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Research group: Society, Environment and Culture

17 Uni Research Rokkan Centre

17.3 Research group: Society, Environment and Culture

Uma das mais interessantes iniciativas do Movimento Caminho da Graça é o desenvolvimento do seu braço internacional, o “Caminho às Nações”, também identificado pelo seu nome em inglês, ou seja, Way to the Nations.

Criado pelo movimento em 2009, com a proposta original de oferecer suporte às estações que fossem criadas em outros países (hoje, o Caminho da Graça possui grupos em funcionamento nos Estados Unidos da América, Holanda e Japão, por exemplo), a partir do seu primeiro ano de existência, o Way to the Nations passa a desenvolver atividades humanitárias (criação e manutenção de creches e escolas, por exemplo) em países africanos como Nigéria e Senegal.

“A proposta inicial do Way to the Nations era apenas ajudar os grupos do Caminho que iniciassem suas atividades no exterior. Mas a situação da África chamou nossa atenção e motivou o nosso envolvimento. O interessante é que, de apenas um suporte, o grupo se transformou em uma ONG que presta serviços humanitários às vítimas da perseguição religiosa”, explica o diretor-presidente do Caminho às Nações, Marcelo Quintela.

Dessa forma, o Way to the Nations foi reestruturado, de forma a ser capaz de obter e fornecer informações sobre as futuras iniciativas na África, arregimentar voluntários e, inevitavelmente, doações.

“Todo o nosso trabalho na África hoje é mantido à custa de doações de brasileiros, que compreenderam a importância dos projetos que começamos a desenvolver”, conclui Quintela.

A seguir, serão detalhadas cada uma das iniciativas, segundo a sua ordem cronológica de implantação.

2.6.2.1. Nigéria

A Nigéria é um país com mais de 170 milhões de pessoas, localizado na Região Oeste do Continente Africano. Apesar de seu idioma oficial ser o inglês, devido à herança da colonização europeia na região, sua população utiliza mais de 370 dialetos locais em sua comunicação (QUINTELA, 2011, p. 17).4

Do ponto de visa político e econômico, a Nigéria se encontra em processo de reconstrução, uma vez que, desde sua independência do governo colonial britânico,

4 Os demais dados acerca da Nigéria, presentes nesta seção, foram retirados da mesma fonte de informação.

conquistada em 1960, o país enfrentou décadas de guerra civil, instabilidades e uma sucessão de golpes militares e seus subsequentes regimes autoritários.

Como boa parte dos países subdesenvolvidos, os principais setores da economia são os que atendem às necessidades de países ricos. No caso da Nigéria, que possui um importante setor petrolífero, a atividade transformou a cidade de Lagos, uma das principais do país, em uma megalópole de 12 milhões de habitantes, que lutam para sobreviver em um cenário de descaso.

Do ponto de vista religioso, a Nigéria está dividida em dois grandes segmentos religiosos: o islã, que controla politicamente os estados do Norte do país – onde, em 2006, foi imposta a legislação muçulmana da Sharia – e o cristianismo, predominante nos estados do Sul. Uma pequena parcela da população ainda professa crenças animistas, mas não representam um papel importante nos conflitos entre muçulmanos e cristãos, que, desde 2006, já vitimaram cerca de 12 mil pessoas, segundo a Associação Cristã da Nigéria, uma entidade que reúne as principais denominações cristãs.

Por sua vez, o cristianismo apresenta-se extremamente dividido no país. De acordo com a World Christian Database, uma entidade norte-americana sediada em Boston (EUA), a Nigéria é o terceiro país do mundo em número de seguidores de igrejas pentecostais, com aproximadamente 3,9 milhões de fiéis. Em primeiro e segundo lugar, segundo a mesma instituição, estariam o Brasil e os EUA.

Além dos pentecostais e neopentecostais, que formam a imensa maioria do espectro cristão nigeriano, o país ainda conta com a presença de crentes anglicanos, batistas, metodistas, presbiterianos e católico-romanos.

O início da “Missão Pequeninos na Nigéria” data de 25 de setembro de 2009, quando um dos membros do Caminho da Graça encaminhou ao pastor Caio Fábio um e- mail com a transcrição de uma notícia sobre os “exorcismos” praticados por pastores neopentecostais em crianças que tinham sido acusadas de bruxaria por seus familiares (QUINTELA, 2011, p. 25).

