3. Teorifundament
3.5 Reguleringsprosessen
Como já se tentou explicitar no primeiro capítulo, a Bolívia (à semelhança do continente americano) é multiétnica e multicultural. Por muito tempo, as culturas nativas permaneceram restritas a uma rígida estratificação étnico-social, sendo sinônimo da condição de camponês de pertença a uma etnia nativa ou a uma das culturas originárias e, sobretudo, subalternas na escala socioeconômica.
As novas relações político-sociais, surgidas da revolução de 1952, que pela força das armas e pela lei, aboliu o sistema de fazendas e a servidão dos povos indígenas, tipificando
os nativos como cidadãos camponeses livres da republica. Essa nova liberdade implicava também na liberdade de viajar livremente e de mudar-se. Evidencia-se, como consequência, o incremento do êxodo rural. Esse processo reconfigurou o perfil demográfico do país.
BOLÍVIA: DISTRIBUIÇÃO E EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO URBANA E RURAL, SEGUNDO OS CENSOS DE 1950, 1976, 1992 E 2001
FONTE: INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA Censo Nacional de Población y Vivienda 2001.
BOLIVIA: Distribución de la Población p. 5
O gráfico acima sintetiza os dados dos seis últimos censos nacionais. Mostrando que, em 1950, a população rural representava 73,8% da população total da Bolívia. No ano de 2001, a população rural havia diminuído para 37,57%. Evidenciando que o ponto em que muda ostensivamente a configuração populacional apresenta-se entre 1984 e 1985.
A nova demografia (urbana) abre os questionamentos da identidade cultural e étnica do país, gerando um tecido com implicações políticas, sociais e econômicas cujo ponto de cisão paradigmático é a ascensão de Evo Morales à Presidência da República. Dessas novas realidades se ocupam os especialistas das ciências humanas e econômicas. Também os teólogos investem grandes esforços em explorá-las.
Perante estas mudanças do perfil demográfico da Bolívia, o perfil demográfico da IEMB, em 2007202, se mantinha com a mesma tendência dos anos 60, tendo 75% de suas Igrejas nas áreas rurais andinas, e a minoria de suas congregações (25%) nos centros urbanos mais povoados.
202 Existe dificuldade de acesso a dados estatísticos confiáveis, pelo uso político circunstancial que se fazem
destes. A IEMB tentou redefinir seus cânones em 2010. Para tanto, previamente, em 2007, encomendou um diagnóstico do perfil da IEMB à ONG ‘Misión Alianza de Noruega’.
PERFIL URBANO – RURAL No. Distrito N° de Igrejas Avançadas (Ponto Missionário) N° de Igrejas com perfil: Urbano Rural 1 Norte A 14 14 2 Central (Cbba.) 7 5 5 3 Lago 22 22 4 Yungas 13 13 5 Oriente 19 7 12 6 Altiplano Central 13 1 12 7 Puna Central 13 13 8 Kollasuyo 20 20 9 Norte B 14 2 14 10 Kollasuyo Norte 17 1 17 11 El Alto- La Paz 17 2 17 12 Timusi 10 10 13 Coordillera Warista 9 9 14 Sur (Potosí) 9 5 4 TOTAL 197 10 49 148 REPRESENTADO EM % 100 25 75
FONTE: Documento de la organización “Desarrollo de la Misión Alianza de Noruega en Bolivia”. (17 de dezembro de 2007) para a IEMB, p.14
Como já for afirmado no primeiro capitulo, esta constatação é, no mínimo, curiosa se não contraditória, referindo-se a uma igreja que se autoproclama inculturada e a serviço do povo boliviano, e que opta pelo serviço dos mais pobres que, nas declarações do site oficial o bispo da IEMB, declara:
[…] Frente a una estructura jerárquica y vertical hasta la década de los setenta, se ha constituido una nueva estructura organizacional y funcional con la intervención del movimiento aymara, una estructura que responda a una Misión más comprometida con las mayorías de la Iglesia y el País. Pues, esta estructura necesita nuevamente reestructurar para una nueva estructura organizacional después de los 100 años, de esta
manera responder mejor en estos tiempos de cambio y momento indígena de los pueblos originarios, y de otros pueblos para el futuro del suma qamaña del Jaqi en la Pacha203. Essa nova realidade urbana se constitui em um desafio para a missão e a visão da IEMB, forçando-a a rever suas políticas e estratégias institucionais e de evangelização. A IEMB, até agora, oficialmente, não fala dessa realidade, pois, consciente ou inconscientemente, ainda é refém da compreensão de que a Bolívia, por ser um país onde a maioria de sua população ainda tem origem nativa originária, é um país rural.
