A partir deste conjunto sábio de opiniões, é possível construir o argumento conceptual de bom desempenho de um Capitão, no comando de uma Companhia de Quadrícula, em redor de dois conceitos:
Espírito de liderança, impondo-se pelo seu valor humano para o interior (traçando normas e práticas de segurança, disciplina e solidariedade), e para o exterior (influenciando o meio, e exercer acção socioeconómica e cultural sobre as populações).
Espírito de comando impondo-se, pelo exemplo, na guerra (desempenho táctico que incuta confiança) e na paz (possuir os saberes organizacionais relativos a uma Companhia que contribuam para o bem estar dos subordinados).
Tal como afirma Manuel Rebocho, e com base nestes dois conceitos, poder-se-á classificar o desempenho de um Capitão, consoante ele manifeste saberes e práticas em ambos, apenas num deles, ou nas duas em elevado grau, o que pressupõe a existência de protagonismos.
Capítulo VI – A «guerra à guerra», os anos do fim da guerra e da descolonização (1970-1975): contributos
6.1. Anos Setenta: a guerra, a anti-guerra e a «guerra à guerra» 6.1.1. Anti-guerra e «guerra à guerra»
A guerra havia começado a criar resistências junto das camadas jovens universitárias. Na concepção de Miguel Cardina:
Um conjunto variado de causas acelera a politização do conjunto estudantil nos finais dos anos sessenta. Em primeiro lugar, a recepção, ainda que intermitente e filtrada, da rebelião mundial que os estudantes iam protagonizando um pouco por todo o mundo. Em segundo lugar, a crescente impopularidade das guerras coloniais que, cada vez mais, iam significando, para a juventude, um escolho inamovível destinado a hipotecar-lhe o futuro (2008: 67)37.
Se, em princípios de 1969 era ainda um assunto quase tabu, a contestação da guerra passa a ser o miolo da reivindicação estudantil. Explodiu, de forma declarada, no final da década de S essenta em Lisboa, e e m C o i m b r a nos alvores de S etenta. Significa que, à época do primeiro curso de Capitães do Fim (6 de Abril de1970), já fervilhava no seio estudantil universitário, donde quase todos emanavam.
Os grupos radicais proliferam velozmente e logo consideram oportuno aquilo que os Cadernos de Circunstância38 definiam como “a deserção maciça”, enquanto “forma radical de se recusar a ser utilizado como agente da repressão”(CC 1969: 54)39
.
Muito provavelmente, a aquisição definitiva do anti-belicismo, bem como o apoio aberto à deserção e à fuga ao serviço militar, estão ligados à menor influência do PCP no meio estudantil e à aumentada presença de grupos radicais, os quais, como se viu, contestavam os comunistas ortodoxos pela sua moderação e pela sua estratégia frentrista, que de facto envolvia também a sua posição com respeito à guerra (Accornero 2009: 197).
Estes chamamentos à fuga e à incorporação, e os apoios logísticos que as organizações de extrema-esquerda conseguiram ofertar nesse sentido, foram uma componente importante para o aumento significativo dos refractários no início dos anos setenta, quando a sua percentagem atingiu os 20% dos recrutados. Deve, todavia, ter-se em conta que este aumento não se devia apenas a razões políticas, mas também, em muitos casos, a motivações económicas. Deste modo, a fuga à incorporação juntava-se à emigração, que também se fortaleceu e se tornou cada vez mais jovem no fim do
37 Miguel Cardina escreveu Movimentos estudantis na crise do Estado Novo: mitos e realidades que se encontra publicado em http://www.ces.uc.pt/e-cadernos [visto em 21.12.2010].
38 Publicação em offset, produzida em França e da responsabilidade de Aquiles de Oliveira. A tiragem
máxima foi de 2000 exemplares. Chegava a Portugal através de oficiais da Marinha que passavam por portos franceses.
39
regime(cf. Accornero 2009: 197).
No momento em que surgiram diversos grupos políticos mais radicais, a lutarem pela dinamização do ambiente estudantil, à sombra de novos ícones políticos, como Ho Chi Minh, Mao Tsé Tung e Che Guevara, a temática da luta contra a Guerra do Ultramar, e contra o Serviço Militar Obrigatório, tornava-se reinante nos repertórios da mobilização estudantil, criando novos organismos destinados, especificadamente, a lidar com o assunto. Diz Accomero:
Um destes organismos, criado pelo MRPP, era o Movimento Popular Anti-Colonial (MPAC), ao qual se juntaram os Comités de Luta Anti Colonial (CLAC), ligados ao Comité Marxista-Leninista Português (CMLP). Estes últimos, juntamente com o Comité Angola, eram identificados pela DGS no início dos anos Setenta, como as principais organizações «antipatrióticas», que agiam «no sentido de abalarem o moral dos jovens em idade pré-militar e no cumprimento efectivo de tal missão e convencê-los a desertarem ou a não comparecerem às respectivas incorporações». Sublinhava-se também que esta campanha estava a crescer de dia para dia e que cada vez mais se encontrava nas universidades do país propaganda destinada a incitar elementos das forças armadas à deserção(2009: 198)40.
