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INNLEDNING

In document Klima i Norge 2100 (sider 14-17)

Na Saudação a Walt Whitman, que analisámos brevemente no capítulo anterior, deparámo-nos com uma expressão que Campos usa para definir a sua natureza e a de Whitman:

Saudo-te em ti ó Mestre da minha doença de saúde, o primeiro doente perfeito da universalite que tenho, o caso-nome do «mal de Whitman» que ha dentro de mim! St. Walt dos Delirios Ruidosos e a Raiva! (Pessoa, 2014: 613)

Mas este trecho não é caso único. O conceito aparece novamente noutro fragmento:

A minha universalite –

A ansia vaga, a alegria, absurda, a dôr indecifravel Syndroma da doença da Incongruencia Final. (2014: 614)

Embora Campos só se pronuncie assim nestes dois exemplos, toda a sua poesia anuncia uma visão da vida que revela uma certa natureza – a do heterónimo – e que, por conseguinte, compõe-se de determinadas directrizes que temos vindo a analisar e que o poeta concentra, como os seus versos citados ratificam, num único conceito: a universalite. É de notar que «universalite» não é, na língua portuguesa, um «substantivo que exista»: trata-se, na verdade, de um termo forjado pelo heterónimo, possivelmente derivado do francês «universalité», que dá conta do que caracteriza a sua natureza e que é reconhecida pelo próprio sujeito. Revela, por isso, a lucidez de Campos, quando está em causa a consciência de si enquanto detentor de uma identidade. Mas esta identidade, que parece estar subentendida na assunção de um conceito caracterizador, não é, de todo, clara. E a obscuridade que a caracteriza anuncia-se imediatamente na impossibilidade de

compreender, mesmo que parcialmente, o seu significado, quando ela institui no ouvinte uma sensação de estranheza76. Ou seja, trata-se de um conceito novo, irreconhecível no

âmbito da linguagem, não porque o sujeito desconheça o significado do conceito, mas porque o conceito, até ao momento da sua fixação escrita, era inexistente. É a sua fixação pela escrita que lhe confere uma determinada «materialidade», uma presença que já não se anula, não obstante permaneça indecifrável. É, por conseguinte, o encontro com uma possibilidade que não se define por nenhum âmbito de execução, pragmático, mas também não se define, a priori, por nenhum âmbito «conceptual». Por outras palavras, revela uma completa opacidade em relação a si mesmo, mantém-se como algo estranho à familiaridade e automatismo que a linguagem institui. Todavia, o contexto em que se insere – e aquilo que anuncia, mesmo que de modo latente – não permite ao leitor um «encolher de ombros», um «virar costas» a algum sentido que se possa depreender do conceito, uma vez que ele é, à partida, definidor do poeta. Deste modo, se não é possível ignorar o conceito, mediante aquilo que imediatamente anuncia, importa esclarecer o seu sentido.

Os dois exemplos citados previamente são um bom ponto de partida. No primeiro, «universalite» está associada a um «desvio» da natureza, a uma «doença» que caracteriza Campos e Whitman. É de notar, inclusive, que o próprio sufixo «-ite» é comummente usado na terminologia das doenças (como otite, pancreatite, etc.), o que não parece despiciendo ou arbitrário, quando o que está em causa, como veremos, é precisamente a identificação de uma espécie de «doença» do poeta. No segundo poema, a menção da universalite está acompanhada de um pequeno elenco de características reveladoras – a ânsia vaga, a alegria, a dor indecifrável –, mas novamente ligada ao conceito de doença: «Syndroma da doença da Incongruencia Final». O conceito de doença ou de desvio torna- se, por isso, fundamental na compreensão da universalite. Por doença entenda-se, aqui, uma condição fora da «normalidade», um estado que carece dos parâmetros que definem o saudável. Naturalmente, definir o que é saudável ultrapassa esta investigação, não lhe é fundamental, e, de algum modo, não é passível de objectivação. O que importa salientar aqui é o facto de a noção de doença pressupor uma distância, um desvio dos outros sujeitos, i.e., uma condição peculiar no âmbito da natureza, quando rejeita os parâmetros definidores do sujeito «normal». Mas não é só isto que está em causa: a noção de doença

76 Poderíamos dizer que se trata, aqui, de um exemplo peculiar de incompreensão da linguagem, na medida

remete também para um «não se sentir bem» do sujeito, para um «ter consciência de alguma coisa fora do normal», e, até, para um «desejo de voltar ao normal». Porém, o que sucede no caso da doença do poeta é diferente: o poeta não tem, na sua natureza, um ponto de comparação, um «antes e um agora»: a sua «doença» não é uma condição que se instalou a posteriori, de tal modo que se assiste a uma mudança – do saudável para o doente –, mas trata-se de uma característica definidora – ela está, desde sempre, instituída na sua natureza, é parte intrínseca da mesma. No entanto, este facto não impede a consciência do poeta no que respeita à sua condição invulgar, uma vez que, embora não tenha, dentro da sua vida individual, experiências comparativas de outro estado que não o seu, tem, em todos os casos, a possibilidade de comparação com a imagem de outros sujeitos. A par disto, o poeta tem um instrumento ainda mais acutilante: a sua lucidez. Uma lucidez que se, por um lado, lhe revela como a vida é muito mais do que o ponto de vista natural pressupõe, por outro, o carácter desviante da sua própria visão da vida. O que significa ter uma visão da vida é uma das questões que abordaremos em breve. Importa, neste momento, aprofundar o conceito da universalite, recuperando, para isso, o segundo exemplo poético de Campos: «A minha universalite – | A ansia vaga, a alegria, absurda, a dôr indecifravel | Syndroma da doença da Incongruencia Final».

Várias características da universalite são assinaladas pelo poeta, de tal modo que parecem indicar diversidade ou revezamento: a ânsia, a alegria e a dor, disposições fundamentais de que se compõe a sua natureza. Porém, numa primeira instância, também parece instituir uma certa contradição ou desavença, quando o sujeito não se define por

uma característica que prevalece sobre as demais. A alegria e a dor, por exemplo, surgem como opostos, na medida em que não se pensa em nenhuma conjugação entre as duas - a alegria surpreende pela sua capacidade de tornar as coisas da vida alegre; a dor, por sua vez, surge como algo incómodo, assim como a ânsia. Porém, estas três disposições são não só imprescindíveis na compreensão da natureza do poeta, como remetem para algo mais profundo do que elas – a melancolia. Ou seja, a melancolia, enquanto disposição de fundo, assenta numa relação conflituosa do sujeito com a vida. E neste conflito há lugar para as três condições assinaladas. As odes de Campos revelaram a facilidade com que as disposições do poeta alternam, oscilando entre o desejo de posse da vida no seu todo, a alegria no encontro com os fenómenos enquanto possibilidades – o êxtase que provoca – , mas também a dor como resultado da consciência do absurdo da vida. Note-se que por dor não se entende aqui nenhuma sensação de ordem física: a dor a que se refere Campos

é a dor da vida ser como é, a dor de o sujeito ser como é, a dor da impossibilidade de mudança da relação entre os dois. A universalite é, nesta primeira apreciação superficial,

algo que corresponde a uma natureza complexa, em desavença, manifestada por uma espécie de contradição intrínseca, como veremos, mas também a uma determinada visão da vida. Há uma ligação fundamental entre a consciência do sujeito sobre si mesmo e o seu ponto de vista, uma vez que o último não se compõe apenas por manifestações conceptuais, i.e., por teses. A visão da vida que cada sujeito tem vai para além disso. É necessário, então, analisar o que significa ter uma visão da vida.

In document Klima i Norge 2100 (sider 14-17)