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CHAPTER 3: Methodological Framework

3.2 Research Methods

Vamos tentar compreender como o jornal Le Monde constrói sua estratégia de captação na primeira página. Como dissemos no item anterior, os principais elementos de captação da primeira página são os títulos, as fotos e as publicidades. O jornal francês traz ainda mais dois itens para chamar a atenção do leitor em sua primeira página: as charges e duas chamadas para o jornal do dia seguinte.

Os títulos do Le Monde tentam levar o leitor a identificar um aspecto da notícia que o jornal vai privilegiar. Dizendo de outra maneira, os títulos pretendem fazer o leitor perceber de forma clara qual a interpretação que o Le Monde pretende dar ao acontecimento. Para isso, o jornal apresenta títulos em forma de perguntas:

Comment faire repartir la croissance mondiale? (Le Monde, 08/02/09).84

Crise: faut-il privilégier la relance par la consommation? (Le Monde, 14/02/09).85

Com uso de dois pontos para esclarecer do que trata o tema e suas consequências:

Grande-Bretagne: grèves contre les ouvriers étrangers (Le Monde, 04/02/09).86

E títulos que apresentam o ponto de vista do jornal:

Les syndicats exigent un changement de cap. MM. Sarkozy et Fillon le refusent toujours (Le Monde, 04/02/09).87

Como vimos, o jornalismo também pode utilizar-se dos efeitos de dramatização e de ludismo para captar o leitor, especialmente na primeira página. Lembramos que a dramatização pode aparecer nos relatos de tragédias, medos, grandes e pequenas histórias do cotidiano. Por exemplo, o cotidiano de uma das maiores estações de metrô e trem da França, a Saint-Lazare, e seus problemas de toda ordem:

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Nossa tradução: Como reiniciar o crescimento mundial?

85 Nossa tradução: Crise: é preciso privilegiar a retomada pelo consumo? 86 Nossa tradução: Grã-Bretanha: greves contra os trabalhadores estrangeiros 87

Reportage: la gare Saint-Lazare, haut lieu de colères, de conflits et de miracles

En plein Paris, 450 000 voyageurs par jour, un train toutes les 28 secondes Cela fait du bruit, une gare qui craque. Le bruit des cris, gueulantes et autres râleries d’usagers excédés par la série ininterrompue des retards, arrêts de travail et incidents techniques qui ponctuent leur calvaire de banlieusards. Le bruit de machines à bout de souffle, wagons déglingués et motrices vieilles de 30 à 50 ans d’âge.

Et, en toile de fond, le bruit de Paris, car c’est de la gare Saint-Lazare dont il est question ici: 450 000 voyageurs chaque jour de semaine, direction banlieue ouest, Basse et Haute-Normandie.

Saint-Lazare, deuxième gare d’Europe derrière la gare du Nord, haut lieu de la protestation des clients de la SNCF, symbole, bien malgré elle, de l’engorgement des voies d’accès à la capitale. Depuis la mi-décembre, grève tournante des conducteurs; le 13 janvier, fermeture de la gare après un arrêt total du trafic; nouveau drame évité de justesse le 23 janvier.

Le conflit a permis, dit un usager, «de mettre pleins feux sur ce qui se passe ici ».« Nous sommes la zone parisienne qui a le plus de retard en matière d’investissements», reconnaît-on à la SNCF. De grands travaux sont annoncés, dans un lieu qui n’a pas été sérieusement rénové depuis les années 1930. D’ici à 2012, un grand lifting doit être achevé.

Le Monde a enquêté. Notre reporter, Benoît Hopquin, a écouté la colère des voyageurs. Il a observé les miracles quotidiens accomplis par le personnel de la SNCF. Gens du rail et ceux des quais, guichets et postes de contrôle font, chaque jour, des exercices de haute voltige pour que Saint-Lazare continue à tourner, à accueillir un train toutes les 28 secondes sur l’une de ses 27 voies. (Le Monde, 09/02/09).88

Já o efeito lúdico é alcançado com recursos jornalísticos misturados à poesia, à aventura, à ficção, ao cinema, aos jogos de palavras. Além das charges e ilustrações, temos algumas chamadas irônicas, como esta para a votação do referendo na Venezuela:

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Nossa tradução: Reportagem: Estação Saint-Lazare, a meca dos conflitos, raivas e milagres No centro de Paris, 450.000 passageiros por dia, um trem a cada 28 segundo

