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Rekonstruksjon av holocene klimaendringer

In document Klima i Norge 2100 (sider 26-35)

2. KLIMASYSTEMET OG VARIASJONER ETTER SISTE ISTID

2.3 Klimavariasjoner etter siste istid

2.3.2 Rekonstruksjon av holocene klimaendringer

Quando pensamos na obra de Pessoa, uma das primeiras características que associamos é a fragmentação: o Livro do Desassossego, A Educação do Estóico, o Teatro

Estático, etc., são apenas alguns exemplos de experiências literárias que manifestam fortemente um carácter fragmentado. Pessoa é um dos autores mais prolíficos do século XX, mas igualmente um dos autores mais incompletos. Porém, a fragmentação da sua obra – os textos inacabados – não é voluntária, i.e., o autor não incutiu na sua obra um

sentido fragmentário, de tal modo que aquela obra não pudesse ser de outra forma. O que sucede, então, é que a obra de Pessoa é fragmentada, de facto, porque o seu autor não

conseguiu completá-la ou abandonou os projectos incompletos em prol de outros. Por outras palavras, a fragmentação que caracteriza a obra pessoana diz respeito ao seu

conteúdo, quando a sua forma não é propositadamente assim. Não se trata do Livro do

Desassossego ou de A Educação do Estóico não serem fragmentados: eles são fragmentados, efectivamente, mas esta fragmentação da sua forma não é intrínseca, não faz parte da obra projectada pelo autor. Isto depreende-se facilmente do facto de cada uma destas obras não ter uma ordem definida por Pessoa: são fragmentos soltos que carecem de uma estrutura ou de uma ordem delimitada pelo autor. Ora, esta «estrutura» involuntária na obra de Pessoa podia ser completamente diferente, se o autor lhe tivesse dado propositadamente um cariz fragmentado. Ou seja, a obra de Pessoa podia ser (mas não é) fragmentada tanto no conteúdo como na forma. Um evidente contraste pode ser estabelecido com a obra de Søren Kierkegaard, especificamente com o seu célebre Enter-

Eller (Ou-Ou) e, ainda com mais precisão, com os Diapsalmata (um dos textos do primeiro). Kierkegaard é um dos filósofos do século XIX que apresenta considerações fundamentais sobre o poeta, constituindo-se, por isso, como uma ferramenta imprescindível nesta investigação. A obra kierkegaardiana não é, apenas, um conjunto de textos assinados pelo autor: ela representa – tal como Pessoa – a ausência de «autor real», na medida em que é atribuída – como nos heterónimos e personagens pessoanos – a «autores fictícios», de tal forma que o que está realmente em causa é a apresentação de determinadas visões da vida. Ou seja, o paralelismo entre Pessoa e Kierkegaard estabelece-se em dois âmbitos: a centralidade da obra em si mesma e o conteúdo da obra. Do mesmo modo que podemos afirmar que Álvaro de Campos expressa uma visão da vida, que não é a mesma de Alberto Caeiro, de Ricardo Reis, de António Mora, de Bernardo Soares (entre muitos outros), e que estes pontos de vista não correspondem ao

ponto de vista de Pessoa, na obra de Kierkegaard podemos afirmar que o mais difícil é encontrar o ponto de vista do autor real, quando os seus textos são assinados por diversos

outros: Vigilius Haufniensis, Victor Eremita, Johanes de Silentio, etc. Até os textos que Kierkegaard publica com o seu nome podem estar subjacentes a um intuito literário e não corresponderem a nenhuma pretensão de verdade da visão da vida do próprio

