Identificação: Homem, 48 anos, casado, ensino médio.
Estrutura: Mística antifrasica Comando do teste:
a) Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, ou que progride), um personagem, água, um animal (pássaro, peixe, réptil ou mamífero), fogo.
b)Escreva aqui a história do seu desenho:
Estava numa praia virgem onde tinha vários coqueiros quando alguns caíram no chão, peguei a espada para cortar o coco para beber a água e comer a carne. Quando fiquei preocupada com um Policial que pedalava de bicicleta na beira da praia onde o mar jogando os mares e os peixes pulavam e pulavam, quando estava no outro lado da ilha começou a pegar fogo.
d) Responda de modo preciso às seguintes questões:
a) Sobre que ideia você centrou sua composição? “No meu dia-a-dia”. b) Você foi eventualmente inspirado? “Sim, de um pai de família”. c) Entre os nove elementos do teste de sua composição indique:
i. Os elementos essenciais em torno dos quais você construiu o desenho: “A natureza”.
ii. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê? “O Policial”.
d) Como acaba a cena que você imaginou? “O fogo destruindo a Ilha”.
e) Se você tivesse que participar da cena composta, onde você estaria? O que faria? “O peixe no mar que pulava de alegria”.
d) No quadro seguinte, você deve especificar:
i. Por meio de que, você representou os 9 elementos do teste (coluna A); ii. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações
(coluna B);
iii. O que simboliza, para você, cada um dos 9 elementos do teste (coluna C).
Elemento A – Representado por B – Função/papel C – Simbolizando Queda Maduro Alimento Coco Espada Espada Cortar o coco
Refúgio Bicicleta Correndo Monstro Policial Incompreensivo
Cíclico O boneco Mau Personagem Policial Peixe
Água Praia Fonte vida Animal Peixe Mergulho
Fogo Queimadas Destruindo
Análise:
O sujeito-autor, um cuidador de idosos de 48 anos, casado, que trabalha há seis meses na instituição, atua nessa tarefa/ocupação de cuidador de idosos há três anos. Sua narrativa está sem título, mas na letra A do pequeno questionário do teste, o sujeito-autor do protocolo nº 7, relatou ter centrado a sua composição no seu próprio dia a dia.
Ele fala de um passeio em uma praia cheia de coqueiros e na satisfação de cortar um coco com sua espada para beber a água. Até este ponto da história, o cenário imaginado é de paz e tranquilidade. No discurso imaginado e registrado no protocolo do teste pelo sujeito-autor, a estrutura mística emerge com a tranquilidade: “o beber a água do coco e comer a carne”. O elemento espada aparece como impureza no cenário, até então, místico. Mas o elemento espada está representado por uma espada com função de cortar o coco, elemento que deveria suscitar ataque ou defesa, está representado como utensílio que condiciona uma situação mística
de engolimento: “peguei a espada para cortar o coco, beber a água e comer a carne”. Ela está eufemizada.
Durand (1989) baseou-se na reflexologia betchereviana para criar as estruturas do imaginário. Fundamentou-se no reflexo digestivo de nutrição para indicar a estrutura mística.
Ia tudo bem no passeio na praia, quando o personagem percebe a presença de um policial, monstro, que pedalava uma bicicleta. No quadro do teste, o sujeito- autor desse protocolo representa, com a imagem do policial, o elemento monstro, atribuindo-lhe a função de incompreensão, registrada como “incompreensivo”. Apesar de representá-lo como monstro, o sujeito-autor também se projeta nele como personagem peixe da dramatização imaginada, o que, além das representações pictóricas explodidas dos elementos nominados, remete à presença da desestrutura, algo possível, conforme explicitado no item 3.5, correspondente ao regime das imagens. No questionário do teste, responde que gostaria de eliminar o policial, por ele considerado de forma ambivalente: como personagem e como monstro. Tanto como personagem, como monstro, o policial não atua na dramatização, apenas pedala a bicicleta e é dito incompreensivo. O sujeito n.º 7 não atribui função nem simbolismo ao policial personagem, nem diz por que gostaria de eliminá-lo como elemento do teste. A confusão ainda se acentua ao simbolizar o personagem como peixe. Na última pergunta do pequeno questionário do teste: “Se você tivesse de participar da cena composta, onde você estaria? O que faria?”, o sujeito-autor responde que: “O peixe no mar que pulava de alegria”. Com esta resposta, mais uma vez emerge do protocolo n.º 7 a ideia do personagem como peixe (místico). O estímulo arquetípico animal, elemento complementar do AT-9, está também representado por peixe com função de mergulho: “os peixes pulavam e pulavam”.
Na verdade, o protagonista da história truncada é: “(eu)”, pois está dito “eu peguei a espada” e “eu” fiquei preocupada”.