No início dos anos Setenta, torna-se significativo o número de jovens portugueses com rumo à Europa, chegados por vezes em situações precárias de sobrevivência. É justo dizê-lo, e é bem sublinhado por Cardina, quando afirma que os jovens:
…contaram frequentemente com o apoio de estruturas cívicas e religiosas, de militantes de
esquerda locais ou de colectivos direccionados para a condenação do colonialismo, como o Angola Comité, da Holanda. O PCP (m-l) e O Comunista/OCMLP contavam com os Comités de Desertores, animados por activistas que frequentemente acumulavam ainda a participação em associações de emigrantes dinamizadas pelos referidos grupos – caso da Associação Resistência e Trabalho, na Holanda, ligada ao PCP (m-l) – e a militância nas células partidárias (Cardina 2009: 18).
Nos anos Setenta tornam-se célebres algumas deserções colectivas. É o caso da evasão, em 1970, de sete antigos alunos da Academia Militar. Também mais tarde, em 1973, da deserção de cinco Marinheiros portugueses, durante a paragem da fragata Almirante Magalhães Correia em portos dinamarqueses, impulsionada pelos Comités de Desertores da Suécia e da Dinamarca, ligados a O Comunista/OCMLP (Cardina 2009: 18).
40 Fala-se com base no relatório da DGS sobre organizações subversivas de 17 de Dezembro de 1970
Figura nº 1 – Panfleto «guerra à guerra» Fonte: panfleto capturado ao MPLA no Miconge em 1973.
Para além disso, “é introduzido um estilo diferente de confrontação com o poder, mais directo e audacioso, que passava pela promoção de manifestações temerárias, pela distribuição de panfletos em pleno dia ou pelo apedrejamento de instituições bancárias” (Cardina 2009: 14).
Em finais dos anos Sessenta, a oposição armada ao Estado Novo e à Guerra do Ultramar, com objectivos político-militares determinados em corroer o regime vigente, é perpetrada com mais significado pela ARA41 (Acção Revolucionária Armada), ligada ao PCP, à LUAR42 (Liga de Unidade e Acção Revolucionária) e às BR43 (Brigadas Revolucionárias). Concomitantemente prolifera uma miríade de pequenos agrupamentos esquerdistas que vêm disputar a hegemonia do PCP nas universidades conseguindo, em alguns casos, penetrar no território operário e sindical. Diversas organizações maoístas criaram ainda estruturas, em regra exíguas, nos quartéis (cf. Cardina 2009: 11-12).
Também alguns sectores católicos desenvolvem uma acção política, com natureza de sinal pacifista, combatendo contra a censura estabelecida para informar
41 Primeira acção levada a cabo em Outubro de 1970. 42 Primeira acção levada a cabo em 1967.
43
sobre a guerra. “Inscrevem-se aqui as dissensões públicas de padres, como Felicidade Alves e Mário de Oliveira, mas também publicações como o Direito à Informação, os cadernos GEDOC ou o Boletim Anti-Colonial” (Cardina 2009: 17) e as conhecidas “vigílias pela paz” – como a realizada em 1972, na Capela do Rato. “Muitos «católicos progressistas», aliás, distinguiram-se no auxílio às passagens «a salto» da fronteira luso- espanhola” (Cardina 2009: 17).
Ainda na opinião de Cardina, o “MRPP foi, na verdade, o grupo que maior visibilidade alcançou no campo do activismo anticolonial”. E acrescenta:
Com recurso a uma linguagem triunfalista decalcada dos cartazes da Revolução Cultural, o primeiro número do órgão Luta Popular, datado de Fevereiro de 1971, intitula na primeira página: «Viva a Grande, Gloriosa e Justa Luta Revolucionária de Libertação Nacional dos Povos Oprimidos das Colónias» (Luta Popular 1971: 1). Mantinham além disso, uma clara hostilidade para com o PCP, sendo, a dada altura, o único grupo maoísta que não se propunha «reconstruir» o partido, mas sim «fundá-lo», já que advogavam nunca ter existido um partido comunista em Portugal. [...] A restante extrema-esquerda também não era poupada, recebendo o epíteto de «confraria neorevisionista» (Que Viva Estaline! 1972) (Cardina 2009: 17).
Está-se pois em presença de posições anti-guerra que tomavam a forma de uma resistência passiva ou de reflexão crítica e, de vez em quando, a proclamação explícita de uma posição mais violenta, apelidada por muitos de «guerra à guerra» (cf. Bebiano 2005: 83-85; 87-92).
As palavras de ensaio de Rui Cardoso, ao livro de Pacheco Pereira, As armas de papel (2013), que recenseou e catalogou nada menos de 158 títulos publicados, podem servir como achega histórica ao que se tem vindo a proferir:
Em 1973, o Estado Novo era um cadáver adiado, arrastado para o fundo por uma guerra sem solução, isolado no plano internacional e execrado pela juventude, nomeadamente universitária. À época visto de dentro pelos que o combatiam, o regime parecia eterno mas estava minado. Para isso contribuiu uma imprensa clandestina ou, pelo menos, não legal, saída das associações de estudantes, cooperativas, sindicatos e, por último mas não menos importante, de uma miríade de grupos de extrema-esquerda tão dispersos como combativos e ganhando terreno ao PCP entre os estudantes e algumas franjas operárias jovens. O copiógrafo e a folha de stencil estiveram para os estudantes contestatários como a Kalashnikov para o guerrilheiro: foram uma arma decisiva, eficaz e simples de manejar. Descontados trabalhos universitários, a história da imprensa clandestina da esquerda radical está largamente por fazer (Cardoso 2013: s/p).
