Compreendendo que nele se explicitam valores sociais e de desenvolvimento, desafiando permanentemente aqueles que o ocupam, vamos esboçar algumas considerações do espaço como facilitador de aprendizagem.
Segundo Barbosa (2006), as formas de organizar o ambiente para desenvolver atividades de cuidado e educação refletem objetivos e concepções dos adultos sobre a criança, visto que “[...] as pedagogias para a primeira infância têm na organização do ambiente uma parte constitutiva e irrenunciável de seu projeto educacional. [...], traduz uma maneira de compreender a infância, de entender seu desenvolvimento e o papel da educação e do educador” (p. 122).
Pensar no cenário onde as experiências físicas, sensoriais e relacionais acontecem é importante para se construir uma pedagogia a qual favoreça as relações entre criança e objeto, criança-criança e criança-adulto, promovendo a construção do conhecimento. DeVries e Zan (1998) asseguram que, na concepção construtivista, a organização da sala de aula deve ser de acordo com as necessidades da criança, interações entre colegas, para promover o desenvolvimento infantil: “[...] a organização para o atendimento às necessidades das crianças
inclui consideração quanto às suas necessidades fisiológicas, emocionais e intelectuais” (p. 67).
A pesquisa de campo, por meio da observação e registro escrito, possibilitou descrever a configuração do ambiente educacional de cada agrupamento e, mesmo não sendo este o foco principal da pesquisa, vai retratado da seguinte forma:
No berçário II, da professora Antônia, a sala de aula era organizada com vários cantos temáticos, com materiais diversos, como: canto da leitura com livros de tecidos e de plásticos; canto dos blocos de espuma, com diversas formas geométricas gigantes; canto dos brinquedos, com objetos diversos, carrinhos, bonecas, ursos; um espelho na altura das crianças; e, no centro da sala, um tapete emborrachado com almofadas; além desses materiais, possui uma televisão e um rádio.
No berçário I, da professora Helena a sala de aula é composta por berços no centro, um canto com espelho grande fixo na parede, com tapete emborrachado e blocos de espuma gigante com diversas formas geométricas, acessíveis às crianças. Os brinquedos e os livros ficam no alto de uma estante, sendo colocados no chão, quando há a escolha da professora. Também possui uma televisão e um rádio.
O ambiente do berçário II possui uma estrutura arquitetônica maior que a do berçário I, tendo mais disponibilidade para deixar os materiais acessíveis às crianças. Ademais, a sala de descanso fica em outro espaço, ao lado da sala de aula, sendo colocados colchonetes no chão, para o momento do soninho. As salas dessas instituições infantis são organizadas em cantos de aprendizagem, sendo esta a proposta pedagógica intitulada “Fazer em Cantos”, implementada pela Secretaria Municipal de Educação de Araçatuba, no ano de 2010, iniciando-se com quatro escolas e ampliando-se progressivamente às demais.
Quanto aos materiais selecionados, estão de acordo com a faixa etária das crianças e dos bebês, permitindo seu manuseio, sua exploração, por possuírem pesos, cores, tamanhos, formas diversificadas, sendo organizados de maneiras diferenciadas. DeVries (2004b) chama a atenção para que o professor esteja atento quanto aos objetos e/ou atividades de livre escolha, ressaltando que, embora as atividades incentivem “[...] a escolha feita pela criança e envolvam seus interesses e objetivos, nem sempre, conseguem despertar na criança resolução de novos problemas nem o desenvolvimento de novas maneiras de pensar” (p. 39).
