Está claro que, além da boa sustentação e do bom manejo, um dos pontos de apoio para a integração das excitações é a sintonia viva da mãe que, a partir dos gestos, possibilita os encontros e a elaboração de acontecimentos que se localizam na própria dupla.
Desse modo, as experiências instintuais primitivas têm lugar no próprio encontro: de um lado, no contato do corpo do bebê com o corpo da mãe e, de outro, na superposição entre gesto excitado e objeto encontrado. A partir de algum momento − com o advento dos primeiros objetos de posse, ou objetos transicionais −, a experiência se localizará também no espaço intermediário que se cria entre os dois componentes da dupla, e os objetos se tornam um ponto de apoio adicional para a continuidade do existir. Só em tempo propício o bebê poderá encontrar objetos objetivamente percebidos, mas, quando isso ocorrer, já terá montado bases firmes no próprio soma, que será o apoio para a incidência de experiências psicossomáticas. De posse de um esquema corporal constituído, estará apto a localizar o resultado das experiências instintuais no interior do corpo, podendo constituir objetos ditos internos e seguir administrando esse mundo interno, que é sentido como estando dentro da barriga ou em algum outro lugar do soma. É claro
que o espaço transicional − nem interno, nem externo − se manterá por toda a vida, por meio da experiência cultural, artística ou religiosa. Segundo Winnicott, o espaço transicional é “o lugar em que vivemos” propriamente, o que permite que não estejamos permanentemente exauridos pela árdua tarefa de discriminar o que é interno do que é externo.
É preciso ter em mente que “na primeira infância [...] não se cobra do bebê que a defina [a área de ilusão] [...] em termos de ter sido criada por ele ou aceita como um pedaço da realidade percebida” (Winnicott 1953a, p. 311). Não se pede ao bebê que resolva esse paradoxo: “só gradualmente lhe pediremos que distinga claramente entre o que é subjetivo e o que é passível de comprovação objetiva ou científica”. O autor acrescentou a esse respeito que “Se um indivíduo adulto reivindica uma indulgência especial em relação a essa área intermediária, reconhecemos ali a psicose” (Winnicott 1953a, p. 311). O uso excitado que o bebê faz de seu polegar é emblemático para a compreensão do percurso do objeto subjetivo ao objetivamente percebido: “as primeiras atividades do punho na boca do bebê recém-nascido [...] [acabam por conduzir] a primeira ligação a um ursinho, a uma boneca ou brinquedo macio ou a um brinquedo duro (Winnicott 1971a, p. 14).
É claro que, para o bebê, chupar o polegar é uma das formas de satisfação direta de excitações localizadas: “assim que nascem, tendem a usar os dedos e os polegares em estimulação da zona erógena oral, para obter satisfação dos instintos dessa zona e também em tranqüila união” (Winnicott 1971a, p. 14).
Entretanto, existem variações no que tange ao uso do polegar − tanto durante a amamentação quanto em outros momentos − que ampliam a
compreensão dessa atividade que, para Winnicott, não se restringe ao auto- erotismo. O polegar pode servir de conforto, consolo, controle do objeto ou defesa contra a ansiedade. O bebê pode, por exemplo, alimentar-se no seio mantendo simultaneamente o polegar na boca ou pode acariciar o rosto com outros dedos enquanto chupa o polegar. Ou seja, à experimentação mais direta das funções e à criatividade primária, lentamente são acrescidos usos do corpo que assumem significações distintas e que incidem na área de fenômenos que o autor denomina transicionais. Por exemplo, o balbuciar, as explorações de ruídos de qualidades diversas e de formas de choro na hora de dormir, que em algum momento podem se transformar em sonoridades entoadas à maneira de cantigas tristes136. Exemplos de formas degeneradas desse tipo de uso são os objetos-fetiche.
