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4.1 The expatriation process and related challenges

4.1.3 Upon return and in between missions

A história de Rebecca Thyfany começa em 22 de julho de 1991. Quando ela nasceu, sua família morava na Bela Vista, região central de São Paulo. Quando ainda era bebê, sua

família foi morar na Zona Sul, no bairro do Jabaquara. É a mais velha de nove irmãos de uma família muito pobre.

A gente vivia atrás de brinquedo que estava no lixo. A gente vivia caçando ali. A gente andava tudo ali. A gente andava tudo. Até hoje ela joga na minha cara que vai falar pra todo mundo que a gente catava brinquedo no lixo.

Os sete integrantes da família – ela, pai, mãe e mais quatro irmãos e irmãs por parte da mãe - moravam numa casa de fundos, com dois cômodos e um grande quintal. Ela tem também uma irmã e irmão por parte de pai, mas não moravam com a família. Muitas pessoas da sua família, como tios e primas, moravam bem próximo de sua casa.

Rebecca cresceu no mundo das drogas. Seu pai era usuário de crack e foi assassinado em frente de sua casa quando ela tinha seis ou sete anos. Ela não presenciou o assassinato, mas viu o corpo do pai estendido na calçada.

Desde muito pequena, já sabia que era feminina, pois gos tava de brincar com coisas de menina.

Eu era muito feminina. Quando eu era pequena, vivia brincando que eu era Angélica ou a Xuxa. Já me assumia. Falava que era a Angélica, por ser loira. Achava bonito. Aí eu falava, colocava um pano na cabeça e saia andando.

Rebecca gostava de seu pai, mas achava que ele era homofóbico. Pressentia que “o que ela é” não era aceito por ele.

Porque tipo assim, eu já conhecia, não sei como, mas eu já conhecia, já sabia, porque desde pequena assim eu já sei o que eu sou. Desde pequena mesmo. Eu percebia já, tipo, eu já sabia.

A primeira memória que tem de brincar com apetrechos “de menina” ocorreu quando tinha cerca de seis ou sete anos, é a cena deste período de que mais se lembra, que mais a marcou. Lembra-se de que seu pai a interrompeu de forma agressiva uma brincadeira em que usava lacinhos nas mãos e nos tornozelos. Sente-se um pouco comovida por lembrar essa história.

Mas já superei, já passou. Não me mexe tanto, porque tem tanta coisa que acontece, que a gente começa sendo fria pra certos tipos acontecimentos assim. Eu me tornei um pouco fria. Às vezes eu aturo bastante. Não, é que tem vezes que eu lembro. Só mexe um pouquinho, mas não tanto assim. Não é uma coisa que

129 Tem poucas recordações do período em que seu pai era vivo. Estudava à tarde, seus irmãos e irmã ficavam na creche. Lembra apenas que desde muito pequena era esperta e já se virava sozinha: tomava ônibus e ia para a escola sozinha. Lembra-se também de que era uma criança agressiva, que batia nos outros sem muito motivo. E, da mesma forma, apanhava de outras crianças também.

Depois que seu pai morreu, quando ela tinha por volta de nove anos, sua mãe frequentava festas “da macumba” e fez uma aposta com uma amiga para ver quem ficaria com um determinado homem. Sua mãe ganhou a aposta, levou-o para casa e ele passou a morar com ela desde o primeiro dia em que transaram. Segundo Rebecca, a partir daí sua vida se tornou um inferno.

Virou um inferno. Tipo, ele me odiava. Não cansava de falar que me odiava e não sei o quê. Eu apanhava todos os dias por qualquer motivo. Eu tenho comigo que é por ser gay. Porque até então ele já percebia. Porque quem não percebesse, também, era cego. [Eu já era] Bem feminina.

Mais ou menos nesta época, o padrasto aprontou alguma coisa na região em que moravam. Rebecca não sabe exatamente o que aconteceu, mas acha que ele roubou alguém. Ela sabe que alguns homens queriam bater nele e, por isso, mudaram-se para um bairro da periferia da Zona Sul bem distante do centro.