Kierkegaard. Mas o carácter ficcional de que se reveste a obra de Kierkegaard é ainda mais lata: não se trata apenas de o filósofo conferir autores a textos, mas de a própria

atribuição autoral depender de outro autor fictício. É este último caso que encontramos em Enten-Eller, como veremos. A relevância desta obra de Kierkegaard não se prende somente com os seus estratos de ficção autoral, mas também (e fundamentalmente) com

o conteúdo da obra, na medida em que anuncia um ponto de vista (estético) que corresponde a uma relação com a vida idêntica à do poeta-Campos, apesar de não se tratar de poesia. Neste sentido, o que se apresenta em Enten-Eller é um conjunto de textos em

prosa, aparentemente desligados entre si, de autoria(s) duvidosa(s), e organizados por um editor fictício. De entre os diversos textos da obra, que incluem considerações sobre estádios musicais, análises de obras literárias, textos aparentemente biográficos, entre outros, destaca-se um núcleo inicial, constituído por diversas reflexões soltas, reunidas (pelo editor) sob a designação Diapsalmata.

Os Diapsalmata são, à primeira vista, um conjunto de «impressões», de «considerações avulsas» do seu autor fictício: A. A atribuição deste autor A é dada a

posteriori – ficticiamente – por outra personagem fictícia – o seu editor – que organiza a

ordem dos textos. Estes elementos estão descritos na introdução que o suposto editor acrescenta na publicação, salientando o facto de a sua organização poder ser inadequada. Assim, o que se estabelece imediatamente é a ideia de uma não fixação absoluta dos

textos, de tal modo que fica pressuposta a possibilidade de aqueles serem apresentados de

vários modos. Não é de descurar a proximidade entre o jogo ficcional que Kierkegaard institui na apresentação da sua obra e o papel real do editor na publicação da obra de Pessoa: aquilo que o editor fictício faz com os textos de Kierkegaard é, na verdade, o que os editores reais fazem com a obra de Pessoa – estabelecem uma ordem inexistente a

priori. Mas esta curiosa proximidade revela uma diferença substancial: Kierkegaard

completou e organizou os textos de Enten-Eller, estabelecendo depois um jogo que pretende anular a sua intervenção; Pessoa, pelo contrário, não organizou nem completou

frequentemente os seus papéis, deixando aos futuros investigadores esse papel. Isto significa, então, que, Kierkegaard atribuiu propositadamente à sua obra um carácter

fragmentário.

O editor de Ou-Ou afirma, por conseguinte, o seu papel absoluto na organização dos papéis (encontrados numa gaveta), e a possibilidade de a ordem ser outra e, por conseguinte, a ideia de que não há um sentido inerente à obra que obrigue o leitor a seguir a organização estabelecida. Ou seja, nada impede que o leitor leia os textos por «saltos» ou numa ordem completamente diferente da do livro. Mas também é de notar – e é de notar necessariamente – que o editor chama a atenção para o lugar fundamental dos

Ordenar os papéis de A não foi tão fácil. Deixei, por isso, que fosse o acaso a determinar a ordem, quer dizer, deixei que ficassem na ordem em que os encontrei, sem naturalmente poder decidir se essa ordem tem valor cronológico ou significado ideal. Os pedaços de papel estavam soltos no compartimento e, por isso, fui obrigado a atribuir-lhes um lugar. Fiz que viessem em primeiro lugar, porque me parece que eles podem ser mais bem vistos como primeiros lampejos daquilo que os ensaios maiores desenvolvem mais coerentemente. (2011: 87)

Esta indicação do editor não é despicienda, mas é, à primeira vista, surpreendente, quando verificamos que os Diapsalmata são um conjunto de pequenas considerações aparentemente desconexas, como se fossem repentinos apontamentos do autor sobre alguma coisa, num estilo autobiográfico ou diarístico. Um autor, nunca é demais salientar, que não corresponde a Kierkegaard, mas supostamente a A (como Campos corresponde a Campos e não a Pessoa). Deste modo, estamos perante reflexões avulsas ou, como o título Diapsalmata indica, «refrães» (é também de notar que o título é definido pelo editor). Estes refrães ou aforismos trazem à luz, num primeiro nível, ideias, opiniões e

