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Research questions and approaches of the study

cultura e religião, torna-se necessário romper com os paradigmas existentes que circundam as arestas entre homem e a natureza. De padrões que mantém o homem e a natureza como partes desconhecidas e/ou esquecidas entre si e de toda a magia que envolvia a construção humana em comunhão com a natureza, com o Cosmos, sendo substituída pela dinâmica monoteísta e dos pensamentos homogêneos, que intencionam apenas monoculturalizar (SHIVA, 2012) todas possíveis ideias.

O pouco da natureza que é conhecido pelo o homem foi e é fragmentado pela ciência e baseado em leis em que ele mesmo as criou, que são ditas naturais nas quais somente certezas e previsibilidades científicas são determinantes. Max Weber via esse determinismo religioso e da ciência como maneiras de incutir a racionalização ocidental, o desencantar do mundo, e fazer a transição para um novo modelo que se desenvolvia.

[Com] o desencantamento do mundo. Ninguém mais precisa lançar mão de meios mágicos para coagir os espíritos ou suplicar-lhes, feito o selvagem, para quem tais forças existiam. Ao contrário, meios técnicos e cálculo se encarregam disso. Isto, antes de mais nada, significa a intelectualização propriamente dita (WEBER, 1972, p.49).

Colocado esse caminho como o mais curto e fácil para organizar o sistema ou o que Pierucci (2005, p.141-142) chamou de “atitude experimentalista-instrumental”, na qual o cientificismo reduz o mundo natural, ao “mecanismo causal”. O aspecto do

que é natural, anímico, foi desconstruído e desencantado, para que os questionamentos pudessem ser respondidos através de reações e argumentos simplistas.

Contudo, para se fazer um contraponto ao pensamento exposto de Weber, a sua ideia de desencantamento do mundo, é necessário colocar ideias que ressurjam um novo olhar ou até resgatem “uma ciência que permite que se viva com a criatividade humana como a expressão singular de um traço fundamental comum a todos os níveis da natureza” (PRIGOGINE, 1996, p. 14). Para isso, também torna-se fundamental o retorno, a busca por uma relação harmônica do homem que se identifica como parte da natureza, podendo ser observada a partir de ressignificações simbólicas, como aquelas utilizadas pelos povos autóctones, o uso de uma ética e uma ecologia profunda para demonstrar o seu sentimento de identidade, e pertencimento ao meio natural. Acerca dessa revalorização, Viveiros de Castro considera que perceber os ecossistemas como “resultados complexos e contingentes de equilíbrios dinâmicos entre multiplicidades de espécies [...]”, e compreender que “[...] a interface sociedade/natureza é ela própria natural: os humanos são organismos como os outros, corpos-objetos em interação ‘ecológica’ com outros corpos e forças, todos regulados pelas leis necessárias da biologia e da física; as ‘forças produtivas’ aplicam as forças naturais” (2006), é uma forma de ajudar a observar a natureza como algo positivo. Acrescentando, Capra demonstra que existe uma percepção ecológica profunda ao reconhecer a dependência e a inter-relação dos indivíduos e da sociedade nos processos cíclicos da natureza (1996, p.24), uma manifestação do sagrado (ELIADE, 1992).

E que,

a ecologia profunda não separa seres humanos - ou qualquer outra coisa do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos ilhados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes (CAPRA, 1996, p.25).

Na cosmologia e visão de mundo desses guardiões, que é expressa por complexos padrões simbólicos, traça-se um caminho diferente dentro do contexto de “aparthaid” da natureza, dos modos de destruição/produção em massa do agronégocio e de sementes desenvolvidas a partir da transgenia. Essa relação de correspondência holística, como uma intuitiva conexão entre todos e tudo (MAFFESOLI, 2009), representada pela identificação dos agricultores como

guardiões de sementes e por um processo anímico existente entre ambos, torna-se preponderante para a proteção da biodiversidade. E que, para esses grupos, esses são os caminhos para um “reencantamento do mundo”, no qual a conexão foi perdida diante de um modelo utilitarista da natureza.

