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O olhar epistemológico: conhecimentos situados para uma

reconstrução responsável dos saberes

No es un ‘ final feliz’ lo que necesitamos, sino un no-final. (HARAWAY, 1999, p. 153)

15/08/03. Cheguei a Les nauS como dançarina, em 27/05/03. Fui aceita na assembléia para dar aulas de dança do ventre. Comecei essa mesma semana e gostava muito do que fazia: do compromisso, meu e das alunas, com a dança, um compromisso que não era vendido nem comprado, que era feito artesanalmente por nós mesmas toda quinta- feira à noite. Mas apaixonei-me por Les nauS dois meses depois, em agosto de 2003, com a preparação e posterior ocorrência do Encontro sobre Palestina, Israel e outros conflitos no Mediterrâneo. Diante dos meus olhos, a acomodação de 100 pessoas provenientes desses lugares longínquos foi planejada praticamente sem dinheiro: quatro casas okupa as hospedariam, outras emprestariam os colchões, outra os pratos e utensílios de cozinha; o Coletivo Zapatista, os copos; parte da comida era “reciclada” nos mercados (pegando o que iria ser jogado fora mas ainda estava bom) e cada coletivo tinha dois dias de cozinha durante os quinze dias do encontro. O cardápio foi preparado com antecedência e escrito detalhadamente para que qualquer um pudesse segui-lo e alterá-lo se era o caso. A agenda do encontro, prevista em pontos gerais, seria decidida no primeiro dia com todos/as os/as participantes. MLK, uma das corajosas mulheres jovens do centro social, me convidou para uma dessas assembléias e eu, encantada, sentia que entrava cada vez mais fundo em uma dança que não queria que acabasse, porque me relatava formas como queria viver minha própria vida. Fui entrando, junto com o pessoal de Les nauS, em comissões para fazer a faxina da casa, cozinhar e lavar a louça, preparar atividades. O campo-tema se apropriou de mim: logo estava sendo proposta como dançarina da casa para apresentar-me em diversos eventos, e as pessoas que chegavam aproximavam-se de mim como sendo alguém de Les nauS. Sentia-me orgulhosa de estar ali e tímida por não saber nada daquilo. Mas quem não sabe aprende. Comecei aprender lavando as panelas e demais instrumentos de cozinha, o que, descobri, era uma forma de ajudar sem atrapalhar. E

assim, lavando, cortando vegetais, ajudando aqui e ali, fui conhecendo pessoas que marcariam profundamente minha vida. Contei para eles que me apaixonei pelas nauS e aceitaram que tomasse a experiência para a tese, mesmo que todas sabíamos que o espaço seria despejado, mas eu não podia deixá-lo morrer sem que mais gente soubesse que aquilo existia (diário de campo).

* * *

Para poder escutar os saberes construídos nas práticas cotidianas de iniciativas igualitárias pouco conhecidas pela academia e, assim, fazer pesquisa útil no âmbito da emancipação, é preciso fazer uma aposta epistemológica: entender o trabalho acadêmico –e no caso, o presente texto – não como uma forma (privilegiada) de se ter acesso à realidade, mas como uma interpretação politicamente situada, que é colocada no espaço público da academia e da militância para ser debatida. Pôr em prática essa aposta equivale a entender o conhecimento de forma diferente à concepção hegemônica da ciência, que o entende como forma de “chegar” ou “aproximar-se” da realidade externa. Diferentemente, conhecer seria se posicionar a respeito de um fenômeno, socialmente construído, partindo daquilo que se entende como politicamente relevante em um lugar – ou seja, partindo de uma objetividade encarnada (HARAWAY, 1995).

