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A história de Iara Pereira começa em 8 de outubro de 1975. Iara nasceu em uma pequena cidade que fica na divisa entre Rio Grande do Norte e Paraíba, mas veio ainda bebê de colo para uma cidade do interior paulista, mas não muito distante da capital. Os pais vieram em busca de uma vida melhor. Quando migraram para São Paulo, tinham quatro filhos, Iara era a caçula. Já em terras paulistas, tiveram mais dois filhos. Então, Iara tem seis irmãos e irmãs. Quando Iara tinha completado a 4ª séria do antigo primário, atual Ensino Fundamental I, sua família mudou-se para outra cidade do interior paulista, maior e com mais oportunidades de trabalho. Iara sente-se mais ligada a esta última cidade do que qualquer outra em que já viveu, mesmo morando e trabalhando na capital paulista já há quatro anos.

Logo que migrou, sua família passou por muitas dificuldades financeiras. O pai e a mãe trabalhavam fora, mas mesmo assim Iara se lembra de terem passado muita necessidade, de não terem o que comer em muitas oportunidades.

O pai de Iara teve muito problema com alcoolismo, frequentava bares, tinha outras mulheres. O problema do alcoolismo do pai era recorrente. Foi constante até a família se converter e se tornar evangélica, quando ele parou por algum tempo. Porém, mesmo depois de convertido, passou por várias recaídas. O alcoolismo dele foi uma constante na vida da família, com interrupções temporárias. Por conta deste problema do pai, era a mãe quem sustentava mais a família. Ela trabalhava muito e, por isso, ficava pouco tempo com os filhos e as filhas.

Iara não brincava muito na rua, porque ajudava mais em casa, lavando louça, limpando a casa. Também não sentia muito atração por algumas brincadeiras. Gostava mais das que eram em grupo, em que meninas e meninos brincavam juntos, mas tinha pouca atração por brincadeiras com bola, como jogo de taco, vôlei ou futebol.

Lembra-se de que gostava muito da escola, chorava se, por algum motivo, era obrigada a faltar. Foi uma aluna mediana, nunca foi muito mal, nem tirava notas altíssimas. Também não se lembra, durante o período em que estudou no primário, de nenhum episódio ruim pelo qual tenha passado. O que Iara não gostava mesmo era de ver outras crianças brigando entre si.

Lembra que, em casa, os irmãos às vezes chamavam-na de “viadinho” ou “bicha” e que, nestes casos, a mãe a defendia. A mãe defendia todos os filhos e filhas, na verdade, mas com ela havia uma proteção um pouco maior. Por outro lado, era da mãe que Iara apanhava mais. Em um episódio que a marcou, Iara apanhou debaixo do chuveiro por uma arte de criança. Apesar dos machucados nas costas e de a mãe ter cuidado deles depois, Iara sente que foi muito mais doído emocionalmente, foi muito pesado para ela. Inicialmente, Iara não tem muita recordação de ter sido ofendida na rua ou na escola enquanto morava na primeira cidade do interior paulista para onde se mudara m. Recorda-se de uma brincadeira de esconde-esconde no escuro, em que, muito pequena ainda, ficou dentro de um armário com um amiguinho mais velho, que pediu que ela lhe chupasse o pênis. Lembra-se de não atender ao pedido e de ter mordido o garoto, que gritou. Esse episódio lhe traz outras recordações, desperta memórias.

Na verdade, Iara passou por várias situações em que era chamada “viadinho” e “bichinha” na escola, tanto que um amigo muito próximo, para ajudá-la a se desvencilhar desse estigma, tentou fazê-la jogar futebol com os meninos, empurrando-a para a quadra, mas a tentativa dele não deu certo, porque ela não sabia e não queria jogar futebol.

Ele veio agora no sentido mesmo que as outras pessoas falavam que eu era “bicha”. E

de repente ele não queria que eu fosse e queria me ajudar. No sentido de mostrar: “Não,

ele não é “bicha””.

