KAPITTEL 3. STRATEGISKE HØGSKOLEPROSJEKTER, 2002-2012
3.3 Resultater og analyse
O cenário é o ambiente e a mãe-ambiente. São as qualidades do ambiente que, mesmo sendo invisíveis, constituem o pano de fundo e o
back-stage para que um encontro possa se dar; comunicam confiança e
garantem a primeira forma de amor, ou o existir do bebê.
A tranqüilidade da mãe é um aspecto fundamental do ambiente, na amamentação. Se ela está tranqüila, a comunicação entre corpos também se torna tranqüila, e a dupla pode se aproximar da temporalidade própria dos ritmos biológicos. Assim, o bebê pode dar sentido às pulsações na intimidade tranqüila e aos impulsos excitados, ao invés de empenhar seu funcionamento corpóreo em reações. Momentos da comunicação sutil e alterações somáticas decorrentes foram explicitados pelo autor:
[...] a mãe e o bebê estão razoavelmente calmos, a pressão na parede do estômago [na amamentação] se adapta e este afrouxa um pouco; o estômago fica maior (Winnicott 1949l, p. 39).
Se, devido à excitação do bebê ou ao estado de tensão da mãe, o estômago leva mais tempo para se adaptar, os fluidos do estômago, somados ao ar de sua parte superior, provocarão uma pressão que levará à necessidade do arroto. Esse é um exemplo corriqueiro da constante comunicação somática entre a mãe e o bebê126. Nesse caso, a mãe pode ter condições de avaliar se seu bebê tem necessidade de arrotar e colocá-lo na posição vertical para que isso ocorra. É possível imaginar o ruído que as interferências provenientes de fórmulas fixas ou de técnicas de
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Outro exemplo de comunicação sem palavras é o do bebê cuidado numa instituição que recebe uma mamadeira quentinha em momento adequade e está feliz; mas, no momento seguinte, a mamadeira cai, e a atendente está cuidando de outra criança. Aquele objeto potencialmente bom se transforma num inimigo, inacessível, que o molha e o ameaça e subitamente se torna externo, não mais funcionando de acordo com suas necessidades e onipotência. Ressalto que elegi exemplos a título de ilustração, mas não quero dar a falsa impressão de que eles são raros: embora pouco visível nesse nível, a comunicação é constante e tem múltiplas facetas.
amamentação provocam nessa área de comunicação. Aí, qualquer norma se interpõe no ajuste entre corpos.
Em termos da clínica, todos os aspectos do cenário ou ambiente referem-se a elementos do setting. Evidentemente, a tranqüilidade do analista também é fundamental, especialmente quando se trata de pacientes graves, em regressão, ou de momentos difíceis da análise.
O autor ilustra esse tema com o relato de um atendimento em que sustentou uma paciente num momento de regressão e intimidade extrema:
[...] não havia mais que a respiração de seu corpo [...] porque eu a estava sustentando e mantendo a continuidade por meio de minha própria respiração, enquanto ela se entregava, abandonava-se, nada sabia (Winnicott 1954a, p. 342).
Em outro exemplo, a paciente sentiu pela primeira vez, na análise: [...] que estava sendo segurada por uma mãe em estado de relaxamento, ou seja, uma mãe que estava viva, acordada (Winnicott 1958f, p. 264).
A presença viva, ou a atenção somática, deixam de ser expressões meramente teóricas quando se leva em consideração a prontidão que o analista precisa ter para sustentar momentos como os descritos e para comunicar somaticamente empatia e confiança. Também é possível pensar a escuta − considerada pelo autor como uma das formas sofisticadas de elaboração imaginativa do soma − relacionado-a com os aspectos assinalados aqui. Sendo o corpo do analista o lugar da escuta e de seus efeitos, esse seria mais um elemento − essencial, embora não único − do diálogo somático que se estabelece. Acrescentem-se aqui as palavras de Masud Kahn: “não seria possível compreender o seu [de Winnicott] talento
clínico sem primeiro entender que, nele, a psique e o soma encontravam-se em perpétuo diálogo” (Winnicott 1958a, p. 11). Assim, na clínica winnicottiana, está em pauta o “como” e não apenas “o quê”, ou seja, para além do conteúdo da fala, são integrantes da cena terapêutica os modos de interação somática entre analista e paciente, a dança sutil entre corpos.
Voltando à amamentação, a mãe pode querer fazer os ajustes para que a experiência sensorial seja agradável e rica deixando o bebê nu, por exemplo, para que os corpos se toquem. Ela pode querer esperar que ele dê sinais muito visíveis de sua fome. Winnicott observou que, se o bebê começou a sentir fome e reconheceu algum sinal de que:
[...] chegou o momento em que estará seguro para deixar que a ânsia do alimento se converta num terrível e impetuoso anseio. Você poderá ver a saliva escorrer, pois os bebês não engolem saliva – mostram ao mundo, babando-se, que têm interesse nas coisas de que possam apoderar-se pela boca (Winnicott 1949l, p. 37).
