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monitoring technology in residential care for persons with dementia

Na terceira oficina, o tema “saúde mental” foi abordado inicialmente a partir da produção de cartazes, realizada em dois subgrupos: o primeiro formado por Ivan, Laura, Camila e Ronaldo; e o segundo composto por Renata, Lia, Pedro e Carla. Num momento posterior, cada grupo apresentou suas produções para que discutíssemos sobre que sentidos construíam para o tema em causa. Eis, a seguir, a apresentação do primeiro grupo:

Renata: Saúde Mental. A gente colocou aqui a figura de um senhor e de um bebê, pra dizer que a saúde mental, ela não escolhe idade... A Carla escolheu essas duas figuras pra dizer que a saúde mental não escolhe idade, em qualquer idade a pessoa pode ter transtorno. A gente colocou essas duas fotos pra dizer que não escolhe raça, qualquer pessoa pode ter. Colocou essa pra dizer que não importa a classe social. A Carla colocou essa daqui pra dizer que não escolhe tribos...

JP: Não escolhe o quê?

Renata: Tribos. Eu coloquei essa de crianças, tipo, jogadas na rua, pra dizer que crianças quando tem algum trauma quando são crianças, futuramente elas podem ter algum distúrbio mental. Aí a Lia colocou essa... relaxamento, né, e tudo ajuda na mente. Escutar música também ajuda (apontando para a figura de uma pessoa ouvindo música) E é isso.

Também foi marcante como, ao abordarem situações cotidianas que lhes parecem relacionadas à doença mental, ficava presumido nos enunciados acima um conceito de saúde “baseado em uma associação com tudo que consideramos como moral ou existencialmente passível de valorização” (CAPONI, 2009, p. 72). Para isso, inclusive, os enunciados remetiam a personagens midiáticos que, por terem atitudes “diferentes” ou “politicamente incorretas”, como o uso de drogas, eram apontadas como exemplo de quem não era mentalmente saudável. Isso ficava patente nos comentários sobre a produção do primeiro grupo:

(Renata termina de apresentar o cartaz do primeiro grupo. Os outros três participantes do grupo, Carla, Lia e Pedro, ficam em silêncio, e olham para o membros do outro grupo)

JP: Alguém, alguém do grupo quer comentar alguma coisa?

Carla: Eu queria dizer que aqui no caso da Amy Winehouse foiao longo do tempo, entendeu? Ela foi assim tipo se maltratando, tipo que criando uma situação onde ela tinha crise, começou a ter distúrbios, começou a ter umas crises. Pronto, tipo, no

show dela, ela vai bêbada, desmaia no palco, depois ela vai atrás dos fotógrafos bater (ri), bate neles, raspa cabelo e assim vai.

JP: Mas por que vocês lembraram dessa cantora?

Carla: Com o passar do tempo... não tem um bom juízo...porque ela é muito estranha, não tem o juízo certo. Ela se maltrata, ela bebe, ela fuma, ela usa drogas...toda perturbada.

Camila: E também o consumo das drogas, né, no caso dela.

JP: Então saúde mental significa não usar drogas? Quem usa essas coisas necessariamente não tem saúde mental?

Pedro: Não.

Carla: Não, não é que não tenha saúde mental.

Camila: Não é quem não tenha, mas vamos supor, não tem 100%, total, é diferente do padrão, assim.

Carla: Porque isso das drogas também vai desgastar não só o corpo, mas também a mente.

Em relação a esse excerto, tomando as condições enunciativas (produção de cartazes sobre o tema saúde mental e discussão sobre o que foi produzido), supus que, no enunciado dos jovens, soavam as vozes de instâncias culturais que ditam padrões identitários a serem legitimados, subjacentes à concepção de saúde como equilíbrio. A posição enunciativa desses sujeitos se afinava com o aprendizado de valores que favorecem a construção de mecanismos excludentes em relação ao que - ou a quem - difere dos padrões. Outras nuanças das vozes que falavam naqueles enunciados serão assinaladas mais à frente.

