É com a proposição: "Só o que trabalha tem pão"376, que Johannes alude a um velho provérbio que para ele não se coaduna com a realidade em que o filósofo vive. Ora, se o provérbio fosse tomado por todos, o ocioso não teria seu alimento e o preguiçoso estaria em maus lençois. Mas não é isso que acontece no que tange aos que estão à frente da igreja e que, aos olhos de Johannes, não labutam para merecerem o digno pão:
A história de Abraão é a história do esforço e do labor. Parece aos olhos de Johannes de Silentio, impossível obter inteligência sem labor. Porém se isso fosse possível, Abraão seria apenas um vulto.377
Johannes coloca a história de Abraão como uma história tão fantástica e de tão relevante importância que quem se debruçasse sobre ela e fizesse uma verdadeira reflexão, uma reflexão apaixonada, com certeza teria noites de insônia. A disposição de Abraão é absurda e incompreensível para nós e é por isso que essa história inquieta dando aos que refletem com paixão noites de insônia378 e perplexidade: “gerações sem número souberam de cor, palavra por palavra, a história de Abraão; mas quantos tiveram insônias por sua causa?379
Para ele não adiantava apenas saber a história desta grande figura bíblica e de fazer sermões que agitassem a assembléia aos domingos; de afirmar a sua grandeza em amar a Deus ao ponto de sacrificar o melhor que possuía, pois o seu filho único, Isaac, era uma dádiva de Deus, um filho da velhice380. O que era necessário, para Kierkegaard, era abordar a história pelo viés da angústia
376 Idem, pg. 265. 377 Paula, 2001, pg. 107. 378
Cioran acredita que o livre pensador não foge nunca das “ruminações da insônia”, e que a idéia indiferente é abominável. E ele se pergunta: Quantas noites em claro esconde seu passado noturno? É assim que deveríamos abordar todo pensador. Aquele que pensa quando
quer não tem nada a dizer-nos: está acima, ou melhor, à margem de seu pensamento, não é responsável por ele, nem está em absoluto comprometido com ele, pois não ganha nem perde
ao arriscar-se em um combate em que ele mesmo não é seu próprio inimigo. (Cioran, 1989, pg. 101.)
379 Kierkegaard, Temor e Tremor in coleção os Pensadores , 1974, pg. 265,
380 Sara, aos noventa anos deu a luz um filho e lhe pôs o nome de Isaac. Abraão tinha 109
de Abraão. A angústia se apresenta na contradição do ético e do religioso, isto é, Abraão do ponto de vista da moral é um criminoso, mas, do ponto de vista religioso é alguém que faz um sacrifício por amor a Deus; seu ato é um ato de fé e “sob o ponto de vista moral, a conduta de Abraão exprime-se dizendo que quis matar Isaac e, sob o ponto de vista religioso, que pretendeu sacrificá-lo. Nesta contradição reside a angústia que nos conduz à insônia e sem a qual, entretanto, Abraão não é o homem que é”.381 Neste sentido, Almeida e Valls
acreditam que a relação entre o indivíduo singular e Deus é realizada a partir da compreensão da existência como tempo de prova.382 A vida do existente é uma
eterna prova e o dia-a-dia vai mostrar se ele está apto para poder se relacionar com Deus. Portanto a angústia tem uma relação íntima com a fé:
O ético-religioso realiza uma pedagogia ascendente da fé que comporta como elementos: angústia, desejo, contradição, paradoxo, amor, tentação, que se sintetizam na luta entre Deus e o homem. Fé sem dimensão da angústia não é verdadeira fé. A angústia, sua irmã gêmea, é desejo e saudades de Deus. A fé é uma tensão intrínseca da própria condição humana no processo de ganhar-se a si mesma, na transformação do ser- argila (Gn, 2, 7) em um ser-do-jardim das delícias e em fonte de água viva: Temor e tremor descreve a tensão entre o homem e Deus.”383
Ora, é por isso que Kierkegaard critica os sermões que não evidenciam a fé e o desespero de Abraão, que é o centro de toda a história e de seu desfecho. Ao suprimir a fé, podemos julgar o ato de Abraão como sendo o ato de um assassino, que é um juízo do geral, isto é, um juízo ético. A insônia se dá na reflexão atormentada que há nesta contradição e que à primeira vista, não há uma solução que salve Abraão. Johannes faz um aviso aos "pregadores de domingo" que agitam a assembléia e na segunda feira desmentem com seus atos os seus sermões: falar sobre Abraão tem que ter coragem, tem que ter verdadeiramente fé, pois é "pela fé que alguém se pode assemelhar a Abraão em vez de a um vulgar assassino".384 Mas será que ninguém poderá falar de Abraão? Pode, diz Johannes, mas com sublimidade. E é esse desafio que ele se propõe e dá o método de como falar de Abraão sem extraviar a verdade. Segundo Kierkegaard, se ele fosse falar de Abraão no púlpito, primeiramente
381 Kierkegaard, Temor e Tremor in coleção os Pensadores, 1974, pg. 267. 382 Almeida e Valls, 2007, pg. 47.
383 Idem, pg. 47.
ele mostraria Abraão como um homem piedoso e temente a Deus e digno de ser chamado eleito do Eterno. Depois abordaria o grande amor para com seu filho Isaac, dando uma ênfase desse amor paternal, que segundo sua análise era único, não existia exemplo similar. Após a digressão do tema e houvesse um que pudesse compreender a grandeza e o horror desse ato, e se propusesse a fazer o mesmo caminho, Johannes o acompanharia.
Johannes sabe que fazer o caminho de três dias até o monte Moriá não é tarefa fácil para ninguém. Também não é tarefa fácil refletir sobre Abraão e superá-lo. Mais fácil é superar Hegel385 e seu sistema, mesmo não o tendo compreendido bem, mas a empresa de estudá-lo não lhe causa maiores problemas. Não é o caso da história de Abraão. Para ele, a reflexão sobre Abraão o deixa aniquilado e seus músculos ficam paralisados, procurando uma saída neste paradoxo: o paradoxo da fé. Pare ele, a fé é a mais sublime de todas as coisas e ter fé é ter confiança no absurdo, absurdo que é ininteligível para o mundo e por isso rechaça sistemas filosóficos que tentaram substituir a fé pela ciência. O movimento da fé é para poucos espíritos corajosos e destemidos. Espíritos que se jogam de cabeça em um movimento pleno e absurdo. Johannes humildemente reconhece essa dificuldade; reconhece que o salto do ético para o religioso é um movimento audacioso e magnânimo:
Sinto-me contente de estar casado nesta vida pela mão esquerda; a fé é demasiado humilde para solicitar a direita; que o faça em plena humildade, não o nego, jamais o negarei.386
Mas quem era capaz de dar esse salto audacioso e magnânimo? Escolher viver na fé é tarefa difícil. Para Johannes, Abraão fez a escolha e por isso é o cavaleiro da fé.
385 Saboreamos mais uma vez a ironia kierkegaardiana. As obras de Hegel, à época de
Kierkegaard (e até hoje), eram consideradas muito difíceis de apreender, devido sua forma abstrata e profunda. Porém, era mais difícil a reflexão sobre o ato de Abraão que a reflexão sobre as obras de Hegel.