3. KLIMAET I TIDEN MED INSTRUMENTELLE MÅLINGER
3.4 Permafrost og skred
Toda esta investigação tem sido centrada na poesia de Álvaro de Campos, especialmente nas suas grandes odes, enquanto expressão de uma determinada visão da vida que denuncia uma determinada natureza do seu autor. A par de Campos, apontou-se também os aforismos dos Diapsalmata enquanto visão correspondente à primeira. Tendo em conta este enfoque, cumpre agora salientar que não está em causa a visão e a natureza
de Campos e, do mesmo modo, não está em causa a visão ou a natureza do autor dos
Diapsalmata, mas a visão e a natureza do Poeta. A maiusculização do substantivo é necessária aqui: não se trata do poeta-Campos, nem do poeta-A, i.e., do poeta-X. Trata- se, sim, da figura do Poeta, ou do Poeta-puro, de tal modo que a este pertencem todos os
poetas que a tradição literária canonizou (e todos aqueles que ficaram perdidos na teia do esquecimento literário). Tanto Álvaro de Campos (e Alberto Caeiro, Ricardo Reis, etc.), como o autor dos Diapsalmata são apenas exemplos do que é a natureza e a identidade do Poeta. O que conduziu à escolha de Campos e dos Diapsalmata foi o mesmo que conduziu à leitura preliminar da Ode Marítima no terceiro capítulo: ambos representam
um fio condutor que podia ser substituído por outros fios condutores (por outros poetas). Partindo de ideias analisadas previamente, podemos dizer que Campos e A são
totalidades parciais, e que a totalidade absoluta é o Poeta. O modo mais imediato de compreender a viabilidade desta transposição é analisar outros autores que recaem sob a mesma designação de «poetas». Porém, não é possível analisar todos os poetas de todas as épocas da tradição. O único modo de nos aproximarmos de um paralelismo válido é
escolher outros poetas. De entre a panóplia possível, opta-se, pela sua clareza teórica acerca da figura do poeta, por Keats e Hofmannsthal. Se Keats foi uma influência na obra de Pessoa, o mesmo não sucede com Hofmannsthal: não se conhece nenhuma referência que permita inferir qualquer contacto literário de Pessoa com os escritos do poeta alemão.
93 Lourenço salienta sobre Pessoa e a melancolia: «Ele próprio [Pessoa] se sonhou em traços régios como
um verdadeiro príncipe da Melancolia [...]. A sua melancolia é uma melancolia sem espectador, um sofrimento de rei detronado que da sua antiga realeza apenas conservou o poder de dizer numa palavra só, ou em milhares delas, que, no fundo de si mesmo, ama a obscuridade em que a alma se oferece, em exclusivo, os festins que nenhum rei jamais pôde imaginar.» (2004: 23).
Importa também referir que não se pretende fazer uma análise da poesia de Keats ou de Hofmannsthal: estes poetas servirão como meio de esclarecimento dos conceitos analisados anteriormente e os seus escritos em prosa são, para esse efeito, significativos. Trata-se, assim, de ter em consideração o que Keats indica na sua correspondência, de carácter biográfico, e o que Hofmannsthal salienta numa conferência intitulada O poeta
e o seu tempo (Der Dichter und diese Zeit).
Na sua conferência, Hofmannsthal propõe-se falar sobre a noção de poeta e a sua relação com o tempo (do autor). É isto que o título do seu texto sugere, mas o intuito de Hofmannsthal não se cinge, na verdade, à sua época: ele pretende mostrar como a noção de poeta é transversal à história, i.e., como o poeta está para além de qualquer corrente
ou movimento literário que a tradição literária fixou, de tal modo que o que está em causa é precisamente a ideia de que a caracterização do poeta é universal, não se restringe nem se define por fronteiras estéticas: «Suponho – aliás sei – que o poeta, ou, num sentido mais abrangente, a força poética existe nesta era, tal como existiu noutras.» (1979: 232). A força poética, como indica Hofmannsthal, «terá necessariamente de ser uma figura que emana algo de extraordinário, algo de incomparável a nível de audácia, de felicidade, de força de espírito e de entrega» (1979: 234), qualquer coisa que atravessa os tempos da humanidade e, enquanto tal, se torna universalizável, se mantém compreensível independentemente da sua época – ou para além da sua época. Uma das condições para este estatuto é o medium do poeta – a linguagem:
É graças à linguagem que o poeta rege, a partir de uma dimensão oculta, um mundo cujos membros o pretendem negar, que pretendem ter esquecido a sua existência. E, contudo, é ele que conduz os seus pensamentos – reunindo-os e destrinçando-os –, que controla a sua fantasia e a determina os seus passos; as suas arbitrariedades e os seus saltos grotescos dependendo das suas graças. (1979: 239- 240).