disposições do autor. Mas um segundo nível torna-se evidente mediante as considerações anteriores: os textos não são arbitrários, no sentido em que eles constituem um núcleo

fechado. Foram, portanto, «escolhidos» para fixar algo: uma visão da vida que, no fundo, não precisa de autor. Assim, o que está em causa nos Diapsalmata é uma forma de

instalação na vida, que se depreende a partir das impressões – dos apontamentos – que constituem o texto. Mas o que temos vindo a considerar relaciona-se com o conteúdo da obra, que se define, tanto no caso dos Diapsalmata, como no caso da obra Ou-Ou (enquanto todo), pelo seu carácter fragmentado: tanto os aforismos dos Diapsalmata, como os demais textos que constituem Ou-Ou, são partes de um todo que, numa leitura inicial, não parecem ter remissão interna. Este aparente conteúdo fragmentado não se esgota aqui: os próprios Diapsalmata são um exemplo de fragmentação interna. Porém, a fragmentação destes vai para além de uma escolha do autor: ela representa a «estrutura» da própria visão da vida ou do modo de instalação na vida, orientada por fenómenos à vez, não obstante pertencerem a um fundo que se mantém velado, como indicam Ferro e Carvalho:

Nos Diapsalmata o próprio hiato ou o carácter inconjunto é uma componente essencial da forma de sentido em causa. Esta forma de sentido distingue-se precisamente por corresponder a um agregado de perspectivas soltas, que se combinam numa compreensão global, sim, mas de tal modo que estão separadas como que por saltos. Em suma, no caso dos Diapsalmata, o próprio carácter

ocasional e arbitrário não é nem ocasional nem arbitrário [...].

A estrutura dos Diapsalmata descreve uma vida ela própria desultória, feita de recortes desencontrados, de iluminações bruscas, interrompidas por hiatos – uma vida, portanto, sem unidade ou propósito claros, em que o sentido (sc. a perspectiva) que se tem é este ou aquele, agora isto, depois aquilo, consoante os casos. (Posfácio, 2011: 92-93)

Esta «estrutura» dos Diapsalmata não é, no entanto, o único factor relevante: a visão da vida que se descreve – que está representada – nos aforismos é similar à de

Campos, como veremos posteriormente. O seu carácter inconjunto é uma característica igualmente presente nas odes do heterónimo pessoano. Em Campos, o que vimos nas suas odes foi precisamente um elenco de fenómenos, que embora partisse de algum tipo de ponto central – a vida marítima, a vida moderna, Walt Whitman, etc. –, caracterizava-se como diferentes conjuntos da vida que surgiam, constituídos por possibilidades avulsas: agora isto, depois aquilo, e assim sucessivamente. Neste sentido, as odes são, também, fortemente fragmentadas, por pretenderem, tal como nos Diapsalmata, apresentarem uma

determinada visão da vida que se compõe de momentos alternados. Campos tem uma relação com o todo da vida, mas esta relação apresenta dois componentes essenciais: por um lado, parte de fenómenos particulares que se substituem continuamente, dado que fazem parte desse fundo que o poeta procura apreender, consciente de que tal propósito não é viável; por outro, atenta em fenómenos particulares enquanto símbolos do todo da

vida, i.e., enquanto imediatamente detentores desse todo da vida a que se procura aceder, ou, por outras palavras, como todos em si mesmos que são, em relação ao todo da vida, apenas parciais. Em que consiste esta visão da vida tem sido analisado a partir das próprias odes, mas cumpre ainda atentar no fenómeno mais lato a que dão voz: a melancolia ou, no seu cerne, a paixão e a dor pela vida. Uma compreensão mais clara deste estado complexo pode também ser deduzido dos Diapsalmata. Assim, revelar-se-á

como a visão extraída das odes de Campos e a visão extraída dos Diapsalmata correspondem a uma determinada natureza: a do poeta.

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