Introdução
No capítulo anterior falou-se do complexo desenvolvimento na adolescência. Muitas mudanças ocorrem na vida do adolescente neste período. Muitas delas podem constituir factores de stress, e como tal, factores de risco para um bom ajustamento. Mas muitas destas mudanças parecem também constituir desafios, para os quais o adolescente reúne os seus recursos internos e externos no sentido de os ultrapassar com sucesso.
Todas as pessoas possuem mais ou menos recursos, pessoais e envolvimentais, que os defendem do surgimento de problemas. Estes recursos são colocados à prova em situações de stress, adversidade ou risco que “precipitam” as pessoas para o encontro com consequências negativas. Mas nem sempre este encontro é uma realidade. Quando assim acontece, diz-se que se está perante pessoas resilientes. Tavares (2001) refere-se à pessoa resiliente como “… alguém flexível, aberto, criativo, livre, inteligente, emocionalmente equilibrado, autêntico, empático, disponível, comunicativo, capaz de resistir às mais variadas situações, mais ou menos complicadas e difíceis, sem partir, sem perder o equilíbrio, por mais adversas que essas situações se lhe apresentem, p.57”. (Tavares, 2001)
Uma das questões que levantou o interesse por esta área de estudo relativamente recente, foi precisamente o facto de indivíduos perante situações de risco não apresentarem sinais de desajustamento, como à partida era esperado, ou um desajustamento a longo prazo ou para toda a vida (Luthar & Zigler, 1991). A resiliência tornou-se assim um modelo de análise abrangente, que apresenta um enfoque especial para os factores e processos de protecção que em condições adversas a um desenvolvimento saudável, conseguem inverter o percurso de factores de risco. (Luthar & Zigler, 1991)
Ao longo deste capítulo abordar-se-ão diferentes tipos de factores de risco e de protecção, a sua interacção, bem como alguns conceitos associados ao conceito de resiliência e alguns dos problemas que se levantam a este interessante, mas também polémico, construto.
Definir Resiliência
De acordo com a sua origem etimológica (do latim, resillĭre), resiliência quer
dizer “saltar para trás”. Segundo Garmezy (1993), por definição a resiliência constitui uma qualidade elástica, que envolve a capacidade de distender sob o efeito do stress e depois voltar ao normal. A resiliência pode assim ser conceptualizada como um tipo de plasticidade ou flexibilidade. A plasticidade fornece um índice através do qual a mudança pode ser medida e, deste modo, a flexibilidade da pessoa para lidar com essa mesma mudança (Staudinger, Marsiske, & Baltes, 1993). (Garmezy, 1993)
Um dos princípios da definição de resiliência é o de que tem de haver risco ou experiências stressantes num determinado período da vida do sujeito (McGloin & Widom, 2001). Nas crianças, o atributo de resiliente envolve a capacidade de ultrapassar factores de risco aos quais estão expostas e, consequentemente, o evitar de consequências negativas, tais como a delinquência, problemas de comportamento, desajustamento psicológico, dificuldades académicas e problemas a nível físico (Hauser, Vieyra, Jacobson, & Wertreib, 1985). Alguns autores colocam nas suas definições de resiliência uma ênfase especial nas consequências atingidas perante situações de risco. Por exemplo, M. Rutter (1987) define resiliência como o resultado de processos de protecção que permitem ao indivíduo lidar com sucesso com adversidades. Para Garmezy (1999), a resiliência traduz-se na manifestação de competência, apesar da exposição a factores de risco significativos. Segundo Masten (1999b), a resiliência geralmente refere-se à apresentação de comportamentos desejados, em situações em que o funcionamento adaptativo ou o desenvolvimento estão significativamente ameaçados por acontecimentos ou situações de vida adversas. (Garmezy, 1999; M. Rutter, 1987)
Mangham, McGrath, Reid, e Stewart (1995a) definem resiliência como "a capacidade que os indivíduos e sistemas (famílias, grupos e comunidades) têm para lidar com sucesso com adversidades ou riscos significativos. Esta capacidade
