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Steffen Petersen 1*

1 Aarhus University Department of Engineering, Aarhus, Denmark

As soluções teóricas de Weffort e Ianni, assim como de outros estudiosos, valeram uma extensa e pormenorizada crítica intra corpore, situada no mesmo universo teórico que, em dada altura, ocupou-se intensamente desse debate. A esse respeito, Ernesto Laclau, em Política e ideologia na teoria marxista: capitalismo, fascismo e populismo (1979), empreendia a uma revisão de fundo das elaborações que tentavam explicar o populismo.

Laclau descreve minuciosamente as bases dessas correntes, procurando demonstrar que a todas faltava sempre coerência orgânica com os princípios analíticos que presidiam às reflexões, o que se tornava visível caso a caso. Em dada altura, admite a possibilidade de afirmar o pertencimento de classe de um movimento ou ideologia e ao mesmo tempo considerar o caráter não-classista de algumas das interpelações que constituem tal ideologia. Somente assim se conseguiria começar a explicar o “enigma do populismo” e enxergar uma saída para o círculo vicioso a que conduziam as diversas teorias. O desafio seria provar que o elemento estritamente “populista” não se encontraria no movimento como tal, nem em seu discurso ideológico característico, mas sim em uma contradição não-classista específica articulada a tal discurso.

Existiria essa contradição? A resposta começava pela busca de um possível núcleo comum de sentido que estaria presente em todos os usos do termo “populismo”. Em todos eles, observava Laclau, havia a referência ao mesmo fundamento analógico – o “povo”. Uma teoria muito difundida apontaria como característica do populismo o

apelo ao povo ignorando as divisões de classes; entretanto, este enfoque pecaria ao mesmo tempo por falta e por excesso. Por falta na medida em que o discurso populista podia se referir simultaneamente ao povo e às classes (por exemplo, ao apresentar uma classe como realizadora dos interesses do povo); por excesso em função de que nem toda referência ao “povo” transforma um discurso em discurso populista. Mas o fato era que o elemento “povo” ocupava realmente papel central no populismo, não obstante tratar-se de um conceito que demandava um status teórico definido. Seria isso o que tornaria o próprio conceito de populismo algo “fugidio e recorrente” (Laclau; 172), pois todos os seus usos se reportariam a um fundamento analógico impreciso. Se demonstrado que a noção de “povo” está ligada a uma contradição específica de importância decisiva, seria então possível explicar a recorrência do termo.

Ao invés de simples conceito retórico, “povo” (contraposto ao “bloco de poder”) seria uma determinação objetiva: um dos pólos na contradição dominante ao nível de uma formação social concreta que, desse modo, elaboraria a estrutura de um antagonismo compreensível independentemente das relações de produção. A contradição dominante ao nível da formação social constituiria o campo específico da luta popular-democrática, se constituísse o campo específico da luta de classes. Caso contrário, como a luta de classes assume prioridade sobre a luta popular-democrática, esta só ocorre articulada a projetos de classe. Mas a luta de classes política e ideológica só se verifica em um terreno constituído pelas interpelações e contradições não- classistas, razão pela qual esta luta só pode consistir em projetos articulatórios antagônicos dessas mesmas interpelações e contradições. Por esse caminho, Laclau afirmava a possibilidade de compreender um fenômeno pouco confortável à teoria marxista – a relativa continuidade das tradições populares, contrastando acentuadamente com as descontinuidades que caracterizariam a estrutura de classes.

Na visão marxista usual, estas tradições estariam cristalizadas em símbolos de valor emocional e valores dos quais os sujeitos interpelados extrairiam suas noções de identidade, mas cujo significado seria apenas retórico. Essa idéia seria equivocada, todavia, pois não dava conta das razões que fariam o apelo emocional eficaz. Tampouco resolvia o dilema de que, se aceita a universalidade do critério de classe, e ao mesmo tempo se falasse em “luta secular” do povo contra a opressão, isso implicaria em que essa luta secular só faria sentido se fosse a de uma classe diferente da classe operária. Esta somente surge com o industrialismo moderno. Para Laclau, as tradições populares

consistiam de um conjunto de interpelações que expressariam a contradição povo/bloco de poder distinta das contradições de classe. Por isso, elas eram cristalizações ideológicas da resistência à opressão em geral, incluindo a própria forma do Estado, o que faria com que tivessem duração maior do que as ideologias de classe e constituíssem um marco estrutural de referência mais estável. Entretanto, essas tradições não podiam ser tomadas como discursos coerentes e organizados, mas apenas como elementos que só existem articulados a discursos de classe. Nem por isso seriam arbitrárias, e assim não poderiam ser modificadas à vontade. Eram “o resíduo de uma experiência única e irredutível e, enquanto tal, constituem uma estrutura social” (178). Por meio dessa dupla referência ao povo e às classes se constituiria o que pode ser determinado de “dupla articulação do discurso político” (idem).

Alcançado assim o conceito teórico de “povo”, Laclau propõe finalmente o que considera especificidade do populismo. Isto é, uma articulação peculiar de interpelações popular-democráticas presentes em um discurso ideológico, articulação que surge como um discurso sintético-antagônico em relação à ideologia dominante. As ideologias popular-democráticas são articuladas ao discurso dominante, que absorve tudo o que nelas é simples particularidade diferencial e reprimindo elementos que pretendem transformar a particularidade em símbolo de antagonismo. É nesse sentido que Laclau aborda a questão do clientelismo, que vê como restrito aos distritos rurais, dedicado a exaltar tudo o que for folclórico na ideologia de massas, ao mesmo tempo em que pretende exaltar a figura do caudilho como intermediário entre as massas e o Estado e reprimir elementos antagônicos.

Finalmente, dedica-se à refutação dos vínculos entre populismo e industrialização por substituição de importações. Referindo-se especificamente aos estudos de Francisco Weffort e Octavio Ianni, que produziram “os melhores estudos sobre o populismo a partir desta perspectiva”, Laclau afirma que o populismo não é a superestrutura necessária de nenhum processo social ou econômico. Uma explicação do porque de os movimentos populistas terem florescido na America Latina entre 1930 e 1960 deve consistir em mostrar como as condições necessárias à emergência de fenômenos populistas se reuniram nesse período, e porque foram menos freqüentes antes e depois dele. O elenco de elementos a examinar está dado: uma crise particularmente grave no bloco de poder, que levaria uma de suas facções a buscar estabelecer sua hegemonia através da mobilização das massas, e uma crise do

transformismo – a capacidade do bloco de absorver as interpelações popular- democráticas a seu próprio discurso.