Já na apresentação do segundo grupo, cada integrante apresentou a figura que escolheu e justificou o porquê da escolha, o que pôs novamente em evidência o caráter polissêmico do tema “saúde mental”. No entanto, o episódio transcrito a seguir mostra mudança de direção do fluxo da interação durante a apresentação do cartaz, denotando, mais uma vez, o caráter dinâmico e interativo da produção de sentidos, bem como a presença peculiar da voz do jovem na heteroglossia dialógica.

Laura: Eu escolhi essa (aponta para a figura de uma família). A do meio. Por quê? Porque uma família estruturada, que te dá apoio, num meio que não tem brigas, aí você pode ter uma saúde mental boa, sem estresse.

Ronaldo: A que eu escolhi tem a ver mais ou menos com isso. Esse daqui (uma pessoa com um cachorro) parece que estão se divertindo, assim, com os animais... é... pode tirar, assim a gente da... o pensamento que a gente tem... quando a gente pensa em coisas ruins, nos nossos problemas.

Camila: Eu escolhi essa e aquela. (aponta para uma foto) É uma mulher grávida. JP: Ah, certo, certo.

Camila: A questão da gravidez é mais assim, porque a mulher está mais sensibilizada e qualquer coisa que você fale pra ela, ela já fica sentida. Aí, vamos supor, quando ela ta grávida, aí você diz “ah fulana ta engordando”, aí ela já fica com aquilo na mente direto e além da... acho que da doença mental vai ser física, ela querer emagrecer

Pedro: Nem precisa a mulher ta grávida pra ela ficar sentida com as coisas que os outros falam.

Camila: Mas não é porque a gente quer, já é da gente ficar... Laura: Acho que nem todas.

Camila: Eu não acho que é todas.

JP: Mas na tua opinião (de Pedro) é assim, as mulheres de um modo geral são assim mais sensíveis?

Pedro: Não, num é nem tanto só as mulheres, os homens também, porque tem pessoas que, sei lá, não sabem levar as coisas na esportiva. Qualquer coisinha leva tudo a sério. Tipo eu, a pessoa chegar e falar qualquer coisa pra mim, eu nem ligo, eu faço é brincar, pode falar o que for.

JP: Mas tu acha que tem gente que é mais...(Pedro interrompe)

Pedro: É, tem gente que leva tudo muito a sério, mais sensível, não sabe ver quando uma pessoa ta brincando ou quando ta falando...(Enquanto Pedro fala, Carla balança a cabeça negativamente)

(Carla interrompe Pedro)

Carla: Não, peraí, também não é assim. Porque tem gente que não sabe brincar. Tem gente que brinca, pense aquela pessoa que ta se divertindo... brincar tem um condicional, é você rir e a pessoa também rir(Olhando para Pedro). Não é você brincar, todo mundo rir daquela pessoa. Aquilo ali vai causando no psicológico da pessoa uma coisa assim “Poxa, porque os meus colegas fazem isso comigo. Por quê? Porque eu sou gorda? Porque tenho meu cabelo crespo? Porque eu tenho espinha na minha cara? Por isso que eu tenho que ser alvo de piada, alvo de brincadeira?”. Isso não justifica nada (fala bem enfaticamente). Tem gente que não sabe brincar. Pronto, eu digo na minha sala, ninguém sabe brincar com ninguém ali não, é mais uma forma de agressão, não é um tom de brincadeira. Isso maltrata a pessoa, a saúde psicológica dela.(Fala enfaticamente, olhando para Pedro).

Pedro: Eu acho que em quase todas as salas aqui do colégio, todo mundo, tipo, só sabe brincar (faz sinal de aspas com as mãos) com os defeitos dos outros. Carla: Isso não é brincar, isso é canalhice, é agressão verbal (fala em tom enfático). JP: Mas vocês concordam que existe... é... os dois casos, eles existem ao mesmo tempo? Existem tanto pessoas que não aceitam brincadeiras... brincadeiras habituais, brincadeiras que muitas vezes não agressivas, e existem pessoas que realmente não “sabem brincar”... A gente pode considerar que existem esses dois casos, né? Ivan: Tem até, ne, hoje em dia, mais noticias, até novela mesmo, discutindo essa questão do bulling (Ronaldo interrompe)

Ronaldo: De quê? (pergunta baixo a Ivan)

Ivan: Bulling, essas brincadeirinhas, implicâncias que existem às vezes na escola contra alguns alunos.

