• No results found

4. Resultats i discussió

4.3 Relacions entre els diferents paràmetres mesurats

Em agosto de 1877 Nietzsche comenta com seu amigo Paul Deussen o pensamento em retornar às suas aulas na universidade da Basiléia, porém o mais significativo para nós aqui é o fato do filósofo tratar, nesta carta, sobre seu afastamento da filosofia de Schopenhauer.

113 Cf. GIACÓIA 2000, p.46.

Comenta o livro enviado por seu amigo sobre a filosofia de Schopenhauer, e elogia o livro por compilar bem as principais ideias de MVR. Lamenta, entretanto, não ter surgido antes tal síntese, quando ainda era entusiasta da filosofia de Schopenhauer, o que não é mais o caso: “[…] teu livro me serve de uma boa compilação de tudo aquilo que EU não acredito mais”114 (Carta 642). Nietzsche não aponta suas divergências para não irritar seu amigo. Deussen fica totalmente surpreso com a revelação do amigo: “Mas, o que aconteceu? Já não está mais do lado de Schopenhauer? [...] É inconcebível, não é possível. – Chegando à este ponto, digo: Nietzsche deve retomar a sensatez!”115.

No final de 1876 período em que se encontrava em Sorrento, Nietzsche envia uma carta para Cosima por conta de seu aniversário e lhe antecipa o que será constatado em 1878 com MA/HH, o distanciamento de Schopenhauer. Tal afastamento é acompanhado pela reaproximação de Nietzsche com a filologia:

Me reconciliei com a filologia, desse modo me espera um árduo trabalho: se surpreenderá de lhe confesso minhas diferenças, que surgiram pouco a pouco, mas que tomei consciência quase de repente, com respeito à doutrina de Schopenhauer? Em quase todos os princípios gerais não estou do seu lado; quando escrevia sobre Schopenhauer, me dei conta de que havia superado toda a parte dogmática; para mim o homem era tudo. Enquanto isso, minha ‘razão’ tem sido muito ativa – com ela a vida voltou a ser um pouco mais difícil, a carga mais pesada! Como vais resistir até o final?116 (Carta 581).

A reaproximação de Nietzsche com a filologia fica clara quando o filósofo parte do pressuposto que a interpretação da natureza tem que ser realizada com o mesmo rigor que a análise filológica do texto, sem pressupor um duplo sentido. A explicação pneumática117 da natureza consiste em interpretar a natureza possuindo um objetivo velado, que seria revelado por alguma proposta metafísica, por exemplo, a religião (MA/HH 8), algo rechaçado pelo filósofo alemão. Sendo assim, a recusa da filosofia schopenhaueriana acarreta na recusa de toda a filosofia metafísica ocidental, realizada, principalmente, no primeiro capítulo de MA/HH.

114 “[...] tu libro me sirve de feliz recopilación de todo aquello en lo que YO ya no creo más” (Carta 642). 115 “¿ Pero qué sucede? ¿ Ya no estás de parte de Schopenhauer? [...] Es inconcebible, no es posible. – Llegados a este punto yo digo: ¡Nietzsche debe recobrar la sensatez!” (RUBIO, 2009b, nota 567, p.428; KGB II/6, 729). 116 Me he reconciliado con la filología, así que me espera un duro trabajo: ¿se sorprenderá se le confeso mis diferencias, surgidas paulatinamente, pero las que he sido consciente casi de repente, con respecto a la doctrina de Schopenhauer? En casi todos sus principios generales no estoy de su parte; ya cuando escribía sobre Schopenhauer, me di cuenta de que había superado toda la parte dogmática; para mí el hombre lo era todo. En el ínterin mi ‘razón’ ha estado muy activa - ¡con ello la vida se ha vuelto a hacer un poco más difícil, la carga más pesada! ¿Cómo va a resistir hasta el final? (Carta 581).

117SOUZA, 2005, Nota 7, página 281: “A expressão alude a uma forma de exegese na qual se supõe que o espírito santo [pneuma: ‘sopro’, ‘espírito’, em grego], e não a análise filológica revela o sentido das palavras” (nota do tradutor americano Gary Handwerk).

