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6.2.1. Quadrillage e africanização

i. O conceito de quadrillage, já anteriormente tratado, “fora adoptado a partir da estratégia de pacificação do Exército francês na Argélia e introduzido em Angola pelo General Silva Freire” (Cann 2005: 84). Neste quadro, estratégico e táctico, se inseriu a quase totalidade dos Capitães do Fim. As Companhias de caçadores que comandavam eram, teoricamente, constituídas por 175 militares dispondo da formação, constituída por secções de comando, de alimentação, de reabastecimento, de manutenção e sanitária. Pelotão de acompanhamento com três secções: uma de lança-granadas- foguete, uma de morteiros ligeiros e uma de metralhadoras, cada a três esquadras. Três pelotões de caçadores, cada com três secções de caçadores. Esta organização, tipicamente ternária, facilitava constituir quatro grupos de combate, embora não exactamente iguais, permitindo que um ficasse em defesa do estacionamento da quadrícula, enquanto os outros três actuavam em operações de contra-guerrilha (cf. Cann 2005: 94).

A dimensão militar da contra-subversão, por elas empreendida, não foi a designada grande operação mas sim a patrulha de infantaria simples e um programa psicossocial. Este era composto por programas essenciais que, genericamente, compreendiam: ensino, assistência na saúde, expansão económica da agricultura e da pecuária, melhoramentos das infra-estruturas locais, comunicações, autodefesa das localidades e aldeias, construção de aldeamentos e reordenamento da população e sua defesa. Este conjunto de actividades era oficialmente conhecido pela APSIC, ou, vulgarmente, Psico (Cann 2005: 74-75; 101).

Figura nº 2 – Panfleto da Psico

Fonte: (CTIG: 1970).

ii. No tempo dos Capitães do Fim, o recrutamento europeu foi sendo complementado pelo recrutamento nas Províncias Ultramarinas, chegando este a ultrapassar os 50 % em Moçambique. Estava-se perante uma africanização portuguesa, comparada aos empenhos franceses da jaunissement, ou amarelização da guerra da Indochina (1946-1954), ou do aproveitamento de tropas recrutadas localmente na Argélia (1954-1962). A africanização portuguesa foi também bastante mais vasta do que a vietnamização norte-americana em 1963 e 1973 (cf. Cann 2005: 74-75; 101-102).

Sob o comando dos Capitães do Fim estiveram também Tropas Especiais (TE), Grupos Especiais (GE), Milícias Normais e Milícias Especiais. Alguns Capitães chegaram a ter, debaixo da sua alçada, 3 grupos de TE. Muitos outros, idos em rendição individual, ou sujeitos ao sistema de transferência, comandaram Companhias africanas do exército regular.

6.2.2. A unidade base da Guerra do Ultramar

i. A unidade base da Guerra do Ultramar foi pois a Companhia, já muito africanizada. Os seus Comandantes, alguns muito jovens, tiveram a pesadíssima responsabilidade, segundo Moura Calheiros, de conduzir cerca de cento e cinquenta

jovens entre os vinte e os vinte e três anos, geralmente isolados e com escassos apoios, em locais muito distantes de tudo e em condições quase impensáveis para viver. Com acrescida responsabilidade, não só de defenderem as suas posições de eventuais ataques, como também a de procurar, perseguir e combater o inimigo que os rodeava.

Era, muitas vezes, em condições de vida claramente sub-humanas, que aqueles Capitães tinham de garantir a sobrevivência do seu pessoal e da população que estivessem a proteger.

Sobre eles recaía também a responsabilidade de toda a administração da Companhia; da recolha e transmissão de informações de e para o comando superior; da segurança do local onde estavam instalados; da manutenção de uma actividade operacional que impedisse o inimigo de se instalar na sua zona de acção; e da condução das operações ordenadas pelo comando superior (cf. Calheiros 2010: 300 e 565).

Era também necessário manter a disciplina e o moral elevado daqueles que comandavam, acomodados perante um isolamento permanente, constrangidos psicologicamente por um meio natural e militar desfavorável, insulados, sem conjunturas de apoio e alcançáveis, muitas vezes, apenas pelo ar.