O texto enviado descrevia a crueldade dos rituais a que eram submetidas às crianças, afirmando, por exemplo, que algumas das vítimas teriam sido queimadas ou enterradas vivas.

No mesmo dia, o pastor Caio Fábio respondeu ao e-mail, comunicando a possibilidade de o Caminho da Graça criar uma iniciativa na Nigéria para coibir a prática.

Esse foi o início do envolvimento do Way to the Nations no assunto, que culminou com a chegada de uma missão ao país africano em janeiro de 2010. A missão, que continua em atividade até hoje, dois anos depois de sua implantação, rendeu a publicação de um livro, Missão salvar crianças-bruxas; diário fotográfico de uma expedição brasileira à África Ocidental, escrito por Quintela e publicado pela Editora Prólogos, de Brasília, em 2011.

“O objetivo do nosso trabalho era simples: colaborar com o que fosse possível no resgate e atendimento das vítimas, todas elas crianças que, além de torturadas, tinham sido abandonadas pelas suas família, por temerem a ligação com um ‘bruxo’, e, ao mesmo tempo, denunciar essas práticas pelo que elas realmente são: uma prática medieval, adaptada aos tempos modernos”, explica Quintela.

O sistema de “exorcismos” funciona de uma forma bastante simples: uma vez que uma criança (seja ela do sexo masculino ou feminino) seja acusada de “bruxaria” (e os motivos para acusação são variados, indo desde uma doença ou o desemprego de um membro da família, até o simples fato de a criança falar dormindo), ela é encaminhada a um pastor de uma igreja evangélica neopentecostal.

Uma vez que o pastor “confirme” o fato de a criança estar “possuída pelo espírito de um bruxo”, o sacerdote se oferece para realizar os exorcismos necessários. Evidentemente, este trabalho não é feito gratuitamente e os honorários religiosos podem chegar a equivaler a três meses da renda mensal de uma família.

Como o desemprego e o subemprego são um dos grandes problemas da Nigéria – um país que se encontra atualmente em fase de reconstrução, após décadas de conflitos pelo poder –, grande parte das famílias não pode arcar com o “tratamento” proposto pelos pastores, optando então por simplesmente abandonar as crianças, que passam a viver nas ruas de cidades como Lagos, como pedintes.

A alternativa encontrada pelos familiares é punir as crianças, submetendo-as a torturas. Existem relatos de crianças queimadas vivas, enterradas e mutiladas, em um nível de brutalidade que foi tema de várias reportagens pela imprensa internacional e que também chamou a atenção da Organização das Nações Unidas (ONU).

“O grande problema de se combater esta prática e denunciá-la como não cristã esbarra justamente na crença generalizada das pessoas no fenômeno da bruxaria. Mais de 80% da população da Nigéria acredita na existência de bruxos e isso não é um fator econômico, como se as pessoas mais pobres fossem as mais suscetíveis à crença: é um problema generalizado entre todas as classes sociais”, afirma Quintela.

A crença na bruxaria, continua Quintela, é tão arraigada na cultura popular que a indústria cinematográfica local – que produz e distribui filmes apenas em DVD, a baixíssimo custo, uma vez que não existem salas de projeção de cinemas no país – tem vários filmes abordando o tema das “crianças-bruxas”. “Boa parte destes filmes, que mostram as crianças-bruxas como responsáveis por toda a espécie de problemas que afetam a maioria das famílias nigerianas, são produzidos e distribuídos pelas próprias igrejas, aquelas mesmas que vão depois comercializar os ‘exorcismos’”, explica.

A bruxaria como fenômeno explicativo de males e enfermidades que afetam uma pessoa, foi tema de uma pesquisa antropológica realizada na década de 1920 pelo antropólogo inglês Edward Evans-Pritchard. A pesquisa rendeu o clássico Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (EVANS-PRITCHARD, 2005). Nesse livro, entretanto, o autor afirma que a “bruxaria” é somente praticada por adultos contra outros adultos – e nunca crianças – e que a identificação do autor do malefício somente pode ser feita por meio de uma consulta a um oráculo que, por sua vez, retribui a ação com um “contrafeitiço”.

