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4.2 Humanitarian international assignments in NORCAP

4.2.2 A particular employment relationship

A história de Sharon Pinheiro começa no dia 01 de julho de 1991, numa pequena cidade do interior de São Paulo. É a caçula de três irmãos: um garoto é o mais velho e uma menina é a filha do meio. Sua família é muito pobre. Ainda bem pequena a família se muda para outra cidade da mesma região, onde ela vai morar em uma fazenda, numa área rural bem distante da cidade.

Nesta cidade, ela cursa que era chamado de jardim da infância, um período anterior ao pré-primário, hoje Educação Infantil. Desde essa época, Sharon já sente atração por meninos e por brincadeiras “de meninas”.

Só que já tinha aquele desejo de..., né?! Por outros meninos. Desde criança. Pegava a calcinha da minha mãe, vestia a calcinha da minha mãe. Eu ia no jardim de infância ainda. No jardim de infância tinha aquelas brincadeiras que a professora botava fazendinha para os meninos e a casinha de maquiagem para as meninas. Eu não ia na fazendinha, eu ia me maquiar. Eu e um amigo meu. Ficava todo maquiado. Hoje ele continua como homem, né!? Mas continua meu amigo até hoje também. Nós dois

“entrava” na casinha junto com as meninas. As meninas deixavam um pouquinho. A

gente ficava lá dentro passando batom, tudo.

Nesta época, não havia nenhum problema em brincar com as meninas, com brinquedos de menina. As demais crianças encaravam essa diferença normalmente e a professora não os reprimia e nem comentou com os pais dela sobre essas brincadeiras.

Quando tinha cerca de seis anos de idade, seus pais resolveram voltar para a cidade onde Sharon nasceu, pois a pobreza era extrema, tanto que a família voltou a pé para a cidade onde Sharon nasceu.

Esse tempo foi quando a gente estava em [cidade próxima à de nascimento], aí depois eu lembro que quando a gente voltou para [nome da cidade de origem], a gente voltou a pé.

Meu pai levou a gente a pé. No meio do caminho tinha um “tubo” que descia água. Falamos: “Ai pai, ta um calor!” Aí ele disse: “Então entrem naquela água um pouco.” Aí a gente entrou naquele “tubo” de água. Começamos nadar, eu e meus irmãos

brincando. Acho que eu tinha uns seis anos de idade.

De volta à cidade natal dela, seus pais ocuparam um terreno abandonado em uma favela, onde havia muito lixo. Seu pai limpou o terreno e construiu um barraquinho de madeira. Depois de um tempo, conseguiram a propriedade do terreno. Segundo Sharon,

eles vivem até hoje neste local, mas atualmente a casa é de alvenar ia, muito boa e bem grande.

Quando Sharon tinha cerca de sete anos, seu pai começou a perceber que ela tinha um jeito mais afeminado e ela sentia que havia uma reprovação. Um dia, chegando do trabalho, ele a encontrou dançando atrás do barraco onde moravam. Estava vestida apenas com uma calcinha da mãe e rebolava, imitando uma dançarina de um grupo musical famoso à época. Neste dia, por causa disso, o pai lhe deu uma surra e a mãe, ao chegar, também a surrou. Ambos a surraram com fios elétricos84.

Ah, [meu pai] falou que eu era homem, que eu não podia fazer aquilo. Só que eu não entendi nada.

Apesar da “explicação” do pai, Sharon não entendeu o motivo das surras. E daí por diante começou a apanhar mais.

Porque aí também eu fui crescendo, mostrando mais o meu jeito afeminado. Fui mostrando interesse por programas mais femininos do que masculinos da televisão. Meu irmão queria assistir futebol e eu Chiquititas (risos). Era assim, mais essas coisas. Entendeu? Aí eu acho que meu pai também começou a perceber, na televisão quando

apareciam os homens de sunga eu ficava mais “assim”. Desde pequenininha. Entendeu?

Por causa dessa diferença que começou a se manifestar em relação ao irmão e aos colegas, foi sofrendo agressões diversas, tanto da família, quanto dos amigos e na escola.

Na escola... Ia! Sofri nesse período, foi quando começou esse meu jeito afeminado. Aí tinha gente que conversava comigo, tinha gente que não conversava. Tinha uns que me

chamavam de “viadinho”.