Minha entrada no cotidiano de Les nauS, acima relatada, ensinou-me que a forma de conhecer proposta neste trabalho dista muito do olhar conquistador, ilimitado, que a ciência tem usado para acumular conhecimento através do “truque divino” de falar desde lugar nenhum, como se estivesse no além, sem posicionar-se nem comprometer-se explicitamente com nada (HARAWAY, 1995). A partir desse momento, e também na relação com as outras iniciativas, o olhar com que foi feita a pesquisa que entende a criação de conhecimento como sendo uma ação coletiva e política. Ação porque, enquanto sentido coletivo que se produz no cotidiano de um lugar e com uma forma de organização específica, constrói realidades no seu movimento. Coletiva porque o ponto de partida é o “nós” e não a clássica separação “eu-você” da qual parte a ciência hegemônica; porque surge em relação, se gera na interação de diversas posições (em um lugar e tempo específicos, com pessoas e textos;

com equipamentos como computadores, aparelhos de rádio ou implementos de limpeza). Política porque ao ocupar espaços – acadêmicos ou não – para o questionamento do poder -enquanto dominação e controle- e a realização de práticas igualitárias, transforma o mundo ao redor e as próprias visões, permitindo posições nas quais algumas verdades são possíveis, mas outras não o são.

Essa concepção do conhecimento, esse olhar, tem o propósito de “produzir nem tanto efeitos de distanciamento como efeitos de conexão, de encarnação e de responsabilidade com algum outro lugar imaginado que já podemos aprender a ver e a construir” (HARAWAY, 1999, p. 122). Um outro lugar ou outros lugares menos organizados em torno a eixos de dominação, para cuja construção vale a pena conhecer quais os avanços que foram conseguidos pelas iniciativas protagonistas deste trabalho e, igualmente, responsabilizar-me por ajudar a compreender como é possível superar obstáculos existentes nesses casos, com a esperança de que essa reflexão ajude a tais experiências e talvez a outras.

A construção de conhecimento – de ação coletiva e política – acerca de como iniciativas igualitárias sobrevivem em meio a dinâmicas de dominação partiu de uma posição prévia, construída a partir da minha conexão com lugares, momentos, pessoas e textos que encarnavam minha pergunta – davam-lhe carne, sustento, vida. Tais eixos me constituíam como sujeito que vê desde uma postura que não é nem melhor nem pior do que outras, mas que permitia ver certas coisas e outras não.

Graças às conexões vividas fui conhecendo propostas e práticas igualitárias, dentre elas a proposta epistemológica dos conhecimentos situados, e essas práticas e propostas que conheci me levaram à pergunta de pesquisa. Entretanto, para respondê-la precisaria trabalhar na geração de “conhecimentos situados” através de novas “conexões parciais” e construindo, assim, uma “objetividade encarnada”. Geramos coletivamente conhecimentos novos em relações novas. Esses conhecimentos não são gerais nem válidos para tudo (como nenhum conhecimento o é), mas supõem que assumamos a responsabilidade de localizá-los e posicionar-nos para defender o que construímos como sendo rigoroso em determinados momentos e lugares.

São estes três conceitos os que fundamentam o olhar epistemológico do trabalho. Eles se situam no marco das epistemologias feministas e foram acunhados pela norte-

americana Donna Haraway (1995, 1999). Cada um deles tem sentido graças aos outros: eles constituem-se mutuamente. Contudo, foram explicados separadamente, na ordem citada, para dar clareza ao texto e contar o aprendido de maneira inteligível academicamente. A seguir, eles serão detalhados com mais nitidez, para depois “conectá-los” com o olhar metodológico.

Conhecimentos situados

Os conhecimentos situados são lugares materiais e semióticos desde os quais nos relacionamos com aquilo que “experienciamos”, produzindo conhecimentos que, longe de representar uma realidade fora de nós mesmas, são produto da inter-relação entre quem pesquisa e aquilo pesquisado. Como na tradição hermenêutica própria da fenomenologia (GADAMER, 1960), a leitura de um texto é o resultado da tensão interpretativa entre o horizonte da leitora (pesquisdora) e do texto (o tema da pesquisa). Este produto não é uma “descrição” do mundo, mas o ponto de partida para a construção de artefatos materiais e semióticos (PUJOL; MONTENEGRO; BALASCH, 2003, p. 64).

A forma como mergulhei no dia-a-dia de Les nauS, que relato aqui porque influenciou a realização de todo o presente trabalho, pretende localizar-se no que Gil (2004) denomina entender a pesquisa como uma aposta por algo, uma aposta que implica na possibilidade de fazer promessas e responsabilizar-se por cumpri-las. Só que essas promessas, ao invés de serem heróicas, são cotidianas, o que não as faz pouco profundas nem pouco transformadoras. A promessa que fiz de esforçar-me por ajudar sem atrapalhar, por exemplo, não partiu de um não-lugar ou de um compromisso “com a transformação social”; pelo contrário, pôde ser formulada a partir de um conhecimento pequeno, parcial, localizado: no encontro palestino-israelense fazia falta gente para lavar a louça, e para mim, que estava em uma experiência completamente nova, aquilo era algo que conseguia fazer sem encher ninguém de perguntas nem perseguir as pessoas que corriam de lá para cá fazendo de tudo.

