6.5.1. Kaúlza de Arriaga: o mito do fim da guerra
O conceito de guerra adoptado em Moçambique foi o de “baixa intensidade” (Gomes 2010: 150). A substituição do General Augusto dos Santos pelo General Kaúlza de Arriaga, em 1969, modificou a estratégia seguida e preconizou um novo conceito para a acção.
O General Kaúlza, era adepto da acção militar directa e estava convicto de que conseguia obter uma vitória militar sobre a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Para obter essa vitória decidiu atacar o ponto forte do inimigo, as suas grandes bases no planalto dos Macondes em Cabo Delgado e lançou a grande operação «Nó Górdio» em Julho de 1970, a que se seguiram as grandes operações «Fronteira» junto ao rio Rovuma, na fronteira com a Tanzânia. O conceito de manobra do General Kaúlza de Arriaga assentava em acções do tipo convencional, com prioridade para a ofensiva militar (tipo search & destroy). O seu objectivo era a vitória através da destruição militar do inimigo (Gomes 2010: 153).
52Veja-se Anexo (A V. 5) que constitui parte do relatório das NT, relativo à emboscada de 26 de Abril de
Para o Comandante-Chefe do Teatro de Operações, em Moçambique, as Forças Armadas quase findaram a luta em 1970/1971 e cederam à política tempo mais do que suficiente – e conceder-lhe-iam aquele que fosse necessário. Kaúlza de Arriaga diz ainda que no início do segundo semestre de 1973, as forças oriundas da Metrópole, na sua generalidade, permaneciam firmes e razoavelmente capazes, e as forças locais cresciam quantitativamente e também na sua eficiência. O General, no seu optimismo radiante, contrariando outros observadores, afirmava também que em 1970/1971 a vitória total, na zona então crucial que era Cabo Delgado, esteve bem perto e, talvez mesmo, o fim da guerra em Moçambique (cf. Arriaga 1977: 237-238).
Figura nº 6 – Moçambique – zonas de luta armada (1970): a visão dos defensores da «guerra à guerra»
Fonte: Cadernos de circunstância (1974: 241).
O General sustentava a convicção, em meados de 1973, de que a situação se conservava equilibrada no Niassa, embora reconhecendo um certo recrudescimento da subversão e algumas perturbações sem significado especial em Cabo Delgado. Confirma, no entanto, que a FRELIMO tinha conseguido penetrações no istmo de Tete e nos distritos de Vila Pery e da Beira, circunscritas, mas de grande repercussão psicológica. Confirma também que as tropas portuguesas metropolitanas, apesar do esforço de abatimento, fragmentação e aniquilação que sobre elas se fazia sentir,
revelavam-se, na sua generalidade, consistentes e razoavelmente aptas atestando que a FRELIMO se achava esvaziada (cf. Arriaga 1977: 244-245).
6.5.2. Operação Fronteira e a sua centralidade Nangade
i. Para o General Kaúlza de Arriaga, a outra das suas marcas operacionais, a Operação Fronteira, era um êxito.
Nangade era uma vila-tipo, uma vila que seria a primeira de uma série a estabelecer ao longo do rio Rovuma e que seria, também, o modelo de centenas e centenas de vilas a edificar, com o tempo, em todo o Moçambique. Nangade era uma vila planeada e em execução segundo parâmetros modernos. A sua construção começou pelas infraestruturas básicas – electricidade, água e esgotos – seguiram-se-lhes os arruamentos e os edifícios de interesse comum e, depois, seguir-se-lhe-iam as habitações normalizadas.
Os aldeamentos constituíam a base da promoção do povo moçambicano. Tinham de ser implantados em grande quantidade e depressa, sacrificando-se inicialmente a qualidade à quantidade. Fizeram-se mais de mil, abrangendo aproximadamente um milhão de pessoas. Faltavam ainda uns quatro mil (Arriaga 1977: 209 e 210).
O General observa ainda:
Entretanto, e sobretudo após o 25 de Abril, um outro factor favorável ao inimigo se generalizou e intensificou, tudo acabando por dominar – a política absurda e apóstata que, como disse, desmoralizou, desagregou e destruiu o conjunto das Forças Armadas.
Tal deu lugar à paralisação estratégica e mesmo a desonrosas atitudes de inoperância táctica perante o inimigo.
E tudo se perdeu (Arriaga 1977: 248-249).
ii. A centralidade desta enorme Operação Fronteira foi Nangade, no dizer de Sousa e Castro, e todo o esforço solicitado às tropas de quadrícula ia no propósito de laborar para o bem-estar das populações e da edificação de obras públicas assumidas pela Engenharia Militar.
Para além de todas essas empreitadas, tornava-se prioritária a abertura de uma estrada desde Nangade até ao porto de Palma, a designada «estrada de fronteira», com aproximadamente cento e quatro quilómetros.