Era sistematicamente excluída das brincadeiras. Na escola, família, além das surras, passou por humilhações extremas. Seu pai e seu irmão a leva ram para pescar e, no meio do mato, deram para Sharon uma pimenta para comer, dizendo que era gostoso. Sharon sentiu que essa agressão só ocorreu porque ela se comportava de forma diferente do que era esperado, por ter cada vez mais trejeitos femininos. Ela vislumbrou no rosto do seu pai a marca do preconceito.

Outras violências pelas quais passou podem não se relacionar com sua aparência feminina, como no dia em que seu irmão e sua irmã lhe deram cocô para comer como se

151 fosse chocolate. Ela relaciona essas crueldades à sua feminilização, pois todas ocorreram quando ela tinha nove anos:

[Aos nove anos] Eu já rebolava, já dançava.

São diversos relatos de quando era chamada, na família e na escola, de “viadinho”, “bicha”, etc. Todos da mesma época.

É, eu já ouvia que eu era um “viadinho” [desde pequeno]. Meu irmão também, a partir

de uma idade quando começou a bater de frente, já falava: “Eu não quero um irmão

“viado”! De jeito nenhum!”

Aí eu fui crescendo, percebendo a diferença entre os irmãos, comecei a ficar uma criança problemática na escola. Não queria mais saber de estudar. Entendeu?

Sharon começou a se sentir isolada. Não queria ficar perto de ninguém. Seu principal passatempo no período era brincar de boneca às escondidas. Roubava as bonecas da irmã para brincar. Sozinha

Sharon conta que vestiu sua primeira saia e se assumiu de vez aos 12 anos. Até então, ela não sabia o que era realmente uma travesti.

Eu nem sabia o que era ser uma travesti Não tinha nem ideia. Porque o mundo que eu

vivia era totalmente “assim” [tradicional, fechado]. Era na cidade. Mas convivi só com

o povo dali. Dali, entendeu? Então não tinha nem ideia. Até mesmo na televisão, eu via

“bicha” se apresentando, mas para mim aquilo ali era só uma encenação. Não tinha

ideia do que era aquilo, que elas eram travesti mesmo. Eram mulheres transexuais, entendeu? Iam só se apresentar ali e pronto. E acabou, tirava a roupa e voltava ao normal. Como se fosse um palhaço pintado. Aquilo era um palhaço para mim. Entendeu?

Sharon identificava as poucas travestis que viu na televisão apenas como artistas, não como pessoas que se sentiam femininas. Mas do que artistas, ela também os via de forma ridícula, como palhaços. E ela mesma não se sentia aceita, porque se sentia feminina e por ter atração por homens. Sharon conversava sobre isso apenas com a Margarida, uma mulher mais velha, com seus 40 anos, e que era sua vizinha. Justamente um cunhado de Margarida se relacionava amorosamente com Anne Márcia, a travesti que procurou Sharon. A cena do encontro de Sharon com Anne Márcia é muito emblemática. Trata-se da primeira vez em que ela vê uma travesti em pessoa.

Estava na minha rua, na esquina da rua em frente ao Centro Comunitário, sentada na calçada, brincando.. Era noite. Eu estava brincando na rua. Estava jogando pedrinha. Aquelas de pega e joga, sabe? E sozinha, como sempre. A gente só brincava a noite, porque de dia ia para a escola e depois para a outra, eram duas escolas que a gente

estudava. Ela [travesti] veio da curva debaixo do estradão. Ai, eu vi uma coisa louca

chegando (risos). Aí ela veio como se já me conhecesse. [Ela veio me procurar porque]

Falaram de mim pra ela. É, porque uma pessoa que eu tinha amizade, que gostava muito de mim também, que sabia, que era uma das únicas que eu me abria. Eu falava pra ela mesmo que eu gostava de homem. Era a Margarida, uma vizinha minha que morava lá. Era uma pessoa adulta. E ela tinha um cunhado dela que era envolvido com essa

travesti. “Você é a Cleiton?” “A” Cleiton, ela falou. Deu pra ver que era um homem.