Carla: Muitas vezes a gente vê na televisão que nos Estados Unidos uma escola foi invadida por um aluno armado... matou alunos, matou professor. Aí a gente... como a Laura falou, “por que ele fez isso?” Não foi duma hora pra outra. Ele vem já com aquilo na mente... É como a gente tava discutindo aqui das brincadeiras.

Como visto, na apresentação do cartaz, Pedro - ao ironizar sobre uma maior sensibilidade das mulheres - e Carla - ao responder a Pedro, trazendo questões das relações entre alunos da escola - fizeram com que a discussão se encaminhasse para outras questões que não se relacionavam diretamente com as fotos escolhidas, mas sim com as vivências dos participantes. No decorrer da discussão, os questionamentos de Carla sugeriam que, mais uma vez, as vozes dos jovens se destacavam, interpelando um conjunto de vozes sociais que legitimavam formas de sociabilidade estigmatizantes.

Nesse caso, principalmente por conta das colocações de Carla, a discussão sobre uma possível sensibilidade maior das mulheres levou ao debate sobre como as relações entre pares na instituição escolar é capaz de produzir problemas psicológicos, ao serem atravessadas por preconceito, violência e discriminação, por exemplo. Por meio também da

voz daquela participante, evidenciada pelo trecho que aparece em negrito, é possível identificar como o tema da saúde/doença mental na escola assumia contornos relacionados à problemática da discriminação étnico-racial. Afinal, ter cabelo crespo, ao lado de outros traços físicos, justificava posições de menos valia em algumas interações entre os alunos.

Por meio desta atividade grupal, novamente foi possível evidenciar que a proliferação e a coexistência de sentidos diferentes sobre saúde/doença mental reiteravam o caráter ideológico dos signos e traziam para a discussão as vivências cotidianas dos participantes. Aliás, a articulação entre os signos e as vivências em um determinado contexto histórico-cultural foi enfatizada por Bakhtin (2002, p. 95) da seguinte forma: “não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial”.

A despeito de uma série de sentidos ter aparecido por ocasião desta atividade discursiva, o enlace entre “doença mental” e “diferença” se fez presente em diversos momentos. Pude identificar esse enlace nas discussões sobre os cartazes do primeiro grupo - no momento, por exemplo, em que os participantes comentam sobre uma artista que consideram símbolo de doença mental, por suas atitudes moralmente “estranhas”. A mesma aproximação se inscreveu nas discussões sobre os cartazes do segundo grupo, uma vez que os jovens acabaram por destacar vivências de discriminações e preconceitos na escola contra quem, de alguma forma, fugia dos padrões, acarretando-lhe problemas psicológicos.

À luz da perspectiva histórico-cultural, suponho que cada um desses jovens é partícipe ativo do seu contexto. Dialeticamente, porém, a forma pela qual eles produziam sentidos sobre si e sobre o mundo remetia às características do grupo social ao qual pertencem e pela cultura que os forja. Assim, é necessário pensar: que sentidos circulam sobre a saúde/doença mental em nossa sociedade? De que modo a escola intervém nessas situações narradas e como transversaliza esses temas?

Lavrador (2007, p. 365) afirma que o termo “saúde” ainda hoje é carregado de idealizações. A autora lança provocações que incidem sobre a sociabilidade contemporânea:

[...] estaríamos hoje diante de um paradoxo em relação à saúde, pois, em nome desta, procura-se extirpar da vida tudo o que a desassossega, tudo o que a desvia, tudo que a faz diferir, tudo o que nos traz desassossego. Cada vez mais se busca e se propaga um ideal de perfeição: uma perfeita saúde, uma perfeita alimentação, um perfeito corpo, um perfeito amor, um perfeito trabalho etc..

Assim, Lavrador (2007) é mais uma autora que faz críticas à concepção de saúde como equilíbrio, sob o argumento de que, nesta perspectiva, não se coloca a possibilidade de variações e multiplicidades nos modos de vida. Ainda de acordo com Lavrador (2007, p. 363), nessa ótica sobre a saúde, inscrita em e justificada por determinadas condições institucionais e históricas, “a Diferença é silenciada como se não fizesse parte da vida”.

