3 Research design and methodology
3.1 The Digital Night Monitoring Study (paper 1 and 2)
3.1.1 Research design, settings and samples
O grupo de discussão sobre saúde formado a partir da pesquisa-intervenção na Escola Valdemar Falcão foi composto por onze participantes: um professor de biologia e dez estudantes de 15 a 17, três do sexo masculino e sete do sexo feminino.
Antes de o projeto ser submetido ao exame geral de conhecimento, minha proposta era de que o grupo fosse formado por oito a dez jovens da escola. Tal escolha se justificava pela premissa de que, em grupos menores, tanto a dinâmica de interlocução entre os partícipes seria mais efetiva, quanto o uso de técnicas para facilitar as interações se tornaria mais eficiente.
Contudo, após sugestões da banca avaliadora, passei a considerar que melhor seria buscar constituir um grupo um pouco maior, com dez a quinze participantes, a fim de que a intervenção não fosse inviabilizada por possíveis flutuações na frequência ou por evasões. Acredito que tal estratégia foi a mais adequada, pois, mesmo que alguns participantes tenham faltado a alguns encontros, a realização das atividades ainda foi possível. Além disso, esse número de participantes tornou exequível a investigação das minúcias da dinâmica das interações do grupo, assim como de suas implicações nos posicionamentos dos participantes em relação aos temas e uns frente aos outros.
No tocante aos participantes, não foram apenas essas as mudanças entre a proposta inicial e o que foi realizado. Antes da qualificação do projeto, eu tinha em mente realizar o
grupo somente com estudantes. Na primeira visita que fiz à escola, uma de suas coordenadoras pedagógicas me sugeriu que o grupo de discussão fosse constituído pelos dez estudantes que, à época, integravam o grêmio estudantil da escola. Seu argumento foi de que tais adolescentes já se reuniam sistematicamente, estavam matriculados no mesmo período, além de terem experiência de participação em debates sobre assuntos diversos e de, geralmente, disponibilizarem-se a participar de atividades que acontecem no espaço da escola, em horários variados. De acordo com a sugestão da escola, todos esses aspectos poderiam facilitar a operacionalização da pesquisa-intervenção.
À época, eu considerei pertinentes aqueles argumentos e estava disposto a realmente formar o grupo apenas com aqueles estudantes. Ainda no mês de junho, participei de uma das reuniões do grêmio estudantil, na qual apresentei minha pesquisa aos seus integrantes e os convidei a participar do grupo de discussão. Seis dos dez estudantes demonstraram interesse e disponibilidade de participar. Combinamos, então, de que nos reencontraríamos na volta das férias escolares para que eu lhes entregasse os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido.
No entanto, a opção de compor o grupo apenas com estudantes do grêmio foi sendo modificada, em virtude de alguns questionamentos advindos tanto da qualificação do projeto, quanto da minha inserção efetiva no campo. Em primeiro lugar, por que realizar a pesquisa só com estudantes do grêmio? A participação de outros estudantes não deixaria a discussão do grupo ainda mais rica? Se o grupo se realizaria na escola e poderia estimular a circulação de novos sentidos sobre saúde naquela instituição, por que não contar com a participação de outros atores escolares além dos estudantes?
Assim, como critério para a composição do grupo, eu considerei que seria interessante que os participantes, jovens estudantes da escola ou profissionais da instituição, fossem pessoas que: (1) se interessassem em discutir processos de saúde/doença no cotidiano em que vivem e (2) tivessem disponibilidade de participar de todo o processo, que corresponderia, de acordo com a proposta inicial, a aproximadamente um período de dois meses, uma vez que estavam previstos, em principio, oitos encontros, um por semana.
Em razão de tais critérios, estendi o convite à participação no grupo também aos profissionais da escola. Isso trouxe consigo algumas incertezas: ao fazer essa opção, assumi o risco de que a presença de profissionais da escola nos encontros pudesse, dependendo do que fosse discutido, inibir os estudantes durante o processo, já que estudantes e profissionais
encontram-se, geralmente, em posições sociais diferentes na escola. No entanto, atinei que, apenas ao longo do processo, eu saberia se essa possível inibição aconteceria ou não de fato.
Por outro lado, ter no grupo professores e coordenadores, por exemplo, poderia diminuir as chances de possíveis boicotes ao meu trabalho. Para tanto, levei em conta a seguinte constatação apresentada por Menezes, Arcoverde, Libardi (2008, p.209), com base em outros trabalhos de pesquisa-intervenção realizados em contexto institucional como o escolar:
Pelo menos duas condições fundamentais para a realização dessa modalidade de pesquisa são fontes de incômodo nas instituições, a saber, o caráter de participação voluntária e a condição de sigilo. Em virtude disso, há, por parte de alguns profissionais da escola, o desenvolvimento de um desejo de saber o que se passa ali, naquele espaço-tempo das oficinas. Tal ansiedade por vezes resulta em sabotagem dessas condições de trabalho.