Os nove elementos do teste não estão todos desenhados; apenas sete elementos foram desenhados e neles consta a denominação dos respectivos estímulos arquetípicos, que por sua vez não representaram relação ou vínculo entre si, aspecto que, de acordo com a teoria durandiana, pode sinalizar possível desestrutura no imaginário do sujeito em questão.
O elemento personagem não aparece no desenho, e sim na narrativa, e o sujeito se projeta em uma pessoa que passeia numa praia e se alimenta com cocos:
“estava numa praia virgem onde tinha vários coqueiros quando alguns caíram no chão [...]”. O sujeito-autor está na praia/água/fonte de vida.
O estímulo arquetípico monstro devorador, pictoricamente, se representa por um rosto humano, identificado por escrito como policia; esse monstro está representado por “policial”, com o papel de simbolismo e não função de “incompreensível”. Na história, o policial “pedalava de bicicleta na beira da praia onde o mar jogava os mares e os peixes pulavam e pulavam”, mas esse monstro não ataca, mas é considerado intolerante, “incompreensível”.
No final da história a ilha pega fogo, o que acentua a angústia indefinida do sujeito n.º 7, que procura “fonte de vida”, mas encontra incompreensão. O personagem, por sua vez, apenas se preocupou com a “incompreensão” do elemento monstro/policial com a natureza, mas nada fez para impedir sua atitude. O sujeito-autor se acomoda misticamente. Sua espada não tem função de luta, por isso não lutou. A função dada à espada é a de “cortar o coco” e remete ao reflexo digestivo característico da estrutura mística do imaginário deste sujeito/cuidador. Ele respondeu à questão E do questionário escrevendo que gostaria de participar da cena criada no papel “do peixe no mar que pulava de alegria”. Ele busca a “fonte de vida”, porém se depara com os perigos da morte, a angústia e o medo, mas não reage. Tem uma espada, no entanto ela é usada como utensílio e não como arma de defesa ou ataque. Dessa forma, remete a um imaginário que deseja a inversão do diurno/separação/desmembramento analítico para o noturno/segurança, fechada/intimidade. Relaciona-se essa imagem do elemento animal/peixe com simbolismo da inversão, do encaixamento e redobramento, característico da estrutura mística. Não fora a confusão entre os elementos e a ausência de simbolismo explicitada, poder-se-ia dizer tratar-se de um imaginário com estrutura mística.
O elemento refúgio está desfuncionalizado, pois, no protocolo n.° 7, está representado por “bicicleta”, com a função de “correr”, e essa bicicleta é utilizada pelo elemento monstro/policial, e não pelo personagem para se proteger de algum perigo.
O elemento fogo, nesse protocolo, está representado por “queimadas” com a função de “destruindo”, portanto remete a um imaginário negativo. O fogo que destrói é localizado no regime diurno das imagens, o que é uma impureza neste imaginário n.° 7, místico.
Diante dos registros míticos presente nesse protocolo, considera-se a presença da estrutura mística do imaginário desse sujeito-autor, com a intromissão constatando laivos da desestrutura e impureza diurna no seu imaginário noturno. Seria então um imaginário místico impuro, com tendência à pseudodesestrutura. Impuro pela presença, em um cenário místico, do elemento monstro (que não ataca), de um personagem (que não luta, não ataca nem se defende) e de uma espada/utensílio (para cortar o coco e não para atacar, se defender ou matar o monstro). O sujeito–autor quer a “fonte de vida” e se projeta misticamente em um peixe.
A narrativa se desenvolve num cenário e imaginário místico, mas o sujeito não despreza os elementos monstro e espada; embora apareçam de forma desfuncionalizados, o que caracteriza a impureza na estrutura mística. A imagem do “policial incompreensivo” que não identifica qual é o seu simbolismo no quadro do questionário, na história criada deixa a ilha pegar fogo; possivelmente, pois não se explicita no protocolo n.º 7, evidenciando assim o perigo causado pelas ações ou não ações, desse monstro/policial.
O sujeito autor relatou, em entrevista, ter paciência e gosto pelo trabalho que desenvolve com os idosos, e sua presença física inspira confiança, preocupação e responsabilidade para com os asilados. Entretanto, relutou em realizar o AT-9. Inicialmente justificou estar ocupado. Foi preciso esperar que ele almoçasse e dar um tempo para o seu descanso. Ao abordá-lo novamente, pediu para deixar para depois, mesmo já estando ciente dos objetivos do trabalho e de sua importância. A constatação dessa atitude no sujeito-autor remete à presença de reação ao préeestabecido (heroísmo); um imaginário com estrutura mística antifrásico: atitude de acomodação para os desafios do seu cotidiano profissional; dinâmica cumpridora do preestabelecido na execução das atividades rotineiras do asilo, ações já automatizadas. A relutância (impureza heroica) se evidencia no negar-se a fazer o teste, reagindo com o disposto. É uma postura quase heroica que se coaduna com seu imaginário místico impuro, pois assume cumprir as rotinas sem deixar que nada diferente o impeça disto.