Iara sempre foi feminina. Sua mãe sempre dizia para seu pai, quando ela era criança, que ela não podia fazer serviço pesado, não tinha nascido para isso, mas Iara nunc a foi frágil fisicamente. Lembra-se de que, aos sete anos, queria ficar com os meninos que se interessavam por sua irmã mais velha. Na época, ela entendia que sentia atração por eles, mas hoje acha que queria ser cortejada, queria ter a atenção deles.

Os meninos queriam ficar com ela e eu queria ficar com os meninos. E eu não entendia porque eles não queriam ficar comigo e queriam ficar com ela. Entendeu? Então, hoje eu me questiono [se sentia atração por eles], na época sim. Hoje eu me questiono assim, se eu sentia atração pelos meninos, ou eu queria ter a oportunidade de ser cortejada por eles. Ser paquerada.

Iara tinha sete anos quando teve sua primeira relação sexual. Foi com um garoto de uns 14 anos, vizinho da família. Não houve um abuso sexual, pois foi Iara que o seduziu, insistiu mesmo para ficar com ele.

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Eu lembro de a gente brincar. Eu não consigo ter certeza de ter penetração ou não, mas eu lembro de a gente ter um ato sexual ali, que me marcou a ponto de, na minha cabeça, eu ter quase certeza de que ele chegou a me penetrar. E eu lembro de ter chupado ele

também. [Não posso] Falar: “Ah, eu lembro o prazer que eu senti”. Não. [Não posso dizer que] “Lembro que eu senti dor”. Não. Creio que dor não, se não teria marcado.

Entendeu? Não vejo nada de excepcional nele ou neste ato. Além da única coisa que eu disse pra você que eu consigo me lembrar, que é o cheiro.

Quando se mudaram para a outra cidade, lembra-se de ter feito, a partir de 12 anos, parte dos Patrulheiros, uma espécie de programa para menores carentes que, em tese, daria uma formação para que eles pudessem ter uma inserção no mercado de trabalho. Na prática, eles trabalhavam mesmo como Office boys e não havia nenhum tipo de formação, mas ela fez todo o programa, até completar os 18 anos, e depois foi trabalhar em um escritório de prótese dentária.

Depois da primeira relação sexual, aos sete anos, Iara acabou tendo relações sexuais com seus primos, depois de seus pais terem se mudado de cidade. Quando tinha seus 13 anos, lembra-se de um episódio em que um dos primos, com quem tinha tido relações sexuais, contou para os outros. A história chegou aos ouvidos de sua avó, que contou para seu filho, o pai de Iara. Ele veio lhe tirar satisfações, chegou a levantar a mão para bater em Iara, mas a mãe, segurando a mão dele, impediu-o. Ela passou a ter vários relacionamentos sexuais com homens, mas quando entrou para a igreja, parou.

Neste período, as gozações na escola eram mais frequentes. Iara nunca suportou ser chamada de gay, isso a fazia sofrer de forma muito intensa.

Na escola, neste período, ela não se via de uma forma feminina, mas as outras pessoas sim. Tanto que ela queria provar que não era feminina, que não era gay, que “era homem”. E se esforçava muito para ficar com garotas e provar sua masculinidade dessa forma.

“Mas gente, eu não posso. Eu tenho que ser homem. Tenho que ser homem”. Era só isso.

E a única forma que eu conseguia provar era ficar com uma menina, arranjar uma namorada pra provar que eu era homem.

Com esta intenção, teve uma namorada por uns seis meses, mas não havia atração física, não “rolava química”. Chegou, inclusive, a tentar ter relação sexual com ela, mas não deu certo. Mesmo tendo namorada, as gozações na escola sobre sua feminilidade aparente não cessavam. Isso a incomodava.

Frequentando a igreja ela conseguiu apaziguar um pouco estes sentimentos.