Já nas primeiras empreitadas, denotei que não seria fácil a participação de profissionais da escola no grupo de discussão. Antes mesmo de decidir estender-lhes o convite, eu me deparava, corriqueiramente, com várias lamentações principalmente por parte dos professores, que me diziam estarem cansados e “não terem tempo para mais nada”.
Diante daquilo, cheguei a conjeturar que nenhum profissional se disponibilizaria, nem mesmo aqueles que nitidamente se empolgavam com a minha pesquisa, mesmo porque muitos deles davam aula também no período da noite, seja naquela escola, seja em outra instituição. Por conta disso, pensei em desistir da proposta de convidá-los e em efetivar a antiga proposta de um grupo formado unicamente por estudantes.
Em meio a essa indecisão, resolvi arriscar. Pensei que, naquelas circunstâncias, já seria válida a presença de pelo menos um representante dos profissionais da escola no grupo. Foi então que fiz o convite aos profissionais. Como previsto, a maioria declarou impossibilidade de assumir mais um compromisso, ao passo que outros, que davam aula nos turnos da tarde e da noite, disseram poder participar sob a condição de que o grupo ocorresse pela manhã.
Por não haver sala disponível pela manhã, aquela seria uma saída inviável. Então, na conjuntura apresentadas, somente o professor de biologia da escola se dispôs a integrar o grupo de discussão que estava prestes a começar.
Além de convidar os profissionais da escola, passei a convidar outros estudantes, além dos integrantes do grêmio. Duas questões operacionais também influenciaram nessa decisão: primeira - já que só seis membros do grêmio se habilitaram a participar, eu precisava
de, pelo menos, mais quatro pessoas para alcançar o número de participantes que eu julgava ser conveniente; segunda - quando as aulas reiniciaram, após as férias, em agosto de 2009, quatro daqueles seis membros do grêmio já não tinham mais disponibilidade para participação na pesquisa, dois porque passaram a trabalhar e mudaram de turno e dois por terem ingressado em cursos profissionalizantes no período previsto para as oficinas.
Desse modo, adotei a estratégia de passar em salas de aula para convidar os alunos, com a devida autorização da diretoria, da coordenação e dos professores. Criei, ainda, uma ficha de inscrição, para organizar o número de interessados e obter algumas informações dos alunos: nome completo, idade, turno e série em que estuda, assim como o motivo do interesse em fazer parte do grupo. Combinei com as duas coordenadoras pedagógicas que elas, por permanecerem mais tempo na escola, ficariam com a lista nas ocasiões em que eu não estivesse naquela instituição, no intuito de que os alunos tivessem mais oportunidades para se inscreverem.
Durante dois dias do mês de agosto, passei em duas salas de nona série do turno da manhã e em seis turmas de ensino médio do turno da tarde9, a fim de me apresentar aos alunos e explicar-lhes do que se tratava a pesquisa. Em cada sala, eu informava a quantidade máxima de participantes no grupo e orientava que os interessados teriam o prazo máximo de uma semana para procurarem a coordenação da escola e preencherem a ficha de inscrição.
Procurei destinar um tempo de observação nas salas de aula dos possíveis integrantes do grupo, participando de alguma discussão suscitada nas aulas que estavam acontecendo. Todavia, esse período de observação maior nas salas nem sempre foi possível, pois eu percebia que alguns professores eram pouco receptivos a isso, talvez por receio de que eu os avaliasse, mesmo que eu tenha deixado claro que esse não era o meu intuito.
Ao todo, dezenove jovens se inscreveram, além do professor de biologia que se dispôs a participar. Dos jovens inscritos, apenas um era maior de 18 anos. Assim, reuni- me com os interessados para dirimir eventuais dúvidas quanto à proposta e para explicar-lhes sobre o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Acordamos um prazo de uma semana para que os estudantes me devolvessem os termos assinados e, ao final daquele prazo, obtive somente 14 termos. Destes 14 participantes,
9 Das três turmas da nona série existentes no turno da manhã, só passei em uma delas, uma vez que as demais estavam em avaliações durante aquela semana. Optei por fazer o convite apenas aos alunos das nonas séries naquele turno porque a faixa etária dos seus integrantes não era tão discrepante em relação aos jovens do turno da tarde. No caso do turno da tarde, não passei na turma do terceiro ano, uma das mais numerosas da escola, também porque ela estava em meio a atividades de vestibular simulado. Mesmo assim, o grupo contou com a participação de uma estudante do terceiro ano, que soube da proposta por meio de estudantes de outras séries.
duas desistiram e duas passaram quase todo o período de realização das oficinas ausentes da escola, por motivos de doença.
