• No results found

6.1 Interviews with women

6.1.7 Perception and thoughts on hospital and home delivery

Mas, ao atuar com tal rigor, governantes e guardiões serão felizes? Platão faz com que haja reações frente a tais estruturas, por parte de Glauco e Adimanto, seus irmãos, enquanto expressão da dificuldade de pensar uma cidade fora dos padrões vigentes. O comum, como se vai detectar no capítulo IV, era o governante ter uma vida de riquezas, à custa da usurpação do bem alheio e da deliberação de leis, para satisfazer de suas próprias necessidades; era a proposta de vida nos moldes sofista.

Platão propõe uma vida de intensa preparação para o cuidado do bem alheio como bem próprio, chegando a ponto de morrer, para que haja vida e segurança para todos os seus habitantes da cidade justa.

Aqui se encontra a dificuldade em pensar uma outra estrutura para a cidade. Como é possível fundar uma cidade que não oferece riquezas e privilégios às pessoas que a governam? Que vantagem há em ser guardião de uma cidade, sem desfrutar dos bens que ela produz? Como ele pode estar satisfeito em defender a cidade sem ter bens para desfrutar? Como podem viver sendo assalariados e instalados em comunidades, como militares, sem fazer outra coisa a não ser vigiar e comandar95?

Diante de tamanha exigência, quem, de bom grado, vai tornar-se um guardião? Como podem se sentir felizes, se não praticam o que faz as pessoas „consideradas felizes‟ na cidade vigente, ou seja, aquelas que obtêm dinheiro público e gastam com aquilo que lhes apraz? Pois esta era a conduta dos governantes das outras cidades, ao elaborar leis que conviessem e defendessem as suas próprias vantagens.

O intuito de se estruturar a cidade justa se direciona para afirmar a vantagem dos governantes em realizarem a conveniência do bem coletivo para os cidadãos em geral. Para Platão, não é possível uma cidade constituída apenas em função das necessidades dos governantes. Qualquer produção, ação ou necessidade devem estar postas no limite da função que cada classe tem para cumprir, em prol de si mesma e das outras classes. Com isso, a felicidade dos guardiões e governante se encontra no bem da coletividade96.

95 Ibid., 419e-420a. 96 Ibid., 420b.

As pessoas que compõem as três classes da cidade justa, ao compreenderem que cumprir suas funções, reverte como bem para o coletivo e a cidade se torna melhor, percebem que fazem o bem a si próprias. Ora, o bem de si próprio é o bem da cidade. E o bem da cidade se constrói quando cada pessoa colabora, da melhor forma possível, na realização de sua função. Com isso, aponta-se uma possível superação entre o conflito presente na noção de bem alheio retomando o princípio da justiça, sobre o qual a cidade foi fundada97.

Na disposição das funções e estruturação política, o bem próprio é, em última análise, o bem do Outro. E o bem alheio é algo que deve ser respeitado e cuidado pelos governantes. Isso só é possível mediante a experiência comunitária, proveniente do mito da irmandade, estudado no segundo capítulo, que fomenta uma identificação do bem próprio com o „bem alheio‟. Esta é a compreensão que deve conduzir toda cidade para o coletivo. Se acontecer o contrário disso, toda cidade perde sua finalidade.

Esta organização se justifica mediante a finalidade de crescer de modo ordenado e limitado, conforme a função de cada classe. Para ser feliz é preciso elevar a cidade inteira a um princípio de bem estar98, que na cidade vigente é destinado apenas a uma pequena parte. Imbuídos de tal compreensão, executa-se o que é próprio para cada um, formando um todo belo e harmônico. Caso o contrário, os guardiões podem ser qualquer coisa menos guardiões, devido à própria negação do princípio que rege a cidade.

Neste sentido cabe aos governantes autênticos compreender que a sua felicidade e bem-estar não estão separados do bem da cidade. Mas, é de fundamental importância que aprendam que devem administrar a cidade, com leis que regem as relações internas e externas, garantindo que todos os seus habitantes tenham vantagens nesta administração.

O governante autêntico e feliz precisa convencer os auxiliares e artífices, para realizarem o melhor naquilo que é próprio no exercício de suas profissões, assim, a administração regida por leis de fácil compreensão, vai proporcionar a felicidade de cada pessoa, conforme sua natureza99. É a natureza, juntamente com a estruturação política, que vai determinar a inutilidade de riquezas individuais para guardiões e governantes. Só deste modo eles podem ser felizes no que fazem, pois estão realizando, no cuidado do bem das outras pessoas, seu próprio bem.

97 Ibid., 374a-e.

98 Ibid., 420c. 99 Ibid., 421c.

1.2.6. A função de legislador autêntico

O governador autêntico, por ser o melhor entre os guardiões, legisla em prol do bem comum. As leis que ele sanciona devem orientar as outras classes da seguinte maneira:

no silêncio que os mais novos devem guardar perante os mais velhos; o dar- lhes lugar e levantarem-se; os cuidados para com os pais; o corte de cabelo, o traje, o calçado e toda a compostura do corpo, e demais questões desta espécie100.

É a absorção destes ensinamentos e as habilidades dos comportamentos moderados que vai moldar o governo legítimo. Logo, não são as regras que vão indicar se há autenticidade, mas o cumprimento das regras, de acordo com a conduta de sua alma, condizente com a direção para o melhor.

O que precisa ser advertido é a observância e prática da lei, tanto para a escolha do governante, quanto para manter a boa ordem. Logo, quem é bom faz o bem, da mesma forma, que quem é mal faz o mal101. Por isso, é preciso legislar no cuidado tanto com a cidade, quanto com os cidadãos, a fim de que não se instale a doença da divisão e da novidade, devido à má administração.

Destarte, o legislador inautêntico, com suas manobras políticas, faz com que as leis sejam protetoras de suas ações injustas, beneficiando os cidadãos que ajudam a manter tais injustiças. Ele faz com que esses, em qualquer regime, se guiem por conhecimentos que acentuam apenas a grandeza pessoal, os prazeres egoístas e a honra aparente. Apenas por estes meios são valorizados. Com isso, a cidade se divide e se arruína, por não ter administrador e legislador que seja um político de verdade.

Portanto, um legislador autêntico não deve se ocupar da multiplicidade dos ensinamentos contidos nos códigos legislativos, seja numa cidade má governada, seja numa bem governada, porque “naquela, (...) são inúteis e sem alcance, nesta porque qualquer pessoa descobrirá parte delas, e o resto surgirá espontaneamente dos costumes tradicionais.”102 Ele precisa cuidar para que ninguém atue na aparência da lei, com

100 Ibid., 425b.

101 Cf. na nota 11 do parágrafo 425c. 102 PLATÃO, 2001, 427a.