Para formar do GDPF, optei por trabalhar com professores de Física do Ensino Médio, da rede pública e particular da cidade de Sete Lagoas, Minas Gerais. Essa escolha foi motivada pelo fato de ser a cidade onde moro e trabalho há mais de 15 anos. Isso me dá um certo conhecimento da realidade local que eu não teria em outro lugar.
Um outro fator que influenciou essa escolha foi a formação dos professores de Física desta região. A maioria, assim como eu, graduou-se em Ciências (licenciatura curta) e depois fez um curso de complementação para obter a licenciatura plena em Física. Essa é um trajetória comum nas cidades do interior. Porém, um estudo realizado por Cunha e Krasilchick (2000), revela uma precariedade na formação desses professores, atribuída normalmente à má qualidade do ensino das faculdades onde estudaram.
Além disso, o contato dos professores do interior com o meio acadêmico é restrito. Quando ocorre, é em cursos de capacitação e treinamento, oferecidos pelas Superintendências Regionais de Ensino (SRE) do governo estadual ou iniciativas da própria universidade, como os cursos do Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais (CECIMIG) vinculado à UFMG.
Grande parte dos programas de formação continuada oferecidos pelo estado são cursos de curta duração, voltados principalmente para o treinamento de professores na aplicação de materiais e métodos de ensino. Um outro problema é que esses cursos são, quase sempre, elaborados e ministrados por especialistas e professores universitários que conhecem muito pouco a realidade vivenciada pelo público a quem se destinam. Além disso, há, por trás desses programas, uma idéia de corrigir deficiências, implícita em palavras como atualização, capacitação e reciclagem. Clark
(1992 apud MENDES, I., 2001) reflete sobre a idéia de déficit e incapacidade alocada nessas palavras.
[...] as pesquisas sobre pensamento do professor revelam que, na realidade a situação não é bem essa. O professor faz um planejamento, toma decisões, faz julgamentos, improvisa estratégias de ensino, constrói conhecimentos e teorias implícitas sobre ensino. Essas pesquisas revelam que o professor promove o seu desenvolvimento profissional e ele tem tornado um pesquisador de suas próprias atividades. (MENDES, I., 2001, p.21)
Isso faz com que os professores assumam uma posição de resistência em relação a esses cursos e os resultados obtidos com esses programas não sejam muito animadores. As diretrizes para a política de capacitação dos professores no estado de Minas Gerais (MINAS GERAIS, 1998, p.149) registram:
Os defensores dos cursos de treinamento argumentam que eles são eficazes por provocarem mudanças imediatas em sala de aula e apontam como indício de seu sucesso o engajamento dos professores nas atividades planejadas e executadas durante o processo de treinamento. O que se pode dizer a esse respeito é que, ao contrário do que advoga o senso comum, esse modelo de capacitação produz pouco efeito sobre os professores. Avaliações realizadas mostram que mesmo os conceitos "espontâneos" que os professores possuíam antes do treinamento permanecem inalterados, indicando que o mero treinamento não pode sequer garantir o aumento de competência em relação ao domínio do conteúdo disciplinar.
Esse modelo de capacitação através de treinamento falha porque ignora o professor enquanto sujeito que pensa e porque menospreza a resistência que ele oferece a mudar o seu conhecimento e o seu ponto de vista sobre os meios e os modos mais adequados para ensinar ciências [...].
Quanto às iniciativas das universidades, existem bons programas de formação continuada. Programas que valorizam a participação, a vivência e a ação do professor, atendendo à necessidade de uma formação mais intensa, baseada numa reflexão mais profunda sobre a profissão docente. Dentre esses cursos, em Minas Gerais, destacam -se o Curso de Especialização em Ensino de Ciências, do qual eu tive a oportunidade de participar como aluno, e o programa de Formação Continuada de professores (FOCO), ambos desenvolvidos no CECIMIG/UFMG. Como esses cursos gozam de boa reputação entre os professores e são cursos oferecidos gratuitamente, os processos seletivos para preenchimento de suas vagas são muito concorridos. Além disso, os cursos ministrados pelo CECIMIG ocorrem em períodos letivos nos dias úteis da semana, exigindo do professor uma disponibilidade incompatível com os horários de trabalho, que normalmente preenchem dois ou até três turnos. Esse fato afeta ainda mais o professor do interior que, além de disponibilizar o tempo para se dedicar ao curso, tem ainda que se deslocar para as cidades onde os cursos acontecem. Essa dedicação é muito custosa e afugenta boa parte dos potenciais candidatos.
De toda forma, estudos, como o de Allain (2000), e Mendes, I. (2001), destacam a relevância e a significação dos cursos de especialização do CECIMIG no desenvolvimento profissional de diversos professores.
Daí a importância de estudos que propiciem processos de formação em serviço, que permitam aos professores trocar idéias e refletirem sobre sua prática com colegas que compartilhem da mesma realidade (BUENO et al., 2000; BOLZAN, 2001; RIBEIRO, 2001; VAZ, 1996b).
Sobre as condições que podem aumentar o êxito dos programas de formação continuada, Cunha e Krasilchik (2000) destacam: a participação voluntária; a existência de material de apoio; a coerência e a integração conteúdo-metodologia. Além disso, é importante que os cursos atendam a grupos de professores de uma mesma escola ou comunidade.
Por tudo isso, decidimos constituir o GDPF em Sete Lagoas. O contexto regional reunia as condições necessárias para implantação do projeto com possibilidades de, futuramente, ampliarmos o estudo para além das inovações. Através do GDPF, seria possível não só estudar as inovações que os professores participantes foram capazes de implementar na sua prática, mas também, a longo prazo, verificar a influência do grupo no processo de desenvolvimento profissional de cada um.