Faz barulho, uma estrada de ferro que range. O som de gritos e protestos cobertos pela série ininterrupta de atrasos, interrupções de trabalho e incidentes técnicos que pontuam seu calvário de suburbanos . O som das máquinas a ponto de pararem, e motores antigos em ruínas com 30 a 50 anos de idade. E, no fundo, o ruído de Paris é da Gare Saint-Lazare que se trata aqui: 450.000 passageiros cada dia da semana, direção: subúrbios oeste, Baixa e Alta Normandia. Saint-Lazare, a segunda estação da Europa atrás da estação de trem Gare du Nord, a meca dos protestos dos clientes do SNCF, símbolo, apesar disso, do congestionamento das vias de acesso à capital. Desde meados de dezembro, convivendo com a greve dos condutores; 13 de janeiro, a estação fechou depois de uma paralisação total do tráfego; nova tragédia evitada em 23 de janeiro.

O conflito, disse um usuário, permitiu “que se coloque um holofote sobre o que se passa aqui”. “Nós somos a região parisiense que está mais atrás em termos de investimento”, admite a SNCF. Grandes operações são anunciadas, em um lugar que não tem sido seriamente renovado desde 1930. Até 2012, uma grande reforma será concluída.

Le Monde investigou. Nosso repórter, Bento Hopquin, ouviu os passageiros irritados. Ele observou os milagres diários realizados pelos funcionários da estação. Ferroviários e funcionários das plataformas, guichês e postos de controle fazem diariamente malabarismos para que a estação de Saint-Lazare continue a funcionar, para acomodar um trem a cada 28 segundos em uma de suas 27 vias.

Hugo Chavez se verrait bien président à vie

Référendum - Les Vénézuéliens votent dimanche sur la possibilité pour les élus de se présenter autant de fois qu’ils le veulent. Principal intéressé: Le président Hugo Chavez. (Le Monde, 14/02/09).89

Quanto às fotos, o Le Monde usa no máximo duas, por edição. A maioria das fotos tem a intenção de identificar os personagens, como podemos observar no exemplo abaixo, dia 15/02/09, sobre o fraudador das bolsas de valores, Jeróme Kerviel:

FIGURA 78 - Foto identificando personagem da chamada Fonte: Le Monde, 15 fev. 2009, p. 1.

As ilustrações acompanham as cores discretas do jornal e completam o enfoque que se quer dar às notícias. Vejamos um exemplo:

FIGURA 79 - Chamada com ilustração, dossiê sobre economia Fonte: Le Monde, 05 fev. 2009, p. 1.

Essa ilustração90, do dia 05/02/09, remete á mecanização dos trabalhadores e

à crise do socialismo marxista, representado pela foice e pelo martelo.

Um traço bastante autoral do Le Monde, e que atrai a atenção dos leitores, é o apelo ao ludismo, com a charge publicada na primeira página, “Le regard de

89 Nossa tradução: Hugo Chávez seria bom presidente para toda a vida

Referendo – Venezuelanos votarão domingo sobre a possibilidade dos políticos se candidatarem quantas vezes quiserem. Interessado principal: o presidente Hugo Chávez.

90

Nossa tradução: Dossiê: o liberalismo em questão(s). Marx e a nova crítica social. As aventuras da razão neoliberal.

Plantu”. Além dos temas atuais, da ironia com os personagens políticos da França e do mundo, a charge é colorida e alegre, dando leveza ao jornal. Vejamos dois exemplos de charges dos nossos corpora. Uma sobre a briga entre o prefeito e o presidente de Madagascar e as manifestações dos dois lados, dia 04/02/09:

FIGURA 80 - Charge, briga entre políticos Fonte: Le Monde, 04 fev. 2009, p. 1.

A segunda charge, do dia 05/02/09, trata do anúncio da montadora Citroën sobre a produção do DS, carro oficial do general De Gaulle. Sarkozy desfila no carro, mas De Gaulle diz que a França precisa é do retorno da confiança.

FIGURA 81 - Charge, Sarkozy Fonte: Le Monde, 05 fev. 2009, p. 1.

Le Monde apresenta, na sua primeira página, no espaço denominado

Demain dans Le Monde”91, duas chamadas para matérias da edição do dia

seguinte. Uma forma de instigar os leitores a continuarem a consumir o jornal. Vamos ver o exemplo do dia 10/02/09:92

FIGURA 82 - Chamadas para o dia seguinte, primeira página do Le Monde

Fonte: Le Monde, 10 fev. 2009, p. 1.