Uma consequência do êxodo rural é a saída de muitos membros de congregações rurais para os centros urbanos; destes, oficialmente, não se pode saber se mantêm sua filiação a Igrejas Metodistas nas cidades para onde migraram. Particularmente, no caso das cidades de Cochabamba e Santa Cruz, a incidência de migrantes que solicitam sua inclusão ao rol de membros é insignificante. Pode-se supor que esses crentes se “perderam”, enquanto adeptos da IEMB. Essas afirmações não têm apoio documental por dificuldades burocráticas e políticas internas.
Porém a IEMB formalmente declara em suas considerações e preâmbulo do seu estatuto e manual de regulamentos:
Que, el Espíritu Santo nos ha convocado a proclamar y testificar la obra redentora de Jesucristo, mediante la vida y la misión de nuestra iglesia en medio de los acontecimientos históricos del pueblo boliviano.
E nos primeiros artigos de seu estatuto onde define sua natureza e razão de ser Igreja Naturaleza de la iglesia
Art. 3º La Iglesia Evangélica Metodista en Bolivia se constituye bajo la autoridad de las Sagradas Escrituras y recibe los credos ecuménicos como expresión histórica de la fe cristiana universal. Asimismo, reconoce como su herencia espiritual particular a la tradición wesleyana, expresada en “Los Artículos de la Religión” “Artículos de Fe” del metodismo histórico, los sermones de Juan Wesley y sus notas sobre el Nuevo Testamento.
Art. 4º La Iglesia Evangélica Metodista en Bolivia, como parte de la iglesia universal, tiene como propósito fundamental proclamar y dar testimonio de Jesucristo, participando en su obra bajo la dirección del Espíritu Santo.
Art. 5º La iglesia Evangélica Metodista en Bolivia es una comunidad de fe, convocada por Dios en Jesucristo, de carácter multiétnica, pluricultural y plurilingüe.
Art. 6º La Iglesia Evangélica Metodista en Bolivia es una institución religiosa sin fines de lucro. Como expresión de solidaridad con el pueblo boliviano, sostiene instituciones y programas de servicio en el campo de la salud, la educación, el desarrollo rural y otros,
203 Apresentação da IEMB no site oficial da Igreja <http://www.iemb.cc/01vision03.htm> acessado em 17
maio 2011. Suma qamaña del Jaqi en la Pacha.:expressão de língua aymara que pode se traduzir como “o bom viver harmônico do homem (humanidade) na terra-cosmos”.
varios de ellos de acuerdo a convenios con el estado nacional y exentos de obligaciones tributarias.
Art. 12º La iglesia, como señal del Reino de Dios y como parte de la sociedad, se identifica preferencialmente por los pobres y marginados en su búsqueda de un mundo más justo,solidario y comunitario. Participa en movimientos que promueven la plena realización humana en su dimensión histórica, social y personal, así como en toda actividad destinada a la preservación de la creación de Dios204.
O Art.12 orienta a assinalar o Reino de Deus na sociedade com ações “que promovam a plena realização humana em sua dimensão histórica, social e pessoal”. No espírito desse artigo, a nova realidade demográfica do país obriga a IEMB a promover ou procurar uma releitura da nova realidade sociocultural, para reorientar ou orientar as práticas e estratégias de desenvolvimento da igreja.
A Igreja Metodista, inicialmente, estabeleceu-se nas cidades com algumas congregações entre a classe média urbana. Na década de 60, houve uma grande expansão de igrejas na área rural aymara ao redor do lago Titicaca, enquanto, na área urbana, não cresceu nas mesmas proporções. Nesse momento, a IEMB correspondia à realidade demográfica e sociocultural da nação. Porém, desde fins do século passado, a Igreja não acompanha a realidade demográfica nacional. Isso pode acarretar uma perda de relevância da Igreja para o contexto político-social de uma Bolívia urbana. O discurso da Igreja pode tornar-se descontextualizado, inócuo e desinteressante.
