Ao longo de 2001 e 2002, pude acompanhar de perto o trabalho desenvolvido pela colega Regina Mendes, que investigava a contribuição dos professores para implementação de práticas de Educação Ambiental (MENDES, R., 2002). Um do objetivos da sua proposta era observar o universo do professor, de outro ângulo, procurando identificar aquilo que ele conseguia fazer de forma eficiente. Para isso, ela utilizou uma técnica de pesquisa denominada Grupo Focal. Essa técnica me pareceu uma alternativa viável para o projeto que eu tinha em mente e passei a estudá-la mais a fundo.
Segundo Gibbs (1997), são muitas as definições de Grupo Focal encontradas na literatura. Caracterizações, como discussão organizada (KITZINGER, 1994), atividade coletiva (POWELL et. al., 1996), eventos sociais (GOSS & LEINBACH, 1996) e interação (KITZINGER, 1995) identificam algumas das contribuições que os grupos focais trouxeram para o campo da pesquisa qualitativa.
Powell et. al. (1996, p.499 apud GIBBS, 1997) definem o Grupo Focal como "um grupo de indivíduos selecionados e reunidos por pesquisadores para discutir e debater, a partir da experiência pessoal, sobre um assunto, o tema da pesquisa".
O Grupo Focal pode ser considerado como uma forma de entrevista em grupo, mas é importante fazer uma distinção entre os dois. Uma entrevista em grupo implica a entrevista de vários pessoas ao mesmo tempo. Sua ênfase está nas perguntas e respostas trocadas entre o pesquisador e os participantes. Nos Grupos Focais, porém, a ênfase está na interação dos membros do grupo, focalizadas no tema que foi proposto pelo investigador (MORGAN, 1988). Conseqüentemente, a característica fundamental que distingue os grupos focais é o tipo de interação entre os participantes. Enquanto na entrevista coletiva essa interação é sobretudo entre entrevistador e sujeitos, no GF esses últimos interagem entre si, um interrogando o outro e emitindo sua opinião sobre a opinião do outro.
O Grupo Focal apresenta vantagens e desvantagens quando comparado com outras formas de entrevista. A principal vantagem da pesquisa de grupo focal é a possibilidade de extrair dos entrevistados atitudes, sentimentos, convicções, experiências e reações que não seriam possíveis usando outros métodos, como observação, entrevista individual ou pesquisas de questionários. Essas atitudes, sentimentos e convicções podem ser parcialmente independentes de um grupo ou ambiente social, mas são mais prováveis de serem reveladas pela união e interação que existe num vínculo de grupo.
Comparado com entrevistas individuais, que buscam obter atitudes, convicções e sentimentos pessoais, o Grupo Focal traz à tona uma multiplicidade de visões e processos emocionais dentro de um contexto coletivo. Por outro lado, a entrevista individual é mais fácil para o investigador controlar do que um grupo focal, no qual os participantes são mais livres para tomar iniciativas.
Comparado com a observação de sala de aula, o Grupo Focal permite ao investigador um ganho maior de informações num período mais curto de tempo. Técnicas de observação envolvem a espera de coisas que poderão acontecer, considerando que o investigador segue um roteiro de observação. Esse procedimento não é comum nos grupos focais. Apesar disso, os eventos, normalmente, seguem uma organização prévia.
Além disso, os grupos focais são particularmente úteis quando há diferença de poder entre os participantes e aqueles que tomam as decisões, quando se tem interesse no uso da linguagem cotidiana e na cultura de grupos particulares e, também, quando se quer explorar o grau de consenso do grupo sobre um determinado tópico (MORGAN & KREUG ER, 1993 apud GIBBS, 1997).
Gibbs ressalta ainda que a oportunidade de se envolver em processos de tomada de decisão, avaliar como especialistas e ter a chance de trabalhar colaborativamente com pesquisadores são benefícios que o grupo focal traz e que não podem ser subestimados. Se um grupo trabalhar bem, desenvolve confiança e, assim, pode explorar soluções para um problema particular como uma unidade, e não de forma particular. É claro que nem todo mundo experimentará esses benefícios. Às vezes, o grupo focal pode intimidar os participantes, principalmente os desarticulados ou tímidos. Conseqüentemente, os grupos focais não são recomendados para todos. Nesses casos, outros métodos podem oferecer uma melhor oportunidade de coleta de dados. Porém, se os participantes são ativamente envolvidos em algo no qual eles realmente acreditam, isso fará a diferença, e a pesquisa de grupo focal poderá promover o desenvolvimento de seus membros.
O papel do moderador no grupo focal é de vital importância no desenvolvimento da pesquisa (MORGAN, 1988; GIBBS, 1997). Os moderadores devem possuir boas habilidades interpessoais e qualidades pessoais, sendo bons ouvintes, imparciais e adaptáveis. Estas qualidades promovem a confiança dos participantes no moderador e aumentam a probabilidade de um diálogo aberto e interativo.
A crença no potencial transformador dos processos de desenvolvimento coletivo foi um dos principais fatores que me levou a escolher o Grupo Focal como a principal técnica de pesquisa deste trabalho.
Além disso, os benefícios que essa técnica pode trazer aos participantes iam ao encontro da minha expectativa. Conversando com o meu orientador sobre isso, chegamos à conclusão de que a técnica do Grupo Focal poderia ser adaptada para atender ao meu ideal de formar o grupo de professores de Física. Para isso, teríamos que conciliar o grupo focal com um projeto de desenvolvimento profissional.
Foi nessa busca que os Grupos de Desenvolvimento Profissional (GDP) nos apareceu como uma opção viável. Apesar de o programa de formação de professores através de GDP não ter sido implementado na prática em Minas Gerais, a proposta nos chamou a atenção pelo fato de ser uma alternativa de desenvolvimento profissional diferente dos cursos de capacitação e aperfeiçoamento para professores existentes até então.