Que era uma travesti. [Nunca tinha visto uma travesti] Na minha frente assim, não. [Quando vi ela vindo] Eu vi uma coisa que eu queria ser. “Eu sou uma mulher”, entendeu? Mas ao mesmo tempo eu fiquei com aquela coisa, sabe? Meio assim. Aí foi onde eu conheci aquela travesti com estilo bem afeminada. “[Cleiton] Sou eu.” “Minha cunhada falou de você. Que você é assim e assado! Que você é afeminado. Você já

pensou em começar a tomar hormônio?” “Você é bonita, por que você não começa a se

hormonizar?” Aí eu: “O que é isso?”. Já foi começando a me explicar. ”Tomar o

hormônio é pra você ficar mais menina.”. “Olha, eu tenho vontade”. “E onde eu consigo isso?” “Na farmácia.” Ela pegou e me explicou, me deu uns para tomar. Comecei a

tomar escondido. Ela falava: “Você não é assim, você é travesti”, foi quando ela acabou me batizando de Cilene.

Sharon se identifica com Márcia, sente confiança e começa a aprender a ser travesti com ela.

Aí, eu comecei a usar a minha primeira saia. Ela começou a me mostrar como virava

mulher, entendeu? Como se comportar como uma mulher. Já fui pegando confiança logo, entendeu? Porque foi uma coisa que eu já fui me identificando com ela. Não tinha ninguém para conversar sobre isso, a não ser a Margarida, mas a Margarida não sabia falar bem sobre isso. Ela era uma mulher, não era uma travesti. Aí a Márcia veio e começou a me explicar. Amiguíssima, por muito tempo. Acho que uns dois, três anos ali, naquela cidade. O marido dela depois de um tempo acabou falecendo. É uma pessoa que faz muita falta pra mim também. O marido, que faleceu.

Ao vestir saia pela primeira vez, Sharon resolve se assumir para seus pais. Com isso, ela acaba sendo expulsa da casa deles. Eles a alojam em um barraquinho de madeira no fundo do quintal, excluindo-a da convivência com a família.

Aí depois disso eu acabei assumindo para meu pai e minha mãe. Foi um grande preconceito. Daí separaram um quartinho pra mim. Me separaram de todos, tiraram eu do meu quarto, me tiraram da convivência da casa. Separaram um quartinho nos fundos pra mim. Aí meu quartinho não tinha nem cozinha e nem banheiro. Tinha que tomar banho de balde. Não podia usar o banheiro da casa. Nem cozinha, nada! Tinha um colchão. E quando chovia molhava tudo dentro do quarto, porque era um quartinho de madeira. Colocava algumas cobertas nas aberturas para não entrar vento. Ficava com aquelas coisas, parecendo uma casinha de cachorro.

Pouco depois, Sharon, então Cilene, passa a se prostituir. Para isso, teve de disputar espaço com as demais travestis, que também se prostituíam.

Aí foi onde também que ao passar dos anos, já estava formada. Comecei a descer a

avenida para poder ir trabalhar. Aí onde tinham duas “bichas”: Jennifer e Leyla. Onde a Márcia já tinha me falado antes: “Olha, quando você começar a se prostituir. Se

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erguer a mão para você, você ergue. “ Aí eu desci para trabalhar na [nome da avenida],

é uma avenida que tem lá na cidade. E realmente, quando cheguei lá, acho que por eu

ser novinha, aquela “bichinha” toda bonitinha, parecendo uma florzinha, uma

menininha, né? As “bichas” já eram mais velhas, quiseram bater em mim e me tiraram

de lá para não trabalhar. Aí foi onde eu tive que pegar e pular pra cima das duas. Foi onde passou a polícia, acabou levando todo mundo para o “xilindró” (risos). [A gente

estava] No “maior pau.” Brigando pra ver quem iria ficar ali para trabalhar. As duas

contra mim. Eu fiquei toda estourada. Era uma menininha! Tudo [isso] com 12 [anos]. Daí a polícia levou, como eu era “de menor”, né? Chamou meu pai e minha mãe. Foi

onde que acabou expandindo esse “babado85”, que eu estava me travestindo e descendo

[para a avenida] como prostituta. Até então era escondido.

Quando os pais tomam conhecimento de que Sha ron está se prostituindo, eles são obrigados a levá- la a uma psicóloga. Mas não contam a ela que Sharon está morando no quintal, na casinha de madeira. Ela achava seus encontros com a psicóloga muito infantis, pois tinha de ficar fazendo desenhos. E no fundo, sentia-se melhor na casinha, sozinha, pois tinha liberdade para ser o que queria ser, sem ter de ficar se submetendo à ridicularização e humilhação cotidianas que sofria em casa.

