Um veículo de comunicação alcança sua credibilidade ao longo do tempo, apresentando suas posições diante dos acontecimentos e mostrando que as notícias publicadas são confirmadas.
Na primeira página da Le Monde, um dos recursos empregados para alcançar a estratégia de credibilidade é o de autenticidade. Os meios discursivos incluem o procedimento de designação, através da utilização de documentos, objetos e imagens. Em nosso corpus, o Le Monde não utiliza muitas fotos, por exemplo. Usa- as apenas para ilustrar algumas chamadas na parte superiores do jornal. Podemos citar as fotos de políticos, do navio Clemenceau, de esporte, do escritor Roland Barthes, do artista Mickey Rourke, de um filme francês, da mulher italiana que vive em estado vegetativo, de obras de arte, de um investidor acusado de fraudes e da boneca Barbie.
FIGURA 65 - Fotos chamadas no cabeçalho do Le Monde
Fonte: Le Monde, 12 fev. 2009, p. 1.
FIGURA 66 - Fotos chamadas no cabeçalho do Le Monde
Fonte: Le Monde, 11 fev. 2009, p. 1.
A verossimilhança é outro recurso utilizado pelo Le Monde para alcançar a credibilidade. Para isso, o jornal nos remete à reconstituição: “eis como isso deve ter acontecido”, com sondagens, testemunhos e investigação.
O jornal não privilegia a apresentação de gráficos e números, mas recorre à investigação, testemunhos, trechos de documentos. Enfim, utiliza-se de um estilo mais investigativo para tratar os assuntos. Vejamos um exemplo na notícia sobre a crise em Guadalupe:
Guadeloupe: la crise sociale accentue le désarroi politique
Manifestation et contre-manifestation devaient marquer, samedi, un tournant dans la grève générale
Le président de la République veut mettre en place un conseil interministériel de l’outre-mer
Depuis1952, le 14 février est une journée particulière en Guadeloupe. C’est en effet ce jour-là que quatre habitants de l’île qui manifestaient à l’occasion d’une grève ont été tués par la police au Moule, une commune située à l’est. C’est dans cette même commune que le collectif LKP, à l’origine de la grève générale qui paralyse l’île depuis le 20 janvier, a décidé, avec le syndicat CGTG, d’appeler à une nouvelle manifestation, ce samedi. Plusieurs milliers de participants étaient attendus par les organisateurs.
Cette manifestation devait se dérouler dans un contexte très tendu. Samedi, au même moment, les Guadeloupéens hostiles à la grève générale étaient appelés à participer à une contre-manifestation à la Jaille, une commune située à proximité de Pointe-à-Pitre. Vendredi 13 février, des incidents ont éclaté dans deux rues commerçantes de Pointe-à-Pitre. Des commerçants qui avaient ouvert leur magasin se sont heurtés à un groupe d’environ 80 personnes liées au LKP et à la CGTG, qui ont voulu les obliger à fermer. Des bagarres brèves mais violentes ont éclaté. Le secrétaire d’Etat à l’outre- mer, Yves Jégo, qui a regagné Paris, a dénoncé sur France 2«un climat de terreur».
Nicolas Sarkozy a annoncé, vendredi, la mise en place d’un «conseil interministériel de l’outre-mer».
L’analyse. Nicolas Sarkozy ne dispose plus des relais politiques de ses prédécesseurs dans les DOM-TOM.
Le reportage. Au Moule, l’usine Gardel est la dernière de l’île à traiter la canne. Déjà subventionné par Paris et Bruxelles, son patron ne voit pas comment il pourrait augmenter les salaires.
L’entretien. Pour Julien Mérion, universitaire, la crise illustre un réveil identitaire. (Le Monde, 15 fév. 2009).81
Nessa matéria, a credibilidade do jornal é alcançada através do relato dos acontecimentos, dos eventos políticos, com detalhes colhidos com alguns personagens locais, agremiações e autoridades políticas.
Outra maneira de construir a credibilidade no Le Monde é basear as chamadas baseadas em fontes oficiais, especialmente a partir de entrevistas: com o rabino chefe da França, criticando o Papa Bento XVI; com o monsenhor que elogia o Papa; com a ministra da cultura, Christine Albanel, sobre a descentralização do teatro; com o professor de economia, Daniel Cohen, sobre a regulação do mercado;
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Nossa tradução: Guadalupe: a crise social acentua a turbulência política
Manifestações e contra-manifestações devem marcar, sábado, uma reviravolta na greve geral O presidente quer criar um conselho interministerial para o Exterior
Desde 1952, 14 de fevereiro é um dia especial em Guadalupe. Neste dia quatro habitantes da ilha que se manifestavam por ocasião de uma greve foram mortos pela política em Moule, uma cidade situada no leste. Foi nessa mesma cidade que o LKP, que está por trás da greve geral que paralisou a ilha desde 20 de janeiro, decidiu, com o sidicato CGTG, pedir um novo evento neste sábado. Milhares de participantes são esperados pelos organizadores.
O evento está programado para acontecer em um clima muito tenso. Sábado, ao mesmo tempo, guadalupeanos hostis à greve foram convidados para participar de uma manifestação em Jaille, uma cidade perto de Pointe-à-Pitre. Sexta-feira, 13 de fevereiro, os confrontos eclodiram em dois centros comerciais de Pointe-à-Pitre. Os comerciantes que abriram as suas lojas foram abordados por um grupo de cerca de 80 pessoas ligadas ao LKP e CGTG, que queriam obrigá-los a fechar. Mais brigas violentas eclodiram. O secretário de Estado dos territórios ultramar, Yves Jégo, que voltou a Paris, denunciou no France 2, “um clima de terror”.
