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6.8.1. A Companhia como Exército em miniatura e de serviços mínimos i. O Coronel Matos Gomes (em 24 de Novembro de 2010) respondeu, como oficial do QP, às questões Q1 e Q264, tal como muitos outros militares experientes e estudiosos da Guerra do Ultramar. Às suas reflexões remete-se o enquadramento final deste capítulo.

Para Matos Gomes, “a função atribuída pelo Exército à Companhia em quadrícula era de tal forma ampla que abrangia todos os aspectos inerentes à guerra e à missão do Exército” [Q1]. A Companhia era “um exército em miniatura, o que tornava muito difícil de ser comandada. O «Capitão da Companhia» era um General em miniatura: devia comandar, administrar e fazer política” [Q1]. Para além de tudo isto, as Companhias tinham as suas missões, embora de carácter generalista, como por exemplo, defender a sua ZA (zona de acção), o que dava aos Capitães a responsabilidade, solitária, de decidir o que fazer, onde fazer, como fazer (cf. Q1).

Estas reflexões levam o depoente a pensar noutras dificuldades para o Capitão, consubstanciadas “na análise da missão geral e adequada à situação”, e a sua “tradução em acções no terreno do resultado da sua análise” [Q1].

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ii. Para tornar mais clara e rigorosa a missão dos Capitães do Fim, tornava-se acertado, na opinião do Coronel, examinar a sociedade circundante de então e o modo como aceitava e olhava a guerra.

A visão dos portugueses sobre a guerra foi variando entre a ideia de que ir à tropa e fazer a guerra para defender os territórios era um dever e uma fatalidade que calhava aos jovens. Se a visão dominante da sociedade fosse a de que as Forças Armadas cumpriam um dever, então o bom Capitão seria aquele que tivesse levado os seus homens a combater, a impor a ordem [ou a restabelecê-la] pela força – o bom Capitão seria o condecorado, mesmo à custa do sacrifício dos seus homens. Mas, se a visão dominante na sociedade fosse a de a guerra ser uma fatalidade, então o bom Capitão era aquele que tivesse sobrevivido a ela com os seus homens, o Capitão do tipo: No Regresso Vinham Todos [Q1].

No entendimento de Matos Gomes, a última opção venceu, quando foi percebível pela maioria da sociedade que se estava em presença de uma guerra interminável. Os adeptos da não-guerra e da «guerra à guerra» aumentaram. “O bom comando de uma Companhia passou a ser levar e trazer os homens da Companhia, cumprir a comissão de dois anos, não ser ferido, não ser punido” [Q1].

Passou-se, deste modo, de um conjunto alargado e complexo de funções, para o cumprimento de serviços mínimos, nas palavras do Coronel, isto é:

De um conjunto muito alargado de funções, a serem cumpridas pela Companhia, de uma importância nuclear da sua função na condução da guerra – combate, administração e acção psicossocial – em que a sorte da guerra dependeria do bom ou do mau desempenho da Companhia, evolui-se para a missão de serviços mínimos de sobreviver durante dois anos, de ocupar uma zona e fazer como do antecedente, que foi a situação característica dos anos finais da guerra nos três teatros de operações [Q1].

Era preciso, fundamentalmente, não morrer. Regressar.

6.8.2. Da complexidade de funções à complexidade da sobrevivência

i. O depoente explicita, agora, a razão por que as Companhias foram ficando órfãs da tripla missão que lhes estava destinada:

A Companhia ficou, nestes casos de teatros de operações mais exigentes, em inferioridade e incapaz de dar resposta à tripla missão que lhe estava atribuída. Para combater no exterior necessitava de um efectivo que colocava em causa a defesa do quartel e a segurança das populações e, por vezes, mesmo a actividade de sobrevivência [alimentação, segurança]; se se mantinha no interior do quartel, ficava à mercê dos ataques do inimigo e, cada vez menos, capaz de sobreviver [dificuldades em realizar colunas de reabastecimento, p. ex.]. Foi este o dilema de muitos Comandantes de Companhia. Acresce ainda que a ocupação de um ponto, a instalação permanente, a relação com as populações era e foi bem mais atractiva para as tropas, e os seus Comandantes, do que a saída para operações com os riscos e incómodos inerentes [Q1].