Quando era menor, Rebecca gostava de brincar de carrinho. Gostava de ônibus, queria ser motorista quando crescesse. Mas aos poucos, foi se interessando por bonecas. E passou a querer ser estilista.

Ah, eu gostava de carrinho. Adorava carrinho, até hoje, tipo, até os ônibus, acho lindo os ônibus. Eu acho muito bonito. Antigamente eu queria ser motorista de ônibus. Quando eu era pequena. Eu adorava ônibus, nossa. Minha mãe até me deu um ônibus de presente, um bem pequenininho. Depois foi passando os anos e eu não quis mais ser não. Queria ser cabeleireira. Depois não queria mais não. Não quis. Quis ser estilista, que até então, quando eu morei pra cá, pro [nome do bairro da periferia], eu fazia roupa pra boneca.Tipo, eu tinha um monte de

Barbie, toda boneca que minha irmã tinha eu pegava e falava: “É minha. Não vou te devolver mais”. Ela ficava louca de raiva. Tomava as Barbies dela. Fazia

linha nas Barbies dela, é minha, vou fazer um monte de roupinhas. Aí quando ela

pedia eu falava: “Não, vou fazer uma roupinha bem bonitinha pra ela, porque essa roupinha esta horrorosa, cafona. Aí eu te dou”. Aí fazia as roupinhas e não

devolvia mais. Pegava pra mim as bonecas. Escondia pra ela não achar. Aí nesse tempo eu queria ser estilista.

O padrasto não gostava dessas brincadeiras e, por isso, vivia xingando Rebecca de “viadinho” e “bichinha” e dizia para ela “virar homem” Seu padrasto costumava bater em Rebecca, na mãe e na irmã dela. Nos filhos e filhas dele e no enteado caçula, não batia. Os principais alvos de sua violência eram Rebecca e sua irmã. Ele vivia batendo nela, sem nenhum motivo. Batia em casa, batia em público, batia nela até usando fios de telefone. Na maioria das vezes, batia nela sem motivo. Em outras vezes, ela enfrentava seu padrasto para evitar que ele batesse em sua mãe.

Ai tipo, tinha horas que ele estava querendo bater nela, eu meio que percebia, aí eu começava entrar em discussão com ele pra ele não brigar com ela. Eu virava foco principal para tirar ela da linha.

Rebecca conta que aprendeu a fazer coisas erradas com outras crianças, mas assume toda a responsabilidade por seus atos. Diz que as crianças não eram as más influências, porque ela só foi influenciada a fazer coisas erradas porque quis, co mo roubar canetinhas coloridas em uma loja de bairro. Conta também que, como a mãe tinha muitos filhos, não podia cuidar de todos direito, então sua criação foi na rua. Por isso, hoje ela se espelha em pessoas boas para aprender a fazer as coisas de um jeito melhor.

Porque querendo ou não, a minha educação veio tipo assim, da rua. Como minha mãe tinha muitos filhos pra olhar, até então eu não tinha como ficar cobrando isso dela. Aí tipo, veio da escola, veio da rua, eu meio que sozinho, automaticamente. Meio que novela mexicana. Aí ficou por isso. Aí quando eu conhecia uma nova amizade, eu sempre espelhava nas coisas boas que ela tinha.

Mas Rebecca não se faz de vítima. Diz que aprontava muito, que não era uma criança boa, era arteira também. Mas ficava com muita, mas muita raiva quando apanhava do padrasto. Ficava “possessa”.

Rebecca conta que as crianças na escola diziam que ela e outro colega, também afeminado, eram gays, que namoravam. Mas que isso não a ofendia e eles não a incomodavam, pois ela se dava o respeito. Ficava focada em estudar. Bagunçava somente quando podia bagunçar.

Rebecca era também uma criança inocente, sem malícia. Mas ela conta que, quando pressente o risco, apesar de ter pouca força física, fica esperta e se safa. Batendo e agredindo, às vezes. Até “atuando”, se fosse necessário.