A comunicação contundente do apetite − ou de acordo com a classificação do início da sessão, a segunda forma de amor a que o bebê tem acesso − depende também da tranqüilidade da mãe e da atitude de não se adiantar ao seu gesto. Assim, a mãe se adapta às necessidades do filho alimentando-o, de início, “à maneira dos ciganos”, ou seja, quando ele dá sinais do que quer, permite que ele obtenha o montante de alimento de que necessita e pára de alimentá-lo, retirando o seio, quando percebe que a experiência foi finalizada. A retirada do seio é importante, funcionando, do ponto de vista do bebê, também de acordo com sua onipotência.
Ainda a respeito do setting nesse contexto, acrescento que, de acordo com Winnicott, para determinados pacientes em momentos regredidos, a situação ideal seria a de haver uma modalidade de atendimento que
ocorresse à medida da necessidade, em termos de duração e periodicidade. Considerando-se o ajuste de ritmos, coloca-se em questão também o problema da neutralidade do analista e do momento da interpretação, ou seja, se o analista espera o gesto ou o acontecimento ou se se adianta com interpretações verborrágicas, criando um contexto eminentemente intelectual para a análise127. Num de seus textos tardios, Winnicott declarou que levou muito tempo para aprender a esperar que o próprio paciente chegasse à interpretação, de modo a torná-la sua, uma aquisição pessoal, inserida no domínio de sua criatividade:
Não é boa a prática de interpretar tudo aquilo que se acredita haver compreendido, agindo a partir das próprias necessidades, e desse modo jogar fora a tentativa do paciente de sair-se bem, lidando com uma coisa de cada vez. Parece-me que esse princípio é tão mais importante quanto mais avançamos rumo ao início da vida (Winnicott 1958f [1949], p. 275).
Nesse sentido, assinalou que o analista experiente demais ou arguto demais, que se apressa a demonstrar suas hábeis percepções, pode muitas vezes perder em qualidade de atendimento para o iniciante que, com a seriedade de escuta típica da insegurança, dá tempo ao paciente, permitindo que o gesto e a criatividade tenham lugar na sessão. E ressaltou também que a mãe de um terceiro ou quarto filho pode ser melhor em muitas coisas, mas, algumas vezes, perde para a mãe de primeira viagem, por “saber” antecipadamente a “melhor” maneira de lidar com determinados fatos, enfraquecendo a empatia e a atenção somática. No contexto da análise, uma boa interpretação num momento adequado funciona como uma boa refeição – emprestando as palavras de um paciente de Winnicott.
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É importante reiterar que, embora se enfatizem os aspectos somáticos, em Winnicott, as interpretações verbais são parte integrante do processo analítico, que de maneira alguma é circunscrito à relação empática paciente-analista.
Iniciada desde o útero, a elaboração dos ciclos do corpo segue com a experiência do contato entre os corpos. Em momentos de intimidade, a respiração e os batimentos cardíacos permitem a elaboração de um sentido muito primitivo de tempo; ao contrário, o desencontro entre ritmos interfere na construção das bases primitivas desse sentido.
Se o bebê tiver oportunidade de vivenciar todas as etapas das experiências, a elaboração dos ciclos de fome e saciedade, ingestão e excreção, acordar e dormir, de uma onda de excitação e outra consolidam a conquista gradativa de uma temporalidade pessoal128. Se bem sustentado, o bebê elabora também a passagem do tempo, da satisfação completa, no pós- clímax, durante o período tranqüilo subseqüente a ele, até ser tomado novamente pela evolução crescente da necessidade vindoura:
No manejo intuitivo de um bebê, a mãe naturalmente permite que as experiências dele tenham livre curso, mantendo as coisas assim até que o bebê esteja crescido o bastante para entender o ponto de vista da mãe. Ela detesta intrometer-se em experiências, tais como a amamentação, o sono ou a defecação (Winnicott 1941b, p. 129).
A repetição das experiências que o autor chama de totais, com suas qualidades orgásticas − desde a preparação, ao clímax da excitação seguido do descanso −, sedimentará gradativamente o sentimento de que as coisas têm um começo, um meio e um fim.
De posse do sentimento de que os instantes não são eternos, o bebê poderá desfrutar os momentos bons e suportar aqueles sentidos como
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Sabemos que um dos difíceis aspectos da vida no mundo contemporâneo é o esquadrinhamento do tempo, que modela a vida das pessoas a partir do relógio, ou seja, de um tempo impessoal.
negativos129. Se a construção da experiência temporal foi bem sedimentada, o infante se tornará apto a fazer concessões ao tempo externo sem perder a dignidade. Se, por outro lado, se imprime precocemente uma temporalidade artificial130, não sincronizada com seus impulsos, isso resultará em submissão e reatividade: todas as elaborações relacionadas à temporalização serão truncadas ou impossibilitadas.