A obra publicada em 1878 não foi acompanhada de um prefácio escrito de próprio punho por Nietzsche. Entretanto, não quer dizer que não tenha redigido um. Para MA/HH o filósofo escreveu na época dois prólogos, mas optou por não os inserir na primeira edição, nem na segunda87.
Nietzsche intitula o aforismo 23[196] de 1876-1877 como um “Guia de viagem para se ler no caminho”88. Neste FP, o dia-a-dia e a rotina de trabalho fazem com que o homem não tenha tempo para refletir sobre às coisas que o cercam, assim suas opiniões se mantêm estáticas e inalteradas por não ter tempo para si. Desse modo, o homem deve aproveitar e desfrutar o momento em que pode se distanciar de suas obrigações e de seu trabalho, que consomem tempo e energia, para poder cultivar em seu espírito novos conceitos, sentimentos
85 “La reja del arado. Una guía para la liberación espiritual” (FP 17[105] de 1876).
86 “La reja del arado atraviesa el terreno duro y el blando, pasa por lo que está más arriba y por lo que está más abajo y los aproxima. Este libro es para el bueno y el malo, para el humilde y el poderoso. El malo que lo lea, mejorará; el bueno empeorará; el modesto se hará poderoso, se hará más modesto” (FP 18[62] de 1876).
87 O prefácio da segunda edição de 1886 foi redigido no mesmo período, deixando de lado os redigidos em 1877- 1878.
e forças. A profissão nos toma tempo, e serve, também, como desculpa para não refletir e reconsiderar nossas opiniões, como diz em MMA/HH: “Uma profissão nos torna irrefletidos; nisso está sua maior benção. Pois ela é um baluarte, atrás do qual podemos licitamente nos retirar, quando nos assaltam dúvidas e preocupações comuns” (MA/HH 537). Quanto mais se trabalha, mais o homem necessita de viagens (das chamadas válvulas de escape), de distanciamento de suas obrigações.
O filósofo vai de encontro à sua época por criticar a avaliação “moralmente positiva” dada ao trabalho. Sua crítica tem como fundamento o fato do trabalho e a “cultura da máquina”89 buscarem uniformização na maneira de pensar e agir e não estimularem a individualidade, ou no vocabulário de GT/NT, não há espaço para o gênio (CAHVES, 2011, p.175-176). A época de Nietzsche é caracterizada pelo excesso de trabalho. O excesso de trabalho encontra-se em todas as esferas, e a intelectual não é uma exceção: “Os operários se queixam que os fazem trabalhar demais. Mas, o mesmo excesso de trabalho se encontra em todas as partes, entre os comerciantes, os eruditos, os funcionários, os militares [...]”90 (FP 19[21] de 1876). Algo que o próprio Nietzsche vivenciou. Em suas cartas é muito comum encontrarmos queixas da falta de tempo por conta de suas obrigações profissionais, que não lhe dão folga para o exercício de sua atividade enquanto filólogo e, depois, como filósofo. Nesse sentido, podemos ver a necessidade de Nietzsche em pedir licença em 1876, tanto para cuidar de sua saúde como para ter tempo para si mesmo.
Outro ponto destacado pelo filósofo no FP em questão, é a solidão e o tempo livre. Segundo Nietzsche, o homem deve se ater às reflexões que aderiu durante toda sua vida, mas tal análise não deve ser realizada de maneira apressada:
“[…] hoje se detém em uma frase qualquer, amanhã em outra e medita a fundo, de coração: medita seus prós e seus contras, penetrando no seu interior e vendo mais além, para impulsionar só o espírito, de modo que, ao fazê-lo, sua mente se sente serena e conforme em cada uma das ocasiões”91 (FP 23[196] final de 1876 verão de 1877).
89 Cf. WS/AS 218 e 220, são os aforismos em que Nietzsche caracteriza nossa cultura como a cultura da máquina. Estes dois aforismos são analisados e comentados por Ernani Chaves, no seu artigo Estética, ética e
política: em torna da questão do trabalho no segundo Nietzsche (CHAVES, 2011) Partindo do aforismo 220
intitulado “Reação à cultura da máquina””, o autor realizará suas reflexões ao longo de seu texto. Parte da proposição de Nietzsche em caracterizar nossa época como a época da “cultura da máquina”.
90 “Los obreros se quejan de que se les hace trabajar demasiado. Pero este mismo exceso de trabajo se encuentra por todas partes, entre los comerciantes, los eruditos, los funcionarios, los militares […]” (FP 19[21] de 1876). 91 [...] hoy se detiene uno en una frase cualquiera, mañana se demora en otra y un buen día la medita a fondo, de corazón: medita sus pros y sus contras, penetrando en su interior y yendo más allá, según le impulso a uno el espíritu, de manera que, al hacerlo, su mente se sienta serena y conforme en cada una de las ocasiones (FP 23[196]).
A partir daí, pouco a pouco, o homem consegue conduzir de maneira natural, sem pressa, se reestabelece espiritualmente, alcança tranquilidade espiritual, mediante o ócio e a solidão, pois se ocupará somente com o que é importante. O homem que escolhe uma vida dedicada ao conhecimento não pode, segundo Nietzsche, se ocupar com coisas do tipo: família, segurança, mulher e filhos, pois estes lhe tomarão tempo que poderia está sendo dedicado à reflexão (MA/HH 436).
No inverno de 1877-1878 Peter Gast copia um novo esboço de prólogo para MA/HH. Nesta nova tentativa, Nietzsche busca explicar, para seus leitores e para si, o que significa MA/HH, não o que ele é, pois assim como seus leitores terão surpresa ao se depararem com seu novo livro, o próprio filósofo sente que algo mudou. Relacionado à mudança que o livro de 1878 demonstra que a figura de espírito livre emerge como representação dessa nova maneira de pensar. Segundo Nietzsche, em sua época existem grandes personalidades que têm dentro de si uma espécie de “excitabilidade interna de espírito livre”, que não encontramos em épocas anteriores. É até estranho, segundo o filósofo, que ainda não tenham surgido tais “espíritos livres”. O próprio Nietzsche vem seguindo os passos desses grandes homens com o intuito de alcançar a liberdade de espírito. MA/HH não é só a criação da imagem do “espírito livre” e sua possibilidade de personificação, é também necessário dar voz e atribuir um livro à essa figura do “espírito livre”.
Desse modo, se ligarmos essas duas propostas de prólogos à MA/HH constatamos que Nietzsche antecipa algumas ideias encontradas no interior da obra em produção. Antecipa, por exemplo, a diferença entre suas obras anteriores e sua presente obra; a inquietação ante as autoridades – podemos dizer metafísica, religião ou mesmo Wagner. O mais importante, porém, é a consideração não tanto de conteúdo, mas sim da representatividade que a obra de 1878 tem para o próprio filósofo, e nesse caso a figura do “espírito livre” e o caminho para sua libertação são fundamentais.