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4.1 The expatriation process and related challenges

4.1.2 During mission

A história de Camily Pergolini começa no dia 13 de julho de 1987, no Rio Grande do Sul. É a caçula de quatro irmãos, os dois mais velhos são meninos e a terceira, menina. Antes de Camily nascer, sua mãe tinha tido uma gravidez malsucedida. A criança que não vingou, Camily reforça, era uma menina. Sua família tinha muito dinheiro e seus pais viajavam muito. Seu pai, porém, não soube administrar o dinheiro e a família faliu. Seus pais se mudaram para uma cidade no litoral gaúcho, próxima à divisa com Santa Catarina. Os avós, tios e tias por parte de pai ficaram na região serrana.

Camily não foi com o restante da família, ficou com seus avós e uma tia. Segundo o que sua mãe conta, como Camily era muito pequena, seus pais não queriam que ela passasse fome e ficasse na situação ruim em que ficaram ao tentar recomeçar a vida. Ela ficou, então, até cerca dos oito anos separada dos pais, sendo criada por uma tia, irmã do seu pai, que lhe dava tudo do bom e do melhor. Ela recorda, deste período de sua vida, que ficou muito doente, passou algum tempo no hospital em estado grave. O s médicos chegaram a lhe dar menos de uma semana de vida, mas ela acabou se recuperando, sobreviveu.

Outra memória desta época é sua primeira recordação de ter sofrido algum tipo de preconceito na escola. Foi pra aula usando uma pena pintada na cabeça e uma máscara vermelha e os garotos a ofenderam, chamando-a de “bichinha”. Na mesma época, porém, lembra-se de também de ter dado um selinho em uma menina. Estava explorando as possibilidades, acha Camily.

Por volta dos oito anos, foi se juntar aos pais na cidade litorânea. Lembra-se de a casa ser muito pequena, pobre e muito fria. Mas seus pais estavam começando a se estabilizar e melhorar novamente de vida, então logo se mudaram para uma casa espaçosa, de dois pisos, em um bairro melhor.

Antes de se mudarem, recorda-se de uma experiência com um garoto vizinho, cerca de dois ou três anos mais velho, que era, Camily ressalta, muito rico. Ele pegava revistas pornográficas do pai e reproduzia as posições sexuais com Camily.

Agora eu esqueci o nome do menino, John, uma coisa assim. E eu era muito

ele pegava revistas, acho que era do pai dele, essas coisas de posição e não sei o quê e fazia comigo, só que eu não entendia. Eu não entendia o que era. Ele

falava: “Faz a posição e tal”. E eu fazia. Mas nem tinha penetração e nada. Não

sei, mas talvez tinha mais malicia dele, ele era mais velho, lógico. Tipo uns 2, 3 anos mais velho do que eu, por aí. Acho que ele tinha uns 10, 11 anos e eu tinha 8. E daí fazia as posições, me convidava pra ir à casa dele. [...] Eu me lembro dessas coisas assim. Me lembro que ele tinha bastante dinheiro, que na época eles viajavam pra Disney. Na época só ia quem tinha muito dinheiro, porque era

muito caro essas coisas. Ele foi ver a Xuxa uma vez, tirou foto no programa da

Xuxa. Fiquei morrendo de raiva.(risos)

Pouco depois, mudaram-se e Camily brincava com muitas crianças da vizinhança. Frequentava a escola, mas não gostava muito de estudar, era preguiçosa, por isso estava sempre algumas séries atrasada. O pai era caminhoneiro e viajava muito, os irmãos mudaram-se para outras cidades e a mãe abriu uma frutaria. Nesta época, ela convivia mais com a irmã e gostava de brincar com as Barbies dela.

Essa época tinha a Barbie, eu brincava com as meninas. Minha mãe ficava louca comigo, porque eu brincava com Barbie, essas coisas. E ela não gostava. Eu tinha mania de cortar tecido de vestido, de roupa da minha mãe, tecido velho, eu costurava e fazia roupas para as bonecas. Até aquela Barbie ali [apontando para a estante] era a que eu usava, eu tenho até hoje ela.