Sharon teve de brigar com muitos clientes, que faziam o programa, mas não queriam pagá- la, porque era muito criança. Sofreu inclusive ameaça de morte de um cliente que não queria pagá- la, livrando-se ao empurrá- lo de um barranco e sair correndo. Mas conseguiu se afirmar como prostituta e começou a ganhar algum dinheiro.

Quando começou a fazer dinheiro com a prostituição, Sharon começou a ajudar em casa. Comprou celular e microondas para a mãe, então foi levada de volta para morar com o restante da família Por causa do seu dinheiro, começou a ser tratada com dignidade. Ao ter dinheiro e ajudar a família pobre tornou-se um motivo de aceitação, não importando mais a estranheza que causava por ser travesti, sua feminilização já não ofendia tanto assim a família. Mas para Sharon, trata-se de apenas de interesse e de uma grande falsidade, não de afeto.

É, começaram falar até “Eu te amo, meu filho”. Foi aquela coisa que nem quando eu era

criança eu tinha ouvido falar. Eles começaram a me amar.

A escola, porém, tornara-se um verdadeiro inferno, ela passara a ser ofendida todos os dias, praticamente o tempo todo. Então, aos 12 anos de idade, abandonou a escola.

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Babado: pode ser um boato, uma intriga, u m me xe rico ou fofoca sobre assunto polêmico. Ta mbé m

Eu gostava de estudar. Adorava ir à escola. Mas não dava. Era insuportável. O tempo todo. Jogavam papelzinho na minha cabeça. Eram quase todos.

[Xingavam] de “viadinho”. Até mesmo quando eu entrava na escola, eu já

pegava e saia. Pulava o muro da escola. Não queria ficar de jeito nenhum. Eu não queria ir. Na escola não teve agressões físicas. [Era os] Xingamentos mesmo. Me incomodavam. Na hora de comer eu ficava sozinho no recreio. Nem as meninas, nem os meninos [ficavam comigo]. Era coisa do interior. Aquela coisa “caipirona”. Igual eu falei pra você, na cidade eram só quatro travesti só.

Porque na cidade só havia quatro travestis, incluindo ela, Sharon tem a percepção de que sua forma de ser, considerada diferente, fazia com que as demais pessoas a estranhassem e hostilizassem. Esse estranhamento a estigmatizava.

Sair da escola a fez perder a oportunidade de dançar profissionalmente. Sharon, desde os sete anos, participava de um projeto social que conheceu no centro comunitário onde estudava. Seu pai queria que ela fizesse futebol, mas ela preferia a dança.

Eu fiz Balé Clássico. Depois do Balé Clássico eu passei pro Balé Russo. Foi no Conservatório Integrado de [nome da cidade] também. Nesse tempo meu pai queria que eu jogasse futebol, mas eu não queria jogar futebol. Aí eu acabei conhecendo o projeto no centro comunitário onde eu estudava, que dava esse curso de dança. A professora

falou: “Por que você não vai aprender academia?” E me deu uma bolsa na academia. Aí

eu comecei a estudar com ela. No Ballet Russo. Fiquei 10 anos ali na academia. Aí por conta da prostituição eu acabei parando [por ter ido se prostituir em São Paulo]. Mesmo

entre “trancos e barrancos”, eu estava ali lutando. E ela [a professora] falando da escola, que eu não queria mais. Ela falava: “Volta a estudar porque vai ter um projeto

que vão abrir vagas para um curso técnico de dança pra você fazer.” “Eu não quero

mais ir pra escola, tia Geni.” Eu não queria. “Eu não quero ir pra escola, tia Geni.” “Mas você vai perder essa oportunidade?” E eu realmente perdi. As pessoas que faziam

comigo estão todas formadas. Conversei com eles no Face [Facebook], são todos professores hoje de dança, trabalham na área. E é uma coisa que eu poderia ter feito também.

Sharon abandonou a dança com cerca de 17 anos. Aos 18 anos, talvez por ter-se percebido tratada de forma melhor ao ter dinheiro, resolveu mudar-se para São Paulo onde imaginava que ganharia muito dinheiro se prostituindo. Mas não foi o que aconteceu. Sharon conta, rindo, que em São Paulo ela acabou ficando “ainda mais fodida”.