Então, eu não desencanei. Eu fiquei tentando provar, até que, meus pais iam pra igreja, o

pessoal ia pra igreja. Falei: “Pronto, este é o caminho a verdade, a vida. É a salvação, libertação... Então vai ser por aí”. Entendeu? Comecei a frequentar a igreja. Me batizei,

acho que eu devia ter uns 15 [anos]. Creio que uns 15 ou 16 [anos]. Aí eu fui pra igreja, me entreguei pra Cristo, porque ia me ajudar. E ai, beleza, parece que as coisas estavam fluindo. Não tinha arranjado as namoradinhas, não tinha transa. Mas na igreja não precisa ter transa. Então era tranquilo.

Tinha parado de ter relações sexuais com outros rapazes, estava tentando mostrar sua masculinidade. Estava convivendo em um ambiente em que o sexo não era valorizado, ao contrário. Até que, um dia, tomando banho, um rapaz da igreja entrou no banheiro para tomar banho também. Não houve nada entre eles, mas vê- lo nu mexeu novamente com os desejos de Iara, que voltou a ter relações sexuais com rapazes.

Nesta época, ela teve relações sexuais com um rapaz que era diácono da Igreja Pentecostal Deus é Amor. Para esta igreja, quem faz alguma coisa que contraria seus princípios era chamado de “desviado” e tinha de cumprir um ano de prova. Isso significava ficar um ano sem fazer parte de certos ritos importantes para aquela comunidade religiosa, como se fosse um período de purificação. E descumprir os preceitos da religião e não passar pelo ano de prova atraía acontecimentos muito ruins para a pessoa, como punição divina. Como Iara não conseguia deixar de se relacionar com homens, resolveu não frequentar mais a igreja, não adiantava ficar mentindo e se enganando. Depois de alguma insistência de sua mãe, ela voltou e, para sua surpresa, viu que o diácono com quem ela tinha saído estava rezando o culto. Pelas contas de Iara, não tinha passado o tempo necessário para que o diácono “desviado” tivesse feito o ano de prova. Iara passou todo o culto esperando que uma tragédia acontecesse com o diácono – um raio lhe cairia na cabeça ou ele despencaria do púlpito, algo desse gênero – mas nada disso aconteceu. Para Iara, isso serviu como um fator de desencanto com aquela igreja.

Iara já havia se vestido com roupas femininas às escondidas. De forma eventual, usara peças de roupa de sua irmã e de sua mãe, mas sem ninguém vê- la. Mas a primeira vez em que usou uma roupa feminina com um homem vendo-a foi extremamente significativa. Ela tinha seus 16 anos e ficava às escondidas com um pastor de uma igreja batista. O pastor era casado, tinha filhos, mas levava Iara para sua casa, nos fundos da igreja, sempre que estava sozinho. Certa vez, viajaram para o Rio de Janeiro juntos.

163 Nesta oportunidade, o pastor contribuiu para que Iara vestisse roupas femininas de pessoas da casa em que estavam hospedados. Quando Iara foi vista vestida de mulher, sentiu que não queria mais deixar de vestir-se assim.

Só que com o pastor foi o clique, porque eu não queria mais tirar. [O fato de se vestir e] De [o pastor] me ver daquele jeito, e me aceitar daquele jeito... E aquilo fez diferença. Não sei se de mulher, mas com aquelas roupas. Até então eu não tinha essa noção de

[estar vestida de] mulher. Só que isso foi um “bum”.

Quando voltaram do Rio de Janeiro, outra e xperiência marcante foi ter ido com o pastor, pela primeira vez, a uma boate gay. Ela se sentiu muito bem, dançou muito à vontade. E sempre que ia para a casa do pastor, ele a deixava usar as roupas da mulher dele. Na verdade, ela já não queria mais sair com o pastor, que se mostrava ciumento e “pegajoso”, mas poder usar as roupas da mulher dele fez com que ela continuasse se relacionando com ele por um tempo ainda.

Nesta época, ela terminou a 8ª série na escola em que estudava e teve de se mudar de escola, pois a família se mudou de bairro. Na escola nova, conheceu mais duas “bilus90”, duas outras “bichinhas”. A partir daí, “foi babado”: começaram a se montar no carnaval. Um tempo depois, com seus 17 anos, as três iam de ônibus para uma cidade próxima, onde havia uma boate gay, e se montavam já no ônibus. Desciam do ônibus já vestidas de mulher, curtiam a noite na boate gay e depois voltavam para casa. A experiência era ótima para Iara, que estava começando a experimentar ficar um tempo como mulher em público.