Apresento, então, algumas características dos 11 participantes do grupo de discussão em saúde realizado na escola Valdemar Falcão. Vale pontuar que todos os nomes elencados abaixo são fictícios:
Lia – 17 anos, estudante do 3°A, no turno da tarde. É membro do grêmio estudantil;
Renata – 16 anos, estudante do 2°B, no turno da tarde. É membro do grêmio estudantil;
Ivan – professor de biologia da escola, nos turnos da manhã e da tarde.
Ronaldo – 16 anos, estudante do 1° A, no turno da tarde. Participava do grupo de teatro da escola;
Douglas – 15 anos, estudante da 9° A do ensino fundamental, no turno da manhã; Mariana – 15 anos, estudante do 2°B, no turno da tarde. É vice-líder de sua sala; Camila – 15 anos, estudante do 1° A, no turno da tarde;
Laura – 16 anos, estudante do 1° C, no turno da tarde;
Pedro – 15 anos, estudante do 1° B, no turno da tarde. É líder de sua sala; Sâmia – 15 anos, estudante do 1° B, no turno da tarde;
Carla – 16 anos, estudante do 1° C, no turno da tarde;
Notadamente, parte considerável dos onze participantes tinha alguma inserção na escola que demonstrava um envolvimento diferenciado: lideres e vice-líderes de sala, membros do grêmio e participantes do antigo grupo de teatro. Como esclarecido alhures, esse engajamento não estava entre os critérios de escolha dos partícipes. Decerto, como ficará mais claro adiante, essa configuração dos participantes é um dos aspectos que ajuda a entender seus discursos a propósito de alguns temas.
Em virtude do caráter interventivo da pesquisa, pensei ser oportuna a participação de profissionais da Estratégia de Saúde da Família do bairro no grupo de discussão. Pelo menos dois motivos me respaldavam quanto a isso: 1) até então, integrantes da escola lamentavam o fato de que escola e ESF realizassem poucos trabalhos em conjunto; 2) não havia nenhum grupo de discussão sobre saúde com adolescentes sendo acompanhado por
profissionais de saúde da família daquele território, sendo que as instituições escolares ali existentes poderiam ser lugares promissores para trabalhos nesse sentido.
Então, em junho de 2009, apresentei a proposta da pesquisa-intervenção em reunião com dois profissionais de saúde do bairro e com o preceptor10 de território dos profissionais. Nessa ocasião, foi definida a participação de representantes da ESF na pesquisa- intervenção, sendo discutidas questões como o seu delineamento metodológico e sobre como seria a participação dos profissionais de saúde interessados na proposta. Na mesma reunião, combinamos que, no mês de julho, após a qualificação do projeto, eu procuraria novamente os profissionais de saúde para estabelecermos possíveis datas para a participação nas oficinas.
Contudo, apesar do acordo estabelecido, de um mês para o outro, mudanças significativas ocorreram nas equipes de saúde daquele Centro, as quais me deixaram ao mesmo tempo surpreso e frustrado. Ao retomar os contatos, recebi a informação de que os dois profissionais de saúde e o preceptor com quem eu havia me reunido não trabalhavam mais no Centro de Saúde da Floresta.
Mesmo assim, insisti na possibilidade de parceria com a ESF e procurei outros profissionais que ainda lá estavam. Compareci a uma das reuniões dos profissionais e apresentei a proposta aos presentes. Dois enfermeiros mostraram-se dispostos a participar e marcamos, para a semana seguinte, uma reunião para conversarmos sobre os “pormenores” da minha pesquisa e sobre como seria a inserção daqueles profissionais na intervenção.
Infelizmente, no dia e horário da referida reunião, cheguei ao referido Centro de Saúde e recebi a informação de que os dois enfermeiros não estavam lá. Remarcamos a reunião algumas vezes, e, ainda assim, ela nunca chegou a acontecer.
Em meio a essas tentativas, ficou claro para mim que eu havia demorado demais a perceber que aqueles profissionais não estavam suficientemente interessados em fazer parte da minha pesquisa. Por isso - e por conta de que, em pleno mês de agosto, as aulas na Valdemar Falcão já tinham reiniciado, após um mês de férias escolares – resolvi realizar a intervenção sem a participação dos profissionais de saúde da família do Álvaro Weyne no grupo de discussão.
10 Preceptor é um profissional que supervisiona os profissionais de saúde e que contribui para o aprimoramento da organização e da atuação das equipes de saúde da família.