A publicidade também está presente no Le Monde. Aparecem promoções realizadas pelo jornal, nas quais o leitor compra uma edição e, com mais algum dinheiro, leva a promoção (compra casada), e anúncios feitos por agências publicitárias comuns.

As promoções do próprio jornal aparecem no alto da primeira página. No primeiro exemplo, FIG. 83, um DVD com filmes clássicos:

FIGURA 83 - Chamada promocional do Le Monde

Fonte: Le Monde, 1 fev. 2009, p. 1.

No segundo exemplo, uma coleção de revistas sobre Design

FIGURA 84 - Chamada promocional do Le Monde

Fonte: Le Monde, 7 fev. 2009, p. 1.

91 Nossa tradução:

Amanhã no Le Monde

92 Nossa tradução: Inquérito - 30 anos de revolução do Irã. Veteranos confidenciam no

Monde. Débats - Um texto coletivo contra a reforma iniciada para a formação de professores.

A publicidade externa no Le Monde tem destaque no canto direito inferior. Os produtos são da área cultural e os anúncios mantêm as cores sóbrias do jornal e se aproximam da sua linha editorial. Os produtos culturais são DVDs exclusivos, edições comemorativas de revista, filmes selecionados para festivais e livros premiados. Vejamos os exemplos de anúncios de livros e revistas:

FIGURA 85 - Chamada publicitária do Le Monde

Fonte: Le Monde, 1 fev. 2009, p. 1.

O primeiro, acima, é o livro premiado Amis américains, sobre cinema, que, segundo a crítica estampada na publicidade e retirada do próprio Le Monde, coloca a história do cinema num nível raro.

FIGURA 86 - Chamada publicitária do Le Monde Fonte: Le Monde, 6 fev. 2009, p. 1.

O segundo livro, Femme Debout é uma entrevista com a ex-candidata socialista à Presidência da República, Ségolène Royal, que, segundo a crítica do próprio anúncio, é um evento libertador.

Os filmes anunciados têm características de obras de arte. O primeiro exemplo abaixo Puisque nous sommes nés93 é de um filme apresentado no festival de Veneza. O segundo, Of Time and The City94 foi apresentado no festival de

Cannes, com a crítica de que é o melhor filme britânico dos últimos anos, audacioso, original e exultante, uma obra de arte, segundo os jornais citados no anúncio.

FIGURA 87 - Chamada publicitária do Le Monde

Fonte: Le Monde, 7 fev. 2009, p. 1.

FIGURA 88 - Chamada publicitária do Le Monde

Fonte: Le Monde, 5 fev. 2009, p. 1.

Estes elementos juntos - títulos, fotos, charges, publicidades e texto - vão constituir a captação do Le Monde:

93 Desde que nascemos 94

FIGURA 89 - Primeira página do Le Monde Fonte: Le Monde, 13 fev. 2009, p. 1.

Neste capítulo, vimos que, para conseguir a atenção dos leitores, um dos objetivos da primeira página, os jornais investem nas estratégias de legitimidade, credibilidade e captação.

Como estratégias de legitimidade os dois jornais usam os mesmos recursos: o estatuto jurídico do jornal e as personalidades jornalísticas, políticas e científicas que escrevem no jornal.

Quanto a estratégias de credibilidade, os jornais começam a apresentar diferenças. A Folha apóia-se em dados, números, percentagens e institutos oficiais de pesquisa, inclusive o seu, o DataFolha. A Folha também usa as fotos como prova de credibilidade.

Le Monde constrói a credibilidade com mais explicações dos fatos e suas

consequências. O jornal francês tem mais testemunhos, investigação e análise dos documentos. Os dados numéricos são mais raros, bem como o uso de institutos de pesquisa. As fotos são apenas para ilustrar personagens das matérias.

Os principais elementos de captação da primeira página da Folha são os títulos, as fotos, as chamadas exclusivas e as publicidades. Os títulos são muito informativos, utilizam verbos no presente e deixam o leitor ciente do tema e da novidade dele. As fotos são muito valorizadas, coloridas e servem para ilustrar e informar.

