Identificação: Viúva, 53 anos, ensino médio, com 1 ano de trabalho como voluntária
na instituição.
Estrutura: sintético simbólico. Comando do teste:
a) Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, ou que progride), um personagem, água, um animal (pássaro, peixe, réptil ou mamífero), fogo.
b) Escreva aqui a história do seu desenho.
O nascer do sol
O sol nasce aquece a água que molha os alimentos e molha as flores que embeleza o dia de todos, os povos da terra e o filme que as crianças gostam, o filme fantasminha camarada.
c) Responda de modo preciso às seguintes questões:
a. Sobre que ideia você centrou sua composição? “Em volta do sol”. b. Você foi eventualmente inspirado? “No filme”.
c. Entre os nove elementos do teste de sua composição indique:
i. Os elementos essenciais em torno dos quais você construiu o desenho: “Está ligada ao sol”, ( o sol não aparece como representação no quadro do teste).
ii. Os elementos que você teria vontade de eliminar. “Não tiraria”. d. Como acaba a cena que você imaginou? “Feliz”.
e. Se você tivesse de participar da cena composta, onde você estaria? O que faria? “Estaria molhando as flores”.
f. No quadro seguinte, você deve especificar:
b. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações (coluna B);
c. O que simboliza, para você, cada um dos 9 elementos do teste (coluna C).
Elemento A – Representado por B – Função/papel C – Simbolizando
Queda Folhas Mudança Renascimento Espada Espada Brincadeira Socializar Refúgio Jardim Refugio Sossego Monstro Fantasma Bem Paz
Cíclico Lago Regar Vida Personagem
Água Lago Regar vida Animal
Fogo Fogo Queimar Depurando
Análise:
O sujeito autor (58 anos) trabalha há um ano como voluntária. Em depoimento espontâneo, afirma que a motivação principal de seu trabalho é a realização pessoal e religiosa, vendo na instituição um amparo aos idosos asilados e no voluntariado a oportunidade de fazer o bem e suprir a necessidade e a carência do idoso no que se refere à família.
O elemento monstro é representado pictoricamente pelo “fantasminha camarada”, que no quadro do protocolo do teste tem a função de bem, simbolizando a paz. O elemento é desenhado de forma pequena, solta no ar, e se encontra distante dos demais elementos. O elemento espada é uma miniatura e sua ponta parece quebrada, não se visualiza nela nada que lembre arma para lutar, mas está voltada para cima. No quadro, ela tem a função de brincadeira, simbolizando a socialização e na narrativa não é mencionada, porque também não existe personagem nem monstro devorador explicitados na trama. O elemento personagem não consta no desenho, na narração nem no quadro; o elemento fogo somente no desenho e no quadro, e simboliza “depurando”; o que remete à esquizomorfia. O elemento animal é representado no desenho por um pato, mas não aparece na narrativa, nem no quadro, onde este espaço fica em branco.
O sujeito-autor respondeu, na questão A do protocolo, que a história é centrada no sol pertencente aos símbolos espetaculares do regime diurno das imagens e caracteriza a estrutura heroica do imaginário. Ele integra o elemento água, o elemento refúgio (jardim), apesar de substituir pelo substantivo flores e o elemento monstro, representado pelo fantasma, que simboliza paz (fantasminha camarada), para compor a trama. Entretanto, o sujeito-autor disfuncionaliza o simbolismo de luminosidade, pureza celeste e brancura do sol: “o sol nasce aquece a água que molha alimentos e molha flores... Refere-se a um sol místico positivo, que aquece, e quando o autor sugere o sol a iluminar“. O filme que as crianças gostam, “O fantasminha camarada”, associa esta luminosidade e pureza do sol e remete um imaginário com estrutura heróica.
Sua história é sintética. O elemento fogo tem função de queimar/depuração. Deu à espada um papel de “brincadeira”, simbolizando socialização. O personagem nem ousa pensar em perigo, então não acontece luta, apesar de alguns simbolismos, atribuídos a determinados elementos, remeterem ao heroísmo.