Pode parecer simplório entender a complexa proposta dos conhecimentos situados lavando a louça. Mas lavá-la me permitiu viver na prática coisas afins às que Haraway relata nos seus textos. Como por exemplo, perceber que os conhecimentos são parciais e marcados, e sua única possibilidade de crescimento encontra-se na

responsabilidade. Meu conhecimento era mínimo. Mas responsabilizei-me por ele. Aquilo me fez aprender coisas novas: onde se guardavam os implementos de cozinha, onde ficavam lugares da casa nos quais se guardavam tais implementos, quem estava naqueles lugares e o que poderia estar precisando. Então vi que, quando a louça estava pronta, outra forma de ajudar sem atrapalhar era chegar nas pessoas que via ocupadas mas não correndo e perguntar-lhes “do que precisas?”. E aprendi novas coisas, como cortar os vegetais para o almoço de mais de 100 pessoas e adquirir uma idéia das quantidades de comida necessárias para isso. E a cozinhar entre várias pessoas para tanta gente. E a montar um conjunto de recipientes com diferentes quantidades de água e detergente para que todas as pessoas lavassem seu prato após comerem, de forma fácil e rápida. E a conhecer as pessoas nestas práticas: o que gostam ou não de fazer, de que classe social vêm, com o que se comprometem ou não, quem fala muito e não faz. E assim fui aprendendo muito, aprendendo a partir do reconhecimento de que não sabia.

Esses conhecimentos que fui aprendendo eram lugares materiais e semióticos. Materialidades e sociabilidades que se constituíam conjuntamente, pois só era possível cozinhar se havia comida, mas havia comida porque algumas pessoas a levaram até a casa. E só era possível cortar quilos de vegetais em uma hora se várias pessoas se responsabilizavam por aquilo, pessoas entre as quais havia algumas que sabiam muito sobre aquela forma de funcionar e outras, como eu, que sabíamos pouco e queríamos aprender.

Reconhecer minha posição como algo contingente e precário possibilitava que aceitasse um “outro” ou “outra”, que estava lá comigo e que sabia coisas diferentes das que eu sabia, mesmo que às vezes aquele outro ou outra fosse tão diferente que sua existência ameaçasse minha posição – minha forma de vestir, a música que gosto, minha vida marcada por formas “normais” de viver tais como estudar, ter tido um emprego, um parceiro, uma casa, ou tantas outras coisas. Às vezes o encontro me trazia dúvidas, ou era desconfortável ou até doloroso por instantes, mas eu queria aprender daquilo. Minha posição era precária e, portanto, aberta ao diálogo; segundo Gil (2004), citando Haraway, uma posição assim subjaz aos conhecimentos situados e nos permite darmos conta da relação com “outros inadequados” como poderiam sê-lo uma pessoa okupa, um homossexual “queer”, uma punk, um usuário constante de haxixe ou tantos

outros que a sociedade categorizava como “anormais” mas que, olhando bem, não era fácil colocar em categorias, porque pareciam “normais” mesmo que não fossem ou eram mais “normais” do que pareciam.

As relações ou conexões parciais que vivemos vão configurando formas de entendermos o mundo e de atuarmos nele –ou ele em nós. Estas visões (formas de entender o mundo) e encarnações (modos de atuar e vivenciar dando “carne” à experiência) colocam-nos em posições atravessadas por eixos socialmente construídos como o gênero, a raça, a classe social, a idade, a origem nacional ou as necessidades especiais. Desde aí conhecemos e atuamos, vemos umas coisas e não outras. Desde aí são possíveis umas verdades e não outras. Verdades que valem em determinados contextos e não necessariamente em outros; e, caso valham em outros contextos, provavelmente sofrerão modificações e adaptações. Isso é conhecimento situado.