Além de brincar com as garotas de Barbie, Camily também “brincava de menino”, como um menino, porque tinha menino com quem brincar e ela “ia no impulso”. E, mais tarde, entre 10 e 12 anos, fazia troca-troca com os outros meninos e gostava. Nesta época, diz que já sentia, como os garotos, certa malícia na brincadeira. E também já se questionava se isso seria ou não certo, porque na escola já começavam a importuná- la, mas mais por brincar com meninas e não gostar de jogar futebol. Ela se sentia bem em todas as brincadeiras que fazia, sendo ou não considerada de menino, mas colocara em sua cabeça que, quando crescesse, namoraria meninas, pois isso é o que diziam ser certo. Ficava em conflito entre seu desejo e o que era considerado certo pelas demais pessoas.

É. Normal, de criança e tal. Mas eu me lembro que eu gostava. Tinha um menino,

lindo o menino, surfista, todo definido, lindo. Foi onde eu comecei: “Não gente,

espera aí só um pouquinho, estou gostando disso”. Mas ao mesmo tempo: “Não,

você não está”. Entendeu?

Apaixonou-se por um garoto, mas ao mesmo tempo mandava cartas apaixonadas para a irmã dele para, talvez de forma inconsciente, provar para as outras pessoas que não queria ser gay. Diz que as pessoas deduziam que era gay, mas ela mesma não se dava

117 conta disso. No colégio, por volta dos 15 anos, já havia algum tempo que estudava com a mesma turma e Camily sempre ficava só com as meninas. Por causa disso, infernizavam sua vida, com ofensas de “viado”. E ela baixava a cabeça.

Eu me sentia mal, não vou te mentir. Porque as pessoas vinham pra cima de mim sem motivo nenhum. É ruim. A pessoa fazer isso com você pelo seu jeito, sem você estar fazendo mal a ninguém.

Conta que, quando fez 10 anos aproximadamente, a tia com a qual morara antes de voltar a viver com os pais adotou uma menina, que acabou roubando toda a atenção da tia. Camily diz que toda a atenção da família era para ela e que, depois disso, passou a disputar o afeto familiar com essa prima adotiva.

Em um episódio de que se lembra, quando estava na 6ª ou 7ª série, um rapaz da escola - que ela e todas as garotas com quem andava achavam bonito -, agrediu-a porque pensou que ela tinha assoviado para ele. Camily conta que ainda tentou explicar que não havia sido ela, mas não adiantou. Ela sentiu- se péssima.

Um sentimento ruim assim. Sentimento de culpa, talvez. Por estar, por achar ele uma pessoa bonita. Ou por me sentir atraída talvez por ele. E, sei lá assim, um sentimento de culpa mais assim. Sentimento de insatisfação por não poder

responder aquilo. Não poder dar resposta e falar que ele está sendo ignorante.

Porque pra mim, como eu te falei, a visão que eu tinha, era que eu estava errada. E que até então, pelo ponto de vista, ele tinha razão de querer bater em mim, porque era uma coisa errada. Era uma coisa que eu não tinha que estar sentindo.

Camily sente-se culpada por ter sentido atração pelo rapaz. E ficou muito aborrecida por não conseguir reagir à altura. Sentia que era a errada, apesar de ela ter sido agredida. Camily não pensava ter direito de sentir o que sentia e que, por isso, o garoto podia agredi- la. Era como se ela merecesse a ofensa e a agressão. Ela chorou de raiva. Chorou mais pelas ofensas do que pelos empurrões. Sentiu-se envergonhada por causa das amigas. Em outras oportunidades, até reagiu, mas não o suficiente. Sentia medo, vergonha e culpa misturados. Pensava que, sem mostrar que era gay, já era agredida. Se mostrasse, talvez até a matassem.

É como eu estou te falando, não vou conseguir lembrar exatamente. Era um sentimento de raiva. Me dava raiva e gerava um sentimento de mais culpa por eu ser aquilo que eu era. Que talvez estava pensando em assumir. Então, o que

acontece: “Eu não mostro isso, imagina na hora em que eu assumir isso? Imagina, vão me matar”.