Daqui a figuração do “Capitão alcaide do castelo da idade média”, o novo paradigma de Matos Gomes.

Chegamos, mais uma vez, à lassidão, quase inevitável, resultante da quadrícula e da ideia de «ocupação» do terreno e da missão de soberania. Embora em guerra, a quadrícula corresponda a um dispositivo territorial de manutenção da ordem e de exercício de soberania. O Capitão

passou a ser o chefe de uma guarnição, o administrador, o juiz. Era o Capitão alcaide do castelo da idade média e não o guerreiro [Q1].

ii. Matos Gomes começou o seu depoimento por considerar a Companhia “um exército em miniatura” [Q1], mas acabou por “a reduzir a um posto de guarda

territorial” [Q1]. Nas suas palavras, construiu-se um Comandante de guarnição e um administrador.

Pode parecer, neste final, que tendo eu começado por considerar a Companhia um exército em miniatura, a unidade fundamental em que assentou o dispositivo militar português em África e a sua acção militar [político-militar] acabei por a reduzir a um posto de guarda territorial. É assim, em boa parte, porque o Exército, e as suas Companhias de caçadores, tiveram durante a guerra que suprir a ausência de uma rede de administração civil dos territórios. A soberania portuguesa, e a administração, foram até ao início da guerra asseguradas por malhas de autoridade e de serviços públicos de muito baixa densidade, que tiveram de ser criadas à pressa e à custa das forças armadas. Estas, ao absorverem as funções de soberania e fornecimento de serviços essenciais [saúde, educação, transporte, comunicações] foram desviadas da sua função principal de combater, acrescendo ainda que, combater em guerra de contra-subversão é ganhar as populações, e isso se faz [fazia] proporcionando-lhes bens e serviços, tarefas que, de novo, retiraram capacidades para combater, às unidades de quadrícula [Q1].

Do que foi explicitado se deduz que o Capitão foi mais um Comandante de guarnição e um administrador do que um Comandante de unidade de combate.

6.8.3. Mau desempenho das unidades do Exército em 1973: evidências Matos Gomes é categórico a afirmar que houve uma má prestação das unidades do Exército em 1973:

O mau desempenho das unidades do Exército, nos Teatros de Operações da Guiné e de Moçambique, evidente em 1973, quando as forças dos movimentos de libertação introduzem as armas anti-aéreas portáteis [mísseis AA – Strela], retirando a única vantagem significativa às forças portuguesas, a supremacia aérea, não se deve, em minha opinião, à juventude, nem à má [ou inadequada] formação dos Comandantes de Companhia CCC, mas sim à má resposta dada pelas estruturas superiores do Exército e ao ambiente político, e social, que rodeava as forças armadas e a sua missão de manter as colónias.

A sociedade, ao percepcionar a guerra como inútil, e/ou injusta, e/ou sem futuro, e destruidora de recursos humanos e materiais, não podia gerar Capitães de complemento [milicianos] motivados, por muito bem escolhidos e muito bem preparados que tivessem sido. [Além de não motivar os quadros de complemento, o ambiente político e social contribuiu até para desmotivar os quadros permanentes, como sabemos].

Ainda quanto ao desempenho destes Capitães, basta verificar que, em circunstâncias de melhor enquadramento e melhor definição de missões, como foi o caso de certas forças especiais, onde eles apenas tinham funções operacionais, o seu rendimento foi bom, ou muito bom [Q2].

O contexto agora descrito foi vivido, como ao longo do capítulo se pode percepcionar, pelos Capitães do Fim.

Parte B

Enquadramento metodológico

Conheci Capitães do QP excelentes, vários, leais, competentes. Conheci outros que eram uns incompetentes fanáticos.

[cap. 100]. Em Para Memória Futura. 20.11.2011.