Ao conceituar inovação, Canário (1987) utiliza duas definições que se complementam:
A inovação é toda a tentativa que visa consciente e deliberadamente introduzir no sistema de ensino uma mudança, com finalidade de melhorar este sistema. (CERI, 1970, p.5 apud CANÁRIO, 1987, p.17).
A inovação [...] é um ato consciente, refletido, voluntário, a manifestação de um desejo de mudança baseada, em princípio, numa nova definição de objetivos a atingir. (CHOBAUX, 1977, p.12).
Na obra "Écoles de Demain ?" (1977), considera-se que "assumir novos objetivos" é a principal característica de toda inovação. A esse critério, Canário (1987, p.17) acrescenta outros três que
ajudam a precisar o caráter de uma inovação - um critério de natureza, um critério de consistência e um critério de globalidade - assim definidos:
Critério de natureza: permite, a partir dos objetivos, estabelecer a distinção entre as verdadeiras inovações (que põem em cheque o sistema existente) e as falsas inovações (as que pretendem apenas melhorar o rendimento do sistema, sem questionar).
Critério de consistência: consiste em saber se a inovação tem uma força de impacto suficientemente forte para vencer a inércia própria ao sistema e reorientá-lo para novas finalidades.
Critério da globalidade: tem por base o postulado de que a inovação só poderá atingir o nível de significância se for globalizante, isto é, se potencialmente puder induzir mudanças globais e qualitativas no sistema de acolhimento.
Messina (2001, p. 226-227) identifica dois componentes que, corroborando com os critérios apresentados anteriormente, contribuem para distinguir uma inovação. São eles "a alteração de sentido a respeito da prática corrente" e "o caráter intencional, sistemático e planejado, em oposição às mudanças espontâneas". Com base nesses componentes, Messina define inovação como um "processo multidimensional, capaz de transformar o espaço no qual habita e de transformar-se a si própria". Além disso, ela concorda com as idéias de outros autores que afirmam que "inovar consiste, antes de mais nada, em uma disposição permanente em direção à inovação ou de inovar a inovação".
Carbonell (2002, p.19) apresenta uma definição de inovação que ele considera bastante aceitável.
[...] conjunto de intervenções, decisões e processos, com certo grau de intencionalidade e sistematização, que tratam de modificar atitudes, idéias, culturas, conteúdos, modelos e práticas pedagógicas. E, por sua vez, introduzir, em linha renovadora, novos projetos e programas, materiais curriculares, estratégias de ensino e aprendizagem, modelos didáticos e outra forma de organizar e gerir o currículo, a escola e a dinâmica da classe.
Para Carbonell, essa definição tem um caráter amplo e multidimensional, prestando-se a diversas interpretações e traduções. Isso ressalta a complexidade do conceito de inovação. Neste trabalho, concordando com o que foi exposto na obra Écoles de Demain?, foi adotado o ato de "assumir novos objetivos", presente direta ou indiretamente em todas as definições citadas, como o critério principal de toda inovação.
Para uma melhor compreensão do conceito de inovação, destacarei a seguir algumas diferenças e aproximações com outros conceitos parecidos.
Façamos inicialmente a distinção entre inovação e evolução. Enquanto a inovação se caracteriza como um ato consciente, refletido e voluntário que permite assumir novos objetivos, a evolução, ao contrário, é um processo natural, lento e contínuo que se desenvolve, quase sempre, de forma inconsciente e informal.
Uma outra distinção diz respeito à inovação e ao "novo". Nem tudo que é novo é inovação, assim como, nem toda inovação é, necessariamente, algo novo e original. Huberman (1973 apud CANÁRIO, 1987), mostra que a maior parte das mudanças se constituem em adaptações de algo já existente em outras escolas. A simples modernização de uma escola pela introdução de novos elementos, como laboratórios de informática, salas de multimídia, acesso à internet, etc não a torna uma escola inovadora. Da mesma forma, o professor que faz uso desses recursos tecnológicos nem sempre pode ser considerado um professor inovador. Muitas vezes, toda essa novidade acaba sendo utilizada da mesma forma que os velhos livros didáticos, ditando as mesmas lições com um visual diferente. Não há reflexão consciente sobre a inovação, do quanto esses "novos" recursos podem, de fato, melhorar a aprendizagem dos alunos.
Inovar também não é o mesmo que renovar. De acordo com Dillon (2000), inovação e renovação são conceitos distintos. Enquanto a inovação se caracteriza pela mudança com a introdução de novas idéias, métodos e processos, a renovação introduz mudanças mais superficiais pela reciclagem e atualização de métodos e processos já existentes. Analisando por esse ângulo, percebe- se que uma parte significativa das reformas educacionais, implementadas ao longo dos últimos anos, tem um caráter muito mais renovador do que inovador.
Reforma e inovação também são conceitos distintos. Para Carbonell (2002), a inovação é algo que se localiza nas escolas e nas salas de aula, enquanto que as reformas dizem respeito ao sistema educativo, de responsabilidade do Estado. Um processo de reforma educacio nal quase sempre busca introduzir inovações na prática educativa, mas está mais interessado no produto, ou seja, nos resultados que pretende alcançar. Já as inovações estão mais centradas no processo, ou seja, no caminho que será percorrido. As inovações não se ocupam tanto do resultado final em si, mas sim, dos múltiplos pequenos resultados, objetivos e subjetivos, que vão se sucedendo e se encadeando ao longo do caminho. Por isso, "as inovações pedagógicas são como pulsações vitais que vão renovando o ar em sua marcha ininterrupta, observando atentamente e descobrindo novas rotas". (CARBONELL, 2002, p.25).
Apesar disso, se as noções de "reforma" e "inovação" não se confundem, elas também não se excluem. Segundo Canário (1987, p.18), "uma reforma exige, regra geral, para se concretizar, a
produção de inovações". Produzir e implantar inovações, de forma durável, não é uma tarefa fácil. Para ter estabilidade, um processo de inovação requer uma organização prévia, capaz de prever obstáculos, definir um percurso e estabelecer condições mínimas de execução.
Finalmente chegamos à comparação entre inovação e mudança. Para Hassenforder (1974), as definições de mudança e inovação estão interligadas. A inovação é um tipo de mudança. Porém, a inovação aparece como um fenômeno mais preciso, mais localizável do que a mudança. "Nesta perspectiva, se a mudança é um movimento global, as inovações aparecem como pontos de referências precisos. De certo modo elas balizam as linhas de força da mudança". (HASSENFORDER, 1974, p.8).
Ao longo deste trabalho, há momentos em que esses conceitos se aproximam e, às vezes, até se misturam. O importante é frisar que é justamente o caráter pontual da inovação, citado por Hassenforder e Carbonell, que nos permite localizá-la na ação do professor, ao contrário da mudança que, por ter um caráter mais global, é mais difícil de ser identificada.