E eu achava o máximo os meninos querer ficar comigo do jeito que eu era. E do jeito que eu era, era mentira. Porque eu não era daquele jeito. Só me arrumava dentro do ônibus e descia lá.

Assim o processo de feminilização de Iara, e das duas amigas com quem se montava, foi deflagrado. Uma delas acabou não querendo se transformar corporalmente, montava- se e fazia shows como transformista. Mas Iara e a outra amiga foram em frente. Elas descobriram os hormônios, passaram a raspar as pernas, iam ver as travestis “fazendo pista” antes de entrar para as aulas.

Comecei a comprar, foi onde a gente raspou as pernas, foi quando ela falou de hormônio, que eu não sabia. Foi onde fomos tomar hormônio. Foi quando ela falou pra

mim: “Vamos olhar as travestis lá em cima”. A gente começou a subir escondida pra ver

as travestis que trabalham lá em cima, na prostituição. Depois ia pra aula. Isso foi

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desencadeando neste período. Aí comecei raspar as pernas. Aí fui na farmácia tomar um hormônio. Porque eu descobri o hormônio.

Iara não se dava conta de que as transformações corporais estavam se tornando evidentes e de que não dava mais para esconder sua feminilização. Ela achava que conseguia passar despercebida, mas na verdade, não. Até que seu irmão veio tirar satisfações com ela.

Até que um dia o meu irmão chegou em mim pra brigar comigo, porque um amigo dele

foi falar pra ele que tinha me visto na rua e tinha achado que era uma menina. “Ó, o seu irmão está muito feminino”. Aí ele veio brigar comigo e isso me causou preocupação. Falei: “E agora? Meu pai? Minha mãe? Meus irmãos?”

E pela primeira vez ela se deu conta de que, a partir dali teria de enfrentar situações para as quais não se sentia preparada, nas quais ainda não havia pensado. A preocupação foi tão forte, que Iara acabou saindo de casa.

[Saí de casa] Desse episódio, porque daí começou a me preocupar. Pensei: “Não dá mais pra esconder os meus peitos, o cabelo está descendo, as pessoas estão me

confundindo. Então eu tenho que sair de casa”.

No momento em que ela saiu, seu pai e seu irmão pediram para que ela não fosse, o restante da família chorou muito. Eles disseram que, se fosse por Iara ser gay, que eles tentariam mudar para aceitá- la. Mas ela não quis ficar, porque ela não era gay. Já estava com seios, tinha as pernas raspadas e só andava de calça. Hoje, retrospectivamente, ela acha que se tivesse conseguido conversar com eles, eles a entenderiam e a aceitariam, mas naquele momento isso foi impossível para ela.

Iara foi morar em uma pensão. Ela já trabalhava desde os doze anos, portanto tinha como se sustentar. Nesta época, trabalhava como auxiliar de escritório, tinha seus 17 ou 18 anos. No entanto, depois de voltar das férias foi mandada embora. Um mês tomando hormônios tinha feito muita diferença. A alegação para sua dispensa foi a de que estavam fazendo cortes na empresa, mas Iara tem certeza de que o motivo real foi por ter se tornado “megafeminina”.

Neste mesmo período, Iara e suas duas amigas “bichas” da escola já estavam sofrendo muita perseguição na escola. Elas já não usavam o banheiro masculino e, com ajuda de outras colegas, usavam o banheiro feminino apenas quando ninguém mais estava

165 olhando. As amigas ficavam dando cobertura na porta para elas não serem surpreendidas usando o banheiro das meninas.