Essas agressões, então se tornaram constantes. E Camily não falava para ninguém o que estava acontecendo. Sua vida virou um inferno. E tinha de gerenciar esse segredo, pois temia que sua mãe soubesse que estava apanhando e, pior, tinha medo de que ela soubesse o motivo de estar sendo agredida. Imaginava que sua mãe ficaria contra ela. E chorava sozinha, em silêncio.

Eu lembro que cheguei em casa e chorei um monte, mas eu não contava pra

minha mãe. Não contava pra ninguém isso. Eu ficava pensando: “Qual é o motivo que eles estão me batendo?” Daí iam falar, entendeu? Minha mãe não

sabia, então eu não falava nada. Porque eu não queria que minha mãe soubesse disso. Minha mãe também iria ficar contra mim. Por isso eu não falava. Tudo, lógico. Daí, o que mais que agora eu me lembro. Eu lembro que nessa época todos os dias eles queriam me bater. Todos os dias eles tentavam me bater. [...] Mas era porque eu era gay, óbvio. Não tem outra explicação.

Mas depois de um tempo, Camily não aguentava mais a situação. Contou finalmente para sua mãe que estava apanhando, mas disse que não sabia o motivo. Para proteger Camily, a mãe pediu que uma funcionária da frutaria a levasse e trouxesse da escola de carro por um tempo, daí as agressões no trajeto escola-casa pararam.

Camily, nesta época, achava que ser gay era querer ser mulher ou ser passiva. Foi quando conheceu uma amiga lésbica que a ajudou a perceber que não precisava ser assim. Camily também conheceu um garoto da sua cidade que era gay.

Eu comecei a criar coragem de me assumir. Ela me mostrava, tinha uma revista de Porto Alegre, de balada GLS, um travesti lindo fazendo shows. Eu comecei ver

aquilo, aquilo me deslumbrava. Falei: “Gente, tem um lugar pra mim no mundo”.

Entendeu? Aquilo começou a me dar mais forças. Em seguida, eu conheci um menino da cidade, que era gay também. Eu comecei a conversar com ele, percebei que não era uma coisa só minha. Eu pensava que era só comigo. Aí foi indo assim, começou a me dar mais coragem. Já estava nessa fase, de começar a me aceitar.

A descoberta de que não era a única “diferente” deu para Camily a coragem que lhe faltava para assumir-se de vez. Primeiro assumiu- se para si mesma. Depois, para as outras pessoas. Passou a fazer um curso em Porto Alegre, aos finais de semana, para se preparar para ser modelo. E lá começou a conviver com muitos “viados”, montava-se de

drag queen, ia para boates.

[O curso] Era sábado e domingo. Na sexta de noitezinha a gente pegava o ônibus e ia. Ficava lá [em Porto Alegre] no final de semana. Curtia shopping. No domingo também, depois tinha um negócio onde se reunia um bando de "viado" lá, né? Daí a gente ficava lá conversando. Era legal, porque eram pessoas que

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pareciam comigo, me sentia normal. Porque na minha cidade todo mundo me via como...

Deixou de sentir-se aberração. Percebeu que não era ela quem estava errada, mas as pessoas que a agrediam. Passou a sentir que tinha direito de ser o que era e não ser humilhada. Percebeu-se como pessoa com direitos violados. E começou a reagir às agressões. Exigiu da direção da escola que fizessem algo para que parassem as gozações. Nada foi feito efetivamente, então conta que, nesta fase, se tornou “revoltada”. Todas as semanas, estava na diretoria para reclamar de alguém ou porque tinha brigado com alguém.

Nesse tempo, passou a fazer shows junto com uma amiga, faziam cover74 de Sandy & Júnior75. Faziam shows na praia nas temporada de verão. Camily fazia o Júnior, mas ela era quem criava o design das roupas e as coreografias da Sandy. Sente saudade dessa época e uma vontade de ver os vídeos em que aparecia como menino. As fotos não bastam.