Por seu turno, Silva (2008, p. 141), inspirada em Foucault e Canguilhem, oferece indicações relevantes para entender a construção social da doença mental na nossa sociedade. Segundo ela, “a doença mental, correlato de anormalidade, é concebida em relação às normas sociais, sendo, por isso, aplicável aos sujeitos que não se submetem adequadamente a elas”.

Alverga e Dimenstein (2006), por sua vez, ressaltam que, principalmente a partir da modernidade, desenvolvemos um processo societal ancorado na rejeição de tudo o que não se identificava com a racionalização da vida cotidiana. E os personagens “sem juízo”, por um lado, como a artista citada em uma das fotos, e, por outro, os alunos que são constantemente alvos de “chacota” na escola por, de algum modo, fugir dos padrões desejados, são justamente emblemas desses que não se enquadram nessa racionalidade.

Depois da apresentação e discussão sobre os cartazes, passamos a discutir sobre o que produziria saúde mental e doença mental. No episódio abaixo, os participantes trouxeram vários elementos envolvidos no processo de saúde/doença mental, e uma delas se reportou às multidimensões da saúde, discutidas na oficina anterior:

JP: Deixa eu aproveitar essa apresentação dos cartazes pra gente fazer uma reflexão sobre saúde mental de uma forma geral, né? Vocês apresentaram os cartazes, trouxeram já alguns pontos, e tal, é... Aí vamos pensar sobre isso: O que é que... está envolvido, o que é que produz saúde mental ou o que produz o contrário disso? O que que vocês acham?

Laura: Aí tem a questão das relações, né, como a gente viu ontem, né, da saúde física, psicológica e social. Tem caso assim, como no caso que eu mesmo vi... é... às vezes é... digamos assim... a pessoa que é mais calada, que ela guarda tudo pra ela, ela não explode, tudo ela vai guardando, guardando, coisas bobas às vezes, tudo ela vai guardando, tem uma hora que explode, né. E essa pessoa da minha família. Aí ele foi tudo guardando pra ele. Ele era super calmo, na dele, não falava nada, a pessoa podia brincar, pensar, ele não falava nada, guardando, guardando, guardando. E com isso ele fez muito mal pra ele. Com trinta anos de idade ele explodiu com depressão.

JP: Então, tu falou... assim, tentando... tentando puxar um pouco pra pergunta, né, o que que causa problemas ou o que contribui pra saúde mental, né, assim? Aí você falou a questão em relação à história de vida da pessoa, relações familiares, relações afetivas, foi algo assim?

Laura: ...Porque, assim, a esposa dele passou coisas piores, só que ela agüentou, ela não... pra ela... teve esse momento de estar com uma emoção mais forte, acho que também depende da emoção da pessoa, né, o quanto aquela pessoa agüenta. A pessoa que agüenta menos, acho que ela vai ter mais problemas psicológicos. Camila: Também tem o caso quando é hereditário, quando é hereditário. Próximo lá de casa tem uma menina que a vó dela já teve problemas mentais. Ela vai

ficando velha, mas, a idade dela vai envelhecendo, mas a mente dela ao invés de ficar velha também, vai voltando.

JP: Certo. Então você já trouxe outros elementos, né, a questão de fatores hereditários, né? A Laura trouxe elementos mais envolvendo... também trouxe alguma coisa envolvendo fatores biológicos, mas trouxe também, principalmente, questões das relações. Vocês têm mais algum outro ponto?

Carla: Eu acho o meio urbano. Assim, se você é assaltado, você não consegue sair mais de casa com a liberdade que você tinha antes. Assim, é... minha irmã, ela foi assaltada, levaram o que ela tinha e tipo que ela não conseguia mais sair de casa, entendeu, porque alem dela ser assaltada, ela também apanhou. Aí, poxa, ela passou um bom tempo sem sair de casa, tipo, tinha medo das pessoas, chegava perto dela, ela, tipo, ficava desconfiada.

Renata: Um caso assim foi com a Lia, não foi Lia, aquele assalto que tu sofreu? (dirigindo-se à Lia)

Lia: Tipo que no momento eu entrei em pânico, não era eu ali, naquela hora ali eu entrei em pânico, não sei o que aconteceu comigo.