O elemento animal foi representado por um pato com simbologia positiva, por ser animal doméstico e não violento. O elemento animal, “um patinho na lagoa”, não sinaliza para a luta e o enfrentamento, e sim para a quietude, que caracteriza imaginário de estrutura mística, em que o próprio elemento monstro simboliza paz.
Em sua história, elege o calor do sol, calor pertencente ao regime noturno das imagens (DURAND, 1989, p. 141), como elemento colaborador da água na fertilização e produção de alimentos e flores, simbolizando a vida. Coloca-se na história no papel de molhar as flores gerando alegria e beleza às pessoas, promovendo a vida, mas não responde sobre o elemento personagem do teste.
Percebe-se no imaginário do sujeito-autor cuidador um medo de lidar com o idoso, quando relata: “tenho medo de lidar diretamente com o idoso, prefiro desenvolver minhas atividades na confecção de fraldas ou na cozinha; se tiver de lidar com o idoso, no máximo consigo lhe dar comida na boca” (o digestivo está presente: místico. A costura, tecer, está aqui também presente).
Verifica-se que o sujeito é econômico com as palavras em sua narrativa, e limita as possibilidades do sol e da água, dando-lhes apenas o papel de produzir e manter vivo o cultivo de alimentos e flores, o que remete à estrutura sintética. Sabe que água existe, e é capaz de promover beleza e alegria por meio de sua ação. Vê- se promovendo a ação da água na história e no seu imaginário, mas não consegue
vê-la, pois ela está no lago/vida. Não usa a espada que tem, prefere a fantasia, a infantilidade, a acomodação, “ver o patinho na lagoa”, continuar na inconsciência, acomodado na confecção de fraldas e alimentos para os idosos, embora saiba que o idoso é carente de família, de contato físico, de afeto. A interação é a chave essencial nesse aspecto, mas não busca romper com seu medo, sua inconsciência. Tem o propósito pessoal e religioso de fazer o bem ao idoso, mas prefere fazer indiretamente, o contato pessoal ocorrerá em último caso, na ausência de outro que possa dar comida na boca do idoso, pois não o deixaria morrer. Vislumbra-se aqui uma réstia de heroísmo distendido no seu imaginário.
A presença da espada com o papel de brinquedo, o monstro do bem, elementos colocados no teste por Yves Durand para estimular o arquétipo da morte e da angústia, que deveriam levar à luta, aqui aparecem suavizados em luta de brincadeira, o que identifica a ludicidade na estrutura do imaginário. O animal, um patinho, remete à antifrasia, ou seja, à estrutura mística.
A queda é representada pelas folhas, simboliza, no imaginário desse cuidador, o renascimento (imagem disseminatória), relacionado ao imaginário de sua religião espírita, reencarnacionista. O elemento fogo, no desenho, é uma fogueira (místico). De acordo com Durand (1989, p. 139), depuração está ligada à imaginação metafísica da transcendência. É possível que a depuração à qual se refere esteja ligada ao sentido de depurar, eliminar os pecados, as falhas, os erros, e fazer o bem (heroísmo) ao idoso asilado no voluntariado da instituição.
O que se vê é um desenho simbólico, uma narrativa curta simbólica e um quadro incompleto sem as representações, funções e simbolismos atribuídos aos elementos personagem e animal. Podem-se retirar do protocolo “fiapos de coerência mítica”, e dizer que se trata de um imaginário sintético e simbólico, pois certas horas o sujeito imagina-se na ação heróica e em outras em um misticismo acentuado. Escrever os nomes dos elementos no desenho indica laivos da possível desestrutura. O sujeito–autor chama para si, apenas a ação de regar as flores (ele no asilo apenas dá comida na boca dos idosos, se não existir quem o faça). Quando associado esse imaginário com a postura do cuidador no seu cotidiano, essa descoberta se confirma quando ele diz: ”tenho medo de lidar diretamente com o
idoso, prefiro desenvolver minhas atividades na confecção de fraldas ou na cozinha, se tiver que lidar com o idoso, no máximo consigo lhe dar comida na boca”. Tem-se