Conforme Malaguzzi (1999), a organização dos espaços tem o poder de contribuir para o início de toda espécie de aprendizagem:
Desta maneira, destaca-se a necessidade deste espaço possuir uma identidade, refletindo a personalidade de quem ali está. [...] as paredes de “nossas pré-escolas”
falam e documentam. Elas são usadas como espaços para exposições temporárias e permanentes de tudo o que as crianças e adultos trazem à vida. [...] Valorizamos o espaço devido ao seu poder de organizar, de promover relacionamentos agradáveis entre pessoas de diferentes idades, de criar um ambiente atraente, de oferecer mudanças, de promover escolhas e atividade, e a seu potencial para iniciar toda espécie de aprendizagem social, afetiva e cognitiva. Tudo isso contribui para uma sensação de bem-estar e segurança nas crianças. Também pensamos que o espaço deve ser uma espécie de aquário que espelhe as idéias, os valores, as atitudes e a cultura das pessoas que vivem nele. (apud, GANDINI, 1999, p.155-157).
Compreende que essa maneira de organização da sala de aula possibilita ao professor um olhar sensível para as potencialidades da criança, permanecendo em constante transformação, cooperando para a realização das ações docentes.
DeVries (2004b) enfatiza que “[...] o desafio para os professores é descobrir como selecionar os eventos e os fenômenos que deixarão as crianças intrigadas, levando-as ao desenvolvimento do raciocínio” (p. 40). O professor não só observa como também se envolve com as crianças nas atividades, fazendo perguntas que incentivam o raciocínio, sendo às vezes um dos participantes da brincadeira.
De acordo com Barbosa (2006), a organização dos ambientes de educação e cuidados coletivos tem sido tão valorizada e reconhecida como educativa, que, ao retomar Gandini (1999), ressalta que “[...] a ideia de que o espaço é, na educação infantil, um elemento primordial, um outro educador. Quanto mais o espaço estiver organizado, estruturado em arranjos, mais ele será desafiador e auxiliará na autonomia das crianças” (p. 124).
Certos referenciais podem auxiliar o professor na construção dos espaços, como ver com os olhos da criança, verificar a riqueza de possibilidades exploratórias que ofereçam condições para o desenvolvimento dos conhecimentos, construir os espaços junto com as crianças, integrá-lo ao espaço cultural circundante, não se restringindo a ele, conforme a autora pontua:
O espaço físico opera favorecendo ou não a construção das estruturas cognitivas e subjetivas das crianças. Ao mesmo tempo, impõe limites ou abre espaço para a imaginação dos adultos que criam ambientes (com o auxílio das crianças) ricos e desafiantes, onde todos tenham a possibilidade de ter vivências e experiências diferenciadas, ampliando suas capacidades de aprender, de expressar seus sentimentos e pensamentos. A disponibilidade de ambientes variados e a variação dentro de um mesmo ambiente ampliam o universo cultural e conceitual das crianças. As rotinas diversificam-se em espaços mais complexos. (BARBOSA, 2006, p. 135).
A rigor, essa experiência, na concepção construtivista, tem uma importância relativizada, porque Piaget adverte que ela não é recepção, mas ação e construção
progressivas. Pode ser física, quando o sujeito age sobre os objetos e retira deles qualidades que lhes são próprias, e pode ser lógico-matemática, por agir sobre os objetos, extraindo informações da ação sobre ele, ou melhor, das coordenações das ações, como descreve Becker (2009).
O professor, compreendendo como a criança se desenvolve, em seus aspectos integrais, organiza o espaço de modo a colaborar para esse desenvolvimento, priorizando o lúdico, o faz de conta, objetos instigantes e desafiadores. Kramer e Guimarães (2007) destacam: “O chão é um espaço marcado pelo o que está disposto, considerado a partir do que nele se pode colocar. Na creche e entre os bebês, o chão torna-se, ele mesmo, também um espaço privilegiado de conquista do corpo no espaço” (p. 29).
Nesse contexto, notamos que o espaço manifesta as concepções de criança, de educação e cuidados; entendê-lo como um instrumento que ajuda no desenvolvimento cognitivo, emocional, social, físico e afetivo requer que o professor tenha suas práticas docentes apoiadas numa concepção epistemológica a qual concebe o sujeito como construtor do seu conhecimento, agindo sobre os objetos, transformando-o.