desenvolve-se e modifica-se ao longo do tempo, é aumentada por factores de protecção do indivíduo, sistema ou envolvimento, e contribui para a manutenção ou promoção da saúde, p.4". Esta definição salienta o facto da resiliência não se tratar de um traço fixo e estável ao longo do tempo, mas sim sujeito a mudança em função das variações nos factores de risco e de protecção. A resiliência é assim um processo dinâmico, que se desenvolve a partir das relações que se estabelecem com o meio ao longo da vida (A. M. S. Pereira, 2001), pelo que ser classificado de resiliente numa determinada altura não implica que essa pessoa continue a ter um bom ajustamento a partir daí e/ou para sempre. (Mangham, McGrath, Reid, & Stewart, 1995a)
O dinamismo associado ao conceito de resiliência, deixa em aberto a possibilidade de poder promover factores a ela associados. A resiliência é geralmente vista como um balanço entre o stress e a adversidade por um lado, e a capacidade para lidar e a disponibilidade de suporte por outro (Mangham, McGrath, Reid, & Stewart, 1995b). Como diz Werner (1989, 1994), para a resiliência é necessário um equilíbrio entre factores de risco e de protecção, isto é, se existem mais factores de risco também são necessários mais factores de protecção para os compensar. E são precisamente estes factores de protecção que se podem desenvolver, estimular, ou melhorar, para que seja possível fazer face a riscos que muitas vezes são extremamente difíceis, e por vezes mesmo impossíveis de mudar. Sendo a resiliência um processo positivo que conduz à saúde (Mangham et al., 1995b), parece extremamente importante concentrar esforços na promoção de recursos internos e externos a ela aliados. (Werner, 1989, , 1994)
Grotberg (1997) apresenta uma definição de resiliência, onde salienta os aspectos base deste conceito, isto é, sucesso apesar da adversidade, mas coloca um enfoque especial no sucesso. Segundo a autora, a resiliência permite em certas situações atingir níveis superiores de desenvolvimento, comparativamente com aquele que existia antes da ocorrência do problema. Para Grotberg, a resiliência é a capacidade que as pessoas têm para suportar, superar e, possivelmente, sair “superiores” de experiências de adversidade. Esta superioridade, em termos de força e maturidade, é algo bem vincado no conceito de resiliência sugerido pela autora. Como diz Grotberg, a resiliência pode ser encontrada em pessoas, grupos ou comunidades e pode fazer mais forte a vida dos que são resilientes. Um outro aspecto interessante, e de certo modo inovador nesta concepção de resiliência em relação a outras definições, é a de que esta pode ser promovida não
necessariamente por causa da adversidade, mas como antecipação a adversidades inevitáveis (Grotberg, 1995). (Grotberg, 1995, , 1997)
Esta capacidade de ultrapassar as dificuldades que aparecem na nossa vida, tem sido perspectivada por alguns autores como uma capacidade excepcional, que envolveria uma resistência extrema, ou seja como invulnerabilidade. Cowen e Work (1988), por exemplo, referem-se ao conceito de resiliência como sendo análogo ao conceito de invulnerabilidade. Revisões realizadas por alguns autores, encontraram outros termos utilizados como sinónimo de resiliência, e que vão precisamente no sentido de ser inatingível: sobreviventes, heróis, pessoas modelo (Tarter & Vanyukov, 1999), crianças de ouro (Beauvais & Oetting, 1999), invencíveis (McGloin & Widom, 2001), e invulneráveis (H. B. Kaplan, 1999). (Cowen & Work, 1988)
A invulnerabilidade implica que a pessoa não é atingida (Garmezy, 1993). Contudo, não é isso que geralmente acontece com as pessoas, quer sejam elas resilientes ou não. Ralha-Simões (2001) fala de uma menor vulnerabilidade apresentada por alguns indivíduos, como base da resiliência. Refere ainda que esta menor vulnerabilidade não é devida a um bloqueio à entrada de estímulos do envolvimento, mas sim resultado de uma maior capacidade de adaptação a esses estímulos que lhe permite um continuado ajuste às circunstâncias da vida, mesmo as menos favoráveis. Talvez, como referem Beauvais e Oetting (1999), este tipo de perspectiva, de algo fantástico ou transcendente, tivesse lugar pelo facto de se desconhecerem os processos que deram origem ao sucesso. Actualmente alguns desses processos são conhecidos, e a perspectiva que prevalece é a de a resiliência está em todos nós (Benard, 1995; Ralha-Simões, 2001), cidadãos comuns, pessoas “ditas normais”. A resiliência é assim hoje entendida mais como um factor de equilíbrio pessoal e social (Tavares, 2001), que permite ter um funcionamento adaptado (Callahan, Rogé, Cardénal, Cayrou, & Sztulman, 2001), do que como um factor impossível de desestabilizar.
