Identificação: Mulher, 30 anos, companheiro informal, 1.º grau completo, 2 anos
como cuidadora formal contratada. Estrutura: sintética
a) Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, ou que progride), um personagem, água, um animal (pássaro, peixe, réptil ou mamífero), fogo.
b) Escreva aqui a história do seu desenho:
Uma pessoa que tinha vício Era uma vez uma pessoa muito perturbada que gostava de sair, beber e dançar, mas a sua vida não era muito tranqüila. Um dia choveu muito e ela acabou não saindo e ficou muito ansiosa, mas o seu priminho começa a puxar brincadeira com ela e começou a brincar de espadinha, até que chegou uma vontade, imensa de fumar, pegou o cigarro e pensou: eu acho que vou é pra igreja, foi ai que o meu cérebro começou a pensar, mas veio em mente um filme para assistir e o personagem mais arrepiante foi a anaconda, que comia tudo que se movia. Ela ouviu muito barulho de água mais logo adiante tinha um riacho, fui olhar o riacho e vi muitos peixinhos, cada um mais lindo do que os outro, mas logo adiante viu uma fogueira e lá tinha uma grande pessoa, e lá ela me aconselhou o melhor caminho.
c) Responda de modo preciso às seguintes questões:
a) Sobre que ideia você centrou sua composição? “Em torno de uma pessoa que tinha vícios”.
b) Você foi eventualmente inspirado? “Inspirei em alguém muito conhecida”.
c) Entre os nove elementos do teste de sua composição indique:
i. Os elementos essenciais em torno dos quais você construiu o desenho: “Igreja, Cigarro e fogo”.
ii. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê? “Nenhum”.
d) Como acaba a cena que você imaginou? “Ela encontrou o caminho certo”.
e) Se você tivesse de participar da cena composta, onde você estaria? O que faria? “A pessoa que lhe mostrou um novo caminho”.
f) No quadro seguinte, você deve especificar:
i. Por meio de que você representou os 9 elementos do teste (coluna A);
ii. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações (coluna B);
iii. O que simboliza, para você, cada um dos 9 elementos do teste (coluna C).
Elemento A – Representado por B – Função/papel C – Simbolizando
Queda Chuva Impedimento Chuva
Espada Espada Brinquedo Alegria
Refúgio Igreja Oração Paz
Monstro Cigarro Doença Morte Cíclico Cérebro Pensar Razão Personagem Anaconda Laser Anaconda
Água Rio Contemplar Passeio
Animal Peixe Beleza Natureza
Fogo Fogueira Aquecer Calor
Análise:
O sujeito-autor, cuidador de idosos do asilo, de 30 anos de idade, que trabalha há um ano e quatro meses na instituição, realizou as representações pictóricas dos elementos que compõem o teste de forma solta, “explodida” (DURAND, 1988), sem conexão visível entre eles. Dois dos desenhos estão identificados pela escrita.
Tanto no desenho quanto no pequeno quadro, o elemento personagem está desfuncionalizado, zoomorficamente representado no lugar de uma pessoa, é uma cobra. A cobra aparece no desenho e também na narrativa. No pequeno quadro do teste, o personagem anaconda simboliza lazer. A anaconda “engole tudo que se move”, sendo possível observar que o desenho da cobra deixa aparecer um pequeno ser vivo em sua barriga. A cobra está ligada ao simbolismo do tempo e do cíclico da estrutura disseminatória.
O estímulo arquetípico personagem como pessoa humana não aparece no desenho nem no pequeno quadro, porém a narrativa traz a história de uma pessoa muito perturbada, com uma vida intranquila. Esta se torna presa do elemento monstro, representado pelo “cigarro”, com papel de “doença”, simbolizando a “morte”.