Nicolas Sarkozy anunciou, sexta-feira, a criação de um “conselho interdepartamental do exterior”.
Análise. Nicolas Sarkozy já não tem as ligações políticas de seus antecessores no DOM-TOM.
Reportagens. Em Moule, a usina Gardel é a última da ilha a processar a cana. Já subvencionado por Paris e Bruxelas, o chefe não vê como poderia aumentar os salários.
com o chefe da Culturefrance, Poivre d´Arvor; com o secretário de Estado de ultramar, Yves Jégo, sobre a crise nas Antilhas; com o adjunto do prefeito assassinado da Córsega; com David Pujadas e Noël Mamère, sobre a polêmica do controle da produção audiovisual na França.
Além das entrevistas, o Le Monde usa opiniões de especialistas no texto das matérias, como, por exemplo, a opinião do economista e ex-vice-presidente do Banco Central da Rússia, para falar da queda do rublo; do primeiro ministro francês, explicando o plano de recuperação econômica; do humorista Arthur, dizendo de sua indignação por ser perseguido.
O jornal também analisa um documento produzido pelo Vaticano, repreendendo ao Monsenhor que negou a existência do Holocausto.
Mesmo partindo de números, Le Monde faz interpretação já na chamada de primeira página sobre os fundos especulativos.
Os testemunhos de outras pessoas ou dos próprios repórteres também dão credibilidade à notícia, como na reportagem sobre o primeiro dia de um prisioneiro:
A Douai, les premiers pas d’un prisonnier
Johann est chauffeur routier. Condamné le 17 octobre 2008 à dix-huit mois de prison, notamment pour violences volontaires, il a été admis à la maison d’arrêt de Douai (Nord) quelques semaines plus tard. L’administration a accepté qu’un envoyé spécial du Monde l’accompagne durant sa première journée de détention. Douai n’est pas la pire des prisons. Bien au contraire. C’est un site-pilote dont le quartier «arrivants» bénéficie d’un label de qualité délivré par un organisme indépendant.
Cela n’empêche pourtant pas cette journée d’être particulière. «Je veux pas mourir ici !», confie Johann au lieutenant qui le reçoit et l’interroge sur d’éventuelles tendances suicidaires. Pour réduire ce risque, les nouveaux arrivants sont systématiquement placés «en doublette» durant les dix premiers jours de détention. Ensuite, ils rejoindront les autres détenus. Ils sont 610 pour 386 places. (Le Monde, 13 fév. 2009).82
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Nossa tradução: Em Douai, os primeiros passos de um prisioneiro
Johann é um motorista de caminhão. Condenado em 17 outubro de 2008 a dezoito meses de prisão por violência física, ele foi admitido em Douai (norte), algumas semanas depois. O governo aceitou que um enviado especial do Monde acompanhe em seu primeiro dia de detenção. Douai não é a pior das prisões. Muito pelo contrário. Este é um lugar piloto onde os “novatos” têm um selo de qualidade emitido por um organismo independente.
Isto não significa, no entanto, que esse dia seja especial. “Eu não quero morrer aqui”, diz Johann ao tenente que o recebe e o interroga sobre possíveis tendências suicidas. Para reduzir esse risco, os novatos são sempre colocados “em duplas”, durante os primeiros dez dias de detenção. Então eles vão se juntar aos outros presos. São 610 para 386 lugares.
A chamada, como vimos, baseia-se no testemunho do repórter e do prisioneiro.
Num momento mais raro, o jornal se utiliza de dados numéricos para conferir credibilidade à sua chamada:
Fonds spéculatifs: beaucoup meurent, certains prospèrent
Crise. Près du quart des 10 000 fonds spéculatifs (hedge funds) ont disparu dans la tourmente financière planétaire. Mais 10% engrangent encore des fortunes. La clef de ces succès? L’intuition de leurs gérants. (Le Monde, 06 fev. 2009).83
Por último, para alcançar a credibilidade, o Le Monde apoia-se no recurso da explicação, marcada pela busca do porquê dos fatos, seus motivos, intenções e finalidades. Neste caso, o jornal recorre a especialistas, peritos, intelectuais, provas científicas, técnicas, opiniões diversas, entrevistas e debates.
Le Monde apoia-se no debate, geralmente partindo de uma indagação ou de
uma afirmação que pode levar à reflexão sobre o estado das coisas.
FIGURA 67 - Chamada com ilustração, saúde Fonte: Le Monde, 14 fev. 2009, p. 1.
FIGURA 68 - Chamada, enquete política Fonte: Le Monde, 11 fev. 2009, p. 1.
Nos exemplos acima, vemos as chamadas para a situação ruim dos hospitais na França (Le Monde, 14/02/09) e para o debate sobre o fato de Obama convidar um perito em Internet para compor sua equipe (Le Monde, 11/02/09).
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Nossa tradução. Os fundos especulativos: muitos morrem, alguns prosperam
Crise. Quase um quarto dos 10 mil fundos especulativos (hedge funds) desapareceram na crise financeira global. Mas 10% ainda vão arrecadar fortunas. A chave para esse sucesso? A intuição de seus administradores.