No episódio supracitado, Laura, Lia, Camila e Carla trouxeram situações de seus cotidianos para alinhavarem um ponto de vista segundo o qual as relações são chave para a explicação do processo saúde/doença mental. Logo, ao produzirem sentidos sobre esse processo e ao realizarem pontes com a realidade psicossocial onde estão inseridos, as vozes diferenciais daqueles jovens puderam ser claramente identificadas.

Outro elemento discutido nesta oficina disse respeito à relação entre “saúde/doença mental” e “sofrimento”, reportando-se às discussões sobre “saúde” e “bem- estar”, desenvolvidas no final da oficina precedente. O seguinte episódio evidencia isso e propicia recriações de sentidos sobre a relação entre “sofrimento” e “saúde mental”:

JP: Ontem a gente tava discutindo sobre a questão da saúde, do bem-estar, né, vocês lembram? Necessariamente ter sofrimento é não ter saúde? Sofrer é saudável? Laura: Não, eu acho que... Não, depende, pode ser saudável. Porque, tipo assim, você sofrer, você, sei lá... Depende.

Carla: Mas, também, não é viver também só daquilo ali.

Laura: Claro. Achar que o sofrimento não pode ser eterno, sei lá.

Pedro: Mas o sofrimento ajuda a pessoa a, sei lá... viver mais...(Carla interrompe) Camila: A superar (complementa Pedro).

Carla: Obstáculos faz parte da vida.

Laura: Só não pode ser só isso, a depressão, né, JP: Sabe por que que eu tô perguntando isso...

Lia: Por isso que existe, num é não? Se não tivesse lógica não ia existir... tristeza, sofrimento.

JP: Então, é... Por quê que eu tô perguntando isso? Se saúde é um bem estar pleno, onde é que fica o sofrimento? Como é que a gente lida com o nosso sofrimento? Sofrer necessariamente é estar doente? Porque sofrer é... significa, pelo menos em determinado momento, não estar bem. Entende? Vocês entenderam porque que eu perguntei isso? Pra trazer pra vocês a polêmica que envolve esse conceito de saúde. Laura: Eu acho que faz parte da saúde.

Lia: Eu pensava que saúde é ta bem. Renata: Por isso que eu discordei, ontem.

Renata: Também. E eu disse que a saúde envolve várias coisas, né. Aí a pessoa estar num estado de bem-estar em tudo aquilo é a pessoa perfeita. E não existe ninguém perfeito. Nunca ninguém vai ser saudável, perfeito, nessa definição aí.

Cabe justificar minha intervenção neste episódio. Ao instigar tal reflexão, considerei duas questões: primeiro, os debates sobre o tema “o que é saúde”, quando discutimos sobre a concepção de saúde como um estado de equilíbrio e bem-estar; segundo, e principalmente, os rumos que tiveram as discussões sobre o tema “saúde mental”.

Por um lado, em momentos anteriores da atividade, havia indícios de que a saúde mental estivesse ligada a um ideal de equilíbrio. Por outro, neste último episódio, a ideia de saúde como um estado de perfeito equilíbrio foi relativizada, visto que alguns dos enunciados produzidos, principalmente o de Renata, que encerra o episódio, apontam o sofrimento como podendo fazer parte da saúde também.

Tal relativização já vem fazendo parte do campo da Saúde Coletiva. Caponi (2009, p. 71), em sua crítica ao conceito de saúde alicerçado na ideia de bem-estar, aponta que ele não abre espaço para a variação, para a diferença e para uma série de questões consideradas socialmente indesejáveis:

A partir do instante em que se afirma o bem-estar como valor – físico, psíquico e social -, reconhece-se como pertencente ao âmbito da saúde tudo aquilo que, em uma sociedade e em um momento histórico preciso, nós qualificamos de modo positivo – aquilo que produz ou deveria produzir uma sensação de bem-estar, aquilo que se inscreve no espaço da normalidade: a laboriosidade, a convivência social, a vida familiar, o controle dos excessos. Ao fazê-lo, se desqualificará inevitavelmente, como um desvalor, como o reverso patológico e doentio de tudo aquilo que se apresente como perigoso, indesejado ou que simplesmente é considerado mal[...]