Conceitos Paralelos
Na literatura produzida no domínio da saúde, encontram-se alguns conceitos relacionados com o conceito de resiliência. As referências a estes conceitos e à sua relação com a resiliência apresentam muitas variações: desde conceitos paralelos, consequências da resiliência, e factores de protecção. Por exemplo, Mangham et al. (1995a) referem que os conceitos de coping, auto-ajuda, suporte social, empowerment, auto-estima, auto-eficácia e competência são geralmente considerados factores de protecção. Tarter e Vanyukov (1999) referem que conceitos como hardiness, ego resilience, ego strenght e competência têm sido utilizados como sinónimos de resiliência. (Mangham et al., 1995a) (Tarter & Vanyukov, 1999)
Um dos conceitos em que estes “múltiplos encaixes” com o conceito de resiliência parecem todos servir, independentemente da posição considerada, é o conceito de competência. Tarter e Vanyukov (1999) referem que o conceito de competência tem sido utilizado como sinónimo de resiliência. Outros autores (Coordinating Council on Juvenile Justice and Delinquency Prevention, 1999; Gore & Eckenrode, 1996; Kumpfer, 1999; Werner, 1995), referem-se a várias áreas de competência (relacionais, sociais, cognitivas, emocionais, escolares, físicas) como factores de resiliência. Encontram-se ainda, para finalizar as hipóteses, os autores que se referem a competência como uma consequência, isto é, que utilizam medidas de competência (académica, social, etc.) para avaliar a resiliência (Garmezy, Masten, & Tellegen, 1984; Kaufman, Cook, Arny, Jones, & Pittinsky, 1994; Luthar, 1991, 1993; Luthar & Ripple, 1994; Masten, 1999a, 1999b; Masten et al., 1988; Masten et al., 1999; M. Rutter, 1979; Tiêt et al., 1998). Tal como salientam Mangham et al. (1995a), verifica-se um certo desacordo em relação ao facto da competência ser uma consequência ou um factor de protecção na resiliência. Adiantam ainda os autores que, apesar disso, não existem dúvidas que a competência é um conceito fundamental para a resiliência e para a promoção da saúde.
Talvez o fulcro desta ambiguidade esteja na própria definição de resiliência. Como se terá oportunidade de explorar mais à frente neste capítulo, o conceito de resiliência é por vezes entendido como uma consequência positiva, apesar do risco, outras vezes como factor que contribui para essas mesmas consequências.
Encontra-se assim no conceito de resiliência, se se considerarem várias posições, uma ambiguidade semelhante à que se encontrou na sua relação com o conceito de competência.
Um outro conceito frequentemente associado ao de resiliência é o conceito de coping6. O conceito de coping, apresentado por Lazarus e Folkman (1984),
traduz-se num conjunto de esforços para fazer face a situações de perigo ou desafio. Richardson, Neiger, Jensen, e Kumpfer (1990) referem-se ao conceito de resiliência, como um processo de coping com acontecimentos de vida disruptivos. Encontram-se assim duas perspectivas: uma centrada no coping, outra centrada na resiliência em que os conceitos se fundem. Apesar de nestas concepções, resiliência e coping surgirem como conceitos sinónimos, o coping é geralmente entendido como um dos muitos factores de protecção na resiliência (Mangham et al., 1995a). Callahan et al. (2001) dizem que a resiliência parece estar ligada a estratégias de coping adaptadas. Um estudo realizado pelos autores mostrou que a resiliência aparece fortemente correlacionada com o coping activo, que envolve o confronto com os problemas e a elaboração e aplicação de estratégias de resolução desses mesmos problemas. Por outro lado, verificaram que a resiliência apresenta associações negativas com estratégias de coping que envolvem o recurso a drogas. (Callahan et al., 2001; Lazarus & Folkman, 1984; Mangham et al., 1995a; Richardson, Neiger, Jensen, & Kumpfer, 1990)
O coping activo, a distracção e a procura de suporte estão geralmente associados com consequências positivas, incluindo poucos sintomas de internalização e externalização, enquanto que o evitamento dos problemas está relacionado com uma pobre saúde mental. Um estudo realizado por Gonzales, Tein, Sandler, e Friedman (2001), mostrou que nas raparigas o coping activo e a distracção reduzem o efeito do stress familiar (conflitos familiares, problemas financeiros) sobre os problemas de comportamento. O coping activo parece ainda reduzir os efeitos do stress comunitário (ser testemunha de violência, crime ou consumo de droga, ou ser vítima de crime ou violência) na realização académica. No entanto, este estudo mostrou também que a eficácia deste tipo de estratégias poderá estar dependente dos níveis de stress. Concretamente no caso da depressão, o estudo mostrou que, para as raparigas, a distracção parece reduzir a depressão, mas perante elevados níveis de stress relacionado com os pares (conflitos com os pares ou na escola), os efeitos positivos da distracção são
6 Apesar de se encontrar tradução do conceito de coping em alguns trabalhos portugueses, nomeadamente como aptidões de confronto (O. Gonçalves, 1993), este será utilizado na sua versão original dado o “uso corrente” do conceito.