Mas o uso da linguagem não pode ser o elemento diferenciador, uma vez que, como vimos anteriormente, não só se trata de um instrumento intrínseco à constituição do homem, mas tudo passa pela linguagem, incluindo o não-poético. Não pode estar em causa, assim, a forma de que se reveste a comunicação do poeta, mas a tónica tem de ser
deslocada para o conteúdo ou, com mais precisão, para aquilo que o conteúdo fixa. O que está subjacente aqui está de modo muito claro expresso no que Hofmannsthal indica como «poético» (no sentido activo de se fazer algo poético): «fazer poesia significa vestir o mundo como se fosse um sobretudo e aquecer-se» (1979: 257). A analogia de Hofmannsthal (via Hebbel) é precisa: o manto que aquece o poeta é o mundo, pois todas as suas relações partem do mundo e dirigem-se igualmente para ele, de tal modo que falar do poeta é, em certo sentido, falar do mundo ou da vida. Hofmannsthal traz à luz várias considerações sobre o poeta, no que respeita à sua natureza, num longo trecho que é crucial citar:
Ele habita estranhamente na casa do tempo, debaixo da escada, onde todos têm de passar por ele, e ninguém lhe presta atenção [...]; estrangeiro, no entanto em casa; como um morto, como um fantasma, na boca de todos, soberano das suas lágrimas, envolvidas em amor e veneração; vivo, rejeitado pela última das criadas e mandado para junto dos cães; sem ofício naquela casa, sem tarefas, sem direitos, sem obrigações, senão de vadiar, de permanecer deitado, de pesar tudo isto dentro de si, sobre os pratos de uma balança invisível, de pesar tudo isto continuamente, dia e noite, e de sentir uma dor infinita, um prazer infinito, de possuir tudo isto como jamais um proprietário possui a sua casa.
Ele está aqui e ninguém tem de se ocupar da sua presença. Ele está aqui e silenciosamente muda de lugar e é nada mais do que olhos e ouvidos e assume a cor das coisas em que pousa. Ele é o espectador – ou melhor –, o companheiro escondido, o irmão silencioso de todas as coisas, e ele mudar a sua cor é um íntimo tormento; porque ele sofre com todas as coisas e, sofrendo, tem prazer. Este prazer na dor é tudo o que constitui a sua vida. Ele sofre por senti-las tanto, sofre tanto por cada uma como por todas juntas; sofre pela singularidade e sofre pela ligação; pelo que é elevado e pelo que não tem valor; pelo sublime e pelo vulgar; sofre pelas suas circunstâncias e pelos seus pensamentos; sofre pelo puro objecto mental, pelos espectros, pelas excrescências imateriais do tempo, como se fossem pessoas. Porque, para ele, as pessoas e as coisas são uma e a mesma coisa: ele conhece apenas aparências que lhe aparecem à frente, com as quais ele sofre e, sofrendo, tem prazer. Ele vê e sente, o seu modo de conhecer tem a marca do sentir, e o seu sentir tem a acuidade do conhecer. Ele não consegue deixar nada
de fora, não pode fechar os olhos a nenhum ser, a nenhuma coisa, a nenhum espectro, a nenhuma fantasia da mente humana. É como se os seus olhos não tivessem pálpebras. Ele não pode afastar nenhum pensamento que se impõe, como se pertencesse a outra ordem de coisas, pois todas as coisas têm de se encaixar na sua ordem das coisas. Nele, tudo tem de e quer reunir-se; ele é a pessoa que em si mesmo interliga os elementos do tempo. O presente existe ou nele ou em lugar nenhum. Mas os tecidos têm entrelaçados fios ainda mais finos e, ainda que nenhum olhar os distinga, o seu não os pode ignorar. Para ele, o Passado está entrelaçado no Presente de forma indescritível; nos poros do seu corpo ele sente a vida trazida de dias passados, a vida de antepassados longínquos e nunca conhecidos, de povos desaparecidos, de tempos remotos. (1979: 242-245)
