço acima do mercado para fazer a propaganda de um projeto ideológico no qual investe esforços por acreditar verdadeiro? A imagem mistificada de Manzon tenta tornar inverossímil o produtor em seu papel corriqueiro de negociar orçamentos para obter maiores lucros. O cineasta nunca foi filantropo de empresários e sua relação com o Ipês, antes de ser uma possível militância política e partidária, é mais provavelmente um contrato habitual entre cliente e fornecedor.
Prova definitiva disso talvez seja o filme dirigido por Manzon, com dinheiro público, para a propaganda do presidente João Goulart. Em meados de 1963, quando o Ipês se voltou definitivamente para as ações golpistas contra o governo e crescia a polarização política no Brasil, o cineasta aceitou produzir, por três milhões de cruzeiros, o documentário Depende de nós. O complemento, com imagens de Jango carregado pelo povo após a vitória do presidencialismo no referendo de seis de janeiro de 1963, foi financiado pela Casa Civil da Presidência da República, no período sob direção de Darcy Ribeiro47.
O filme, com a mesma voz empolada de Luiz Jatobá, em outras ocasiões a serviço da classe empresarial, defende a legitimidade do presidente brasileiro eleito pelo voto popular. Como uma resposta ao golpismo ipesiano, a buscar formas de depreciar o governo empossado e aumentar as tensões sociais, Depende de nós procura demonstrar ao espectador a legalidade constitucional da posse de João Goulart. As seqüências com imagens das Forças Armadas vão de encontro aos discursos da direita que propagavam, como legal, a derrubada do governo. Os militares, no documentário, aparecem como guardiões da lei e, conseqüentemente, como garantidores da posse:
As Forças Armadas do Brasil, sempre fiéis à Constituição, conseguiram afastar de nós a ameaça iminente de uma guerra civil (...) o Brasil não se desviou de seu caminho. João Goulart, em viagem ao exterior durante a renúncia, retornava ao Brasil, a fim de tomar posse da presidência de acordo com a Constituição (...) o patriotismo das Forças Armadas e a maturidade política do povo exigiram o cumprimento da lei.
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Como merchandising para Jango, o documentário apresenta os esforços do governo em fazer progredir o país a partir do trabalhismo à Getúlio Vargas. O
ministério, de acordo com o narrador do filme, “ciente do pesadíssimo encargo que lhe cabia e da miséria das classes mais humildes”, adota uma série de pacotes econômicos e sociais na tentativa de unir os brasileiros para uma nova etapa do desenvolvimento nacional. Sobreposta às imagens dos trabalhadores em seus afazeres, o espectador acompanha a locução com os detalhes do plano presidencial para a questão agrária: melhorar as condições de vida no meio rural a partir de créditos aos lavradores, de abastecimento de gêneros, construção de estradas e hidrelétricas, exploração das reservas naturais e erradicação do analfabetismo.
A propaganda de Manzon, seguindo seu modelo de documentário, transfere o pacto entre trabalhadores e empresários para as mãos do governo. Ao término do filme, com a música a tonalizar um desfecho vitorioso, a bandeira do Brasil tremula nas mãos de um soldado do exército e a Praça dos Três Poderes, em Brasília, iluminada à noite, indica o local em que se planejam as transformações da sociedade. O discurso em torno da harmonia, da promessa de paz social e melhores condições de vida para todas as classes, é complementado pelas palavras finais e retumbantes da narração: “e isto se faz mantendo a soberania da pátria brasileira. Pois o Brasil não é um conceito vago, mas uma nação de civis e militares, de homens, mulheres e crianças que dependem de paz, da união, do trabalho do governo e do patriotismo de todos”48.
Seria um erro, um excesso desmedido, escrever que Jean Manzon, arrependido pela militância no Ipês, resolveu produzir complementos para João Goulart como mea
culpa. O cineasta parou de filmar para o instituto após seus dirigentes se negarem a
pagar mais de dois milhões de cruzeiros na realização de filmes e começou a trabalhar para o governo após este aceitar um orçamento de três milhões de cruzeiros. Entre
Conceito de empresa, o último documentário para o Ipês, e Depende de nós, não se
passaram mais de quatro meses49.