Minha visão de Les nauS tinha sido encarnada a partir da minha posição inicial de mulher, venezuelana, não européia, mestiça e não branca, professora de dança do ventre, a favor do funcionamento libertário, posteriormente psicóloga social fazendo uma tese ali, vinda do trabalho comunitário na Venezuela e no Brasil. Aquilo fazia com que algumas das minhas propostas de atividade, formas de cozinhar ou limpar fossem diferentes às de outras pessoas de lá. E às vezes faziam sentido ali e às vezes não, com o qual eu aprendia maneiras diferentes de fazer, ia entendendo ou ajudando a construir práticas que faziam sentido no centro social. Isso é conhecimento situado.

Estando com a cooperativa Santo Domingo Brasil e a rádio Gente 94.5 FM, coletivos de pessoas venezuelanas, mestiças e ativistas como eu, isso também acontecia. O exemplo do despejo ilustra bem este conceito1. Um despejo em Barcelona é muito diferente de um no Brasil. Mais ainda, o despejo de uma casa okupa de Barcelona difere muito do despejo de sem terras no Brasil – se bem que, dependendo das circunstâncias e do tamanho e história da casa, há diferenças entre despejos em Barcelona e semelhanças de alguns destes com alguns do Brasil. Em Barcelona, após o julgamento de uma casa ou centro social relativamente grande ou conhecido publicamente, primeiramente chega uma carta avisando que o despejo deve acontecer

1 Cito o despejo porque, no campo-tema das iniciativas igualitárias, quase todos os centros sociais de

Barcelona, além de Les nauS, foram despejados entre 2003 e 2004, assim como também o foi a TV comunitária Catia Tve, em Caracas, e o Brunswick Squat, em Londres.

em algum momento a partir da decisão do juiz; depois se recebe outra carta, notificando a data prevista para o despejo, o que deu a Les nauS a possibilidade de organizar ações e eventos para evitá-lo. Caso efetivamente não aconteça nessa data, que foi o caso ali, chega posteriormente outra carta anunciando nova data ou, o que é pior, estipulando um dia a partir do qual o despejo pode acontecer sem prévio aviso, a qualquer momento. Pode haver ou não violência em caso de enfrentamento com a polícia. Uma multidão frente à casa okupa em questão pode parar um despejo. Caso as pessoas envolvidas fossem parar na delegacia de polícia, uma pessoa de algum país do Terceiro Mundo – como por exemplo eu – pode ser deportada, mesmo estando legalmente no país. Esta informação é verdadeira e útil para o movimento de okupação em Barcelona, mas não para a luta dos sem terra no Brasil. Isso é conhecimento situado.

A partir do exemplo é possível supor que os conhecimentos situados são necessariamente parciais, já que quando se está localizada/o em um lugar é impossível olhar tudo ao mesmo tempo. Habitando em Barcelona e estando em um centro social okupado, por exemplo, é possível ter acesso à informação citada acima e confiar nela. É claro que outras coisas podem acontecer, mas elas podem ser previstas devido à experiência das pessoas envolvidas e das suas assessoras jurídicas. Não se espera um procedimento semelhante aos do Brasil, ou da Venezuela, onde a lei protege quem okupa – e onde foi feito o despejo da TV comunitária Catia Tve, de forma tal que um dia as pessoas foram trabalhar e se depararam com o fato de que o governador mandou pôr uma corrente e cadeado que impossibilitava o acesso aos equipamentos televisivos.

Essa localização limitada do conhecimento faz com que seja necessário darmos conta das formas como estamos olhando e, portanto, assumirmos a responsabilidade de falar desde esse lugar. Neste exemplo, vale destacar que as pessoas de Les nauS assumiram coletivamente a segurança das pessoas na luta contra o despejo como sendo um assunto da sua responsabilidade. O compromisso principal estava em trabalhar na prevenção para que a luta fosse pacífica. No entanto, caso alguém fosse preso, todo mundo tinha a informação sobre o que fazer. E se eu fosse presa, pagariam o advogado mais competente para esse tipo de casos, já que eu poderia ser deportada por ser “terceiro mundista” e eles(as), nascidos(as) na Catalunha ou na Comunidade Européia, não o seriam a princípio.