Por “absurdo estratégico”, classificação de Sousa e Castro, os materiais que havia necessidade de colocar em Nangade, para desenvolver com êxito a tão propalada operação, eram desembarcados no porto de Palma e transportados de Palma para Nangade. Segundo este militar de Abril, estas localidades estavam ligadas por uma picada permanentemente pejada de minas colocadas pelos guerrilheiros da FRELIMO, sendo necessário operacionalizar fortes escoltas militares, sujeitas a amiudados combates, flagelações e minas, principalmente entre Pundanhar e Nangade.
Sousa e Castro considera este desiderato um erro inqualificável do General Kaúlza de Arriaga e seus conselheiros (cf. Castro 2009: 39-42). Também, deste erro estratégico, vieram a ser vítimas os Capitães do Fim que aí prestaram comissões.
iii. Para Giencarlo Coccia, Nangade era como uma «ilha» portuguesa no meio do território controlado pela FRELIMO. O quartel, onde também permaneceram alguns
Capitães do Fim, “era quase uma fortaleza e estava defendido por canhões de 155 mm
que atingiam, com ogivas de 47 kg, a distância de dezoito quilómetros, e alguns «velhos» Howitzer de 88 mm” (Coccia 2011: 25).
A pista de aterragem era muito boa. “Ali já tinham aterrado os C-130 e os
Transall da Safari sul-africana, transportando armamento «pesado» e outro” (Coccia 2011: 25).
Nangade foi atacado inúmeras vezes. Mais de 150 foguetões de 122 mm haviam fustigado o quartel, sendo o ataque de Janeiro de 1974 o mais doloroso, sob o ponto de vista psicológico, para as tropas aquarteladas. “Ficaram muitas feridas deste ataque” (2011: 26), assegura Coccia. Nessas alturas estiveram presentes Capitães do Fim.
6.5.3. O que sobrou do mito Kaúlza de Arriaga: a rebelião dos colonos na cidade da Beira
i. No final da comissão de Kaúlza de Arriaga, a 26 de Julho de 1973, a guerrilha em Moçambique não fora destroçada, como o General antecipava perante as câmaras de televisão, em conferência de imprensa em Lisboa, em Março de 1971. Pelo contrário, a FRELIMO tinha alargado os combates às portas das cidades de Tete, de Chimoio e da Beira.
A situação militar tinha-se tornado problemática na província de Tete. A preponderância da aviação portuguesa estava diminuída depois da queda, a 15 de Março de 1973, de um caça da Força Aérea, abatido por um míssil soviético Strella53.
ii. A 16 de Janeiro de 1974, o Comando-Chefe das Forças Armadas em Moçambique emana um comunicado, onde se descrevia que um grupo inimigo havia atacado uma propriedade rural, junto da fronteira de Manica, matando a mulher do proprietário. O ataque, à ignorada fazenda de Águas Frescas, foi a gota de água que fez extravasar o copo. Tal ocorrência incentivou à rebelião dos colonos contra o Exército, acusando-o de não ter empenhamento no combate.
No dia seguinte ao ataque à fazenda do Chimoio, um número significativo de colonos, da então cidade de Vila Pery, juntou-se para vilipendiar os oficiais que
53 Além dos mísseis Strella, operados por um só homem, a FRELIMO passou a dispor de lança-foguetes
de 122 mm, com um alcance de 11 milhas, operados por três homens, com os quais atacaram Mueda e Tete. Os militares haviam recebido treino em Simperopol, na Ucrânia.
prestavam serviço na cidade. Estava em acção o desaforo. Vila Pery ficava relativamente perto da Beira, a apenas cerca de duzentos quilómetros. Por isso era fácil o alarme tocar trombetas. Assim aconteceu. O povo da Beira amotinou-se. Centenas de populares decidem passar a uma fase superior da revolta. Concentram-se frente à messe dos oficiais do Exército Português, no bairro residencial do Macúti, para os insultar. Houve confrontos graves. A insurreição dos colonos da Beira, contra o seu próprio Exército, vai ser um forte pretexto para acelerar a queda do regime (cf. Couto 2011: 23, 113, 177-178, 237).
iii. Dalila Mateus (2004) investigou sobre as informações recolhidas pela PIDE/DGS em Moçambique. Nelas se reconhece, como síntese, que
…no terceiro trimestre e finais de 1973, os centros de actividade da FRELIMO já estavam muito
disseminados: Cabo Delgado, no Niassa e em Tete, assim como na Beira e Vila Pery, distritos designados como Frente de Manica e Sofala ou 5ª Frente. Acrescenta ainda que a situação em Cabo Delgado se tinha agravado nos últimos meses (Mateus 2004: 333).
Constata-se, pois, que a situação militar em Moçambique era deveras preocupante para as Forças Armadas e a guerrilha prosseguia a sua caminhada para o Sul.
6.6. A situação global