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Nós dois éramos [ainda] meninos. Eu bati nele. Não sei por que foi, mas [acho que] foi porque ele me afrontou, aí peguei um cabo de vassoura e comecei a bater. [...] Mas foi mais na telha no que nele. Aí tinha uma menina “cavalona”, indiana, até hoje, gigante, maior que eu. Aí ela veio tomar as dores dele. Aí eu

comecei a chorar porque eu não aguentava com aquela menina. Pensei: “Vou atuar”. E comecei a chorar. Aí ela não me bateu por dó.

Seu padrasto, como seu pai, também se tornou usuário de crack. E depois se tornou alcoólatra. E quando estava embriagado ou drogado, começava a desconfiar que a mãe de Rebecca o traía, que levava homens para casa, e criava muita confusão. Rebecca diz que ele a ofendeu tanto que ela aprendeu a não ligar para as ofensas vindas de outras pessoas, na rua.

Mas além disso, dele me xingar, eu aprendi assim, a andar na rua, tipo, não é

todo mundo que eu vou ficar escutando me xingar. Falou: “Ô “viado” e não sei o quê”. Tá bom. Você tem opinião, tem o direito de se expressar, posso fazer nada

por você. Foi com ele que eu aprendi, querendo ou não, fazendo as maldades comigo, sendo o alvo dele, foi até aprendizado também, porque eu aprendi com ele a não ligar para que os outros falam. De que tanto que ele me xingou, os outros pra mim não tiveram importância.

Antes de completar a 8ª série e antes de se transformar em Rebe cca Thyfany, ela parou de estudar. Conta que era preguiçosa, que não tinha vontade de estudar, cabulava as aulas. Ao invés de ir para a escola, ela ia para as represas da Zona Sul nadar e passar o tempo com os amigos. Em uma dessas oportunidades, quando ainda estava na 7ª série, com 14 ou 15 anos, um conhecido tentou abusar sexualmente dela, que escapou por pouco. Mas também porque circulou um boato de que fumava maconha. Ela diz que, na época, não fumava. Esse estigma, para ela, foi pior do que ter sido chamada de “viado”. Mais tarde, quando estava andando com Julieta, chegou a usar algumas drogas, mas parou porque estava ficando feia e acabada. E ela é muito vaidosa.

Quando chegou aos 17 anos, começou a se transformar fisicamente em Rebecca. O período da transformação foi de muita turbulência. Rebecca já não admitia as ofensas do padrasto, retrucava e o xingava de volta, e o que chegou a gerar um episódio de extrema violência78, em que chegou a dar uma facada nele.

Antes de passar por transformações corporais, Rebecca carregava os apetrechos até a casa de um amigo, para só então para se montar como mulher. Junto com Jucélio, amigo da escola que estava se transformando em Julieta, e Wilson, amigo da vizinhança que se

tornaria Suellen (e que mais tarde voltaria a ser Wilson), Rebecca começou a fazer transformações corporais.

Sim, eu me via como mulher, nunca tinha me identificado como gay. Até aí eu queria ter peito, ter cabelo grande. Ter cabelo tipo feminino. Rosto feminino. A voz eu queria ter. Isso por um tempo, que eu conheci a Ju, ela me apresentou o Perlutan79. O santo Perlutan. Aí nisso eu comecei a me montar. Nisso eu tentei até fazer programa. Só que não deu muito certo.

Julieta levou ambas, Suellen e Rebecca para fazer programas, para se iniciarem na prostituição. Todas tinham cerca de 17 anos. Julieta já fazia programas e gostava, porque ganhava dinheiro de forma fácil. Rebecca tentou fazer programa, mas não gostou e desistiu depois da primeira tentativa. Sentiu nojo e também não queria fazer sexo por dinheiro.

Comecei a fazer, mas não deu muito certo. Eu vi que era muito velho. Muito velho, nojento, asqueroso, sabe? Cheguei a atender um cliente, mas não foi muito agradável. Por causa que eu sou daquele tipo que não gosta de ser paga pra fazer o que está fazendo. Entendeu? Então não me agradei muito.

As três que estavam se transformando, juntamente com Daiane, que já era travesti, competiam para ver quem se tornaria feminina primeiro. Rebecca era vista como a mais masculina das quatro, mas seus seios surgiram primeiro do que os de Julieta e Suellen. Julieta pagava o Perlutan para Rebecca, mas quando ela não conseguia fazer programa, as demais chamavam-na de “viadinho”, o que significava que ela não chegaria a ser travesti. Isso era sentido como humilhação para Rebecca.