Ao voltar das férias de final de ano, quando estava começando o segundo ano do colegial, atual Ensino Médio, as três passaram a ser ainda mais hostilizadas, especialmente porque Iara e uma das outras “bichas” estavam tomando hormônios e voltaram para a escola muito diferentes, muito mais femininas do que quando tinham saído de férias. Isso fez com que a perseguição que já sofriam fosse muito intensificada, culminando com uma “chuva” de pedras portuguesas na porta da escola. Depois disso, elas abandonaram a escola, não havia como continuar.

Eles estavam sempre ameaçando a gente, e um dia que a gente estava do lado de fora, isso que eu te falei, parece que dentro do portão a gente sempre teve segurança, do portão pra fora não. Neste dia a gente estava do lado de fora do portão quando as pedras vieram não sei de onde, não sei quem foi. Aí uma disse pra outra: “Não vamos

mais. A gente vai morrer”. E aí a gente decidiu não ir mais. E aí não fomos mais à

escola.

Iara estranha, como ativista que é atualmente, que o corpo docente da escola em que estudou e de onde foi expulsa - não oficialmente, mas por tanta hostilização e violência que sofreu -, nunca tenha feito nenhum movimento para impedir as violências e propiciar um ambiente favorável para as três “bichinhas” - ela, Cristiana e Magnólia continuarem estudando. Como militante, voltou à escola muitos anos depois para dar uma palestra, relatou o que aconteceu com elas e, incrivelmente, não havia nenhum registro do ocorrido: não havia memória institucional das agressões e não havia ninguém que soubesse do fato, nem mesmo os professores que já atuavam na escola na época. A superexposição e a violência brutal pelas quais passaram acabou se tornando invisível, foi apagada.

Depois de perder o emprego e ser impedida de continuar na escola, Iara e Cristiana começaram a aumentar a frequência com que iam para a cidade vizinha e, ao mesmo tempo, passaram a visitar mais as travestis que faziam pista perto de onde tinham estudado. Sem alternativa para se sustentar e sem poder estudar, ambas começaram a fazer programas.

Na cidade vizinha, elas iam montadas e faziam alguns programas. Na cidade em que moravam, enquanto se montavam, ficavam em algumas praças. Mas a disputa de um

lugar no ponto de prostituição não foi tarefa fácil. Tiveram de enfrentar as travestis veteranas.

A gente se montava e ia para umas praças, umas praças específicas, e depois voltava pra casa. Depois, quando a gente começou a ficar 24 horas assim [como mulher], a gente

começou a ficar em ruas desconhecidas. Então as “bichas” desciam lá de cima pra

grudar91 a gente lá em baixo. Entendeu? Mas a gente já sabia que elas iam descer pra grudar, então ficávamos espertas. E quando a gente via elas, a gente ia embora.

O processo de conquista de espaço levou cerca de três anos. Elas conheciam algumas travestis nas boates, faziam amizade. Conheciam outras em outra oportunidade, até conseguirem chegar mais perto do ponto. Depois, a Cristiana começou a namorar um homem que conhecia todas as travestis, um cafetão, aí as portas se abriram para elas, que passaram a ocupar espaço no ponto juntamente com as outras. No início, fazer programa para Iara era muito bom. Ela se sentia valorizada, bem vista.

Olha, se eu disser pra você que foi bom, eu não vou estar mentindo. Porque era uma

ótima. Você chegar e parar um carro. Um “puta” carro. Com um cara lindo, e o cara

olhar pra tua cara e falar que você é a coisa mais linda que tem aqui. Entendeu? Então isso te dava uma mega valorização. Então no começo foi bárbaro, foi ótimo.

Isso, para Iara, significava aceitação. Ela vivia como Iara 24 horas por dia. Era Iara na pensão em que morava. Ela era Iara na rua. Ela era Iara nas boates. E na pista.

Na pensão, onde dividia um quarto com Cristiana, Iara conta que conseguiu descontos porque passou a trabalhar lá, ajudando a cuidar do estabelecimento. Essa é, aliás, uma característica de Iara: sempre ela procura ter diversas fontes de renda simultaneamente, para não depender de uma só. Mesmo quando teve trabalho fixo, Iara vendia produtos