Assim, ocupar-se da missão urbana não é somente ocupar-se com uma categoria ou classe social e, sim, ocupar-se da cidade como um todo, pois a urbanidade afeta e condiciona a todas as categorias ou classes sociais.
Essa é a razão pela qual, neste trabalho, não falamos de uma categoria ou classe social em particular e sim de uma urbanidade como cultura, ou sistema, ou redes de vasos comunicantes que se retroalimentam, ainda que as vítimas mais diretas da urbanidade sejam os camponeses-índios pobres que migram aos centros urbanos, somando-se à massa do povo marginalizado que é obrigado a organizar suas vidas nas periferias urbanas.
Outra característica já mencionada é o equilíbrio de poder; este define o agir da IEMB no exercício da administração (burocrática institucional) e as políticas institucionais como a concretização das iniciativas pastorais e a natureza do equilíbrio de força das instâncias decisórias na área nacional, expressa na Assembleia Nacional da IEMB.
Na IEMB, a crise provocada pelo ‘movimento leigo’ reivindicava, perante a figura episcopal, informação e participação da maioria nas diversas instâncias de planejamento,
204 Estatuto General y Manual de Reglamentos de la IEMB. 1995. p. 18, 19. Disponível em: <http://iemb.cc/ Docs/Estatuto%20General%20y%20Manual.pdf>
execução e gestão administrativa da que considera sua Igreja (por serem as iniciativas das lideranças leigas as que apoiavam a vida das congregações locais pela escassez de pastores ordenados, já que a maioria dos pastores ordenados da classe média e, porém, hispano- falantes, estava ocupada com a administração centralizada pelo episcopado).
Esses anelos logo seriam radicalizados pelo ‘movimento aymará’, articulado e protagonizado pelas lideranças leigas e clérigas de origem camponesa aymara, que forçaram a reelaboração da estrutura do sistema de governo episcopal, limitando ao carisma episcopal a representação e execução das decisões da ‘Assembleia Geral da IEMB’, sendo que toda iniciativa deveria surgir ou ser submetida ao conhecimento e juízo ‘das bases da Igreja’ local (no mais puro espírito sindical). Desta maneira, o episcopado foi despido das prerrogativas anteriores, liberdades, iniciativa e poder discricionário na gestão da Igreja. Pois a vontade das maiorias da Igreja era manifesta na votação do plenário da assembleia geral (um membro da assembleia para cada 25 membros da base local)205.
Simultaneamente, o carisma e o status dos pastores ordenados foram fragilizados. Como consequência, desde a década de 70 do século passado, o número de postulantes ao ministério pastoral ordenado foi reduzido, sendo, assim, insuficiente o quadro pastoral para dotar a cada congregação com o ministério de um pastor. Por consequência, aumentou a importância dos gestores da administração burocrática nas obras do serviço educativo.
Dessa forma, atualmente, um pastor (presbítero ordenado) será responsável por um circuito de igrejas (constituído pelas igrejas geograficamente mais próximas, geralmente 3 a 5), prejudicando seu ministério em decorrência de seu desempenho (logo questionado).
Esse fenômeno tem moldado algumas vivências eclesiais, assim, em algumas áreas rurais aimarás, só se celebrara a comunhão uma vez por ano, em ocasião do ‘jute’, que são retiros espirituais onde as igrejas de um circuito ou distrito se reúnem para as celebrações da Páscoa.
Da hegemonia do voto majoritário, surgiram as prioridades para a gestão da IEMB, significando, assim, que a hegemonia está nas mãos dos setores que articulam a maioria aymará. Essa gestão de poder é completamente compatível com as particularidades sociais aymaras, já que as lideranças comunitárias, os jilacatas (caciques), exercem seu papel de forma circunstancial e rotativa, sendo a função dos líderes da comunidade presidir e representar a comunidade nos atos litúrgicos, tanto da religiosidade popular católica como do ritualismo ancestral andino. Eunice Nina, em sua dissertação de mestrado, já tratou a
respeito dessas práticas e suas implicações administrativas estruturais para o interior da IEMB206.
A partir de tudo o que foi dito, pode-se entender que a IEMB não atenta para o desafio da cidade porque os setores que articulam o poder não podem perder suas bases rurais ao fortalecer e diversificar a presença de comunidades locais nas áreas urbanas susceptíveis a pluralidade e heterogeneidade características aos centros urbanos.