A origem da interpretação do mundo dividido em dois, e a dualidade corpo/alma, têm origem em uma compreensão equivocada do sonho. A crença em um segundo mundo surge com os antigos, que acreditavam conhecer um segundo mundo em seus sonhos: “Nas épocas de cultura tosca e primordial o homem acreditava conhecer no sonho um segundo mundo real; eis a origem de toda a metafísica” (MA/HH 5) Desse modo, Nietzsche desqualifica o suposto mundo verdadeiro que seria o objeto de conhecimento da metafísica ao compará-lo com o sonho, algo ilusório (MA/HH 5). Não tem como não pensar que Nietzsche não está se referindo ao escrito Beethoven de Wagner, lido para a confecção da sua primeira obra, onde o músico diz:

O sonho sempre confirma a experiência de que, ao lado do mundo intuído, a partir das funções do cérebro em estado de vigília, existe um segundo, igual a este em clareza e não menos inteligível em sua manifestação que não pode, entretanto, estar situado como objeto fora de nós (WAGNER 2010, p.18).

Segundo Nietzsche, a memória é afetada pelo sono, neste estado ela é imperfeita é sem credibilidade, assim como no início da humanidade, quando os homens tinham uma memória debilitada mesmo em estado de vigília. O sono prejudica a memória, reduz ela à um estágio imperfeito e primitivo. A memória no estado onírico do homem moderno está próxima da memória primitiva dos primeiros homens em estado de vigília. E foi com esses primeiros homens, cuja a memória confusa e arbitrária faziam uso, que tiveram origem as explicações mitológicas – e metafísicas também. Mais uma vez Nietzsche desqualifica o conhecimento metafísico ao enquadra-lo em um conhecimento primitivo, mentiroso e absurdo (MA/HH 12):

Mas no sonho todos nós parecemos com o selvagem; o mau reconhecimento e a equiparação errada são a causa das inferências ruins de que nos tornamos culpados no sonho; de modo que ao recordar claramente o sonho nos assustamos com nós mesmos, por abrigarmos tanta tolice (MA/HH 12).

Porém, o homem moderno continua a repetir as ações, e erros, do homem primitivo ao acreditar nas representações claras e perfeitas do sonho, em outras palavras, em acreditar nas figuras mitológicas, religiosas e metafísicas. Para o filósofo alemão, o homem primitivo, em estafo onírico, acatava a primeira explicação como verdadeira, mas o homem ainda toma a primeira explicação como verdadeira, só que agora, na modernidade, em estado de vigília:

Se o pensamento onírico torna-se agora fácil para nós, é porque durante imensos períodos da evolução humana fomos treinados exatamente nessa forma de explicação fantástica e barata a partir da primeira ideia que nos ocorre. Nisto o sonho é um repouso para o cérebro, que durante o dia tem de satisfazer as severas exigências impostas ao pensamento pela cultura superior (MA/HH 13).

As representações oníricas são provenientes do repouso do cérebro depois de muito ser exigido, durante a vigília, por operações racionais, pensamentos característicos de uma cultura de sinal superior. O pensamento metafísico seria o descanso da exigência da cultura superior, desse modo, marca de uma cultura “inferior”. Nietzsche aponta o artista como a ponte de acesso para se compreender melhor a “cultura inferior”, “primitiva” e “atrasada”.

Dificilmente podemos contestar a existência de um mundo metafísico, verdadeiro e além dos sentidos, segundo Nietzsche. Mas lembra que o homem tem sua constituição própria e é impossível, a partir de sua configuração, conhecer um suposto mundo metafísico, além dos sentidos: “Olhamos todas as coisas com a cabeça humana, e é impossível cortar essa cabeça; mas permanece a questão de saber o que ainda existiria do mundo se ela fosse mesmo cortada” (MA/HH 9). Tudo o que atribuiu valor às suposições metafísicas é fruto de paixão, erro e auto-ilusão. A origem das interpretações metafísicas é a paixão, ou seja, não racional (MA/HH 9).

A religião, a arte e a moral se justificam mediante argumentos metafísicos. A partir do momento em que a filosofia histórica descrever a gênese daqueles, acabará o interesse por tais questões, pois a gênese de tais interpretações será investigada pela fisiologia e pela história, não pela metafísica: “Pois, seja como for, com a religião, a arte e a moral não tocamos a ‘essência do mundo em si’; estamos no domínio da representação, nenhuma ‘intuição’ pode nos levar adiante” (MA/HH 10). A passagem acima demonstra o ataque de Nietzsche contra Schopenhauer, que julga possível mediante a arte alcançar a essência do mundo mesmo – a Vontade.