Identificação: Viúva, 58 anos, 3.° grau, espírita, com 20 anos de trabalho na ILPI;
Estrutura: sintético/dramático/disseminatória Comando do teste:
a) Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, ou que progride), um personagem, água, um animal (pássaro, peixe, réptil ou mamífero), fogo. b) Escreva aqui a história do seu desenho:
Espiritualidade
Expulso do reinado de Deus aconteceu a queda do Anjo do Senhor que ao constatar sua contrariedade com a bondade divina, resolveu se rebelar com Deus. Mas com a espada o senhor expulsou o anjo que havia criado para o seu paraíso. O homem com sua inteligência, criou o seu próprio mundo,
inspirado no mundo do senhor criou a roda para sua melhoria, com a água a vida em sua exigência, e fez do mundo sua paz e sua alimentação, seus jardins, e sua higiene. Conquistando assim sua elevação material e espiritual. Com o fogo se aqueceu, evoluindo e melhorando seu estado geral, cozinhando seus alimentos, assados etc. Das águas temos peixes, as algas para nos alimentar e tratarmos nossa saúde. O monstro devorante temos dentro de nós quando nos aborrecemos e entristecemos.
c) Responda de modo preciso às seguintes questões:
a. Sobre que ideia você centrou sua composição? “Na espiritualidade”. b. Você foi eventualmente inspirado? “Sim, em Deus”.
c. Entre os nove elementos do teste de sua composição, indique:
i. Os elementos essenciais em torno dos quais você construiu o desenho: “na natureza, na vida, em mim”.
ii. Os elementos que você teria vontade de eliminar? “O monstro dentro de mim”.
d) Como acaba a cena que você imaginou? “Maravilhosamente Bem”.
d) Se você tivesse de participar da cena composta onde você estaria? O que faria? “Em um paraíso cheio de plantas com um jardim maravilhoso”.
e) No quadro seguinte, você deve especificar:
i. Por meio de que você representou os 9 elementos do teste (coluna A):
ii. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações (coluna B):
iii. O que simboliza, para você, cada um dos 9 elementos do teste (coluna C):
Elemento A – Representado por B – Função/papel C - Simbolizando
Queda Anjo Auxiliar: de Deus Desobediência
Espada Espada Ordenou Poder Refúgio Natureza Nos tranquilizar Paz Monstro Caricaturas Negativo Lado
Cíclico Energia Facilitar a vida Vida Personagem Fantasma Criança Alegria
Animal Alegria Paz Beleza Fogo Essência Vida Poder
Análise:
Trata-se de um cuidador com formação superior. Percebe-se que o sujeito- autor (58 anos, 20 como voluntário) enfrenta um conflito íntimo no seu imaginário, pois ele se projeta (personagem) em um fantasma com função de ser criança, simbolizando alegria. No entanto, ao se referir ao elemento monstro, com função negativa, ele localiza o monstro dentro de si próprio: “o monstro dentro de mim”.
A história, que parece muito pouco ter a ver com o desenho, intitulada “espiritualidade” aludindo ao “anjo do senhor”, refere-se a um ser humano criado por Deus, mas que ao se rebelar, transgredir (heroicamente), tem como resultado a interdição no paraíso, a sua queda. Este “anjo” caído (sua queda) passa a ser entendido pelo sujeito-autor, como “o homem” dotado de inteligência. Esse homem fica subentendido como a humanidade, pois a 1.ª pessoa do plural (nós) do verbo usado ao nomear a existência dos peixes na água.
A inteligência dada ao homem passa a ser usada como a espada na luta pela vida ou sobrevivência; Diz na sua história que ele criou o seu mundo, inventando a roda (que no desenho aparece como a roda d’água), representando o elemento cíclico.
Dito no quadro como “energia/vida/ vida”, lembrando a síntese e o fogo para aquecer, que remete à presença de fogo místico. A estrutura mística evidencia-se nas imagens da “paz e da alimentação” buscadas. No entanto, ele não deixa de colocar sincronicamente, quer dizer, ao mesmo tempo, ao lado das imagens místicas referidas, a presença da esquizomorfia, quando lembra a higiene. Dois nós aglutinam. Duas energias psíquicas fazem convergir às imagens, ao mesmo tempo.
Apesar da desestrutura que emerge na discordância entre as partes do teste (desenho, história e quadro), um imaginário com estrutura sintética/dramática/disseminatória, localizado no regime noturno das imagens se apresenta.
A desestrutura desse imaginário pode ser atribuída ao tempo em que o sujeito-autor convive no espaço asilar: 20 anos. Chama atenção a ideia infantil de se projetar (elemento personagem) em uma criança, que é dita (no quadro do teste) como fantasma.
A religião confessada pelo sujeito-autor interfere no imaginário deste sujeito, assumindo que o imaginário tem potência organizativa e a ação deste cuidador está se expressando de acordo com tal religiosidade.
Seu maior tempo de trabalho é dedicado ao conserto de roupas no asilo. Conforme explicitado no dicionário de símbolos de Chevalier e Cheerbrant (2000, p. 947), “a roupa é símbolo exterior da atividade espiritual, a forma visível do homem interior [...], o despojamento da individualidade”. A costura de roupas, para o sujeito número 1, pode se relacionar dessa forma com a sua espiritualidade, sua crença e religião confessada, o sentir interno do dever de cuidar dos idosos asilados, recolhendo-se misticamente na costura.
Associando a costura com tecelagem, encontram-se no seu simbolismo elementos essenciais da estrutura sintética, pois Chevalier (2000, p. 872) sinaliza que “o tear simboliza a estrutura e o movimento do universo”. Encontram-se, ainda, elementos da estrutura heróica, quando o autor se refere ao tecido/fio/tear, dizendo que “servem para designar tudo o que rege ou intervém no nosso destino [...]; a aranha tecendo sua teia é a imagem das forças que tecem nosso destino” (CHEVALIER, 2000, p. 872).
O sujeito considera que, apesar de ser voluntário tanto tempo, faz pouco pelos asilados, conforme os registros das suas falas no diário de bordo. Há muitos anos na casa, acha que somente agora está podendo efetivamente “cuidar”. É interessante lembrar que assume seu “monstro interno”, talvez como culpa ou, como ele percebe, “karma”. Apresenta atitudes de aceitação e de heroísmo ao mesmo tempo. Gosta de supervisionar os três blocos do asilo, mas foge da ação de cuidar diretamente dos idosos e se detém mais em consertos de costura.
O voluntário se diz disponível para acudir outros cuidadores, caso seja necessário. Suas ações no asilo refletem o movimento de ir e vir, pois ao mesmo tempo em que se dispõe, com a espada na mão, a supervisionar heroicamente os blocos, encolhe-se misticamente na costura. A estrutura sintética se evidencia, acima da desestrutura constatada no desenho. A postura deste sujeito, no cotidiano asilar condiz com a estrutura detectada de ir e vir. Ele vai à luta, mas recolhe-se (na fuga) na costura.