Embora a satisfação oral esteja na base do uso dos objetos intermediários, estão incluídos outros aspectos como sua localização − ora a meia distância, ora dentro, ora fora, em área controlada, portanto −, sua natureza ou características como textura e vivacidade próprias, o fato de o objeto ter sido criado pelo bebê e a possibilidade de experimentação do próprio amor excitado, de que agredir, mutilar, acariciar e a incipiente afetividade são partes integrantes. Note-se que o bebê experimenta, na área transicional, elementos da relação excitada com a mãe mas também dos contatos corporais tranqüilos.
Acrescente-se a isso o fato importante de que o uso do polegar dá continuidade à “capacidade do bebê para usar a ilusão, sem a qual nenhum contato seria possível entre a psique e o ambiente” (Winnicott 1953a, p. 311). A esse respeito, o autor elucida:
136
O autor relaciona o triste choro do bebê que ainda não pegou no sono aos estilos tristes de se entoarem canções como os blues.
Se, no lugar da palavra “ilusão”, colocarmos “polegar”, ou “a ponta do cobertor”, ou “uma boneca de pano” [...] que alguns bebês utilizam à guisa de consolo ou conforto, ficará claro o que tentei descrever em outro lugar sob o termo “objeto transicional” (Winnicott 1953a, p. 311).
A idéia da “área intermediária de experimentação” (Winnicott 1971a, p. 15) ampliou a conceitualização psicanalítica da natureza humana em termos de mundo interno e externo com uma membrana limitadora e de relacionamentos interpessoais. Isso significa que, na visão de Winnicott, o esquema corporal descrito por Scott (Winnicott 1954a), com seus aspectos temporais e espaciais, ou a descrição de um indivíduo em termos de unidade psicossomática, mesmo “quando levadas em conta a elaboração imaginativa de função e a totalidade da fantasia, tanto consciente quanto inconsciente, inclusive o inconsciente reprimido” (Winnicott 1971a, p. 14-15), não é suficiente.
Note-se que Winnicott se interessou pela área intermediária, que abrange o fenômeno do “brincar como uma coisa em si” (Winnicott 1971a, p. 61), para além das vinculações dessa atividade, exploradas anteriormente pela teoria psicanalítica tradicional, com a atividade masturbatória, e não só por seu uso como forma de comunicação na clínica. Embora para o autor a fantasia esteja sempre vinculada com o soma e, quando se defronta com a masturbação, caiba a pergunta “qual é a fantasia?” (Winnicott 1971a, p. 6), ele procurou demonstrar que:
[...] o elemento marturbatório está essencialmente ausente no momento em que uma criança brinca [...] [e] se a excitação física do envolvimento instintual se torna evidente, então o brincar se interrompe ou, pelo menos, se estraga (Winnicott 1971a, p. 60).
Isso não significa que os problemas da criança relacionados aos instintos não possam aparecer nas brincadeiras por meio de símbolos. Winnicott considera também que por meio do brincar os instintos se mantêm vivos de modo indireto (Winnicott 1988, p. 72). É importante assinalar que, embora o brincar não esteja situado fora nem dentro, o controle do objeto implica tempo e espaço, ou seja, não está mais sujeito às leis mágicas: “há que [se] fazer coisas, não simplesmente pensar ou desejar (Winnicott 1971a, p. 63). Desse modo, “o corpo obtém satisfação ao participar da dramatização” (Winnicott 1988, p. 72) inerente à atividade, diferentemente da satisfação das excitações localizadas relacionadas às fantasias do tipo masturbatório.
Embora os objetos transicionais se tornem um ponto adicional de sustentação da linha de existência do bebê, eles só permanecem significativos, em sua origem, em relação direta aos objetos internos, em construção que, por sua vez, nesse momento, ainda se apóiam na presença da mãe em medida suficiente. O bom estabelecimento da área de ilusão e, em seguida, a sustentação da experimentação na área intermediária pavimentam o caminho para a desilusão, que tem o desmame como um de seus elementos.