Nos bares que frequentavam para fazer programa, elas eram as únicas travestis. Quando Rebecca ficava80 com os rapazes por prazer, por diversão, ela adorava. Conta que ela “pegava” os mais bonitos.

Em uma ocasião, indo para uma dessas baladas por diversão, ela pegou carona com um conhecido por insistência de Julieta. No caminho, passou por um episódio muito traumático, com um misto de violência física, psicológica e sexual. O homem que lhes

79 Perlutan é um medica mento indicado como contraceptivo injetável de uso mensal, que pode també m ser utilizado no controle de irregularidades menstruais e como medicação supletiva estrógeno - progestacional. Fonte: MedicinaNet. Disponível em: http:/ /medic inanet.com.br/bula/ 4082/perlutan.htm . Acesso: 12 jan 2015. As travestis o toma m para faze r os seios crescerem.

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Ficar : relac ionamento afetivo ocasional, se m co mpro misso ou envolvimento. Inc lui be ijos, abraços e

133 deu carona apontou- lhe uma arma, exigiu que fizesse sexo com ele, bateu nela e ainda a humilhou, dizendo que aquilo era para ela aprender a ser travesti. Ela ficou muito abalada com a situação e ainda sente muito medo de entrar sozinha em um carro em que tenha somente o motorista.

Eu fiquei com tanto medo porque eu não sabia a reação que ele ia ter. Não sabia. Nisso eu vi a Ju dando risada e fiquei meio que assim. Porque, ela não pode saber o que ia acontecer, tipo, eu fiquei meio traumatizada com isso. Eu não gosto mais de sair de carro sozinha. Quando eu saio, eu fico meio que assim. Meio que doida assim, olhando para os lados. E se eu vou pra algum lugar assim meio longe eu já fico com medo. Por isso eu já compro uma passagem. Qualquer coisa eu saio do carro e já venho embora. Tipo, foi horrível. Até quando eu lembro assim, me deixa uó. Fico bastante chateada.

Depois do episódio da facada, o padrasto não bateu mais em Rebecca, porque ela continuou revidando.

Depois da facada ele parou um pouquinho. Era só bate boca, porque eu tipo assim, se é bate boca, eu estou discutindo eu estou discutindo. Só não encosta a mão em mim, se não eu fico louca. Porque toda vez ele encostava a mão em mim, toda vez eu batia nele.

Rebecca passou por muitas situações violentas. Gente na rua que queria bater nela. Humilhação em batida policial. O padrasto que a ofendia frequentemente. Ela passava por tudo isso quase todos os dias.

Tipo, quando o meu padrasto me xingava. Me dava uma coisa ruim. Tipo, ele me xingava de tudo o que era nome. Aí eu deitava de noite e começava chorar. Tipo, quando eu passava na rua os meninos começavam a me xingar. Ficava xingando

de “viadinho”, esse nomes populares.

As violências diversas pelas quais passou deixaram marcas profundas em Rebecca. Ela diz que tem medo de andar sozinha na rua, se tem um carro parado ela treme e já acelera o passo, mas em grupo ela fica bem. Disse que já ficou muito mal, deprimida a ponto de querer morrer, mas nunca teria coragem de se matar.

Ela tem dentro de si as marcas das muitas situações em que foi agredida de uma forma ou de outra, mas não consegue lembrar muitos episódios. A memória de Rebecca se apaga sem ela entender o motivo. Ela conta que sofria muito, chorava muito com tudo o que passou, mas que agora não consegue mais chorar.

Foi assim o que eu mais chorava, sabe? Esse tempo foi o que eu mais chorava, de tanto acontecer. Teve uma hora que parei, porque não conseguia mais chorar. Mexer, mexe. Mas chorar mesmo eu não consigo. Eu fui ficando fria.

