1.4 Methods, selection of cases and data sources
1.4.3 Data sources and data collection
As sementes, em um historicismo dos povos autóctones, são tratadas e identificadas como o símbolo da vida, dos cultivos e da proteção de seres míticos e divindades em diversas culturas, dentro dos aspectos biológicos e naturais, são fonte de alimento e o órgão reprodutivo principal para a maioria das plantas, assim sendo as mantenedoras da abundância da biodiversidade. Estão em conexão evolutiva natural e cultural com o homem, são a representação do ser gerador e do nascimento para a continuidade da própria natureza, seja essa como essência, condição, e/ou espaço, visto que tudo é parte do mesmo.
Para Cardoso Pereira (2008, p.5), em ensaios sobre a cosmologia e as sementes autóctones, “as sementes são códigos, sistemas de informações.
Estruturas. Sementes são estruturas vivas formadas de óvulos fecundos das plantas. Sementes são passeios e trajetórias plenas da antiguidade e guias do contemporâneo. Sementes são chaves para as possibilidades que, todavia não sabemos”.
Em alguns mitos e na cosmologia de povos autóctones, dos Kayapós, no Brasil, Astecas, Hopi, na Mesoamérica, seres míticos apresentaram, doaram, ensinaram a cultivar e são os protetores das sementes, e assim como os símbolos, as sementes são objetos representados pelo simbólico, parte de “um sistema dinâmico”, compreendido este também como mito. “O mito é um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias” (DURAND, 2002, p.62-63). Desta forma, os discursos são determinantes dentro de um contexto em que fazem parte, assim Lévi-Strauss (2008, p.219) acrescenta que o discurso é a organização de leis do inconsciente, formadas através de um acúmulo de vocabulários formados pela historia de vida de cada indivíduo, provenientes do subconsciente ou léxico individual. E, através desse pensamento, Landau (1995, p.18), citado por McKenna, apresenta que a linguagem é uma ferramenta que dar vida ao mundo, e não só “uma comunicação de ideias sobre o mundo”.
Assim sendo, Lévi-Strauss completa:
[…] O vocabulário importa menos do que a estrutura. O mito, quer seja recriado pelo sujeito ou tomado da tradição, só tira de suas fontes, individual ou coletiva (entre as quais interpenetrações e trocas se produzem constantemente), o material de imagens com que opera. A estrutura permanece a mesma, e é por ela que a função simbólica se realiza. Acrescente-se que tais estruturas, além de serem as mesmas para todos, e para todas as matérias a que se aplica a função, são pouco numerosas, e compreender-se-á por que o mundo do simbolismo é infinitamente diverso em seu conteúdo, mas sempre limitado por suas leis (LÉVI-STRAUSS, 2008, p.219- 220).
Este símbolo, posto como as sementes, são vistas como parte da cultura do simbólico e são performáticas apenas como um ponto de passagem para a argumentação, diante a necessidade de revalorização e cuidado do que é estético (SEPÚLVEDA, 2005) e natural, diante da problemática real, e não na transformação de mais um inerte símbolo material e padrão. A busca por estes símbolos é feita através do resgate da memória cultural e relacional da ancestralidade dos atores
(populações tradicionais e agricultores) com o meio natural, baseado em discursos e narrativas expressas (LEVI-STRAUSS, 2008) do cultivar os seus símbolos para a preservação da sua identidade e vida, buscando um estreitamento e retorno na relação com a natureza e o sagrado, com ações sustentáveis que dialogam com a vida.
Shepard (1998, p.96), em seus estudos a respeito dos caçadores-coletores, questiona qual é a cosmovisão do estado agrário no neolítico, e utiliza como resposta uma referência sobre Joseph Campbell. Essa referência mostra que o rito central do agricultor/fazendeiro é o sacrifício “onde as lavouras de grãos são a metáfora da alma” e a oferenda de alimentos e dos rituais de abate de um animal ou uma pessoa “é um meio simbólico de participar da grande rodada, um rito de renovação ou de lubrificação da roda. Nossos laços com as sementes do grão cultivado, de alguma forma transmitiu a ideia de sobrevivência para além da morte”. O sacrifício como a representação do simbólico do que dar a vida para salvar as outras vidas. Gerringer (2006, p.04), em ensaios sobre os estudos de Campbell, também expõe que, “nas culturas de plantio” surge o mito do “deus morto-e- ressuscitado”, na qual o deus(a) é morto e enterrado, e assim nasce uma planta que irá alimentar a comunidade.
Na região central do México, os povos Nahuan fazem uma cerimônia ritualística para assegurar a fertilidade dos cultivos, chamado Xochitlalia, Florecendo a Terra ou Flor de Terra, bem próximo ao apresentado nos estudos de Campbell, na qual são oferecidos alimentos, bebidas e incensos, contando com a ajuda dos Espiritos das Sementes (Xinaxtli) os chamados, Chikomexochitl, ou Sete Flores, e a sua consorte de Makuilixochitl, encarregados pela fertilidade agrária e humana. “A semente é controlado por Tonatsi, que é considerada como a sua mãe” (SANDSTROM; SANDSTROM, 2012, p.114). Os Espíritos das Sementes (Chikomexochitl) costumeiramente andam pelas Milpas26 para protegê-
la, “porque é o lugar onde os alimentos dos Nahuan são produzidos, porque é um lugar onde o sagrado manifesta-se”. E além do ritual de fertilidade dos cultivos, há também os rituais de semeadura para aumentar a fertilidade e para o aumento da colheita, que acontecem durante a primavera (GONZALEZ; URQUIAGA, 2007, p.40-41).
26 Milpa é uma técnica de cultivo consorciado (milho, feijão, abóbora e pimenta, podendo variar) dos povos mesoamericanos, sendo também o produto alimentar para satisfação necessárias humanas, a terra, a parcela, ou os vegetais. Milpa na língua Náhuatl significa milli, parcela sembrada, y pan, encima ou “o que semeia-se em cima da parcela” (CANTÓN; COLLEL; VALLADO et al., 1998).
Portanto, é através de aspectos de reciprocidade simbólica, da reciprocidade das dádivas (MAUSS, 2003; TEMPLE, 1995; CHABAL, 1995; SABOURIN, 2008), representadas por atos ritualísticos, que estes Guardiões reconhecem e gratificam a natureza, esta como uma Mãe libertária e generosa, que “não exerce controle de qualidade sobre cada uma de suas sementes”, permitindo que as plantas as dispersem em seu ventre, espaços fecundos, e dentro deste ciclo da vida, “a que não germinar servirá de alimento para outras espécies” (FUCHS, 2003), e assim,
sementes, esporos, espermas, sêmen. A natureza é pródiga. Ela esbanja. Uma abundância admirável para assegurar a continuidade da espécie: milhões de espermatozoides para fecundar um óvulo, ou milhares deles. Milhões de esporos se soltam da planta para germinar na terra. Grãos e mais grãos. Podemos dizer que a natureza não se preocupa em correr o risco de perder parte considerável de sua “produção” (FUCHS, 2003, p.37).