Pacheco Pereira produziu, sem dúvida, um acervo que vai entusiasmar historiadores.
6.1.2. A guerra e a «guerra à guerra»
Moura Calheiros era um oficial Pára-quedista QP que passou agruras na guerra da Guiné. Em 1973 veio de férias à Metrópole e esteve no ISCEF, onde era aluno. Aí constatou a intensa “propaganda contra a guerra, abundantemente exposta nas paredes,
bem como o fervor das reuniões” que “ainda eram maiores do que antes de ter embarcado para a Guiné” (Calheiros 2010: 413-414). E acrescenta:
Mas não era o ambiente em Lisboa ou no ISCEF que tinham mudado. Eu é que tinha passado de um meio onde tudo se arriscava – inclusivamente a vida – para tentar ganhar uma guerra, para entrar subitamente noutro, também no meu país, em que se pugnava pelo abandono dessa mesma guerra e se apoiava abertamente o inimigo que eu combatia. Para tão pouco tempo eram contrastes a mais! (Calheiros 2010: 413)
E Calheiros pensava nos Capitães milicianos que conheceu nas perigosas escoltas de Guidage, onde se enfrentava, permanentemente, um inimigo bem armado e desafiante, “por aquela estrada fora, detectando e levantando minas e tentando ultrapassar o cerco” (Calheiros 2010: 462)! E descreve:
Escoltas de poucas dezenas de homens, enfrentavam cerca de seiscentos inimigos muito melhor armados! Habituado como fui a andar em operações sempre rodeado de militares muito bem preparados e com bom armamento, foi «arrepiante» ler os relatórios de operações daqueles Comandantes de escolta e de colunas e pensar na desproporção de forças que existiu entre o inimigo e as primeiras colunas de reabastecimento a Guidage, logo após o início do cerco (Calheiros 2010: 462).
Calheiros pressupõe que as “palavras de ordem”, bradadas por alguns deles nas assembleias das escolas frequentadas há pouco, ecoavam baixo perante a detonação das minas ou o sibilar perturbante da saída da granada mortífera dos RPG, dos canhões- sem-recuo ou dos mísseis 122. No terreiro de combate duro e na hora dos seus soldados sucumbirem ou sobreviverem, “a ideologia não contava e não se punha a questão de serem a favor ou contra aquela guerra” (Calheiros 2010: 462). Eles eram, então, única e exclusivamente pela sua Companhia, fosse quem fosse que se lhes opusesse.
Eles, ali, eram «apenas» os Comandantes de um grupo de jovens pelos quais se sentiam responsáveis. Era uma palavra – Responsabilidade – que agora pesava como chumbo sobre os seus ombros, que os levava a terem uma atitude completamente diferente da que defendiam na Universidade (Calheiros 2010: 462).
No entanto, apesar das ponderações de Calheiros, foi manifesto que alguns participaram na mudança do regime, com a finalidade primeira de acabar com a guerra e não terem de enfrentar todas os sacrifícios descritos. Otelo Saraiva de Carvalho, no seu livro O dia inicial 25 de Abril hora a hora, revela o nome de dois Capitães do Fim que tiveram trabalho relevante no 25 de Abril. Um deles,
…com a Companhia sob o seu comando, conquistou, ocupou e defendeu o centro emissor do
RCP em Porto Alto, acção vital para plena utilização da emissora ao serviço do posto de comando do MFA, reagindo tranquila e firmemente às tentativas levadas a efeito por agentes governamentais e pelo próprio Director do RCP, Júlio Botelho Moniz, no sentido de cortar a emissão dos comunicados do Posto de Comando do MFA para todo o país. O outro proporcionou o reconhecimento para efeitos de conquista e ocupação das instalações da Emissora Nacional na Rua do Quelhas (Carvalho 2011: 233).
No Relatório de 25 de Abril de 1974, postado por Diniz de Almeida (1976) no seu livro Origens e evolução do movimento de Capitães, pode-se reconhecer outras participações de Capitães do Fim, centradas em Santa Margarida e Póvoa do Varzim. Foram no total quinze, com intervenções nas imediações de Lisboa, Póvoa do Varzim e Porto. Será de salientar que todos eles estavam mobilizados para a Guerra do Ultramar e já com as suas Companhias constituídas. Também Otelo Saraiva de Carvalho, no livro
Alvorada em Abril, fala da importância da informação radiodifundida, e da sua ocupação, no conceito da operação em que foram envolvidos Capitães do Fim
(Carvalho 1997: 330).
6.2. Capitães do Fim: a Guerra que enfrentaram e o Exército que