Sua mãe acabou sabendo o que acontecia com ela, mas o pai não – ele viajava muito. Camily diz que a mãe sempre soube, na verdade. Com o pai, não tinha – e não tem - uma relação afetiva, ele sempre foi muito ausente. A relação com o pai sempre passou muito pelo material, seu pai dava presentes, mas não acompanhava sua vida nem expressava afeto. Sua mãe também foi relativamente ausente em boa parte de sua vida, mas Camily entende que foi por necessidade, não por vontade.

Quando Camily estavam com cerca de 17 anos, seus pais se separaram e a família faliu novamente. Sua mãe foi morar com um namorado no sul, Camily ficou morando com a irmã, marido e um filho dela, e um irmão.

Ela se recorda de quando começou a conversar com a única travesti que havia na sua cidade. Sentia, ao mesmo tempo, empatia e vergonha. Imaginava que a travesti sofria o mesmo que ela por ser “diferente” das outras pessoas. No começo, não tinha coragem de falar com ela, pelo que os outros iriam falar, mas depois passou a não se importar.

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Cover: shows em que u m art ista ou grupo imita ou canta o repertório de u m art ista fa moso.

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Dupla de cantores adolescentes, que são irmãos e filhos de Chitãzinho, u m cantor sertanejos famoso. Fizera m mu ito sucesso na década de 1990.

Eu não falava com ela no começo porque pensava no que os outros iam falar. Mesmo sendo gay eu tinha medo do que as pessoas iam falar. Mesmo tempo que eu tinha vergonha, eu queria fazer parte daquilo. Não sendo travesti. Mas porque

eu ficava pensando “Puta que pariu! Elas devem sofrer as mesmas coisas que eu sofro, deve ter muitas coisas pra contar”. Sabe quando você cria um afeto pela pessoa? De querer dar carinho, querer: “Eu sou igual a você, sofro isso”. “Te entendo”. Sabe? Mesma hora que eu tinha vergonha, eu queria me aproximar. No entanto, para seu pai, que a advertiu de que a travesti não era “o tipo de gente” com quem ela deveria estar, Camily negou a sua própria diferença, negou para ele que fosse gay.

“Você não é gay, né?” Eu falei: “Não”. Porque eu já sabia que eu ia me estressar, com gente ignorante não dá pra bater boca, né? “Não, eu não sou gay. Só porque eu estou conversando com ela eu tenho que ser gay?” Aí ele: “Ah não, então tá. Mas cuidado com essas companhias”.

Camily, em Porto Alegre, começou a sair na noite com os amigos sempre montada de

drag. Mas depois passou a sair montada em sua cidade, nas cidades próximas, para ir a

festas, inclusive em companhia da amiga travesti. Ela não identifica com o feminino, diz que até hoje tem “conversa de gay, cabeça de gay”, que se montava apenas por brincadeira. E feminino, para Camily, apesar de tudo, continua relacionado a ser sexualmente passiva.

Eu saia com os meninos vestida de menina de noite. Mas não era uma coisa que eu queria pra mim até então. Era mais uma brincadeira. Nunca foi uma coisa que eu me sentia feminina. Até hoje eu não me sinto feminina, começando por aí. Eu tenho papo de gay, gosto de gay, tanto que minha preferência sexual, eu sou

mais ativa. Eu mudei meu corpo, mas não mudei minha cabeça. Depois eu

comecei a sair, mas não mais escondida. Sair em festa com essa amiga travesti. Aí o que acontece, contaram pra minha irmã ou meu irmão e contaram pra minha mãe.

Depois que sua família soube que ela saía montada, sua vida virou um inferno em casa. Mas um dos motivos, também, era a falta dinheiro. Camily, na época, não trabalhava e o pai lhe mandava dinheiro de pensão alimentícia, mas era pouco. Quem bancava a casa, mesmo, era o cunhado e o dinheiro que ele ganhava era insuficiente. E a irmã de Camily não aceitava que ela se montasse, que saísse pintada. Ela dizia que iria fazer o que bem entendesse, mas a irmã dizia que não seria bem assim.