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Jean Manzon realizou um segundo filme para a gestão João Goulart, sugestivamente intitulado de A
constituição acima de tudo. Nele, após demonstrar que o Brasil possuía uma tradição democrática, pois
todas as tensões políticas do governo Dutra a Jânio Quadros foram resolvidas sem ferir a constituição, o cineasta registrou Jango carregado nos braços do povo e sendo empossado no Congresso Nacional. O narrador, por sua vez, tece elogios às massas e aos militares, responsáveis por impedir um golpe contra o presidente eleito.
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Como Jean Manzon numerava suas produções podemos supor que, entre Conceito de empresa (número 329) e Depende de nós (número 342), não se passaram mais de quatro meses. Fora isso, quando Luiz Werneck, encarregado das atividades cinematográficas do Ipês, reclamou da qualidade de Conceito de
Mudar a clientela não fez Manzon mudar seu modelo de documentário. Pelo contrário! Em meados de 1962, o cineasta produziu para o Ipês o complemento
Depende de mim, um filme a tecer elogios ao caráter democrático do povo brasileiro e a
exigir conscientização por parte do eleitor. O voto, quando inconseqüente, pode promover o esquerdismo ao poder e levar uma sociedade ao totalitarismo. Seqüências da violenta repressão do governo comunista húngaro à população, apoiado pelas tropas da União Soviética em 1956, serviram como ilustração do negro futuro do país caso as eleições não fossem levadas a sério. “Sim, eleitor. A liberdade democrática depende de seu voto. A tradição cristã brasileira depende de seu voto. A hora é de decisão
consciente. O futuro do Brasil depende de seu voto”50. A redundância do discurso alertava, de forma latente, mas explícita, a necessidade de evitar o crescimento da esquerda na gestão de João Goulart. Depende de mim falava ao eleitor, individualmente, para planejar uma ação coletiva e nacional.
Depende de nós preservou o discurso do voto consciente, mas no sentido oposto.
Buscou parceria com as Forças Armadas, como o Ipês fazia, e estabeleceu um diálogo com a população, elogiando a escolha do presidencialismo como forma de governo e a posse do presidente como desejo da nação de preservar a democracia e a Constituição, evitando possíveis golpismos da direita. Assim como o filme ipesiano, falava ao eleitor para planejar uma ação coletiva e nacional. Entre Depende de mim e Depende de nós, uma polarização política com discursos parecidos não fosse uma palavra de diferença, Jean Manzon preferia mesmo era depender de si.
À insatisfação com o orçamento de Manzon e às possíveis restrições aos filmes de propaganda para João Goulart, devemos acrescentar a decisão do Ipês em intervir no modelo de documentário do cineasta. Quando contratado por uma empresa, seu trabalho privilegiava a ilusão de uma harmonia social pouco presente na sociedade brasileira nos anos antecedentes ao Golpe Militar de 1964. Para o instituto, o Brasil vivia um intenso conflito político, distante daquele equilíbrio cinematográfico, e que poderia ser
resolvido apenas com sua intervenção. Era preciso se apropriar da linguagem e da retórica de Manzon, em complementos ideais para atingir um grande número de espectadores, mas com o cuidado de inserir a discórdia, a presença de um inimigo e as soluções para a crise a partir da organização empresarial. Para promover uma
29 de julho de 1963, ou do pagamento de três milhões de cruzeiros, efetuada pela Casa Civil da Presidência a Manzon, em 20 de agosto de 1963 (ver anexo 3).
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desmobilização da esquerda com a ajuda do cinema, o Ipês foi buscar referências em outra experiência: os filmes norte-americanos de propaganda ideológica contra o comunismo no período da Guerra Fria.