dissipados. Também para os rapazes, o coping activo não teve qualquer efeito na depressão nos rapazes expostos a altos níveis de stress na família, grupo de pares ou comunidade, e também não teve efeito na realização escolar para os rapazes expostos a elevados níveis de stress comunitário. Segundo os autores, talvez estes resultados indiquem uma maior vulnerabilidade aos efeitos negativos de envolvimentos de alto stress. Estes resultados vão ao encontro da posição de Bruchon-Schweitzer e Dantzer (1998), que referem que a eficácia das estratégias de coping dependem de vários factores, entre os quais a situação indutora de stress, a duração da situação, e o grau de controlo que se tem sobre esta. Parece que o coping activo centrado no problema é mais eficaz para reduzir a tensão emocional induzida por um acontecimento stressante, do que um estilo de coping passivo centrado na emoção. O coping activo parece ainda ser mais eficaz a longo prazo e para os acontecimentos controláveis. As estratégias de coping passivas (por exemplo, evitamento e negação), parecem ser mais eficazes a curto prazo e para acontecimentos incontroláveis. Parece assim, que não existem estratégias de
coping eficazes por si, independentes das características pessoais do sujeito e das
particularidades da situação stressante (Bruchon-Schweitzer & Dantzer, 1998).
(Gonzales, Tein, Sandler, & Friedman, 2001)
Um outro conceito geralmente apresentado como uma estrutura de coping, e, como tal, com algum paralelismo com o conceito de resiliência, é o conceito de sentido interno de coerência proposto por Antonovsky e Sagy (1986). O sentido interno de coerência consiste numa estrutura interna de coping, composta por estratégias flexíveis para ultrapassar os problemas do dia-a-dia. Um indivíduo com sentido interno de coerência percebe os estímulos do envolvimento como estruturados, predizíveis e explicáveis, sente que é capaz de dar resposta a esses estímulos e que estes são desafios que requerem investimento e empenho pessoal. Esta estrutura interna tem um efeito adaptativo para o indivíduo, na medida em que permite lidar com os problemas que ameaçam o seu bem-estar. Segundo Geada (1994), o contexto mais próximo do indivíduo, e que tem maior potencial para influenciar o desenvolvimento de um sentido interno de coerência, é a família. Resultados obtidos num estudo realizado pelo autor mostraram que uma maior organização familiar, um maior controlo parental e menores níveis de conflito estão associados ao desenvolvimento de um sentido interno de coerência. Verificou-se ainda, que os jovens com um maior sentido interno de coerência consumiam menos drogas do que os jovens com um menor sentido interno de coerência. Um outro estudo, realizado por Geada (1996) com indivíduos adultos, mostrou que os indivíduos que apresentavam valores mais elevados ao nível do bem-estar físico e
psicológico eram simultaneamente aqueles que apresentavam um maior sentido interno de coerência. (Geada, 1996)(Antonovsky & Sagy, 1986; Geada, 1994)
Por último referência ao conceito de hardiness7. Tal como anteriormente referido, este é mais um dos conceito que também é utilizado no mesmo sentido que a resiliência (A. M. S. Pereira, 2001; Tarter & Vanyukov, 1999). O conceito de
hardiness pode ser traduzido num traço de personalidade que permite enfrentar
com determinação e com adaptação situações de alto stress (Kobasa, Maddi, & Kahn, 1982). Este conceito é multidimensional, na medida em que engloba três componentes: o empenho, necessário para persistir na tentativa de ultrapassar as situações stressantes; o controlo, que envolve a percepção de controlo sobre os acontecimentos e sobre a sua mudança; e o desafio, que envolve a tendência para ver as situações problema como oportunidades de evolução e não apenas como ameaças.