O reencantamento do mundo surge e vocifera diante a crise e a destruição da própria vida, em amplos sentidos, seja na recomposição dos organismos não resignados, ou dos transtornos efetivados. Logo, para essa revelação é imprescindível a busca por uma nova consciência, de pensamentos e epistemologias complexas e sistêmicas, como as citadas por Morin (1996) Bateson (1979), gerando ações contrárias às expostas pelo mundo das categorias sociais, da sociedade. O reencantamento do mundo brota como o posicionamento para um novo paradigma almejado, como “o eterno retorno do desejo de vida que tornaria a vida “sustentável”” (LEFF, 1998, p. 446).

A busca pela recriação do mundo prevalece para esses grupos, agindo em torno de um novo paradigma baseado em um holismo e na reorganização de ideias, de suas cosmovisões. Para Maffesoli (2010, p.99) os processos de interação e de um relacionismo generalizado, são aspectos do holístico e remetem a um pensamento orgânico, no qual “cada vez mais, é preciso reconhecer que o tudo é simbólico de antiga memória reencontrada em uma atualidade vigorosa na coligação mundial”.

O olhar humano, aqui representado pelos guardiões de sementes e da biodiversidade, em direção à natureza, se redescobre e o reforça como parte da mesma, em um sentimento de profundo reconhecimento.

Ater-se para ser um animal, uma criatura da terra. Voltando nossos sentidos animais para o sensível terreno: misturando a nossa pele com a chuva na superfície ondulada dos rios, misturando-se com os nossos ouvidos com o trovão e o vibrar das rãs, e os nossos olhos fundindo-se ao céu cinzento. Tornar-se terra. Torna-se animal. Tornando-se, desta forma, totalmente humano (ABRAM, 2010, p.03).

A quebra dessa relação homem-natureza envolve o desenvolvimento, evolução e história de ambos, seja através dos mitos, como na passagem do Gênesis e a visão criada sobre o Jardim do Éden para o Mundo Ocidental, no evolucionismo de Darwin, e/ou com o desenvolvimento da agricultura. A natureza foi transformada num espaço obscuro e perigoso, as florestas e bosques vistos como

espaços do inevitável e do desconhecido, e os seres viventes que lá habitam, foram transformados em monstros, até serem domesticados. Becker (2010, p.10) e Descola (1996, p.82) consideram a ideia de que a natureza foi e está socialmente construída e contextualizada de significados, de significados que alteram e moldam as ações e comportamentos sobre a própria natureza. Desta forma, pode variar em concordância com a ordem cultural e/ou histórica, e de que os homens não devem projetar o padrão de sua ontologia sobre outras culturas, através da projeção de uma “visão dualística do universo” (DESCOLA, 1996).

No momento presente, a intimidade existente entre o homem e a natureza foi moldada e, segundo Becker (2010, p.14), uma das partes desse relacionamento, a natureza, é metaforicamente vista como um “espaço vazio”, uma grande fonte de recurso disponível, a espera de ser integrada ao sistema. Ela é “não-humana e cada vez mais a natureza humana é “vazia”, no sentido de qualquer coisa natural é um grande número de forças a ser utilizada dentro de uma matriz de ações perfomativas”.

A busca pelo “paraíso perdido”, descrito como o Jardim do Éden, fez com que os homens caminhassem subjugando a natureza real numa continua busca e construção de um espaço síntese perfeito, para o desdobramento da vida e para vida de ócio no esperado e almejado paraíso. O jardim aparece como tal, é um lugar de transição, parte natureza, mas também parte de um espaço humanizado de realizações da criação do homem em conjunto com a natureza. Merchant (2003, p.04), mostra que existe uma busca por reinvenção do Éden, tanto por progressistas, como por ambientalistas, levantando questões fundamentais para a recuperação de uma nova narrativa além das que já conhecemos. Cujo, “os progressistas querem continuar a subir para recuperar o Jardim do Éden, reinventando Éden na Terra, enquanto ambientalistas querem recuperar o jardim original, restabelecendo a natureza e a criação da sustentabilidade”.

Contudo, é neste jardim original e da realidade é que pairam as ideias de conexão, do reencantar-se, do torna-se animal e natureza (ABRAM, 2010), é onde os homens deslumbram-se com as particularidades do “Planeta Jardim” (MERCHANT, 2003) e revisitam todas as peculiaridades perdidas ao longo vida.