Sharon veio para São Paulo com uma outra mulher de sua cidade que pouco conhecia. Não tinha onde ficar, não conheciam a cidade. Foram para uma casa na periferia da Zona Leste, onde a mulher tinha alguns conhecidos. Já na primeira noite, Sharon passou por problemas, com algumas pessoas desta casa perseguindo-a e tentando roubá- la. Ela

155 fugiu e, depois de algumas dificuldades, foi para o centro da cidade, percorrendo mais de 20 quilômetros a pé.

Encontrou na Praça das Bandeiras um grupo de “bichas” moradoras de rua, que a acolheram e mostraram- lhe onde poderia trabalhar como prostituta. Ela, então, já morando na rua, começou a se prostituir na região Estação da Luz, também na região central da cidade. Lá encontrou muita dificuldade, pois havia muitos usuários de drogas, que tentaram roubá-la várias vezes.

Como estava meio perdida na cidade, acompanhava quem quer que lhe desse alguma dica, alguma informação que lhe parecesse com alguma oportunidade de sobrevivência. Assim, depois de um ano em São Paulo, acompanhou uma travesti que lhe disse que a área de prostituição na avenida Cruzeiro do Sul era um bom lugar para trabalhar. Ela resolveu tentar a sorte.

Ah, foi uma “bicha” que me levou também. Porque como eu estava na rua, qualquer um que pagasse na mão e dissesse: “Vamos ali”, eu ia. “Vamos ali que é bom”, ou que fosse pra ganhar dinheiro: “Vamos”! É, eu ia. Embarcava de cabeça. Porque eu

precisava de dinheiro. Agora eu já tenho outras fontes. Pessoas que me ajudam também, entendeu? Mas quando eu cheguei foi a minha única saída. A prostituição mesmo. Era a única coisa que eu sabia fazer na verdade. Né, menina!?

Lá, sofreu um ataque de um grupo de skinheads86 que a cercaram e bateram nela a pauladas. Ficou quinze dias internada na Santa Casa, pois teve fraturas no crânio e muitos ferimentos. Ela mostra muitas cicatrizes desse episódio violento. Para ela, foi muito difícil superar esse momento, o que ela chama de “babado87”.

Eu caí na base da paulada. Com um monte de pauladas na cabeça, no corpo. Fiquei ali

desmaiada. Fui acordar na Santa Casa. Que foi “babado”, mulher, pra mim. Pra me

recuperar. Eu fiquei duas semanas internada por conta dos ferimentos. Mas eu não

queria ficar internada. Falava: “Pelo amor de Deus, quero sair daqui”. Entendeu? O médico não deixava. Os médicos falavam: “Você não pode sair agora”. No meio raio X

dava algumas rachaduras no crânio. Até hoje eu sinto umas pontadas na cabeça. Isso daqui [mostrando uma cicatriz] foi por conta daquele dia também.

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Skinheads: subcultura orig inária dos jovens da classe operária no Reino Unido no fina l dos anos 1960 e, ma is tarde, es palhada para o resto do mundo. São cha mados desta forma por cortare m o cabe lo rente e se parecerem carecas . A moda sk inhead apresenta um estilo particular de se vestir, o culto à virilidade, ao futebol e à bebidas. A cultura sk inhead é també m ligada à música. No Brasil, o termo comu mente designa grupos de jovens que têm o cabelo raspado e que agridem co m v iolência pessoas LGBTT, negras, prostitutas, entre outras.

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Babado: pode ser um boato, uma intriga, u m me xe rico ou fofoca sobre assunto polêmico. Ta mbé m pode significa r situação difícil, cons trangedora ou violenta.

Depois de sair do hospital, ela voltou a encontrar as “bichas” da Praça das Bandeiras, as que a acolheram logo que ela chegou. Só então, por intermédio delas, descobre que as ruas da região da Cruzeiro do Sul são muito perigosas para quem faz pista sozinha, ou seja, não trabalha para alguma cafetina que domine a área. Mas ela conta que estava trabalhando fora da área das cafetinas e, talvez, por isso mesmo também não contava com proteção, ficando mais exposta à violência dos crimes de ódio do tipo cometido por