Apesar de alguns destes conceitos serem considerados paralelos do conceito de resiliência, e de todos eles se focalizarem no sucesso ou adaptação em situações em que, à partida, esse sucesso ou essa adaptação poderiam estar ameaçados, parece que o conceito de resiliência é mais abrangente. Mais abrangente, na medida em que, se se considerar conceitos como coping, sentido interno de coerência ou hardiness, está-se a considerar traços ou características individuais que permitem enfrentar situações e angariar outros recursos para fazer face a situações desfavoráveis, enquanto que o conceito de resiliência já abrange, para além das características pessoais, esses outros recursos a nível familiar ou comunitário. Mais abrangente também, porque a investigação em seu torno se encontra mais generalizada a diversas áreas de ajustamento (saúde, social, escolar), e não centralizada na área da saúde como é o caso dos conceitos de
coping, hardiness e sentido interno de coerência que se focalizam mais na área da
saúde física ou mental.
7 À semelhança da opção tomada em relação ao conceito de coping, o conceito de hardiness será utilizado na sua versão original, apesar de ser possível encontrá-lo traduzido como robustez (Ribeiro, 1996).
A Investigação Centrada no Risco e a Investigação Centrada na Resiliência
A investigação centrada no risco tem a sua base na epidemiologia. Está relacionada com a pesquisa de factores que acentuam ou inibem a doença e a deficiência, e os processos associados. A exposição ao risco pode dar origem à doença, facto que se indica como vulnerabilidade, mas outros indivíduos podem ultrapassar estes riscos e apresentar um comportamento ajustado, facto designado como resiliência (Garmezy, 1996). Segundo Benard (1999), a investigação centrada no risco identifica, rotula e estigmatiza os jovens, as suas famílias e as comunidades. (Benard, 1999)
A investigação na área da resiliência foca os indivíduos que funcionam bem, apesar da presença de factores de risco potencialmente destruidores ou incapacitantes (Garmezy, 1991a). Um dos aspectos que diferencia a noção de resiliência de outros conceitos da área da promoção da saúde, é a avaliação quer de factores de risco, quer de factores de protecção e dos processos aliados a estes factores (Mangham et al., 1995a). Tiêt e Huizinga (2002) salientam ainda o estudo das consequências favoráveis (saúde mental, sucesso e bom ajustamento) e a sua manutenção apesar da adversidade. O modelo da resiliência pode assim ser explicado através do "modelo do desafio", segundo o qual os factores de risco não estão inevitavelmente associados a consequências negativas. Muitas vezes, a intervenção de factores de protecção, pessoais ou envolvimentais, permitem aos indivíduos o desencontro com o insucesso, com a doença, e com outras formas de mal-estar (Munist et al., 1998). A investigação na área da resiliência tem-se dedicado especialmente à pesquisa dos processos moderadores do stress, um processo pelo qual os efeitos negativos do stress são apagados ou pelo menos desequilibrados pelos factores de protecção. Recentemente, outras visões alternativas têm surgido, nomeadamente a ideia dos processos mediadores de stress, nos quais os stressores podem também funcionar para desgastar os recursos pessoais e envolvimentais (Glantz & Sloboda, 1999; Gore & Eckenrode, 1996; Masten, 1999b). (Tiêt & Huizinga, 2002)
A relação entre a investigação centrada na resiliência e a investigação centrada no risco, apresenta diferentes perspectivas dependendo dos autores. Para alguns autores elas são investigações complementares, para outros são
investigações em campos opostos. Enquanto que a investigação na área do risco está interessada na diferenciação entre os indivíduos de alto risco com consequências negativas, e os grupos de baixo risco com consequências favoráveis, a investigação no campo da resiliência está interessada na diferenciação entre os indivíduos de alto risco com consequências negativas, e os indivíduos de alto risco com consequências favoráveis (Tiêt & Huizinga, 2002) (ver Quadro 2.1). Como é possível verificar, existe um grupo de interesse simultâneo pela resiliência e pelo risco (grupo 2), que é o caso dos indivíduos de alto risco que apresentam problemas. No entanto, enquanto que para a investigação centrada no risco este é seu grupo alvo de estudo, para a resiliência este é apenas um grupo de comparação. O grupo alvo da resiliência é o grupo dos indivíduos que apresentam sucesso, apesar de confrontados com um risco elevado (grupo 4). Parece residir aqui a grande diferença entre a investigação centrada no risco e a investigação centrada na resiliência: ambas se interessam por indivíduos de elevado risco, mas enquanto que a primeira se interessa pelos que “sucumbem”, a segunda interessa- se pelos que “resistem”.
Quadro 2.1. Classificação de grupos e de áreas de investigação, baseada no estatuto de risco e consequências obtidas. Adaptado de Tiêt & Huizinga (2002, p. 261).
Baixo Risco Alto Risco