Podemos encontrar, em diferentes povos primitivos, variações nas atitudes que marcam as relações entre as pessoas portadoras e não portadoras de deficiência. Atitudes de aceitação, apoio e assimilação compõem um primeiro bloco, depois podemos referir as atitudes de abandono, segregação ou destruição e, por último, encontramos mesmo atitudes de extermínio.
12 Durante um dos seus cursos de verão em Monte Verità, uma jovem deficiente em cadeira de rodas,
pediu à Laban para lhe dar um curso particular. Laban pediu auxílio à sua assistente Mary Wigman que atónita o quis dissuadir. Foi com grande espanto que constatou Laban ter conseguido descontrair a cabeça da jovem “doente” como referiu, “ter feito com que ela conseguisse mexer os ombros, braços e as suas mãos muito belas, mas que pareciam mortas. Mais tarde as pernas, conseguindo que ela se movimentasse mesmo, depois de algum tempo. “I nacreditável...” como testemunhou (Hodgson & Preston-Dunlop, 1991, p. 80).
Aceitação, apoio e assimilação, por exemplo, marcavam o relacionamento entre os Pés Negros, uma tribo quase extinta da América do Norte. Para os indivíduos desta tribo, os cuidados com as pessoas portadoras de deficiência eram da responsabilidade do próprio grupo familiar, mesmo que isso acarretasse grandes sacrifícios a todos os indivíduos.
Entre os esquimós, encontrados nos séculos XVI I e XVI I I (no actual território do Canadá) por expedicionários franceses, havia a crença na divindade dos ursos brancos. Quando abatidos, estes animais forneciam alimento e pele, indispensáveis para a manutenção de suas vidas, isto levava-os a crer na divindade deste animal. Pessoas com deficiência e indivíduos idosos eram abandonados em locais onde havia uma grande convergência destes predadores para lhes servir de alimento. Acreditavam os esquimós que deviam manter sempre bem alimentados os ursos, que salvariam a sua população da fome e do frio, após a sua morte. Entre eles, neste caso, encontramos claramente uma atitude de abandono, segregação e destruição.
Entre os nigerianos da tribo Nukun, acreditava-se que as crianças que nasciam com algum tipo de deficiência tinham sido tomadas, ainda no ventre materno, por um espírito maligno. Marcando uma atitude de extermínio, todas estas crianças eram abandonadas na mata ao nascer13.
Os 3 exemplos acima citados (Silva, 1987), são de povos com uma organização social um tanto arcaica se comparadas às sociedades ocidentais da actualidade. “Ainda hoje vemos em zonas tropicais ou temperadas do globo terrestre povos que vivem vidas altamente primitivas e sem qualquer contato com a civilização, como homens das Eras Mesolítica e Neolí ica” (Silva, 1987, p. 27), portanto, é muito provável que as variações das práticas acima descritas ainda possam ser encontradas.
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Na Grécia Antiga competia ao Estado proteger os pobres e os miseráveis, e as pessoas com deficiência que quase sempre estavam entre eles. Aristóteles, por sua vez, apontava caminhos distintos aos desempenhados pelo Estado quando afirmou: “é mais fácil ensinar a um aleijado a desempenhar uma tarefa ú il do que sustentá-lo como indigen e” (in Silva, 1987, p. 97). Talvez este seja um dos primeiros registos a apontar para a visão contemporânea de análise da participação das pessoas com deficiência na sociedade, com base no princípio da igualdade de oportunidades, proposto pela ONU – Organização das Nações Unidas, onde o exercício de uma cidadania plena passa a ser o principal objectivo.
Ainda na Grécia Antiga surge o costume de marcar os corpos dos criminosos, escravos ou traidores com sinais. Tais marcas ajudavam na criação da identidade social destas pessoas que deviam ser evitadas e rejeitadas, principalmente em locais públicos, deixando assim, estes indivíduos estigmatizados por toda a sua vida (Goffman, 1980)14.
Etcoff (1999) ao apresentar-nos um estudo sobre a beleza refere-se também às “marcas corporais”, não como algo estigmatizante, mas como uma forma de buscá-la. Em suas palavras:
“Ao examina mos a literatura histórica e antropológica descobrimos que durante a história humana, as pessoas marcaram com cicatrizes, pintaram, perfuraram, colocaram enchimento, enrijeceram depilaram e poliram seus corpos em nome da beleza” (p. 13).
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Nas sociedades ocidentais mais desenvolvidas referimo-nos às políticas sociais voltadas às pessoas com deficiência, e não mais as atitudes sociais. Sassaki (1995a), divide-as em 3 períodos históricos. São eles: Período de Segregacionismo (do final do Século XI X até 1940), Período do Tecnicismo (entre 1950 e 1980) e o Período do Autonomismo (de 1990 ao início do Século XXI )15. No Quadro 01, apontaremos as principais
características de cada período pelo mesmo autor.
Assim como não o fizemos ao referir a dança, não pretendemos neste trabalho esgotar todos os dados históricos referentes à organização social das pessoas com deficiência nem tampouco do atendimento a elas destinado, mas optámos por citar algumas referências acerca dos modelos da análise de sua participação na sociedade, para demonstrar a existência de mudanças. Mudanças estas que os têm transformado de indivíduos que mereciam a nossa caridade e benevolência em indivíduos que devem ser alvos de uma política pública, com o objectivo de proporcionar a igualdade de oportunidades visando, consequentemente, a sua inclusão social16. Acreditamos ainda
14 “O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas
o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é, em si mesmo, nem honroso nem desonroso”. (Goffman, 1980, p. 13).
15 Divisão proposta para a América Latina. Em outros autores podemos encontrar os modelos Pagão,
Cristão e Clínico.
16 “A discriminação social do deficiente é um problema da sociedade que o estigmatiza e separa, mas é
igualmente um problema seu enquanto indivíduo/ sociedade – produto e produtor da história. Sem esse pressuposto poderíamos correr o risco de ´ coisificar´ e ´ vitimizar´ o deficiente, perpetuando a ideia maniqueísta de força/ fragilidade – cabendo à sociedade o primeiro termo e ao deficiente o segundo. Os movimentos populares coletivos dessas pessoas tentam, exatamente, quebrar essa dicotomia”. (Amaral, 1995, p. XI X).
que a apresentação de algumas ideias acerca da organização social das pessoas com deficiência pudesse auxiliar os leitores a situarem-se sobre desta realidade, além de abrirmos as nossas possibilidades para, posteriormente, aprofundarmos tais questões com o objectivo de analisar a convergência de factores que proporcionaram a inclusão de bailarinos com deficiências motoras, em companhias de dança inclusiva e, consequentemente, no universo da dança contemporânea. Sabemos que muitas foram as conquistas sociais das pessoas portadoras de deficiência no último século, mas ainda persiste o estigma de possuir um corpo fora dos padrões socialmente determinados e aceites, os preconceitos e a exclusão social.
QUADRO 01
ATI TUDES E POLÍ TI CAS SOCI AI S VOLTADAS