3. KLIMAET I TIDEN MED INSTRUMENTELLE MÅLINGER
3.2. Atmosfærisk klima
3.2.1 Lufttemperatur og avledede variable
Ela canta, pobre ceifeira, Julgando se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia De alegre e anonyma viuvez, Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar,
autor, mas a uma possibilidade da vida. Podemos, de algum modo, dizer que a visão da vida do poeta corresponde a uma espécie de tábua rasa que admite todas as demais visões da vida, constituindo-se como
E ha curvas no enredo suave Do som que ella tem a cantar. Ouvil-a alegra e entristece, Na sua voz ha o campo e a lida, E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida. Ah, canta, canta, sem razão! O que em mim sente stá pensado. Derrama em meu coração
A tua incerta voz ondeando! Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciencia, E a consciencia d’isso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A sciencia Pesa tanto e a vida é tam breve! Entrae por mim dentro! Tornae Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passae! (Pessoa, 1924-1925: 88)
Este poema – atribuído ao ortónimo – é um exemplo claro do que se pretende agora analisar: o fascínio que o poeta sente pela inconsciência. A ceifeira de Pessoa representa o mesmo que o Esteves da Tabacaria de Campos, i.e., o sujeito inconsciente ou, com mais precisão, o sujeito comum cujo grau de consciência é menor do que o do poeta, no que respeita ao seu modo de relação com a vida. Representa, por isso, o oposto do poeta, cuja lucidez lhe impede de viver com naturalidade ou familiaridade o que o mundo lhe põe à disposição. Mas, como o poema evidencia, o desejo de inconsciência do poeta está simultaneamente revestido do desejo de manter a sua consciência. Assim, o que está em causa é, por um lado, a noção de que a sua lucidez impede um estar naturalmente na vida, de tal forma que está à distância dela e, por isso, surge o desejo de
não ser assim, de poder diminuir o seu grau de lucidez ao ponto de esta não se tornar impeditiva – o que significaria uma aproximação do ponto de vista natural – e, por outro, a noção de que a sua lucidez lhe revela a vida sem ilusões, de modo que a sua percepção é tida como mais adequada e, neste sentido, não deseja abdicar da sua posição privilegiada. Tendo em conta estes vectores, o poeta não deseja uma troca, mas uma conjugação entre as duas condições, o que resulta no mencionado desejo de ser inconsciente na sua aguçada consciência – uma espécie de capacidade de viver a vida (e não estar à distância) sabendo o que ela é (estando atenta a ela, sendo lúcido, etc.). Viver a vida exige, por conseguinte, uma certa inconsciência que permita uma instalação natural no mundo, e esta inconsciência torna-se, por isso, uma fonte de fascínio para o poeta que, dada a sua condição melancólica – e o que esta pressupõe – está «excluído» da vida82.
O fascínio pela inconsciência prende-se, por conseguinte, com a contradição que a natureza do poeta constantemente vincula e com uma aguda lucidez que corrobora essa contradição. A noção de que a vida não tem nenhum sentido, de que os seus fenómenos estão todos inevitavelmente sujeitos ao perecimento, de que nada permanece intacto, em suma, de que a vida carrega em si a sua própria aniquilação, conduz o poeta a manifestar o desejo de que a vida fosse de outro modo, de que a sua visão fosse outra, de que ele, enquanto sujeito, fosse diferente do que é. Isto é, o poeta está ciente de que não pode
mudar nada nem a si mesmo. A imutabilidade da sua situação causa, como vimos nas odes de Campos, o desespero. Por outras palavras, o poeta sente pena por a vida ser como é e por ter consciência de a vida ser exactamente assim. Sente pena, por isso, de não poder, de alguma forma, conduzir-se como toda a gente o faz: vivendo de modo sonâmbulo. A grande distância que separa a vivência do homem e a do poeta leva, então, a que o último sinta fascínio por aquilo que o primeiro representa: a inconsciência ou, por extensão, a inocência. A percepção da imobilidade também está claramente expressa nos
Diapsalmata, quando A afirma: «Sinto-me tal e qual como uma peça no jogo de xadrez, quando o adversário diz acerca dela: essa peça não pode ser movida»83 (2011: 14). O
82
Outro exemplo claro do desejo do poeta pela naturalidade do sujeito na vida encontra-se em D. H. Lawrence, no seu poema Pax: «All that matters is to be at one with the living God, | to be a creature in the house of the God of Life. || Like a cat asleep on a chair, | at peace, in peace | and at one with the master of the house, with the mistress, | at home, at home in the house of the living, | sleeping on the hearth, and yawning before the fire. || Sleeping on the hearth of the living world, | yawning at home before the fire of life, | feeling the presence of the living God, | like a great reassurance, | a deep calm in the heart, | a presence | as of the master sitting at the board | in his own and greater being, | in the house of life.» (1987: 587)
83 Sobre a imobilidade do poeta e o que isso significa na sua relação com a temporalidade, David Kangas
afirma: «At stake in the diapsalmata, then, will be something like the transcendental conditions for any to inaugurate a temporality, a ‘before’ and ‘after’. Choice
poeta é, por conseguinte, uma peça que não pode ser movida em nenhum momento da sua vida: a sua instalação na vida é, dadas as características que temos analisado, de ordem essencialmente contemplativa. A consciência de cada fenómeno enquanto tal, a paixão por cada elemento da vida, a noção de que a vida é feita de contradições e de que tudo está sujeito ao desaparecimento, impedem o poeta de viver de acordo com os parâmetros «normais», o que, em última instância, significa que o poeta está «parado» perante a
corrente da vida.