É justamente a responsabilidade de falar desde um lugar o que diferencia a proposta epistemológica dos conhecimentos situados das propostas realistas e relativistas. Segundo Haraway, ambas falam desde um “não lugar” e, de formas distintas, acabam não se posicionando: a objetividade científica realista se auto-propõe como conhecimento válido e legitimado sobre a “realidade”, independentemente de quem a observa, e as posturas relativistas propõem que não existe nenhuma verdade absoluta, com o qual todas as posições e construções são potencialmente válidas (BALASCH; MONTENEGRO, 2004).

Haraway faz uma crítica feroz a ambas as posturas quando afirma que

El relativismo es una manera de no estar en ningún sitio mientras se pretende igualmente estar en todas partes. La “igualdad”del posicionamiento es una negación de responsabilidad y de búsqueda crítica. El relativismo es el perfecto espejo gemelo de la totalización en las ideologías de la objetividad. Ambos niegan las apuestas en la localización, en el encarnamiento y en la perspectiva parcial, ambas impiden ver bien. La moraleja es sencilla: solamente la perspectiva parcial promete una visión objetiva (1995, p. 329).

Mas criticar as duas epistemologias não basta. Assim como desconstruir não é suficiente porque é preciso sentar as bases de uma reconstrução responsável, o conceito de conhecimentos situados não apenas trabalha na desconstrução dos efeitos “problemáticos” do realismo e do relativismo, mas busca respostas à pergunta de “como e desde onde agir politicamente se todas as asseverações que fazemos sobre o mundo são produtos contingentes historicamente situados” (BALASCH; MONTENEGRO, 2004, p. 02). Responsabilizando-nos pela parcialidade do nosso olhar e pela posição desde onde conhecemos, podemos nos responsabilizar por construir novas conexões parciais para criarmos uma visão melhor, mais adequada e objetiva, que transforme nossas posturas e também nossos mundos. Entender o conhecimento nesses termos pode ser uma “melhor” forma de compreender iniciativas igualitárias em sociedades de controle, não porque seja uma forma mais real, mas em termos dos efeitos políticos que pode ter este texto, ora para fazer uma crítica e reconstrução no âmbito dos trabalhos acadêmicos, ora pelo que possa aportar nos coletivos com que se articula.

Epistemologicamente, o Coletivo Situaciones faz uma leitura afim à de Haraway: a epistemologia moderna, determinista (referem-se fundamentalmente ao marxismo), sonhava com alcançar o conhecimento total do real e, contrariamente, a pós- moderna propôs a plena indeterminação, a impossibilidade de ter um saber que reflita o real e a própria realidade como sendo impossível. Ante semelhante dilema, eles propõem uma saída: existe um real não definitivo, passível de ser “esquematizado” pelas ciências. Não é pertinente falar, portanto, de saberes globais, mas sim de saberes situacionais. Seria esta a lógica de médio alcance: dependendo da pergunta que seja feita, a resposta situada funciona bem e não é necessária uma resposta “universal”, mas sim um saber local, que pode se conectar com outros. Diversos ou muitos lugares podem partilhar a mesma lógica, e isso não significa que ela é “universal”.

A respeito do conhecimento “universal”, vale fazer um parêntese para lembrar Vandana Shiva quando argumenta que o saber dito universal é um saber local também: o saber ocidental tornado hegemônico. Nesse sentido, Mignolo (2003) é contundente, criticando a noção de “universal” como sendo uma construção feita por homens brancos e europeus (tanto de direita quanto de esquerda) que, em vez de assumir a parcialidade do seu olhar, usaram este escudo de suposta universalidade para exercer o privilégio epistêmico de classificar todas as diferentes crenças, cores de pele e práticas culturais no mundo, colocando os saberes ditos “bárbaros”, “selvagens” e “primitivos” como estágios anteriores ao nível humano. A expressão “conhecimento universal”, então, possivelmente é um ranço da racionalidade européia dominante, e deve ser cuidadosamente revisada, assim como as tendências ao “universalismo” que, enquanto acadêmicos(as), nos constituem, e que atravessam o presente trabalho.

A proposta de se trabalhar na lógica de médio alcance é, simultaneamente, uma forma situada de trabalhar e uma ação de resistência ao suposto conhecimento universal, hegemônico, do patriarcado capitalista branco. Nesse sentido, diz o Coletivo Situaciones que “as lutas não dependem tanto de técnicos e sabichões quanto da