Para compor este eixo, as perguntas foram: a) Você acha que o professor está preparado a tratar do tema de sexualidade com você? b) Você acha que o professor tem condições de identificar a necessidade de temas que abordem a sexualidade?
No Eixo 1 percebeu-se que para os adolescentes que compuseram o universo desta pesquisa os profissionais mais indicados para tratar de sexualidade são o médico e o enfermeiro, daí a importância de diagnosticar como está o professor na árdua tarefa de abordar a sexualidade com os alunos, na visão deles. Desta forma, os adolescentes entendem que o professor não está preparado para tratar deste tema, todavia há ressalvas a serem consideradas como, por exemplo, a área (disciplina) do professor, ou seja, não será qualquer um que terá a habilidade de executar esta temática:
"Não. Depende do profesor em que área ele estuda." "Não. Porque ele não estudou a matéria."
"Não. Eles não tem muitas especialidades nessa área."
"Não. Precisa contratar profissores com capacidade específica."
Outros entenderam que o professor está preparado sim porque esta habilidade está contemplada em sua formação:
“Sim. Ele estudou para quê? Para isso... ensinar.” “Sim. Porque ele tem que estar preparado.” “Sim. Mas muitos professores não tem.” "Sim. Porque ele é profissional para isso".
Outra justificativa é que eles estão preparados porque eles já têm vivência da sua sexualidade:
"Sim, eles já praticam sexo" "Sim, porque eles já tem filho"
“Sim. Porque já são adultos e devem ter passado por isso.” “Sim. Ele tem experiência. Já faz sexo.”
Estas falas mostram a fragilidade do adolescente, pois revela um raciocínio concreto, direto, que envolve ação e reação, como se a prática suprisse e habilitasse a ensinar a teoria de forma segura e correta de chegar à prática. É como se dissesse que porque somos seres humanos estivéssemos aptos a ensinar antropologia. Porém, reforça a idéia da prática como fonte de conhecimento, o que pode ser útil na promoção de ações.
Está aqui um ponto amplamente discutido e temerário de atuação: os docentes estão preparados para tratar de sexualidade? Estudos realizados sobre os Temas Transversais (principalmente sobre o volume 10: Orientação Sexual) demonstram que os professores não estão preparados atuando com insegurança na abordagem do tema, justamente por não ser contemplado em sua formação (Auad, 2005b; Jardim e Brêtas, 2006). No entanto, cabe salientar que estes estudos basearam-se na visão e perspectiva dos docentes e formadores de docentes, não consideraram a perspectiva dos alunos.
É possível, portanto, que a insegurança do professor no tratar o tema mostra aos alunos sua fragilidade.
O Ministério da Educação e Cultura (2002) reforça a importância da formação do professor ser de alto nível, articulando a teoria com a prática, aliado a saberes construídos na vida profissional e pessoal e, desta forma, habilitar o professor a dar respostas às diversas situações que ocorre no seu dia-a-dia.
Se o professor não é o profissional adequado para abordar a temática de sexualidade, será que ele pelo menos pode identificar a necessidade dos alunos de modo a promover possibilidades, talvez até solicitar a presença de outros profissionais, para sanar as dúvidas de seus alunos adolescentes? Desta pergunta, as respostas puderam ser agrupadas em dois grupos: Grupo 1 - acham que o professor tem condições ("Sim. Porque eles estudaram"; "Sim. Porque acho que ele foram treinado para isso") e Grupo 2 - acham que o professor não tem condições ("Não. Precissaria de uma pessoa formada nesta área"; "Não. Acho que não estão bem preparados para o assunto"). Tais respostas apontaram que para os adolescentes os professores não estão preparados para tratar de sexualidade e tão pouco tem como fazer qualquer diagnóstico para propor uma ação ou desenhar uma proposta e/ou projeto pedagógico desta temática.
Grupo 1 – acham que o professor tem condições
“Sim. Porque ele(a) tem maior experiência.”“Sim. Porque eles estudaram.”
“Sim. Por exemplo ele faz uma pergunta do assunto que ele abordou e pergunta se alguém tem dúvidas e esclarece.”
“Sim. Porque acho que ele foi treinado para isso.” “Sim. Só não sei explicar.”
“Sim. Depende do que ele sabe e o modo de explicar.” “Sim. Meus professores são bem capacitados.”
“Sim. Porque eles entendem.”
“Sim. Porque eles já são proficionais para isso.”
Interessante fala de "Sim. Meus professores são bem capacitados", pois, segundo Dicionário Aurélio (Ferreira, 2000) capacitar significa tornar capaz, habilitar. Desta forma parece que os conceitos de habilidade e capacidade se imbricam.
Observa-se nessas falas conteúdos que informam sobre a prática (“Sim. Porque ele(a) tem maior experiência.”), recursos metodológicos (“Sim. Por exemplo ele faz uma pergunta do assunto que ele abordou e pergunta se alguém tem dúvidas e esclarece.”) e teoria (“Sim. Porque eles estudaram."), além da necessidade de aliar teoria à prática (“Sim. Depende do que ele sabe e o modo de explicar.”) e ter uma formação alicerçada (“Sim. Porque eles já são proficionais para isso.”).
Grupo 2 – acham que o professor não tem condições
“Não. Precissaria de uma pessoa formada nesta área.”“Não. Porque tem que ser um que saiba de verdade.” “Não. Porque eles não foram preparados para isso.”
“Não. Porque ele não tem muita experiência agora médico sim tem experiência.” "Não. Porque ele eu acho que não vai ter coragem de dizer isso".
“Não. Acho que não estão bem preparados para o assunto.” “Não. Eles não tem conhecimento completo.”
“Não. Cada um tem o seu e de sua escolha, o professor é não.”
Essas falas apontam para a necessidade de instrumentalizar a escolar/o professor, para que possam promover ações efetivas no tocante à sexualidade.
O contexto biológico, que até o momento é o foco de estudo e divulgação de conhecimento seja em sala de aula, seja em campanhas, não mobiliza o adolescente para as questões de sexualidade que está vivenciando, ou o mobiliza pouco.
Embora se formulem oficinas pedagógicas com propostas atuais que atendam a essa demanda (Ministério da Educação e Cultura, 1997; Ministério da Saúde, 2005) as falas dos adolescentes mostram que eles percebem a fragilidade de conhecimento do professor para enfocar esta temática. E essa debilidade, além de habilidades individuais, está voltada para a formação do professor, aonde é contemplado esse aspecto de modo a auxiliá-lo no seu desempenho profissional. Desta forma, a proposta é o trabalho conjunto: saúde (enfermeiros e médicos) e professor.