Hofmannsthal reúne, nesta citação, um conjunto significativo das características definidoras do poeta, que vão ao encontro do que encontrámos em Campos: o poeta é um estrangeiro, um ostracizado na sua própria casa, que tem uma relação intensa com cada fenómeno da vida, de tal modo que lhe desperta simultaneamente a alegria e o sofrimento. Ele vê todas as coisas da vida, como se os seus olhos não tivessem pálpebras, i.e., estando em permanente alerta para a vida. O poeta é, assim, o «companheiro silencioso da vida», um fenómeno no meio de outros, que vê e sente o mundo em que se encontra. E estas condições – ver e sentir –, transversais a todos os sujeitos, ganham, no poeta, um lugar de destaque, porque ele vê tudo o que está à sua disposição, e não apenas fenómenos determinados que sobressaem: o mais insignificante é tão significativo como o mais sublime, e tudo está entrelaçado. Esta forma de se relacionar com a vida, como vimos, deriva de uma condição muito particular: o «ser-para-mim» que subjaz à condução do sujeito na vida não está ausente do poeta – o mundo é, em qualquer caso, um ser-para- ele, mas de tal modo que não é propriamente assim, i.e., não está mediado por tarefas, acções, objectivos, etc. Pelo contrário, este ser-para-mim da relação entre o poeta e o mundo está imbuído de um carácter de passividade, que contrasta com a actividade dos demais sujeitos, e que conduz, por isso, à distância e ao isolamento. Por isso, o poeta é uma espécie de espectador que vê os actores da vida representarem vários papéis. Ele também representa necessariamente um papel, mas é um papel insignificante no palco da vida e, todavia, essencial, quando chama a atenção dos outros para a totalidade da peça.
Hofmannsthal acentua a dualidade do poeta, mas também a sua função fundamental no tecido da vida:
Eles [os poetas] estão cá e focados numa coisa do mundo: sofrendo, ter prazer na infinitude dos fenómenos e desse prazer sofrido criar a visão; criarem em cada segundo, em cada batimento do coração, debaixo de uma pressão forte como se o oceano pesasse por cima deles, criarem sem serem iluminados por nenhuma luz, nem sequer por uma lâmpada de mineiro; criarem a partir de nenhum outro impulso senão aquele essencial à sua própria existência; criarem a ligação de tudo o que é vivido, o acordo de tudo o que se manifesta; criarem como as formigas que reconstroem a obra destruída, criarem como a aranha que segrega do próprio corpo o fio que a segura sobre o abismo da existência. (1979: 251-252)
O poeta tem, por conseguinte, uma função na vida: a de criar. Mas não se trata de uma função secundária ou substituível, pois a criação do poeta é única: representa a
própria vida. Uma criação que surge como um impulso proveniente do próprio fenómeno de existir, e não de circunstâncias específicas e mutáveis. O poema é uma imagem da vida. É uma imagem e, por conseguinte, diferente da vida em si mesma, mas, não obstante a limitação imposta pela linguagem enquanto meio de comunicação, uma determinada
fixação da vida. Neste sentido, o poeta é, também, uma espécie de sentinela da vida, que chama a atenção dos homens «adormecidos» para aquilo que lhes escapa no seu estado. O poeta é, então, o «guardião» da própria vida tal como ela se revela, em todas as suas circunstâncias, com todas as suas possibilidades, com todos e cada um dos seus constituintes. Assim, não se trata apenas de o poeta se definir por uma aguda percepção da vida e o modo como se instala nela, mas de essas condições serem imprescindíveis para o papel mais lato que desempenha e que, se lhe causa sofrimento, também lhe oferece um lugar crucial na e para a própria existência. Não está aqui em causa a celebridade que a humanidade lhe possa conferir: esse facto é insignificante, uma vez que o poeta está para além de um tempo determinado ou de uma época. Na verdade, basta pensarmos que a maior parte dos poetas só tem reconhecimento fora do seu próprio tempo, o que ratifica a sua universalidade. Um poeta medieval, um poeta renascentista, um poeta iluminista, etc., não são esquecidos em épocas posteriores, nem são simplesmente relegados para a
época a que pertenceram enquanto homens. A poesia não tem fronteiras temporais, fixa a própria vida e, enquanto tal, não pertence propriamente a um criador, mas ultrapassa- o e constitui-se como autónoma. Isto sucede porque o poema não é apenas uma criação
humana, mas o espelho da própria vida. Se o poema é o espelho da vida, isso não invalida o facto de ser também a expressão de um ponto de vista – a do seu autor (ficcional ou real). E não invalida porque o ponto de vista do poeta é, para todos os efeitos, a constatação da vida na sua totalidade. O poeta é, assim, a própria vida, quando se distingue por uma identidade vazia, como um receptor da vida.