O elemento cíclico, um cérebro humano, foi desenhado e identificado pela escrita. Com este cérebro a “pessoa” pensa em lutar (heroísmo) contra o tabagismo e suas consequências indo à igreja (elemento refúgio). O elemento espada não apresenta a verticalidade e ascensão pertencente ao regime diurno e à estrutura heroica, pois está com sua ponta para baixo, o que condiz com a ideia de brincadeira, o heroísmo está distendido. Entretanto, pelo personagem (não a anaconda) se tratar de “pessoa muito perturbada”: “era uma vez uma pessoa muito perturbada que gostava de sair, beber e dançar, mas sua vida não era muito tranqüila [...]”, ela não consegue se concentrar para cumprir seu propósito, característico da estrutura heroica, logo vêm outros pensamentos à sua mente que a fazem desviar-se do heroismo, da luta contra seus vícios e suas fragilidades, passando então a se divertir Ela não sonha, mas imagina uma história paralela.
Na narrativa essa “pessoa muito perturbada” brinca de “espadinha”, o elemento espada tem papel de “brinquedo” e simboliza alegria, evidenciando uma estrutura heroica descontraída, distendida, pois o protagonista, pessoa, eufemiza os problemas, a morte, e vale-se da espada para brincar e ter alegria, mas ela é imaginada. Em seguida, porque chove, deixa de brincar com o priminho, que só aparece na narrativa e passa a assistir desenho animado na televisão, move aglutinação de imagens, no qual aparece uma cobra/anaconda. A chuva, representando o elemento queda, aqui parece dignificar a catapulta, o salto para a reação heroica de enfrentar o monstro cigarro.
O elemento espada, de brinquedo, aparece desenhado com a ponta para baixo, o que diminui a agressividade, seu poder de ataque ou defesa. O elemento animal peixe está desenhado fora do rio, dito riacho na história do desenho do teste. Há certa confusão.
No início da narrativa a pessoa muito perturbada parece ser o personagem, mas depois há confusão da anaconda como monstro arrepiante e personagem. Esta expressão personagem parece aqui corresponder à idéia de um dos atores do filme, mas no quadro está como protagonista da dramatização imaginada. A cobra
anaconda que aparece no filme é considerada, pelo sujeito-autor desse protocolo, como a representação do elemento personagem. “veio em mente um filme para assistir e o personagem mais arrepiante foi a anaconda, que comia tudo que se movia”. Buscou essa opção de lazer porque não pode sair de casa em função de adversidade, neste caso causado pelo elemento queda, representado por uma chuva com papel de impedimento.
De acordo com Durand (1989, p. 218):
Existem mitos frequentes que ligam serpente-chuva-feminidade- fecundidade, em que a queda de chuva é simbolizada pelo sangue de uma serpente atravessada por uma flecha ou por um vaso ofidioforme a deitar água.
A teoria durandiana também revela que, nas várias mitologias, a serpente possui o segredo da morte. Aqui deixa revelar o medo da morte desta mulher cuidadora institucional formal, medo este vinculado às consequências do tabagismo, remetendo novamente à presença de heroísmo, preocupação com o vício. Os elementos água, animal e fogo se integram para compor a cena em que a personagem deseja encontrar um caminho, mudança de vida. Remete a um pouco de heroísmo, em seu imaginário e revela a necessidade de ajuda para o seu equilíbrio, quando imagina ter encontrado “uma grande pessoa que a aconselha, e lá, me aconselhou o melhor caminho”. O sujeito-autor aqui se representa como “eu”, “me”, o que a envolve na realidade da história contada, dita imaginada.
Nos relatos espontâneos com a pesquisadora, o sujeito manifestou ser essa pessoa perturbada da história imaginada, pois está passando por momentos de perturbação em sua vida pessoal.
O elemento água está representado por um rio, com função de contemplar, simbolizando passeio. Na história aparece como um riacho e se junta com o elemento animal, representado por um “peixe”, que também é um símbolo relacionado à estrutura mística; e ao elemento fogo, uma fogueira com papel de “aquecer” que simboliza “calor” e remete aos símbolos de inversão pertencentes ao regime noturno das imagens.
O sujeito-autor n.º 6 responde à questão E do pequeno questionário do teste dizendo que ser a pessoa que lhe mostrou um novo caminho. Dessa forma, deixa ver mais uma vez que seu imaginário busca ações heroicas, capazes de superar obstáculos, embora esteja vivendo momentos de perturbação e desequilíbrios, conforme identificou sua personagem na narrativa e nos aspectos de desestrutura
no seu protocolo AT-9. O imaginário revelado é desestruturado com tendência disseminatória.