Como já assinalamos, Winnicott não se baseia no fenômeno relativamente tardio da triangulação edípica para a abordagem do tema da instintualidade, mas valorizou e incluiu em sua pesquisa aspectos do conhecimento da Psicanálise freudiana a respeito da sexualidade humana, especialmente aqueles que tangem os “primórdios de todo o desenvolvimento da vida instintiva” (Winnicott 1988, p. 76). A esse respeito, Loparic esclarece que Winnicott “passará a usar o termo freudiano ‘sexual’ como ‘instintual’” (Loparic 2005, p. 317) para designar “o conjunto de excitações locais e gerais que são um aspecto da vida animal, na experiência das quais há um período de preparação, um ato com um clímax e um pós-clímax” (Winnicott 1965b, p. 130).
Acometido por estados parciais de excitação, o bebê winnicottiano faz gestos. A idéia do gesto espontâneo excitado pode ser tomada como um dos
119 Embora essa classificação se refira a etapas − das mais primitivas às mais avançadas no
amadurecimento −, esses níveis de amor não são propriamente superados, mas seguem coexistindo, à maneira de camadas geológicas, em que passado e presente se mesclam no aqui-agora.
fios condutores de toda a teoria. Por meio deles, o bebê vai ao encontro do outro, cria a si mesmo e uma vida significativa, num mundo de relações significativas. O gesto espontâneo é também o elemento que possibilita a concepção de um modelo de uma clínica encarnada120, baseada em experiências.
Os gestos e todos os aspectos do estar-vivo físico elaborados imaginativamente distinguem o animal humano dos outros animais: gradativamente, gera-se um diferencial de sentido entre a pura vivacidade ou espontaneidade do início da vida e o gesto humano. Um exemplo disso é a elaboração dos estados parciais de excitação, que têm como contraparte, em algum momento, a integração dos instintos à pessoa.
Recorde-se que, nos primórdios, as excitações do bebê não podem ser concebidas como instintos constituídos, integrantes de relações interpessoais. O bebê − não uma pessoa que tem fome, mas uma continuidade de ser altamente dependente − precisa todo o tempo ser resguardado das agonias impensáveis e também do elemento das excitações ainda externas à sua pessoa. Estas, quando não devidamente atendidas, podem funcionar como qualquer outro fator intrusivo do ambiente. Como exemplo dessa afirmação, temos a já citada situação de um bebê não prontamente atendido que sente − não estando inserido no tempo − suas urgências instintuais como eternas. É preciso lembrar que, para Winnicott, a fome significa nesse momento uma experiência parecida com a que teríamos se nos pusessem num covil de leões (Winnicott 1945b, p. 24), não sendo de admirar que:
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O modelo da clínica winnicotiana foi identificado por Loparic como o do “bebê no colo da mãe”. Apenas acrescento aqui que esse colo só se torna fértil quando facilita o surgimento de gestos espontâneos, por meio dos quais o paciente (ou o bebê) pode tornar sua vida pessoal. Isso significa que, apesar de estar implícita na clínica winnicottiana a possibilidade de um retorno à situação de dependência, essa é uma condição para o amadurecimento, e não uma finalidade em si mesma.
[...] o bebê queira estar seguro de que você [a mãe] é uma fornecedora de leite de confiança [...] Se você [a mãe] lhe faltar, ele se sentirá como se um bando de feras o tivesse tragado (Winnicott 1945b, p. 24).
Nesse sentido, há que se considerar um período inicial de incidência de excitações primitivas e sentimentos de intensidade tal que só terão lugar, posteriormente, em algumas manifestações artísticas ou em episódios psicóticos como, por exemplo, a avidez [eagerness]:
Através da expressão artística, esperamos manter-nos em contato com nossos selves primitivos, de onde provêm os mais intensos sentimentos e as sensações mais intensamente assustadoras e, de fato, quando apenas sãos, somos decididamente pobres (Winnicott 1945d, p. 225).
Os elementos primitivos encontram-se espalhados: avidez, sensibilidade sensorial extrema, motilidade, erotismo muscular, excitações localizadas dos diferentes núcleos de ego, ou “um caos primário, a partir do qual se organizam amostras de auto-expressão individual” (Winnicott 1989j, p. 27). Se tudo correr bem, os diferentes componentes se reunirão por momentos, organizando-se em torno das experiências excitadas, entre elas, a amamentação.
Acometido por toda sorte de excitações − excitam-se a pele, o ânus, as narinas, o aparelho respiratório etc. –, o bebê “têm diversas espécies de orgias (não só orgias alimentares), as quais não são só naturais, mas muito importantes, para eles” (Winnicott 1957l, p. 113). Muito da brincadeira ao alcance do ser humano nos períodos iniciais relaciona-se à experimentação do próprio corpo. Em palestra a pais, Winnicott ressalta a satisfação encontrada pelo bebê nessa experimentação:
[...] temos que reconhecer que o prazer participa do choro como do exercício de qualquer outra função física, pelo que certa dose de choro pode ser considerada algumas vezes satisfatória, ao passo que uma dose inferior a essa não seria bastante (Winnicott 1945j, p. 65). Prossegue afirmando que, desde que se garanta que o bebê não se desespere, deve ser saudável que ele conheça, em sua extensão total, sua capacidade de fazer barulho − o próprio respirar como uma nova aquisição, o gritar, o berrar e também as formas de choro.
Logo essa experimentação deixa de envolver prioritariamente prazer e passa a incluir elementos afetivos que se desenvolvem no relacionamento com a mãe. Como disse Winnicott, a relação de amor entre o bebê e a mãe é construída principalmente mas não só sobre a base da alimentação.
Momentos de integração ocorrem em torno de experiências como as de urinar, defecar ou de qualquer outro núcleo de excitação e de trocas como com a pele, as narinas, o órgão genital etc., ainda que de início elas tenham um significado relacional ainda muito incipiente. Com o tempo, o advento da amamentação e da predominância da excitação em torno dos órgãos e da experiência de ingestão permitirá a constituição de um colorido oral das fantasias, independentemente da localização da excitação, o que passará a constituir uma etapa oral propriamente.
Entretanto, para que essa etapa tenha lugar, algumas integrações precisam se consolidar; por exemplo, aquela constituinte do próprio impulso amoroso primitivo: “no começo, tem-se que dar o desconto de um estágio, antes de se dizer que existe uma fusão de impulsos destrutivos e eróticos” (Winnicott 1959b, p. 339).