Estas características podem ser igualmente deduzidas da correspondência de John Keats, cuja morte precoce não impediu, porque não podia impedir, a clareza sobre si mesmo. Na correspondência que Keats trocou com vários familiares, amigos e conhecidos, destacam-se sete cartas: em 1817, a Benjamin Bailey, de 22 de Novembro; em 1818: a John Hamilton Reynolds, de 3 de Fevereiro; a John Taylor, de 27 de Fevereiro; a James August Hessey, de 9 de Outubro; a George e Georgiana Keats, de 25 de Outubro; e a Richard Woodhouse, de 27 de Outubro; e, em 1819, a George e Georgiana Keats, de 20 de Setembro. Estas cartas incluem passagens que oferecem ao leitor uma visão significativa do que Keats julgava ser o poeta (ele próprio) e a poesia, corroborando o que tem sido analisado até agora.
O papel fundamental da Sensação é um dos elementos acentuados nas cartas de Keats, geralmente ligada à imaginação como instrumento fundamental na natureza do poeta e na criação da poesia. Na sua carta a Bailey, de 22 de Novembro de 1817, Keats distingue entre o homem-poeta, em que predomina a imaginação e a sensação, e o homem-filósofo, em que predomina a razão, enquanto instrumentos que estabelecem determinada forma de relacionamento com a verdade e a beleza.
I am certain of nothing but of the holiness of the Heart’s affections, and the truth of Imagination. What the Imagination seizes as Beauty must be truth – whether it existed before or not, – for I have the same idea of all our passions as of Love: they are all, in their sublime, creative of essential Beauty [...]. I am more zealous in this affair, because I have never yet been able to perceive how anything can be known for truth by consecutive reasoning – and yet it must be. Can it be that even the greatest Philosopher ever arrived at his Goal without putting aside numerous
objections? However it may be, O for a life of Sensations rather than of Thoughts! [...] we shall enjoy ourselves hereafter by having what we called happiness on Earth repeated in a finer tone—And yet such a fate can only befall those who delight in Sensation, rather than hunger as you do after Truth. (1891: 41-42). Keats é explícito na sua relação com a sensação, não só como meio de contacto com o mundo, mas também como instrumento de apreensão da beleza e da verdade. É através das disposições que o sujeito contacta com os fenómenos (com determinado rosto), sem que a reflexão tenha um papel crucial, uma vez que não põe em dúvida o que é visto e aceite como verdadeiro – a impressão do mundo. Mas se, no caso do sujeito comum, as coisas vistas surgem como verdadeiras por desatenção, no caso do poeta, é o oposto que sucede, como vimos: ele olha para as coisas com atenção, olha realmente para elas, e não somente como ambiente ou meios de execução. Assim, a aguçada lucidez do poeta também lhe revela como o instrumento fundamental da percepção e do contacto com o mundo é a sensação, como Keats também salienta numa carta a James August Hessey, de 9 de Outubro de 1818: «The Genius of Poetry must work out its own salvation in a man: It cannot be matured by law and precept, but by sensation and watchfulness in itself» (1891: 167-168). Mas esta atenção às coisas do mundo não se reveste, como mencionámos, de um carácter pragmático: são os fenómenos do mundo que chamam a atenção do poeta, em si mesmos, de tal modo que à sua visão não escapa a diversidade do mundo, a sua constituição complexa, o que o leva a ver a totalidade da vida. A poesia surge, por conseguinte, como a expressão desta vida, chamando a atenção para essa diversidade, como Keats acentua numa carta a John Hamilton Reynolds, de 3 de Fevereiro de 1818:
Poetry should be great and unobtrusive, a thing which enters into one’s soul, and does not startle it or amaze it with itself—but with its subject. How beautiful are the retired flowers! —how would they lose their beauty were they to throng into the highway, crying out, ‘Admire me, I am a violet! Dote upon me, I am a primrose!’ (1891: 68)