Dessa forma, é possível afirmar que o fenômeno da “bruxaria”, como ele se apresenta hoje na Nigéria e em vários outros países africanos, é uma forma de sincretismo entre uma antiga crença local – a própria “bruxaria” – e o novo cenário religioso da região, com o avassalador crescimento de grupos cristãos neopentecostais. Entretanto, essa hipótese ainda precisaria ser confirmada por meio de um estudo específico sobre o tema.

2.6.2.2. Senegal

“A prática do Way to the Nations, até o momento, pode ser descrita como um combate contra pessoas que abusam de crianças por motivos religiosos”, sumariza Quintela.

No caso do trabalho realizado no Senegal, comparado com o que é feito na Nigéria, “a principal diferença é que, desta vez, nós fomos convidados pelo governo local para ajudar a combater o problema”, informa Quintela.

A parceria com o governo, que forneceu o espaço físico para a criação de um orfanato na cidade de Dakar, permite cuidar de cerca de oitenta crianças.

No Senegal, hoje um país de maioria muçulmana, o trabalho do movimento, apesar de ainda ter como foco auxiliar crianças vítimas de abuso, tem uma forma de atuação diferenciada.

“No Senegal, combatemos a prática de sacerdotes muçulmanos utilizarem crianças como pedintes para conseguir dinheiro. Lá, por exemplo, uma criança é sequestrada e entregue a um sacerdote, chamado Marabutz, que as envia às ruas para obter esmolas. A justificativa para isso seria que este sacerdote ensinaria o Alcorão às crianças e as abrigaria, mas as condições em que elas são forçadas a viver são terríveis”, afirma Quintela.

No Senegal, a proposta do movimento – que atua no país por meio de voluntários, entre eles um advogado do Togo – é retirar a guarda das crianças desses sacerdotes muçulmanos e encaminhá-las a orfanatos.

“Estamos nos especializando em perseguir os perseguidores de crianças”, brinca Quintela.

A atuação do Caminho da Graça, por meio de seu braço internacional, o Way to the Nations, tem motivado o surgimento de vários voluntários, interessados em participar das iniciativas do movimento na África. Os interessados em participar são convidados a preencherem uma ficha virtual, que pode ser encontrada na seção “Caminho Nações” do Blog do Caminho (http://blogcaminho.blogspot.com.br).

“Hoje, temos mais de 1,6 mil pessoas que se apresentaram como voluntários, mas temos de ter certeza do que os motiva. Não podemos e não vamos nos transformar em uma espécie de agência que oferece serviços de turismo religioso para crentes”, afirma Quintela.

Para evitar o que ele chama de “turistas”, o movimento iniciou a criação de uma espécie de “programa de treinamento” para os voluntários. “A proposta é simples: se a pessoa se diz interessada em ajudar crianças na África, nós a convidamos a realizar trabalho social voluntário aqui mesmo, no Brasil. Se ela se der bem, aí, sim, ela se torna uma voluntária oficial”, explica.

Atualmente, o programa de treinamento de voluntários é realizado na região do Dique da Vila Gilda, na Zona Noroeste de Santos, um local extremamente carente. “As pessoas são encaminhadas para lá para atender mulheres viciadas em drogas pesadas e seus filhos. É uma experiência extremamente forte, mas nos ajuda a separar aqueles que realmente querem trabalhar daqueles que só querem passear”, conclui.

2.7. C

ONCLUSÃO

Este segundo capítulo da dissertação teve como meta oferecer uma descrição detalhada da organização e do funcionamento do Movimento Caminho da Graça, objeto central da dissertação.

Com este objetivo, foram coletados diversos tipos de dados e informações, por meio de pesquisa documental (livros e internet, principalmente) e pela utilização de ferramentas já consagradas na metodologia de pesquisa em Ciências Humanas – nas quais as Ciências de Religião está inserida – a saber: a entrevista e a observação participante.

Em termos descritivos, a meta era demonstrar que, se de um lado o Movimento Caminho da Graça valoriza a desinstitucionalização e a flexibilidade organizativa, de outro lado o próprio desenvolvimento da organização, desde seu surgimento, em 2005, determinou a implantação de alguns serviços paraeclesiásticos, como a Capelania do Caminho da Graça e o Caminho às Nações, por exemplo.

O próximo capítulo tentará oferecer uma análise destes dados, conjugados com as questões acerca do campo religioso brasileiro, entendido como uma economia religiosa na qual as diferentes agências competem entre si.

Capítulo 3