Neste contexto, uma das mais problemáticas responsabilidades dos Capitães do Fim era a de notarem, e resolverem, muitas das dificuldades enfrentadas pelos homens sob o seu comando. Por isso se diz, na gíria, que o Capitão era o Pai, o aconselhador, o defensor, o confidente, o último recurso, sempre o exemplo presente, mas também o Comandante em tudo o que a palavra significa. Era, comparativamente, o professor primário nas aldeias periféricas e pobres dos tempos áureos de Salazar. Os Comandantes de Companhia executavam naquela guerra muito mais papéis do que os atribuídos pelas normas militares. Estes normativos dirigiam somente a parte material e funcional das suas atribuições, uma desprezível parte do que o dia-a-dia lhes exigia, apenas aquela descortinada teoricamente nos gabinetes onde tinham sido delineados (cf. Calheiros 2010: 300 e 565).

ii. Mas, se o desempenho destas funções por aqueles Capitães do Fim ocorresse em situações de guerra extremamente violentas e delicadas, como a experimentada, por exemplo, em Canquelifá e Guilege na Guiné, em Miconge e Sanga Planície em Angola, ou em Omar e Nangade em Moçambique, elas eram passíveis de procriar um profundo desgaste psicológico, para além da natural consumição física. Só quem viveu e

enfrentou situações idênticas pode perceber a quase não humana exigência física, psíquica, ética, moral e profissional, necessária para um desempenho positivo das incumbências a levar por diante naquelas condições. (cf. Calheiros 2010: 553-565).

No entanto, para enfrentar tamanha tarefa, todos os Capitães, e, especificamente, os Capitães do Fim contaram com o designado carácter do Soldado português. Escreve Cabral Couto:

Toda esta acção resultou do carácter nobre do soldado português e que se deve enaltecer: um grande sentido do dever, uma aceitação natural da disciplina, o respeito e confiança nos chefes, uma grande capacidade de adaptação e de sacrifício, um enorme espírito de solidariedade e de camaradagem. A não ser na ponta final da Guerra, e mesmo então em número muito reduzido, praticamente não houve manifestações de indisciplina ou de insubordinação colectiva, quer no pessoal que vinha da metrópole, quer entre o pessoal recrutado localmente (Couto 2010: 112).

O Soldado português estava, verdadeiramente, imbuído de um grande sentido de dever e solidariedade.

6.2.3. Um Exército predominantemente milicianizado

Os Capitães do Fim integraram-se num Exército predominantemente milicianizado, quase miliciano, com menos de 1% de efectivos plenamente profissionais. De facto, quaisquer forças armadas só podem ser apelidadas de milicianas, quando é muito significativa a percentagem de cidadãos conscritos que ascendem a postos de relevante responsabilidade na sua organização (cf. Correia1988: 23-26; 29-33). Era precisamente esta a realidade existente.

As pesquisas de Manuel Rebocho (2009) são paradigmáticas da situação e os exemplos apresentados concludentes. O investigador assegura que das cento e duas Companhias de quadrícula em Sector na Guiné, em Janeiro de 1974, apenas onze foram comandadas por oficiais originários da Academia Militar, mas só durante nove meses, em média. Durante o resto do tempo, em que permaneceram em Sector, tanto estas Companhias como todas as outras, foram comandadas por oficiais milicianos (cf. Rebocho 2009: 334-335). O mesmo autor afirma ainda que no Leste de Angola, entre 1971 e 1974, de sessenta e oito Companhias no terreno só três eram comandadas por Capitães do Quadro Permanente; e na Zona Operacional de Moçambique, em 1973, das cento e uma Companhias do Exército em quadrícula, cem eram comandadas por Capitães milicianos e, apenas uma, por um Capitão do QEO que, por castigo, foi designado para comandar a Companhia colocada em Revia. (cf. Robocho 2009: 369- 374). Elucidativo é, também, o panorama existente em muitos batalhões, organização de

seiscentos e tal homens, havendo apenas três oficiais do quadro permanente: o Comandante de Batalhão, o segundo Comandante e o oficial de operações.

Em 1972, nos três teatros de operações, Angola, Guiné e Moçambique, 82,87 % das Companhias em quadrícula eram comandadas por Capitães do Fim; em 1973 a percentagem ascende a 86,22%44.

6.2.4. Capitães do Fim: conjuntura política desacertada para entrar na guerra

Sob o ponto de vista da política nacional e internacional, o momento da entrada na guerra dos Capitães do Fim não foi o mais adequado. Em Junho de 1971, ano em que o primeiro curso de Capitães do Fim estava prestes a terminar a sua formação, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, lideres dos movimentos de libertação, prostraram Lisboa de forma inquietante numa manobra de relações públicas determinante, ao serem fotografados na presença de Sua Santidade, o Papa Paulo VI, durante uma conferência em Roma.

Nas reuniões ministeriais da NATO, a Holanda, a Noruega e a Dinamarca atacavam cada vez mais Portugal, por este país utilizar as armas da NATO em África. A Alemanha Ocidental, anteriormente um forte aliado de Portugal, anunciou não mais vender armas à NATO. A votação de cento e cinco contra cinco na Assembleia-Geral da ONU, em Outubro de 1972, para reconhecer o PAIGC como o único representante legítimo do povo guineense, foi outro rude golpe para Portugal (cf. Schneidman 2005: 185)