Antes, Rebecca se sentia humilhada, encabulada, chateada. Mas alguém, alguma amiga da vida, lhe disse que, ao tomar hormônio e se vestir de mulher, ela não poderia baixar a cabeça, nem permitir ser agredida, porque se não, isso duraria a vida toda. Ela tinha de aprender a colocar limite nisso. E ela, mais uma vez, inspirou-se na amiga, aprendeu. Rebecca conta que não se importa mais. Agora muitas vezes também revida, agora já se sente forte para responder à altura.

Hoje eu já tenho resposta à altura pra falar. Tipo, me xingar, eu olhar pra cara

dele e falar: “Você não se enxerga não?” Porque tempos atrás, um gordinho, que

eu não gosto dele, nós dois não se bate, ele estava me xingando. Sai do mercado e passei do lado dele, nisso eu estava indo, ele e a menina dando risada. De mim. Aí nisso, quando eu voltei do mercado, olhei assim e eles estavam continuando

dando risada e começaram a me xingar. Falaram: “Ah, não sei o quê, ‘traveco’. ‘Traveco’ feio, ‘bicha’ pobre”. Do nada. Só sei que eu olhei pra cara dele e falei assim: “Você se acha muito bonito. Você não consegue olhar pro espelho debaixo

de tanta barriga? Porque o que eu mais vejo em você é barriga. É a única coisa que eu vejo em você, meu querido”. Aí eu peguei e sai andando. A menina que estava dando risada de mim, começou a dar risada da cara dele. E eu nem tchum, continuei andando normal.

A pobreza herdada se emaranha no rol de ofensas cotidianas. O estigma de travesti e prostituta não contribui para que Rebecca encontre formas de superar a miséria. Seu maior medo é acabar como as travestis que não conseguem se manter e vão morar na rua.

Quando Rebecca desistiu de tentar fazer programa para ganhar dinheiro, arrumou emprego “no farol”, trabalhou distribuindo folhetos de propaganda nas ruas da cidade, mas era um trabalho exaustivo e ganhava muito pouco. Todos os finais de semana, saía de casa às 6h da manhã e voltava às 20h. Não conseguia nem meio salário mínimo por mês. Mesmo assim, sem outra oportunidade, trabalho u nessa atividade por dois anos e meio.

Tentou uma vaga numa lanchonete de rede de um shopping Center. Viu que um amigo gay trabalhava lá, então achou que poderia. A pessoa encarregada da contratação pediu- lhe que levasse todos os documentos em uma semana, ela providenciou tudo em três e gastou o equivalente a um final de semana de trabalho no “farol” para conseguir a

135 documentação solicitada. No entanto, a mesma pessoa lhe deu várias desculpas e não a contratou. Ela entendeu que o motivo de não ser contratada foi por ser travesti.

Pensei: “Nossa, agora entendi tudo”. Ela não quis que eu trabalhasse lá porque

eu era travesti e os outros eram gays.

Rebecca, depois desta experiência dolorosa, chegou a viver o dilema de deixar de ser quem é para conseguir um emprego, mas aí seria violência demais com ela mesma.

Essa da [nome da lanchonete] doeu muito. Muito. Muito, muito, muito! Porque foi uma experiência muito ruim. Eu me senti muito mal. Eu até pensei em deixar

de ser travesti pra arranjar emprego. Até hoje eu estou pensando nisso assim. Mas tipo, é uma coisa me perguntando. “Se eu deixar de ser assim, eu não vou ser feliz mais”. Eu vou perder minha luz, sabe? Não tem como. Eu vou sentir

morta. Eu não vou sentir a mesma coisa, vai ser pior [do que fazer programa].

Fez um curso de cabeleireira, mas não completou. Chegou a trabalhar em um salão, onde foi explorada. Sentiu nojo de fazer as unhas de uma travesti que gostava de mulher, porque disse que estava muito imunda. Além disso, a dona do salão disse que ela não sabia nada, teria de aprender tudo de novo. Não voltou mais lá, não pretende continuar na profissão.

Atualmente, está desempregada. Procura algum emprego, está disposta a trabalhar em qualquer atividade, está buscando uma oportunidade. Só não quer fazer programa. Sua mãe começou a namorar o vizinho, mas o padrasto continuava morando na casa dela. E roubava dinheiro da mãe de Rebecca, roubava objetos dos irmãos dela para