Os títulos do Le Monde já indicam ao leitor o aspecto que será analisado na matéria. O título não dá as informações básicas ao leitor, mas instiga-o a pensar sobre alguns aspectos do tema. Quanto às fotos, o Le Monde é bastante discreto, apresentando-as apenas no cabeçalho do jornal, normalmente com imagem do personagem que será apresentado. Além das fotos, o jornal usa ilustrações, também na parte superior da primeira página. Algumas chamadas também fazem apelo patêmico, com dramas do cotidiano, histórias de personagens e situações comoventes. As charges fazem o apelo lúdico, dando um toque de ironia e humor à

L´UNE. O jornal traz ainda as pequenas chamadas para as notícias do dia seguinte,

tentando provocar o desejo de ler o próximo número.

Para captar leitores, a Folha apela mais para o uso das cores fortes, fotos- manchete e títulos informativos, que enfocam a novidade, enquanto o Le Monde

chamadas que analisam os acontecimentos. Os dois usam a dramatização (fotos na

Folha e histórias no Le Monde). O Le Monde usa o ludismo com ilustrações e charge

diária e a Folha, com algumas ilustrações.

A publicidade aparece nos dois jornais anunciando promoções próprias ou veiculando anúncios produzidos por agências publicitárias. As promoções se parecem, mas os anúncios são bem diferentes. O contrato de comunicação dos jornais precisa manter-se com seus leitores, mesmo tendo aberto espaço para a publicidade na primeira página, ou seja, a identidade, a finalidade e o propósito precisam ser respeitados pelas agências publicitárias. A publicidade de promoção passa a funcionar como argumento de vendas. Na compra de um jornal, ganhe um DVD, etc. Essa compra casada requer que o jornal aumente seu público leitor e, para isso, popularize suas notícias, torne-as mais domésticas, próximas dos leitores e de fácil compreensão. Esse fenômeno publicitário não é vivenciado apenas pela

Folha de S. Paulo, mas também pelo antes tradicional Le Monde.

As promoções estão inseridas na primeira página como se fossem uma notícia, harmonizada na diagramação. A promoção da Folha, no período analisado, foi de livros sobre os Grandes Fotógrafos. Cada domingo um tema diferente, como grandes fotógrafos de guerra e de cinema. Já o anúncio foi sempre da mesma marca de carro, com textos que completam a ideia de informação jornalística e conquistam o público-alvo do jornal.

As publicidades no Le Monde também são de promoção interna e o anúncio externo. As promoções aparecem no alto do jornal e são mais diversificados. Nos dias analisados, temos promoções de coleções de três livros e DVD. Os anúncios aparecem no canto inferior do jornal, com cores discretas e, normalmente, reproduzem um cartaz de peça de teatro, a capa de um livro, de CD, ou um cartaz de filme. Todos os anúncios do nosso corpus são de produtos culturais, voltados para o público do Le Monde.

Vamos partir, nos próximos capítulos, para a análise dos modos discursivos enunciativo e argumentativo, nos documentos de nosso corpus, seguindo os passos do que preconiza a Teoria analítico-discursiva de Charaudeau.

6 O MODO DISCURSIVO ENUNCIATIVO

De acordo com a finalidade dos sujeitos comunicantes, nesse caso os jornalistas, a instância de produção dos jornais escolhe maneiras de apresentar o acontecimento, ou seja, alguns procedimentos discursivos, optando por modos de organização do discurso e categorias da língua que mais atendam às suas intenções. Esses modos de organização do discurso são a materialidade do texto colocado na cena pública. Eles podem ser mais argumentativos, narrativos, descritivos ou enunciativos. Essas escolhas indicam se o jornal, por exemplo, quer apresentar seu ponto de vista de maneira mais enfática, se pretende emocionar o leitor, se quer convencer o leitor com argumentos lógicos ou mostrar-se como neutro numa descrição de evento.

O modo enunciativo é o que compõe a cena do discurso, evidenciando os papéis linguageiros dos interlocutores envolvidos numa troca de comunicação. O modo enunciativo revela a relação entre os parceiros da troca comunicativa, no caso, a empresa jornalística e os jornalistas, construtores da primeira página do jornal e os leitores. Esse modo coloca o sujeito enunciador em cena, numa dada relação e numa perspectiva ou ponto de vista.

Neste capítulo abordaremos o modo enunciativo da Folha de S. Paulo e do Le

Monde, a partir do corpus selecionado.