“Eu faço o que eu quiser da minha vida”. Não lembro direito o que eu falei pra ela. “Se você fizer você vai embora daqui e não sei o quê. Você não trabalha, não faz nada. Você vai embora”.

121 Não ter como se sustentar financeiramente era também não ter poder de ser o que quisesse, de se vestir como quisesse. Era ter de se submeter às regras da família preconceituosa, que lhe cerceavam a liberdade.

A mãe de Camily que, mesmo sabendo de suas paixões por outros rapazes, nunca a havia incomodado até aquele período, acabou sendo influenciada pela filha, a que ocupava agora o papel de provedora. A mãe de Camily tentou pressioná- la, então, para que ela mudasse sua maneira de ser.

Ela chegou: “Então meu filho, o quê que você é? O que você quer?” Eu falei: “Mãe, eu sou um menino que gosta de menino, só que ponto. Eu não quero ser

mulher, eu não vou ser mulher. É isso. Não tem nada a mais disso. Eu faço isso

pra brincar”. Ela disse: “Então meu filho, faça o seguinte, faz isso em Porto

Alegre, quando você for viajar. Aqui é cidade pequena, você sabe como é que é,

sua irmã vai te expulsar de casa, ela não gosta”. Aí eu chorei, aquela coisa toda.

Aí tá, beleza. Mas eu continuei fazendo de vez em quando.

Camily fazia alguns shows como drag, se montava, mas mesmo assim o dinheiro era insuficiente. A irmã lhe deu um ultimato para deixar aquela vida, Camily não aceitou e saiu de casa, indo morar com um ex- namorado, agora apenas amigo, que tinha muito dinheiro e a acolheu, bancando-lhe as despesas. A mãe ajudava-a de forma bem eventual, comprando mantimentos e levando para a casa onde Camily estava morando. Mesmo assim, ela chegou a passar fome, seu amigo viajava muito e ela não tinha como se sustentar. Nesta época, abandonou o colégio. Estava no início do Segundo Grau, não chegou a completar o primeiro ano.

Nesta época, Camily não se importava mais em ser vista como diferente, como gay ou o que fosse. Saía montada para se divertir à noite nos quiosques da praia com amigos. Hoje Camily diz que procura ser muito discreta, mas naquela época queria chamar a atenção, queria muito chamar a atenção. Até ali, ela ainda se montava apenas por diversão. Ainda era o Júnior, um rapaz gay, não era Camily em tempo integral. Incomodava-se, inclusive, porque, quando não ia montada para as baladas, as pessoas não identificavam Júnior como Camily, chegando até a se perguntarem se ela não apareceria.

Certa vez, fazia uns dois meses que tinha saído de casa, seu pai foi procurá- la no quiosque da praia. Sua irmã havia contado tudo para o pai e o irmão. Até aquele momento, ela dava um jeito de enrolá- lo, pois falavam-se pouco, mais por telefone. Mas

naquele dia, pouco antes de completar 18 anos, o pai de Camily fez uma cena no meio de todas as pessoas. Ele a ofendeu e humilhou, arrancando- lhe a peruca e envergonhando-a diante de todo mundo. Era verão, o quiosque estava lotado, havia umas 600 pessoas lá. O pai de Camily mandou que ela voltasse para casa, mas ela não voltou. Após este episódio, Camily foi morar com a Lia, a única travesti da cidade, que ainda morava com a família. Como não trabalhava, a mãe de Lia vivia lhe dando indiretas e a Lia acabou conseguindo um outro local para ela morar, com uma amiga dela.

E, eu não tinha dinheiro pra nada. Eu era um estorvo ali, não trabalhava, não fazia comida. Do bom e do melhor, entre aspas, ali. Eu estava com três mochilinhas ali, que eu andava pra cima e pra baixo. Aí foi isso. Me lembro que eu fiquei ali e é isso. A mãe dela dava um monte de indireta. Em seguida ela me colocou pra morar com uma amiga dela que trabalhava em uma sorveteria o dia todo e eu ficava na casa dela.

Conta que, nesta época, se alimentava de sobra de sorvete que Marie, amiga da Lia