A imobilidade do poeta não significa, porém, que ele não execute tarefas, faça escolhas, conduza-se no quotidiano, etc, mas que cada execução da sua vida (tarefa,
escolha, acção, etc.) não anula a consciência de que tudo o que faz ou possa fazer é vão, uma vez que a vida carece de sentido. O sujeito comum vive o seu quotidiano de forma «adormecida», de tal modo que não põe em causa que a sua acção seja pertinente: é precisamente a crença de que tem a capacidade de mudar as coisas, de determinar a sua vida, de fazer escolhas significativas para si, que regula a sua condução diária. No caso do poeta, sucede o oposto: cada movimento seu é feito com a lucidez de que não pode, em nenhuma circunstância, contrariar ou anular o «Não» inerente à vida: a deterioração, o vazio a que tudo está condenado, etc. Por isso, nenhuma acção do poeta tem significado
para ele, uma vez que é apenas uma ilusão de controlo. Assim, a visão do poeta é considerada pelo próprio como mais adequada, de modo que está pressuposta uma
pretensão de verdade. Assim, o poeta admite a variedade de pontos de vista, mas esta variedade não implica que não considere o seu ponto de vista como o correcto: os demais pontos de vista são compreendidos como deficiências de acuidade. Mas isto não significa que o poeta não sinta, em qualquer instância, a atracção dessas visões da vida. Na verdade, somente uma visão da vida diferente da sua permite ao sujeito viver normalmente. Ou seja, não obstante a consciência de que outros pontos de vista são menos lúcidos, o poeta sente fascínio pela inocência. E a inocência expressa-se de vários modos, nomeadamente através da inconsciência: o ponto de vista natural é, assim, um exemplo da inconsciência do sujeito perante a vida. Nessa medida, o poeta sente o fascínio pelo
sonambulismo do ponto de vista comum. Um fascínio que só pode ter lugar pela distância
shapes the meaning of the past by casting it in light of a future possibility. The present emerges as time lived in light of choice, vis-à-vis a future expectation and in separation from a past state of affairs. This relationship between choice and the inauguration of a temporality leads A to formulate his own aesthetic solution to the double bind of regret in terms of a suspended, or sublated, temporality [...]. Radically suspending decision, A seeks to live a temporality without any inceptual instant, without the cut or discontinuity choice brings, without before or after. He exists in a suspended time, a quasi-eternity, or an eternity prior to any temporality.» (2007: 44)
que separa o poeta dos outros homens: a consciência de que está perante um ponto de
vista, que não corresponde ao seu, mas que é considerado precisamente assim – um ponto de vista. Trata-se, portanto, de uma espécie de «objectivação» do poeta: o olhar o fenómeno como fenómeno implica, neste caso, olhar o ponto de vista como ponto de vista, a instalação na vida como tal. O facto de que o sujeito não considera a sua visão da vida como uma de entre outras, de modo que a cada uma corresponde uma forma válida
de instalação na vida, impede a «objectivação» que caracteriza o poeta.
O fascínio pela inconsciência é, então, uma das características do estado melancólico e, por extensão, da natureza do poeta. Mas a inconsciência não se verifica apenas no ponto de vista natural – que não se tem como inconsciente –, mas está fortemente marcada numa determinada época da vida: a infância.