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6.1 Interviews with women

6.2.1 Intentions and implementation of the JSY/NRHM

Na obra Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor Kierkegaard afirma peremptoriamente que é um autor religioso e que toda sua obra de escritor “se relaciona com o cristianismo, com o problema de tornar-se cristão”,212 pois acreditava que todos os habitantes de seu país se

consideravam cristãos e nem sabiam o que é ser cristão. Parece-nos inverossímil que toda sua obra tenha esse propósito e que, mesmo assim, tenha recorrido a produções estéticas para chegar ao objetivo traçado. Para Reichmann, Kierkegaard tinha um motivo: ele acreditava que todos se iludiam ao dizerem-se cristãos; que o ataque direto nada mais faz do que aferrá-los à sua ilusão e que se pode destruir essa ilusão pelo método indireto, para que ninguém suspeite a origem religiosa do autor.213 Mas foi através de suas obras estéticas que o filósofo dinamarquês se tornou conhecido e influenciou vários escritores e filósofos. Quando Kierkegaard começa a se tornar conhecido, é pelas obras estéticas e sua veia religiosa é deixada de lado. Georg Brandes (1842-1927) é considerado um grande conhecedor de Kierkegaard e responsável pelo realismo literário da Escandinávia214 e criador do método psicobiográfico aplicado á Kierkegaard. O crítico dinamarquês George Brandes ressalta a importância das obras de Kierkegaard ao dizer: “A prosa

211 Kierkegaard

– A Repetição. O trecho transcrito se encontra à pg. 70 da tradução francesa, apud Reichmann, 1963, Pg. 59.

212 Kierkegaard, 1986, pg. 22. 213 Reichmann, 1963, pg. 25.

214 Santos, Deyve R. M. O legado intelectual de Sören Kierkegaard. Filosofia UNISINOS,

dinamarquesa jamais produziu obras-primas como o Diário de um Sedutor e In vino veritas”.215 Em 1888 Brandes escreve para Nietzsche e fala de um livro que escreveu sobre Kierkegaard:

“Existe um escritor escandinavo, cujas obras muito lhe interessariam se pudesse lê-las em alguma tradução: penso em Soren Kierkegaard que é, segundo o conceito que dele faço, um dos mais profundos psicólogos do mundo. Um pequeno livro que escrevi sobre ele não dá a imagem de sua genial personalidade ...” 216

Esta carta é datada de 11 de janeiro de 1888 e Nietzsche responde com uma carta de 19 de fevereiro do mesmo ano, demonstrando interesse, quando chegar à Alemanha, de “começar a trabalhar o problema psicológico Kierkegaard”.217 Nietzsche não teve condições de seguir seu propósito, pois

sua doença não lhe permitiria. Harald Beyer, grande estudioso da literatura dinamarquesa, se expressa da seguinte forma sobre Kierkegaard: “Não obstante, por trás do pietismo e do esteticismo existia freqüentemente uma intensa aspiração ideal que encontrou abundante alimento nos escritos do filósofo-poeta dinamarquês Soeren Kierkegaard”.218 Ou seja, as obras de

Kierkegaard não foram vistas apenas a partir do seu lado religioso. Bem mais do que desejava Kierkegaard, suas obras deram início a uma especulação da existência, sua origem e suas conseqüências para o homem. Podemos perceber a forma de expor a vida e a morte de Albert Camus e Franz Kafka. Esses, decididamente influenciados pela abordagem existencial de Kierkegaard, materializaram em seus romances o homem nu diante do absurdo da existência e ao relento das metamorfoses que a vida nos obriga e, muitas vezes, determina. O homem é o interesse do homem para Dostoiévski, Tolstoi, Camus, Kafka. Dentre esses, uns influenciados diretamente e outros possuíam o espírito kierkegaardiano. Kierkegaard muniu esses escritores – Kafka e Camus – de temas que nenhum sistema se ocupou até então. Mesmo que se

215 Conf. Apud Reichmann, 1963, pg. 26. 216 Idem.

217 Idem, pg. 27. 218 Idem, pg 29.

ocupasse, não daria conta de abarcar essas questões existenciais na busca de uma explicação lógica.

Quando nos debruçamos nas obras desses escritores, entendemos a grande luta travada pelo filósofo dinamarquês contra qualquer sistema filosófico que procurasse explicar a realidade. Sua disputa contra Hegel não lhe deu discípulos nem seguidores. E essa nunca foi sua intenção. Sistematizar a existência é como querer transformar as decisões e escolhas do Indivíduo em fórmulas matemáticas. A questão do pecado, por exemplo, analisada na obra O Conceito de Angústia, leva o leitor a entender como as questões do Indivíduo na sua existência não podem ser respondidas por nenhuma ciência, e que o Indivíduo ao buscar respostas “deve igualmente saber que toda e qualquer ciência é completamente impotente para lhe explicar o que seja o pecado [o que seja o desespero, o medo, a melancolia, a felicidade, etc...]”219 Se fosse

possível, ao sair de casa pela manhã, preveríamos todas as nossas atitudes analisando as lógicas dos números. Nesta construção do sistema hegeliano, algo impreterível está solto e foi aí que Kierkegaard percebe esse tijolo solto na parede do sistema hegeliano. Foi aí que ele “agarrou este tijolo e o puxou. A conseqüência foi que tudo desabou...”220

Ivan Ilitch, Meursault, Gregor Samsa, Fiódor Pávlovitch e Abraão representam a libertação e a ruptura de qualquer sistema lógico-filosófico-existencial. Neste sentido, Dostoiévski, Kafka, Camus e Tolstoi ajudaram Kierkegaard a puxar esse tijolo solto que derruba toda a construção aparentemente sólida. Para Ernani Reichmann esses poetas viveram um estado de espírito kierkegaardiano, ao qual se deve acrescentar apenas a experiência pessoal de cada um, e isso basta.

“É isso justamente o que tem libertado Kierkegaard da armadura do sistema, mesmo mediatizado. E mais, a rebelião desse estado de espírito contra o sistema é que provocará, segundo o nosso modo de entender, a destruição completa do sistema nesta segunda metade do século, quando o sistema cairá vencido pelo

219 Kierkegaard, 1968, pg. 54. 220 Gouvêa, 2000, pg. 149.

conteúdo do que procurou sistematizar: pela própria existência”.221

“É incrível a confusão produzida pela filosofia hegeliana na vida privada; triste conseqüência do fato de que um filósofo se ache um herói quando na vida privada só é um filisteu e um pedante. Algo lhe escapa sempre a Hegel: que é viver.”222

221 Reichmann, 1963, pg. 52. 222 Kierkegaard, 1955, pg. 163.