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Nos debates e produções teóricas feministas que se deram no final do século XX, muita dificuldade se apresentou para que se pudessem lidar com as demandas específicas de grupos de mulheres marcadas por identidades distintas. A diferença, muitas vezes, foi invisibilizada por grupos hegemônicos de mulheres, como as mulheres brancas, ou foi motivo de rupturas e dissensos sentidos como desagregadores, pois supostamente se perderia a unidade e se enfraqueceria a luta cujo objetivo deveria ser comum: o enfrentamento da opressão contra as mulheres. (BRAH, 2006; PISCITELLI, 2008) No final dos anos 1980, estudos feministas críticos, vindos especialmente do feminismo negro, repensam as premissas existentes nas teorias feministas liberais, socialistas e radicais – todas tendo a questão do racismo como ponto de conflito –, especialmente quanto à centralidade dada à discussão sobre as distinções dos sistemas sexo- gênero. Esses estudos críticos ressaltavam, entre outras questões relevantes, os problemas que tais pressupostos traziam a reboque: fixidez do binarismo e das identidades de gênero, a partir do reforço da base biológica que as essencializava, tornando invisíveis não apenas o ponto crítico da racialização do gênero, mas também a vivência das transexualidades. (BRAH; PHOENIX, 2004; BRAH, 2006; PISCITELLI, 2008).

No entanto, as diferenças existiam e eram relevantes. Não era – e não é – o mesmo ser mulher e ser negra ou branca, ser da classe trabalhadora ou da classe média, ou ainda: não ser branca, mas também não ter a cor da pele negra (como as mulheres indianas). Mas a discussão acabou fortalecendo políticas identitárias, de forma que a superposição linear de opressões diferentes chegou a ser encarada uma espécie de “troféu”, que legitimaria mais certos grupos em suas reivindicações, como, por exemplo: ser mulher e negra e do terceiro mundo e da classe trabalhadora e lésbica. Nas palavras de Avtar Brah:

[...] começava a surgir dentro do movimento de mulheres como um todo uma ênfase na política da identidade. Em lugar de embarcar na tarefa complexa, mas necessária, de identificar as especificidades de opressões particulares, entendendo suas interconexões com outras formas de opressão, e construir uma política de solidariedade, algumas

mulheres começavam a diferenciar essas especificidades em hierarquias de opressão. (BRAH, 2006, p. 348)

Como aponta Brah, então, a hierarquização e a sobreposição de marcadores de diferença se tornaram equivocadamente um diferencial: quanto mais opressões uma mulher pudesse ostentar, maior seria a “superioridade moral” que ela teria desde seu lugar de reivindicação.

Autoras como Kimberlé Crenshaw, Leslie McCall, Ann Phoenix, Anne McKlintock e Avtar Brah, entre outras, contribuem de forma intensa para desconstruir essa maneira de encarar as relações de poder e as diversas formas de opressão como simples superposição. Elas passam a aprofundar as discussões que demonstram como os marcadores sociais de diferença - como gênero, raça, classe e sexualidade – entrelaçam- se, articulam-se e engendram umas às outras, gerando desigualdades (BRAH; PHOENIX, 2004; BRAH, 2006; PISCITELLI, 2008).

Anne McKlintock e Avtar Brah, entre outras, inserem-se no campo do construcionismo social. McKlintock explica que as categorias de diferenciação “[...] não são idênticas entre si, mas existem em relações íntimas, recíprocas e contraditórias.” (PISCITELLI, 2008, p. 268). Não são, portanto, como peças de um jogo de armar que simplesmente possam ser encaixadas umas às outras. Ao contrário, constituem-se e criam-se a partir da própria relação que se estabelece entre elas (PISCITELLI, 2008). Exatamente da mesma forma pensa Avtar Brah, quando afirma que as “Estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não podem ser tratadas como ‘variáveis independentes’ porque a opressão de cada uma está inscrita dentro da outra – é constituída pela outra e é constitutiva dela.” (BRAH, 2006, p. 351). É necessário, portanto, compreender de que forma ocorrem essas interseccionalidades, ou seja, como “[...] o gênero está vinculado à sexualidade, mas também ao trabalho subordinado, e raça é uma questão que vai além da cor da pele, incluindo a força de trabalho, atravessada por gênero.” (PISCITELLI, 2008, p. 268)

Nessa abordagem, as formas de discriminação e as diferenças são tratadas de forma distinta. Trabalha-se, assim, com noções de diferença relacionadas à desigualdade ou à diversidade. Ou seja, importa pensar se a diferença está a serviço de quem oprime, gerando discriminação e desigualdade, ou se, por outro lado, produz diversidade e cria

71 as margens em que se pode viver com mais liberdade. Neste sentido, nem sempre a diferença é marcador de hierarquia ou de opressão.

Se nem sempre a diferença gera desigualdade, vale ressa ltar, porém, o que Gustavo Venturi aponta: na base das desigualdades, expressa por discriminações e opressões, sempre encontraremos marcadores sociais de diferença.

Marcadores sociais de diferenças - como raça/cor, etnia, gênero, orientação sexual, posição geracional e classe social - são componentes determinantes em nossa sociedade para a sustentação de preconceitos, atitudes estigmatizantes e comportamentos discriminatórios que permeiam as relações sociais, tanto na esfera pública como na privada. (VENTURI, 2012, p. 95)

Venturi comparou dados obtidos em pesquisas de opinião pública realizadas no Brasil sobre preconceito por gênero, raça, classe social, geração e sexualidades. Ele constatou que os preconceitos, evidentemente, são sentidos pelos grupos discriminados, mas também são percebidos pela população em geral, inclusive por aqueles que não estão entre os grupos discriminados. Segundo Venturi,

“[...] o preconceito mostrou-se onipresente na população adulta (99%), ainda que com predomínio do que se classificou como portadores de um preconceito leve (54%), mas seguido de uma parcela considerável com preconceito mediano (39%) e de 6% de portadores de um forte preconceito.” (VENTURI, 2012, p. 102).

Outras constatações obtidas por Venturi (2012) merecem destaque no contexto deste trabalho. O preconceito racial é mais velado do que o manifesto contra a população LGBTT, mas os estigmas tanto por raça, como sexualidade e gênero implicam discriminações no âmbito do trabalho, lazer e na escola, como também, em muitos casos, na família. Venturi (2012) afirma ainda que os preconceitos de gênero, racial e por sexualidades estão disseminados pelo País, são de natureza múltipla e são vividos de forma frequente por segmentos sociais que são estigmatizados pela difere nça. No âmbito deste trabalho, pensarei essa multiplicidade de preconceitos experienciados para além de uma simples superposição de marcadores estigmatizantes, mas como diferenças intersectando-se e fecundando-se mutuamente, gerando desigualdades. Em

alguns casos, as diferenças vão, ao contrário, produzir, com criatividade e ousadia, diversidades e resistências. Portanto, importa identificar como os discursos sobre a diferença se produzem, ressignificam-se, perpetuam-se ou são contestados (BRAH, 2006; PISCITELLI, 2008).

A proposta de trabalho com essas categorias é oferecer ferramentas analíticas para apreender a articulação de múltiplas diferenças e desigualdades. É importante destacar que já não se trata da diferença sexual, nem da relação entre gênero e raça ou gênero e sexualidade, mas da diferença, em sentido amplo para dar cabida às interações entre possíveis diferenças presentes em contextos específicos. (PISCITELLI, 208, p.266)

Brah (2006), dessa forma, vai tratar a própria ideia de diferença co mo uma categoria de análise e propõe que se pense na diferença em termos de experiência, de relação social, de subjetividade e identidade.